PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

SUICÍDIO : TEORIAS DOS MODELOS COGNITIVOS

"Uma ideia importante sobre o ato suicida, segundo a terapia psicológica, é a incapacidade de resolver problemas" 


Os modelos cognitivos sobre o suicídio se detêm aos aspectos ambiental e aos acontecimentos que contribuem para o ato. Na teoria cognitiva clássica, tem-se a contribuição de Aaron Beck, que coloca os termos numa tríade cognitiva, de esquemas e distorções.

No aspecto cognitivo, é registrado o fenômeno da negatividade, que envolve uma visão negativa sobre o futuro, sobre si mesmo, e uma visão pessimista sobre o mundo, uma combinação que pode levar a uma situação de ideação suicida e, geralmente, estas três visões são fruto de uma mesma tendência, que pode ser colocada como a negatividade em si.

No aspecto de esquemas, há uma condição em que existem comportamentos de certa forma estáveis, que reúnem noções sobre si próprio, sobre os outros e ao meio em que a pessoa vive. Por sua vez, as distorções envolvem erros de interpretação, uma visão que decorre de sensações catastróficas, dicotômicas, ou ainda uma inferência arbitrária.

Na década de 1970, época em que se desenvolveu a Escola de Beck, foram utilizados instrumentos psicométricos que produziriam as Escalas de Desesperança e de Intenção Suicida, o que é bem curioso, ao fazer uma escala métrica de sentimentos subjetivos, isto é, colocar em termos objetivos as condições subjetivas da ideação suicida.

A ideia de rigidez cognitiva aparece então ligada à incapacidade do suicida de encontrar alternativas para a resolução de seus problemas, e têm noções como a de Roy Baumeister, que coloca o suicídio como escape de uma dor psicológica intensa. A fuga vem da tentativa de sair de afetos negativos, e que Roy define como desconstrução cognitiva.

No fenômeno do que se chama borderline, por sua vez, há a desregulação emocional, por exemplo, na sua definição, a terapia comportamental dialética, que vem da proposta de Marsha Linehan.

Nesta abordagem do borderline, esta terapia de Linehan tenta trabalhar os aspectos dialéticos da mente, em que se pode conhecer os déficits nas aptidões para a resolução de problemas, e uma falta de validação da esperança como fonte de mudanças. E a ideação suicida, neste contexto, tem fatores ambientais e comportamentais, pois nos fatores ambientais, são observados os modelos suicidas e nos fatores comportamentais, os aspectos afetivos e cognitivos.

Na teoria dos modos, que foi desenvolvida primeiro por Beck em 1996, e depois estendida por Michael Rudd, que é a teoria dos modos suicidas, estes que são unidades de estruturas cognitivas que se contêm os esquemas. Tais esquemas são suborganizações que tentam elencar a personalidade, e nesta se encontram aspectos cognitivos, afetivos, e também as motivações. Nestes esquemas temos convicções, crenças, que estão ligados à memórias, experiências de vida, condutas e a tão repetida capacidade para resolver problemas.

Thomas Joiner, em sua teoria interpessoal-psicológica, coloca o desejo de morrer numa perspectiva que envolve sentimento de não pertencimento, que seria um deslocamento do sujeito em relação a seu ambiente, e também a noção de o sujeito se sentir um fardo dentro da família, passando também por uma ausência de medo da morte. O suicida pode estar em isolamento social, num estado de desconexão e alienação social.

Outras concepções também passam por relações de estresse em que o suicida se encontra sem saída, numa espécie de ratoeira em que se mistura a desesperança e, mais uma vez, a incapacidade de resolver problemas. Há também o suicida que não consegue mais evocar razões para continuar vivendo, e que pode estar ligadas a traumas de infância ou de adolescência.

Por fim, uma ideia importante sobre o fenômeno suicida, nos modelos cognitivos da terapia psicológica, é a da incapacidade de resolver seus problemas, uma ausência de recursos que o coloca numa situação de vulnerabilidade em que fica sem saída e sem alternativa, numa espécie de circuito fechado delineado por sua incapacidade de discernir uma saída para a sua situação.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-teorias-dos-modelos-cognitivos-de-suicidio


domingo, 4 de outubro de 2020

DESCARTES E A MACONHA – PARTE II

“o autor narra a figura de um filósofo errante e ligado a figuras políticas”

A primeira partida de Descartes para a Holanda foi em 1618, e foi para se iniciar nas artes militares. A Holanda, na época, tinha as melhores academias militares do mundo, em Breda, por exemplo, se destacava a figura de Maurício de Nassau. Descartes, depois de alguns meses, partiu para a Guerra de Trinta Anos na Alemanha. Ele volta depois para Paris em 1622, mas logo volta para a Holanda, depois de uma misteriosa viagem para a Itália.

