PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 30 de setembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, O POETA DA SÁTIRA DIANTE DA RELIGIÃO


“Gregório é um religioso real, distante de figuras impostadas e renunciantes dos prazeres”

Gregório de Matos Guerra, uma vez inserido num mundo dividido entre profano e religioso, temos que estas duas dimensões do homem tipicamente barroco estão interligadas, não são duas faculdades poéticas estanques, pois Gregório leva de seus pecados justamente o móvel para a religião, como uma forma de contrição, de seu desvario ele se volta logo após a seu espírito, uma vez no gozo pleno da existência carnal, ele tem exatamente a partir deste ponto sua inflexão espiritual, como num ir e vir que busca equilibrar-se entre demandas que poderiam ser contraditórias, mas que em Gregório se complementam e fazem a dicotomia de sua poesia, mesmo que duas frentes, a imagem de um homem complexamente integrado, inteiro, pois ele precisa tanto do profano como do aspecto religioso para construir-se como poeta e como humano.
A sátira aparece então em Gregório como um dos impulsos em que a religiosidade conventual, por exemplo, aparece em perspectiva caricatural, a crítica mordaz também faz parte, portanto, da complexa religiosidade de que a poesia de Gregório se alimenta, o que não constitui heresia, contudo, mas uma poesia que lê com fidelidade a catequese mas que não se furta de apontar e pintar costumes que podem se degenerar e se tornar um pastiche.
Na figura do campesino, por sua vez, temos uma poesia de fuga em que Gregório se afasta de um mundo atribulado de injustiças e tiranias, em que o mundano é deixado para trás e temos uma pequena morte simbólica em que o idílio pode ser um simulacro da eternidade, e que no prazer que suscita pode ser a verdadeira vida, a beleza de que sempre fala toda poesia.
Seguindo na análise dos temas da poesia de Gregório, temos, adiante, a sua poesia amorosa, parte de sua poesia profana, carnal, em que desponta um poeta muitas vezes pornográfico, bem distante da imagem cristalizada do poeta romântico que surgirá no século XIX, da mulher ideal, etérea e, portanto, irreal, até mesmo sem nome, abstrata, mitológica e vazia. O que temos na poesia de Gregório é o amor carnal e bem real, mais afeito ao corpo e seus encantos do que a um estro evanescente e dorido de poetas imaginosos e de pouca sedução carnal, o amor em Gregório tem carga biográfica e se nutre de nomes reais, em que importa a conquista e em que a lírica é pragmática e não melosa, temos um Gregório que cita Custódia, Brites, Martha de Jesus, Babu, Moralva, Joana Gafeira, etc.
É a partir de um estro amoroso carnal que temos a produção contrita, de outro lado, de sua poesia religiosa. Gregório é um religioso real, distante de figuras impostadas e renunciantes dos prazeres, ele é humano, portanto, une em um único espírito o profano e o religioso e assim é um ser inteiro, autêntico e mais real do que se ficasse num extremo ou no outro, como um ser incompleto. A lírica entre estes dois mundos produz angústia também no poeta, mas é a isto que eu chamo de uma experiência poética e vivencial completa e plena, o destino de um poeta que sempre se quis amplo, sem amarras.

POEMAS :

AO MESMO [SANTO ANTÔNIO] QUE LHE DERAM A GLOZAR./MOTE/Bêbado está Santo Antônio : O poema retrata um santo bêbado, e o humor de Gregório aqui desponta luminoso, no que temos : “Entrou um bêbado um dia/pelo templo sacrossanto/do nosso Português Santo,” (...) “a gente, que ali assistia,/cuidando, tinha o demônio,” (...) “gritando-lhe todos, tá,/tem mão, olha, que acolá,/Bêbado, está Santo Antônio.”. A coda genial encerra um poema direto e sem meneios, pois.

A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA. : O poema faz troça da corte, e rascante canta o gozo pleno dos sentidos, no que temos : “Goze a Corte o ambicioso/de aplausos, e vaidades,/que eu cá nestas soledades/o melhor descanso gozo :” (...) “que o melhor estado, cuido,/é aquele, em que o descuido/vem a ser todo o cuidado.”. O cuidado que do ócio é pleno de prazer, aqui é poesia, sátira e existência pessoal em seu gozo.

TERCEYRA VEZ IMPACIENTE MUDA O POETA O SEU SONETO NA FORMA SEGUINTE. : O poema retrata o feminino aqui, o canto poético se volta aqui ao efêmero, em que a beleza da mocidade decai com o tempo, no que temos : “Discreta, e formosíssima Maria,/Enquanto estamos vendo claramente/Na vossa ardente vista o sol ardente,/E na rosada face a Aurora fria :”. A decadência do corpo aqui é o frio, imagem poética que vem nos lembrar do tempo do corpo, e a luta da poesia por preservar o viço, no que vem : “Gozai, gozai da flor da formosura,/Antes que o frio da madura idade/Tronco deixe despido, o que é verdura./Que passado o zenith da mocidade,/Sem a noite encontrar da sepultura,/É cada dia ocaso da beldade.”

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA FORMOSURA. : A formosura, tema caro ao poeta Gregório, aqui aparece em Babu, e ele teme e deseja ao mesmo tempo, podendo ser um dilema poético entre desgraça e ventura, no que temos : “Cada dia vos cresce a formosura,/Babu, e tanto cresce, que me embaça,/Se cresce contra mim, alta desgraça,/Se cresce para mim, alta ventura.”. O poeta nos dá então mais uma vez esta luta poética por manter firme o que passa como brilho efêmero, no que vem : “Tal rosto se não mude, antes se faça/Mais firme do que a minha desventura./De que pode servir, seres mais bela,/Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?/Dai ao demo a beleza, que atropela,/Bendita seja a feia, e a ranhosa,/Que roga, que suspira, e se desvela/Por dar-se toda a troco de uma prosa.”. E a fealdade, diante do desdém do que tem beleza, é a saída do poeta que não se furta a sua aventura carnal e poética, esta que se dá a troco de uma prosa, por fim.

QUIZ O POETA EMBARCAR-SE PARA A CIDADE E ANTECIPANDO A NOTÍCIA À SUA SENHORA, LHE VIO HUMAS DERRETIDAS MOSTRAS DE SENTIMENTO EM VERDADEYRAS LAGRYMAS DE AMOR. : Temos o poeta aqui quente, o ardor queima, e o estro é repleto de desejo, no que temos : “Ardor em coração firme nascido!/Pranto por belos olhos derramado!” (...) “Tu, que um peito abrasas escondido,/Tu, que em um rosto corres desatado,/Quando fogo em cristais aprisionado,/Quando cristal em chamas derretido.”. A imagem poética é potente, mas tenta se equilibrar, por fim, no frio, no que vem : “Mas ai! que andou Amor em ti prudente./Pois para temperar a tirania,/Como quis, que aqui fosse a neve ardente,/Permitiu, parecesse a chama fria.”

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO. : O poema desata e canta e vai na corrente e já vê a cor mudada, no que temos : “Corrente, que do peito desatada/Sois por dois belos olhos despedida,/E por carmim correndo desmedida/Deixais o ser, levais a cor mudada.”. Aqui agora prata e rubi enchem o poema de brilho, no que vem : “Essa enchente gentil de prata fina,/Que de rubi por conchas se dilata,/Faz troca tão diversa, e peregrina,/Que no objeto, que mostra, e que retrata,/Mesclando a cor purpúrea, e cristalina,/Não sei, quando é rubi, ou quando é prata.”