Descartes via a Holanda como o lugar das novas técnicas e dos novos saberes, onde ficavam as universidades mais avançadas, foi para Leiden, que era uma espécie de Stanford ou Harvard. Depois, Descartes teve um percurso errático, passando por Franeker, Amsterdã, Deventer, Amsterdã de novo, Utrecht, Leiden, Santpoort, Egmond aan den Hoef, Harderwijk, Endegeest, perto de Leiden, Egmond Binnen.

Para Tobie, não tinha outra, Descartes era um nômade porque era um traficante, e se mudava de endereço para despistar. Descartes procurava a tranquilidade, e, em 1628, se tornou célebre em toda a Europa, Paris já percebera que se tratava de um gênio.

Como está no livro de Pagès : “O boato se espalhou por toda a Europa intelectual, que não era tão grande assim. Um homem de apenas trinta anos havia encontrado um método revolucionário, a chave de um tesouro, um saber novo. Muito antes que ele se dignasse a pegar uma pluma, sem ter escrito uma só linha, já era disputado. Daí sua partida para a Holanda, para longe “dos importunadores e dos curiosos”.”

Contudo, esta tranquilidade poderia ser um mito, pois a Holanda cheirava a pólvora nesta época, numa tensão entre católicos e protestantes que só aumentava, em correntes protestante vindas do calvinismo, com uma Holanda bicéfala, governada por um “stathouder” e um grande pensionista. E foi aí que o “stathouder” Oldenbarnevelt foi decapitado por seu rival Maurício de Nassau, e, em 1628, quando Descartes chegou, a guerra contra a Espanha havia recomeçado.

Uma curiosa vida tranquila, no mesmo país que, trinta anos depois, um filósofo que também buscava a tranquilidade, de nome Spinoza, escolheria uma pousada fixa. Descartes, contudo, não era um eremita, travou contato com os chefes protestantes.

Pagès nos descreve : “Através de sua correspondência com a princesa Elizabete, ele estava em contato com a corte – exilada – de Frederico, o eleitor palatino, efêmero rei da Boêmia. Quando a rainha Cristina da Suécia reavivou a chama huguenote, encontrava-se na sua corte um certo Descartes ... Uma coisa é certa, o “Seigneur du Peron” se interessou muito pela política do seu tempo.”

Pagès segue a sua narrativa : “Quando cheguei no segundo dia à casa de Descartes, não sobrava mais nada do argumento da “tranquilidade” geralmente admitido pelos comentadores. Em 1618 e 1628, o que Descartes procurava e encontrou naquele país eram a euforia e a excitação. Já em Breda, o encontro com Isaac Beeckman tinha livrado de sua indolência este jovem brilhante, mas desocupado.

Se ele retornou sete anos mais tarde, foi para mergulhar em êxtase num caldo de cultura, que reunia sábios holandeses e intelectuais emigrados. A vanguarda liberal da Europa estava lá e em nenhum outro lugar. Quando Roma condenou Galileu em 1633, a Holanda protestante, adepta de suas teorias revolucionárias, propôs asilo ao matemático de Pisa.”

Pagès continua : “no início do século XVII, é naquele país plano que se encontravam as melhores universidades da Europa. Descartes as “experimentou” todas como um aprendiz acompanhante que faz seu “passeio”. Só que ele era o mestre. Ele detinha um novo saber e precisava de discípulos, saídas, aplicações, aliados.

Longe de viver solitário, ele frequentava a elite do país, os maiores sábios, os homens de influência, tal como Constantin Huyghens, secretário do príncipe de Nassau. Sua correspondência testemunha a extensão de sua rede. Como diríamos hoje : ele “se comunicava”. Aquele jovem que gostava mais de guerra do que de tranquilidade conduzia sua própria guerra, de movimento e posição.”

Aqui neste livro Descartes e a Maconha de Frédéric Pàges, o autor narra a figura de um filósofo errante e ligado a figuras políticas, um misto de gênio e aventureiro, alguém que descobrira uma nova chave para o conhecimento, e que, na Holanda, encontrava uma vida movimentada. Tal tranquilidade mítica talvez estivesse no fato de ele ter encontrado um país de pensamento avançado, em harmonia com a sua intuição e seu conhecimento filosóficos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cidades/descartes-e-a-maconha-parte-ii 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 3 de outubro de 2020

O SUICÍDIO, ALGUMAS TEORIAS SOBRE O FENÔMENO

“Quanto aos modelos psicodinâmicos, temos a relação do suicídio com experiências traumáticas individuais”

Nas definições de suicídio de Jean Baechler, ele começa por tentar colocar o suicídio como a busca por uma solução existencial para um problema, neste estudo ele começa por categorizar quatro tipos de suicídio, que são o : evasivo ou escapista, agressivo, oblativo e lúdico.