AO MESMO ASSUMPTO : O poema aqui tem o tema da formosura, que enche a poesia de Gregório, e esta se associa ao natural e à pintura, no que temos : “Debuxo singular, bela pintura,/Adonde a Arte hoje imita a Natureza,/A quem emprestou cores a Beleza,/A quem infundiu alma a Formosura.” (...) “Pois ou bem sem engano, ou bem fingida/No rigor da verdade estás pintada,/No rigor da aparência estás com vida.”. A vida que se junta à aparência, tenta dar rigor à beleza, e a arte aqui é este senso de que o poeta canta a formosura, aqui tanto o feminino como a própria poesia.

CHORA O POETA A MORTE DE HUM SEO FILHO, CUJO PEZAR DEO MOTIVO A PRIMEYRA OBRA SACRA DESTE LIVRO. : O poema pesaroso é um luto da pior monta, o poeta que lamenta a morte de seu filho, no que temos : “Querido Filho meu, ditoso esprito,/Que do corpo as prisões tens desatado,/E por viver no Céu tão descansado,/Me deixaste na terra tão aflito./Tu mais do que teu Pai és erudito,/Muito mais douto, e mais experimentado,/Pois por ser Anjo em Deus predestinado/Deixaste de homem ser talvez precito.” (...) “Que muito, ó Filho, flor de um pau tão bronco/Que acabe a flor na dócil infância,/E que acabando a flor, dure inda o tronco.”. E o poeta canta o filho que se acabou na flor da infância, mais douto que o poeta que lamenta.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO MUNDO. : Aqui o poeta luta novamente contra o mundo do efêmero, num sol que não dura mais que um dia, da luz que dá lugar à noite, em que a formosura se desmancha com as agruras do tempo, no que temos : “Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,/Depois da Luz se segue a noite escura,/Em tristes sombras morre a formosura,/Em contínuas tristezas a alegria.”. Alegria e tristeza também dão nome a esta angústia do efêmero, em que a vida brilha e depois acaba, luz e sombra compondo um cenário de prazer e dor, no que vem : “Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,/Na formosura não se dê constância,/E na alegria sinta-se tristeza./Começa o mundo enfim pela ignorância,/E tem qualquer dos bens por natureza/A firmeza somente na inconstância.”

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE. : O poema quer se desvencilhar deste mundo da corte, quer a bem-aventurança de um ditoso longe das demandas vis, em que reina o roubo, a injustiça e a tirania, no que temos : “Ditoso aquele, e bem-aventurado,/Que longe, e apartado das demandas/Não vê nos tribunais as apelandas,/Que à vida dão fastio, e dão enfado.” (...) “Se estando eu lá na Corte tão seguro/Do néscio impertinente, que porfia,/A deixei por um mal, que era futuro;/Como estaria vendo na Bahia,/Que das Cortes do mundo é vil monturo,/O roubo, a injustiça, a tirania.”. A Bahia aqui aparece ao poeta como lugar decadente, e sua sátira julga a corte em seu vil monturo, por fim.

POEMAS :

AO MESMO [SANTO ANTÔNIO] QUE LHE DERAM A GLOZAR.

MOTE

Bêbado está Santo Antônio

Entrou um bêbado um dia
pelo templo sacrossanto
do nosso Português Santo,
e para o Santo investia :
a gente, que ali assistia,
cuidando, tinha o demônio,
lhe acudiu a tempo idôneo,
gritando-lhe todos, tá,
tem mão, olha, que acolá,
Bêbado, está Santo Antônio.


A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA.

Goze a Corte o ambicioso
de aplausos, e vaidades,
que eu cá nestas soledades
o melhor descanso gozo :
aqui vivo cuidadoso
de descuidos, e este estado
julgo bem-aventurado,
que o melhor estado, cuido,
é aquele, em que o descuido
vem a ser todo o cuidado.

TERCEYRA VEZ IMPACIENTE MUDA O POETA O SEU SONETO NA FORMA SEGUINTE.

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo claramente
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a Aurora fria :

Enquanto pois produz, enquanto cria
Essa esfera gentil, mina excelente
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria :

Gozai, gozai da flor da formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura.

Que passado o zenith da mocidade,
Sem a noite encontrar da sepultura,
É cada dia ocaso da beldade.

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA FORMOSURA.

Cada dia vos cresce a formosura,
Babu, e tanto cresce, que me embaça,
Se cresce contra mim, alta desgraça,
Se cresce para mim, alta ventura.

Se cresce por chegar-me à mor loucura,
Para seres mais dura, e mais escassa,
Tal rosto se não mude, antes se faça
Mais firme do que a minha desventura.

De que pode servir, seres mais bela,
Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?
Dai ao demo a beleza, que atropela,

Bendita seja a feia, e a ranhosa,
Que roga, que suspira, e se desvela
Por dar-se toda a troco de uma prosa.

QUIZ O POETA EMBARCAR-SE PARA A CIDADE E ANTECIPANDO A NOTÍCIA À SUA SENHORA, LHE VIO HUMAS DERRETIDAS MOSTRAS DE SENTIMENTO EM VERDADEYRAS LAGRYMAS DE AMOR.

Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO.

Corrente, que do peito desatada
Sois por dois belos olhos despedida,
E por carmim correndo desmedida
Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando caís precipitada
As flores, que regais tão parecida,
Se sois neves por rosa derretida,
Ou se a rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,
Que de rubi por conchas se dilata,
Faz troca tão diversa, e peregrina,

Que no objeto, que mostra, e que retrata,
Mesclando a cor purpúrea, e cristalina,
Não sei, quando é rubi, ou quando é prata.

AO MESMO ASSUMPTO

Debuxo singular, bela pintura,
Adonde a Arte hoje imita a Natureza,
A quem emprestou cores a Beleza,
A quem infundiu alma a Formosura.

Esfera breve : aonde por ventura
O Amor, com assombro, e com fineza
Reduz incompreensível gentileza,
E em pouca sombra, muita luz apura.

Que encanto é este tal, que equivocada
Deixa toda a atenção mais advertida
Nessa cópia à Beleza consagrada?

Pois ou bem sem engano, ou bem fingida
No rigor da verdade estás pintada,
No rigor da aparência estás com vida.

CHORA O POETA A MORTE DE HUM SEO FILHO, CUJO PEZAR DEO MOTIVO A PRIMEYRA OBRA SACRA DESTE LIVRO.

Querido Filho meu, ditoso esprito,
Que do corpo as prisões tens desatado,
E por viver no Céu tão descansado,
Me deixaste na terra tão aflito.

Tu mais do que teu Pai és erudito,
Muito mais douto, e mais experimentado,
Pois por ser Anjo em Deus predestinado
Deixaste de homem ser talvez precito.

Se de achaque de um Sol, do mal de um dia
Entre um doce suspiro, e brando ronco
De toda a flor acaba a louçania :

Que muito, ó Filho, flor de um pau tão bronco
Que acabe a flor na dócil infância,
E que acabando a flor, dure inda o tronco.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO MUNDO.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE.

Ditoso aquele, e bem-aventurado,
Que longe, e apartado das demandas
Não vê nos tribunais as apelandas,
Que à vida dão fastio, e dão enfado.

Ditoso, quem povoa o despovoado,
E dormindo o seu sono entre as Holandas
Acorda ao doce som, e às vozes brandas
Do tenro passarinho enamorado.