Nos subtipos de suicídio temos onze definições. O suicídio evasivo que se divide em fuga de uma situação, luto após uma perda e o castigo por expiação. O suicídio agressivo de divide em crime, que tenta arrastar outro ou outros, a vingança, que tenta colocar a culpa sobre outro, a chantagem, que envolve a pressão sobre outra pessoa, o apelo, que envolve aviso e manipulação.

O suicídio oblativo se divide em sacrifício, este que tenta atingir um valor superior à vida, e a passagem, que é a busca de algo mais agradável. Por fim, o suicídio lúdico se divide em ordálico, que é o julgamento dos deuses, e o jogo, que é brincar com a vida.

Falando da psicologia social, no século XX, temos o clássico trabalho de David Philips, em que ele examina os dados estatísticos do suicídio, ao passo que compilava primeiras páginas de jornal sobre suicídios no jornal “New York Times’, entre 1946 e 1968.

Philips constatou um aumento de casos que logo associou ao “Efeito Werther”, que vem do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, escrito pelo alemão Goethe, no século XVIII, obra de ficção que desencadeou uma onda de suicídios na Europa, afetando sobretudo jovens românticos.

Na psicologia social também se apresentam os casos de suicídios coletivos de seitas religiosas, neste temos como exemplos clássicos as seitas dos pastores Jim Jones, na Guiana, em 1978, David Koresch, nos EUA, em 1993, e Luc Jouret, na Suíça e no Canadá, em 1994.

Quanto aos modelos psicodinâmicos, temos a relação do suicídio com experiências traumáticas individuais, e que implicam numa análise intrapsíquica, de estudo do inconsciente, e que levariam a uma compreensão sobre o fenômeno do suicídio, por sua vez, de uma forma diversa das concepções sociais sobre o mesmo.

Freud, o pai da psicanálise, tematizou a sexualidade e o suicídio, começando este trajeto em sua obra Luto e Melancolia, de 1917, se referindo aos instintos sexuais, associado a Eros, que renovariam a vida, e os instintos de morte, ligados a Thanatos, que teriam tendências autodestrutivas.

Freud, em Além do Princípio do Prazer, obra de 1920, sob o impacto do período que houve da primeira grande guerra, que durara de 1914 a 1918, diante da brutalidade que foi este acontecimento, com o uso de novas armas letais, como o gás mostarda, passa a teorizar sobre pulsões de vida e de morte, se afastando das teorias da sexualidade.

Na obra O Ego e o Id, de 1923, por sua vez, temos a teorização sobre um superego sádico e um ego masoquista, satisfazendo, assim, as necessidades de punição e sofrimento.

Na segunda geração da psicanálise temos Karl Menninger, que busca aprofundar a teoria psicanalítica sobre o suicídio, ele enumera os desejos de matar, de ser morto e de morrer.

O desejo de matar seria um instinto de destruição e agressão, ao passo que o desejo de ser morto, por sua vez, teria um aspecto masoquista de submissão e ligados a uma resposta do superego que seria o reflexo de uma necessidade de punição gerada por um sentimento de culpa, e o desejo de regressar ao ventre materno, por fim, estaria ligado ao desejo de morrer, como um tipo de impulso suicida transitório.

Menninger ainda distingue os comportamentos auto-lesivos como formas de suicídio, enumerando três tipos de suicídio, que seriam o suicídio crônico, que envolveria os psicóticos e os antissociais, o suicídio focal, ligado à auto-mutilação, e o suicídio orgânico, que se relaciona ao portador de doença somática, que evidencia uma vontade inconsciente de morrer.

Melanie Klein, por sua vez, coloca o suicídio como um ataque seletivo, que tenta aniquilar a parte má do objeto, e preservar a parte boa, que seria valorizada pelo self. Esta teorização de Melanie Klein, por sua vez, também serve para explicar algumas condutas de automutilação.

Ao passo que Freud coloca a relação objetal como mais universal e impessoal, Klein destaca os sentimentos diversos de paixão, ódio e inveja, dentre outros, como determinantes para o deslocamento da agressão.

Falando dos neofreudianos, tais como Alfred Adler, Karen Horney, Erich Fromm e Harry Stack Sullivan, podemos verificar um afastamento do determinismo biológico e a valorização dos aspectos humanos das relações.  Aqui se tem a contestação de conceitos de Freud como a teoria da libido, as pulsões e os recalcamentos.

Adler coloca a ideia de fracasso como uma interpretação para o fenômeno do suicídio, pois, com o isolamento do indivíduo, como um tipo de patologia social, com a falta de cooperação social, temos o crescimento do egoísmo e do egocentrismo.

Com Horney, temos o suicídio como resultado de uma personalidade neurótica resultante de conflitos da infância. Fromm colocava o pessimismo diante da vida como gerador do suicídio. Em Sullivan, o suicídio aparece como um ato de agressão, direcionado tanto para dentro como para fora do indivíduo.