Se estando eu lá na Corte tão seguro
Do néscio impertinente, que porfia,
A deixei por um mal, que era futuro;

Como estaria vendo na Bahia,
Que das Cortes do mundo é vil monturo,
O roubo, a injustiça, a tirania.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-o-poeta-da-satira-diante-da-religiao

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

ENSAIO BEAT


“Neal Cassady já tinha roubado sete carros naquela noite de benzedrina”

  A rocha não teme toda a bruma que vem candente, o vinho ébrio traz a astúcia de todo poema, naufraga Rimbaud, desce ao inferno seu esplendor ao ato de suicídio literário, a viagem toma a tela da tempestade, vejo atônito passar por uma ruela Allen Ginsberg dando baforadas estupefatas com Peter Orlovsky. Neal Cassady já tinha roubado sete carros naquela noite de benzedrina, o adrenocromo ficava na mente de uma demência jornalística, seu mestre gonzo, o guru dos desajustados profissionais, Hunter Thompson. Não sobraria da nau bêbada do que restou de Rimbaud senão a peste assassina de um Villon em fuga para o paraíso do esquecimento. Acordava numa tarde de ressaca Jack Kerouac com sua datilografia para ofender com escrita automática os pruridos racionais e de espírito de coerência de um grande dos grandes Truman Capote. Neal pega uma Ferrari em Las Vegas e chama Kerouac para um passeio a 180 Km/h até Denver para escutar Jazz em New Orleans e encontrar Burroughs descansando depois de um pico, num acumulador de orgones. Ginsberg então fica puto por não estar lá, por ter se perdido no caminho, em busca do “grande poema”, e teria que ser antes de fazer 23 anos, pois dos 30 para frente a fruição jovem dá lugar a uma dureza de expressão que tem muito de ritmada, mas não proclama mais as vísceras do tempo, do seu próprio tempo, o tempo do mundo dentro da cabeça e do tempo do artista, depois são ondas, ondas grandes, mas o grande maremoto, o poema do apocalipse, este só uma cabeça jovem poderia fazer, e nada mais restaria senão ecos desta grande hecatombe, o caos que Ginsberg percorria era “jazzy” e delirava como um cão fugido do cativeiro, mas “o cara” mesmo era Neal e sua jovem cabeça de poeta sem escrita, de poeta da vida e não da palavra, arranhando biografias inacabadas e morrendo num trilho depois de cair ébrio num colapso físico que lhe esperava com as mãos ansiosas.
   A tragédia remonta novamente na prosa beat, Kerouac morre no seio materno com delírios republicanos e sede alcoólica que lhe mata de tanto que ficou na frente da televisão. Ginsberg sobrevive, Ferlinghetti edita toda a loucura daquela América que vinha de Mark Twain e Thomas Wolfe, de onde Kerouac surgiu e depois desaguou na onda de um trompete de Dizzie Gillespie e no ritmo sincopado e frenético de outro trágico da heroína, mais um, o sax-alto Charlie Parker, que voava como Bird em seu horse que lhe envelheceu na casa dos trinta. A música sempre foi a grande aliada da literatura, a música é a grande arte, a literatura dos boêmios é só um reflexo dos tímpanos, a escrita precisa do delírio auditivo para eclodir, e a onda só vem no topo de gênios musicais.

                   Passava por Denver, encontro a rapaziada,
                   Todos bêbados, loucos para viajar,
                   Passava por New Orleans, Old Bull Lee
                   Ensinava o caminho para os novatos,
                   A estrada era longa, a metafísica da estrada!
                  O “conhece-te a ti mesmo” sobre rodas,
                  A poeira deixada pelo acelerador
                  Como a cosmologia fundamental
                  Que compõe o poema
                  Que nasce no reflexo de um trompete,
                  No frigir de um sax, no estalo
                  Do vento na cara e na luta por viver
                  De uma maneira louca, o modo dos
                 Corajosos, os idiotas que são espertos,
                 Os que contam o dinheiro que acaba
                 Antes do destino, a gasolina que se perde
                 Na velocidade do risco, Neal pilotando
                 Sua nau de quatro rodas e motor turbinado,
                 A navegação dá lugar à estrada,
                 A viagem de Rimbaud à África
                 Transmutada em raio cósmico
                  Na estrada rumo ao Oeste mítico,
                  No fim a vastidão do Pacífico,
                  Os olhos no horizonte sem fim,
                   A estrada dos olhos no fim da
                   Estrada de chão,
                   Ginsberg grita bêbado,
                   Kerouac toma benzedrina
                   Para acreditar no que via,
                   Neal cheira gasolina,
                   Burroughs sorri em sua casa
                   Depois de mais um pico
                   Para embarcar no horse místico,
                   A geração beat estava pronta,
                   Kerouac já estava em condições
                   De escrever a sua grande história,
                   Neal, o herói, Burroughs, o mestre,
                   Ginsberg, o poeta ideal em busca
                    Do grande poema que seria
                    A consumação de toda a metafísica
                    De todos os poemas e poetas do mundo
                    Num atingir infalível do “It” do Jazz.