A terceira geração psicanalítica, temos figuras como Winnicott e Heinz Kohut. A organização do ego é garantida por uma boa relação com a mãe, para Winnicott, e ele coloca um self verdadeiro e um self falso, cuja falência deste self falso levaria ao suicídio.

Kohut, por fim, colocaria a ausência de empatia dos pais, neste contexto da sociedade contemporânea, e dando valor para o espaço da infância rumo ao caminho da maturidade, implicando os riscos, e indo aí na direção de um self trágico, e que pode ser chamado também de ansiedade de desintegração.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-suicidio-algumas-teorias-sobre-o-fenomeno 

 

domingo, 27 de setembro de 2020

MARÍLIA GARCIA E SUAS MÁQUINAS VOADORAS

“Em Câmera Lenta, de 2017, Marília Garcia faz um percurso que busca testar os limites da poesia”

Marília Garcia, desde a sua estreia literária, nos apresentou uma poesia móvel ligada à ideia de meios de transporte que apareciam em seus poemas. Nesta poesia de Marília temos destaque para aviões, voos e aeroportos. Deslocamentos e viagens são constantes leitmotivs nesta poesia sobre o movimento, num tipo de avanço da poesia para além de limites locais, com grandes deslocamentos, movimentos rápidos e este caráter cosmopolita conferido pelo tema da viagem.

As memórias em movimento de personagens nos poemas também fazem a poesia de Marília, neste caráter cosmopolita os poemas aparecem diversificados, os cenários de nacionalidades em relação a estes personagens nos poemas se diversifica, a amplitude do mundo em Marília está ligada ao tema da viagem e dos meios de transporte para que esta babel seja possível em sua poesia.

A memória se acomoda numa síntese que transforma o espaço, o poema de Marília ganha este caráter em seu livro Teste de Resistores, de 2014, o percurso se torna nota de um processo em que o espaço acaba passando por uma abstração, neste desenho feito pela memória.

A percepção do espaço, do entorno, na poesia de Marília, passa por um tipo de visão livre de automatismos, temos um desenho geográfico que faz a definição da dicção poética, a mistura da voz poética com a experiência deste espaço de locomoção, descreve lugares e revela a descoberta deste eu poético nesta aventura sobre locais e que se expande com esta fala, com esta dicção do poeta que enuncia a sua experiência e esta sua descoberta.

Em Câmera Lenta, de 2017, Marília Garcia faz um percurso que busca testar os limites da poesia, uma dicção bem lúdica, em esquemas que inovam na poesia de uma forma bem cadenciada, ler Câmera Lenta é entrar em contato com um objeto curioso, esta experiência nova de Marília Garcia neste seu livro que coloca o eu lírico num embate em que seu estatuto acaba sendo confrontado.

O questionamento do eu lírico passa por ter sido purificado no simbolismo francês, perdendo seu caráter biográfico e virando uma evanescência, um eu lírico que deixa a vida ligada à vivência e se fixa no texto poético em função deste verso mais puro, e este eu lírico que avança pelo século XX e que tenta religar este a uma vida vivida, em que literatura e vida retornam ao diálogo. Marília Garcia, por sua vez, neste contexto da poesia brasileira, herda de Ana Cristina César seus desdobramentos de poesia em cartas, e o eu lírico aqui se renova.

LIVRO : CÂMERA LENTA

POEMAS :

HOLA, SPLEEN : E o tema baudelairiano do spleen reaparece aqui como um tipo de apresentação do poema que se liga ao tempo e um jeito diferente de dar boas-vindas, no que temos : “um dia/ela me disse/“hola, spleen”/e eu demorei mas depois/percebi que era uma/frase sobre/o  tempo.” (...) “talvez/um jeito de dar/as boas-vindas,”. Marília quer ler seu poema em voz alta, e a questão do tempo entrará neste poema como o tema que lhe dominará, ou melhor, este registro e sua estranheza essencial que logo o poema irá arrematar, temos aqui : “um dia quis ler em voz alta/um poema chamado/“hola, spleen”,/mas quando chegou a hora/fiquei muito muito gripada,” (...) “se tivesse gravado/o poema antes,/podia ligar a voz/e tocar em vez de ler,” (...) “então, combinei/que faria a leitura outro dia/e ainda faltava um mês/para chegar a leitura que vou chamar/aqui de caixa-preta”. A voz gravada de Marília vem do passado, a estranheza se instala no poema e todo o seu questionamento aflora, no que temos : “assim,/esta voz que fala aqui/é a voz de uma marília de um mês atrás/é a minha voz falando a partir do passado,” (...) “há um mês eu não tinha/como prever nada/e fiquei me/perguntando :/- como fazer para essas palavras escritas/há um mês dizerem algo/sobre estar aqui/agora?/e eu não soube responder.”. O voo nos vem, as máquinas voadoras tomam esta noção de tempo no poema, no que temos : “talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras/neste dia,/foi o que pensei,/mas eu me enganei/porque hoje/desde cedo/os helicópteros estão voando.” (...) “imaginem que isso aqui é um quadrado/com drones volantes,/ou uma cena congelada/com o céu cheio de zepelins,/mas o som é um só:/barulho de máquinas/voadoras/pelo céu.”. Marília caça uma mensagem no céu, seu fascínio com as máquinas voadoras brilha no poema, e termina : “se a gente prestar atenção e fizer silêncio/- se a gente prestar atenção e fizer/silêncio –/pode ser que ouça/alguma mensagem/perdida no ar.”.

PELOS GRANDES BULEVARES : O poema especula o que uma mulher (provavelmente, no poema não se especifica) está vendo ao fechar os olhos, o poema nos aparece aqui com um caráter bem especulativo, no que temos : “o que ela vê quando fecha/os olhos? linhas sinuosas, um mapa/feito à mão, parece uma pista vista de cima –/os campos cortados ou poderia ser/uma sombra riscando o verde quando passa/lá no alto.”. O mapa se abre, e se fala em cinema, o tempo, a verdade, vidro, um animal marinho, a especulação aqui é desvairada, no que temos : “não é nada abissal/estar na superfície,/você quis dizer de vidro? esférico?/ou um animal marinho em miniatura :/um polvo de 1 mm?/o cinema é 24 vezes/a verdade por segundo. este segundo/poderia ser 24 vezes a cara dela/quando fecha os olhos e vê.”. A busca da palavra exata, Marília ainda tenta entender, e segue : “não é por falta de repetição, mas não/encontrava a palavra exata./o que ela vê não sabe e tudo fica tremido/se fast forward./agora fecha os olhos para/entender, para ir mais/devagar.”. A especulação sobre a pressão da profundidade do mar, uma montanha ao contrário, poema curioso : “o que ela vê ao abrir a/claraboia? ao bater aquela foto da/ponte ou quando lê/a legenda :/“nos abismos a vida é submetida/ao frio, escuridão, pressão./oito mil metros de profundidade”/uma montanha/ao contrário.”.

ESTEREOFONIA : O poema fala sobre ângulo, aonde está voltada a vista, e se dá com um guarda-chuva e todas as suas possibilidades, no que temos : “nunca falei tão sério, disse e olhei/pra cima : seu rosto no meio das gotas,/o guarda-chuva preto como uma moldura redonda/e você parado, cantando, virado para o vidro/do carro, sem ouvir mais nada/só a voz/cantando no meio da chuva/e o eco no vidro do carro.”. A  poeta olha para cima, no que temos : “e eu olhei pra cima :/nunca falei tão sério,/disse e, no meio da chuva,/a cena se repete.” (...) “eu olhei pra cima e você ia embora/pelas escadas. no último degrau/não se vira mais.”. O poema então tenta desenhar a si mesmo, o que ele está dizendo, no que temos :  “- esse poema contém doze passos,/ele diz,/e eu saio contando a distância/enquanto caminho dizendo o poema de cor,/mas daquele dia só me lembro/da cor de chumbo e a voz/em eco no vidro do carro.”. Volta o guarda-chuva, e o poema termina numa especulação pelo som : “olho para cima outra vez/e vejo sempre o mesmo/guarda-chuva preto, moldura para/descongelar cada um dos degraus,/para descongelar a ordem/do verso seguinte :/panorâmica, golpe e caixa-preta.” (...) “- você vai sempre pelo som?/- que som?”.

NOITE AMERICANA : O poema retrata a câmera lenta, título do livro de poemas de Marília Garcia, e aqui, neste poema da noite americana, teremos três noites, no que vem : “no momento de maior intimidade,/ficaram a 1 cm de distância/um do outro.” (...) “então me afasto e/vejo a cena em câmera/lenta : ali os dois não/se olham.”. Vem uma pergunta insólita, e colocações que rompem os limites do tempo, o movimento aqui ganha em complexidade, e domina a cena do poema, no que temos : “- por quanto tempo você aguentaria ficar debaixo/d`água?/é o que ela parece dizer./em vez disso, olha o mínimo relógio de pulso/e sabe que seis horas depois já estará/do outro lado.” (...) “um trem parte para um ano/específico no futuro. dizem que lá as coisas/não mudam./está escuro/e eles atravessam o tempo.” (...) “quando a viagem chega ao fim,/ele decide voltar atrás :/- quando me perguntam/por que voltei,/           diz ele,/nunca dou a mesma resposta.”. Na noite 3, por fim, todo o planeta é visto, tudo é visto do alto, de cima, a luz celeste de uma abóbada limpa, brilhando luz pretérita de um universo já acontecido, o mundo girando com lembranças em pause, coda do poema : “noite 3/a câmera agora/mostra a terra do alto./de cima,/o planeta azul e úmido/tem uma única mancha cor/de ferrugem/que fica perto do pacífico./neste ponto de umidade zero/o ar é tão fino/e tão limpo,/tão frio/e tão seco/que se pode ver com nitidez/a luz dos objetos celestes/vinda do passado.” (...) “em geral, ela se mostra à noite/como as lembranças/em pause.”.

POEMAS :

HOLA, SPLEEN

um dia

ela me disse

“hola, spleen”

e eu demorei mas depois

percebi que era uma

frase sobre

o  tempo.

 

talvez

um jeito de dar

as boas-vindas,

mas a gente nunca sabe

o que vem depois.

um dia quis ler em voz alta

um poema chamado

“hola, spleen”,

mas quando chegou a hora

fiquei muito muito gripada,

e o que foi pior

o que me impediu de ler

foi que fiquei

sem voz.

 

se tivesse gravado

o poema antes,

podia ligar a voz

e tocar em vez de ler,

mas eu não tinha

uma voz gravada

e não havia como produzir

voz.

 

então, combinei

que faria a leitura outro dia

e ainda faltava um mês

para chegar a leitura que vou chamar

aqui de caixa-preta

e eu não tinha ideia

de como eu estaria no dia da caixa-preta

e pensei que se este mês

seguisse o ritmo acelerado

e catastrófico deste  e do último ano

tanta coisa já teria

acontecido hoje,

que me dava medo

imaginar.

 

assim,

esta voz que fala aqui

é a voz de uma marília de um mês atrás

é a minha voz falando a partir do passado,

é a minha voz,

mas sem controle.

 

há um mês eu não tinha

como prever nada

e fiquei me

perguntando :

- como fazer para essas palavras escritas

há um mês dizerem algo

sobre estar aqui

agora?

e eu não soube responder.

então, fiquei me perguntando

se hoje estaria chovendo

ou fazendo sol,

se faria frio ou não,

e se haveria poeira no ar.

eu sempre me surpreendo

com a poeira que turva a vista :

de repente no meio do dia

uma poeira que se ergue,

uma nuvem

de poeira,

pode ser a poeira vinda das coisas quebradas

todos os dias na vida das pessoas

e eu fiquei pensando

se estaria muito seco nesse dia ou não

e pensei que talvez a gente pudesse

fazer silêncio

e deixar a escuta aberta

para ouvir.

 

talvez a gente pudesse fazer silêncio

e de repente neste silêncio

acontecer de ouvir algo por detrás

dos ruídos das máquinas voadoras que

cruzam o céu.

 

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras

neste dia,

foi o que pensei,

mas eu me enganei

porque hoje

desde cedo

os helicópteros estão voando.

 

- vocês estão ouvindo?

um som infernal

estrelas caindo do céu

em cima da cabeça

com as pontas viradas

para baixo.

o som está cada vez mais perto,

posso encostar a mão

se me viro vejo a sombra

em câmera lenta

sobre a cabeça.

 

imaginem que isso aqui é um quadrado

com drones volantes,

ou uma cena congelada

com o céu cheio de zepelins,

 

mas o som é um só:

barulho de máquinas

voadoras

pelo céu.

 

se a gente prestar atenção e fizer silêncio

- se a gente prestar atenção e fizer

silêncio –

pode ser que ouça

alguma mensagem

perdida no ar.

 

PELOS GRANDES BULEVARES

[do lado de dentro]

 

o que ela vê quando fecha

os olhos? linhas sinuosas, um mapa

feito à mão, parece uma pista vista de cima –

os campos cortados ou poderia ser

uma sombra riscando o verde quando passa

lá no alto.

                   o que ela vê quando

olha em linha reta tentando

descrever

               a garota que conheceu no café?

a transformada de

wavelets ou um peixe-lua-

circular em uma região abissal.

não é nada abissal

estar na superfície,

você quis dizer de vidro? esférico?    

ou um animal marinho em miniatura :

um polvo de 1 mm?

                                  o cinema é 24 vezes

a verdade por segundo. este segundo

poderia ser 24 vezes a cara dela

quando fecha os olhos e vê.

[de fora]

 

não é por falta de repetição, mas não

encontrava a palavra exata.

o que ela vê não sabe e tudo fica tremido

se fast forward.

agora fecha os olhos para

entender, para ir mais

devagar.

            não se perde alguém por duas

vezes, era o que achava

mas a essa altura chego no mesmo terminal

duas semanas depois e a cena se

repete.

- você está tendo um problema

de realidade, ele cochichou.

- qual é o desastre desta vez?

 

o que ela vê ao abrir a

claraboia? ao bater aquela foto da

ponte ou quando lê

a legenda :

                     “nos abismos a vida é submetida

ao frio, escuridão, pressão.

oito mil metros de profundidade”

uma montanha

ao contrário.

 

ESTEREOFONIA

nunca falei tão sério, disse e olhei

pra cima : seu rosto no meio das gotas,

o guarda-chuva preto como uma moldura redonda

e você parado, cantando, virado para o vidro

do carro, sem ouvir mais nada

só a voz

            cantando no meio da chuva

e o eco no vidro do carro.

 

essa poderia ser a descrição

completa, mas o caminho mais rápido

de um ponto a outro, ele respondeu,

e eu olhei pra cima :

nunca falei tão sério,

disse e, no meio da chuva,

a cena se repete.

 

podia ter ido embora na hora,

os cílios partidos e aquela voz

cantando – mas o caminho mais rápido,

ele diz, e eu olho pra cima de novo

e lembro da cor malva

e dele dizendo que é quase

malva, tem um pingo que torna tudo

malva, mas a única cor que lembro

 

era o nublado daquele dia,

a única cor era o

chumbo daquela vez :

 

eu olhei pra cima e você ia embora

pelas escadas. no último degrau

não se vira mais.

 

- esse poema contém doze passos, ele diz,

e eu saio contando a distância

enquanto caminho dizendo o poema de cor,

mas daquele dia só me lembro

da cor de chumbo e a voz

em eco no vidro do carro.

 

olho para cima outra vez

e vejo sempre o mesmo

guarda-chuva preto, moldura para

descongelar cada um dos degraus,

para descongelar a ordem

do verso seguinte :

panorâmica, golpe e caixa-preta.

 

- você vai sempre pelo som?

- que som?

NOITE AMERICANA

noite 1

 

no momento de maior intimidade,

ficaram a 1 cm de distância

um do outro.

 

então me afasto e

vejo a cena em câmera

lenta : ali os dois não

se olham.

está escuro              e eles atravessam o espaço.

 

o ombro dela quase raspa

o braço dele,

                              os dedos dele

um pouco acima da mão dela.

os olhos fixos no chão

e a respiração em

compasso.

- por quanto tempo você aguentaria ficar debaixo

d`água?

                           é o que ela parece dizer.

em vez disso, olha o mínimo relógio de pulso

e sabe que seis horas depois já estará

do outro lado.

 

noite 2

está chovendo

e quando o farol acende

o verde brilha no escuro.

 

- claro. escuro. claro. escuro.

 

(quando você descreve

tenho a impressão de sentir o que

acontece)

 

um trem parte para um ano

específico no futuro. dizem que lá as coisas

não mudam.

está escuro                 e eles atravessam o tempo.

 

me interesso por um único viajante

no trem. ele busca uma noite específica

e, de longe, parece

em repouso invernal.

 

quando a viagem chega ao fim,

ele decide voltar atrás :

- quando me perguntam

por que voltei,

                         diz ele,

                                     nunca dou a mesma resposta.

 

noite 3

a câmera agora

mostra a terra do alto.

 

de cima,

o planeta azul e úmido

tem uma única mancha cor

de ferrugem

que fica perto do pacífico.

 

neste ponto de umidade zero

o ar é tão fino

e tão limpo,

tão frio

e tão seco

que se pode ver com nitidez

a luz dos objetos celestes

vinda do passado.

no escuro            a luz atravessa o tempo e o espaço

 

 e vem dar aqui

neste ponto.

 

em geral, ela se mostra à noite

como as lembranças

em pause.    

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/marilia-garcia-e-suas-maquinas-voadoras 


 

   

  

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O SUICÍDIO NA OBRA DE DURKHEIM

“A solução para o suicídio anômico estaria, segundo Durkheim, nas corporações”

Émile Durkheim se dedicou à criação de uma ciência sobre a sociedade que fosse independente da Psicologia, da Filosofia e das ciências naturais, seu empenho foi em fundamentar um método para esta nova ciência, esta era a sua busca para edificar um objeto próprio para a Sociologia, se tornando um dos pensadores mais importantes desta área de estudo da sociedade. Durkheim construiu seu pensamento na virada do século XIX para o XX.

Durkheim empreendeu, como sociólogo, uma pesquisa social em que os fenômenos  sociais eram entendidos como concretos, um dado, em que o pesquisador busca se manter neutro em relação às próprias concepções e pressupostos, e se concentra numa pesquisa baseada em dados concretos, remetendo a uma objetividade do mundo empírico. Durkheim, por conseguinte, define como conteúdo de sua pesquisa o que ele vai chamar de fatos sociais.

Para Durkheim, os fatos sociais são definidos, segundo ele : “toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais”.

Além de manter a neutralidade, e também tratar o fato social como coisa, para Durkheim, o sociólogo deve levar em consideração a consciência coletiva dos indivíduos. A consciência coletiva sendo compreendida como “o conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade”, segundo Durkheim.

Tomando este método de estudo dos fatos sociais segundo uma orientação que parte da consciência coletiva como origem dos fatos sociais, Durkheim se debruça sobre o tema do suicídio. Durkheim, então, afirma que o suicídio não tem uma causa individual, mas uma causa social, e então Durkheim tenta compreender o suicídio definindo o que é este fenômeno.

O ponto que Durkheim levanta em sua pesquisa, por conseguinte, é que o suicídio é entendido como um fenômeno que varia numa razão inversa em relação com a coesão social, e parte desta pesquisa as três categorias de suicídio que Durkheim vai tematizar, portanto, que são : o suicídio egoísta, o suicídio altruísta e o suicídio anômico.

No tema do suicídio egoísta, Durkheim cita a questão da confissão religiosa como causa e balizadora deste tipo de suicídio. Segundo Durkheim, os países católicos e judeus possuem uma maior coesão social, portanto, Durkheim registra nestes países uma taxa menor de suicídios, ao passo que em países de confissão predominantemente protestante, com um individualismo mais forte e uma menor coesão social, estes índices de suicídios são maiores.

Outro exemplo de causa para o suicídio egoísta dado por Durkheim está no caso dos homens solteiros, divorciados e as viúvas, o que Durkheim nos diz do papel da família como um esteio que evita estes tipos de suicídios, com o indivíduo assumindo responsabilidades, tendo funções dentro do núcleo familiar. Pois, quando este indivíduo se afasta da família, para Durkheim, ele perde o sentido da vida, pois não tem mais a proteção da instituição familiar. Portanto, quando o pertencimento a grupos se enfraquece, os suicídios egoístas aumentam, contexto no qual a individuação se intensifica e a coletividade se enfraquece.

No caso do suicídio altruísta, Durkheim cita as sociedades simples, tomando como exemplo os velhos guerreiros bárbaros que se matavam ao ficarem doentes e fracos, pois não podiam mais defender o seu grupo. Outro exemplo, este nas sociedades mais complexas, é o suicídio do soldado que se sacrifica para salvar seu colega de farda, se matando também por vergonha de perder uma batalha. No suicídio altruísta, ao contrário do suicídio egoísta, temos o elemento de coesão social atuando como motivação do ato, e não a individuação excessiva, como no suicídio egoísta. Portanto, o suicídio altruísta busca preservar ou salvar a coesão social.

O último tipo de suicídio definido por Durkheim é o suicídio anômico, que, para ele, está mais presente na sociedade industrial moderna, que é quando Durkheim nos fornece a definição que diferencia o que ele chama de solidariedade mecânica, e a transição desta, na sociedade moderna, para o que Durkheim chama de sociedade orgânica, nesta que Durkheim afirma estar a consciência coletiva e a moral enfraquecidas.

O enfraquecimento dos laços sociais nas sociedades orgânicas, que são as da modernidade industrial, decorre de uma divisão do trabalho que diminui a identidade de seus membros, realizando um processo de individuação, perdendo a coesão deste mundo do trabalho que existia nas sociedades simples, em que havia uma solidariedade mecânica, em que tudo se move em conjunto no mesmo sentido, em que os movimentos dos indivíduos estão ligados inextricavelmente ao grupo a que pertencem.

Por sua vez, com a especialização que houve nas atividades modernas, decorrente de uma nova divisão do trabalho, de caráter industrial, Durkheim vai afirmar que nas sociedades complexas a consciência coletiva perde força e ocorre o que ele vai chamar de anomia social, numa solidariedade que Durkheim vai chamar de orgânica, que não é mais baseada em consenso moral ou no apego do indivíduo à coletividade, pois aqui o trabalho passa pela especialização, o que leva à individuação, diminuindo a consciência coletiva, e gerando o suicídio anômico.

A solução para o suicídio anômico estaria, segundo Durkheim, nas corporações, pois estas seriam formadas por um corpo de indivíduos de diferentes confissões religiosas e posições políticas que exercem um determinado tipo de trabalho na sociedade visando o bem estar desta, recuperando o sentido de bem comum perdido pela anomia, através desta reforma institucional, na qual as instituições voltam a um funcionamento normal, quando Durkheim nos diz : “é preciso, sem afrouxar os laços que ligam cada parte da sociedade ao Estado, criar poderes morais que tenham sobre a multidão de indivíduos uma ação que o Estado não pode ter”. As instituições devem caminhar junto com o Estado, neste auxílio à coesão social, em que exista um bom funcionamento da  sociedade.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com