   Eu passo pelas notas febris de On The Road, tudo brilha como fogo na montanha do miasma frenético dos poemas de Ginsberg, misturo O Uivo com Miles Davis e dá pura poesia nova! A guerra já se foi como tema, coisa de menino que fuma erva. A nota do It agora é a meta, não há o grande poema, o que tem mesmo é a festa da palavra, e tudo consuma para além da palavra, estrangulamento da linguagem no eletro-choque da música, o não-verbal do Jazz invadindo a palavra que vasa dos poros da mente à mão e daí ao papel, que importa! Vamos em frente! Vamos! Pela última nota que será sempre a primeira, por todas as palavras que sempre serão transcendência, magia e poesia totalizante, vamos deglutir os morfemas e trazer na sonora canção a flor revolta da paixão que sorri na tarde que brilha nos dentes, pois da estrada até a praia, do mar até o horizonte, tudo é poesia!
(POEMA EM PROSA)

26/09/2012

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/ensaio-beat



      

 

 

 


domingo, 16 de setembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA : ENTRE O RELIGIOSO E O PROFANO


“Tal contradição, por conseguinte, será a marca do homem seiscentista e barroco”

Gregório de Matos Guerra, embora tenha produzido muitos poemas, não publicou um único livro em vida. Sua produção foi dispersa, entre manuscritos, cópias estropiadas de admiradores, sendo questionada autoria e autenticidade, em uma época que escritos de diversas origens circulavam sem autoria comprovada.
A produção poética de Gregório se conhece, na História, pelo traslado que se deu entre manuscritos organizados em códices que, contudo, eram contraditórios ou divergentes entre si.
Num esforço feito por Afrânio Peixoto, a Academia Brasileira de Letras conseguiu reunir os poemas de Gregório em seis volumes, que foram então compilados com o título de Obras Completas. Já em 1969 temos novos poemas entrando no espólio e então James Amado faz uma versão da produção de Gregório agora em sete volumes. E que se tornou dois volumes em 1992 sob o título Obras Poéticas, já fundamentada em maior número de códices.
A produção poética de Gregório, em sua temática, temos a sua divisão principal entre poemas religiosos e poemas profanos. Temos, por conseguinte, em seus poemas religiosos, uma unidade maior em características, tendo então esta poesia um caráter que não necessitava de novas divisões.
Por sua vez, na poesia profana de Gregório, dada a sua diversidade maior de características, podemos situá-las entre poemas amorosos, encomiásticos, satíricos e de circunstância.
Essa divisão da poesia de Gregório retrata também a divisão anímica do homem barroco, entre a metafísica e a carnalidade, entre os anseios espirituais e os impulsos naturais, que na poesia de Gregório vai se dar entre temas religiosos e profanos, como dito. Tal contradição, por conseguinte, será a marca do homem seiscentista e barroco.
POEMAS :
A CHRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA. : O poeta, em franco drama e derramamento barroco, se encontra aqui entre a vida e a morte, e também entre o pecado e a salvação, no que segue : “Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,/Em cuja lei protesto de viver,/Em cuja santa lei hei de morrer” (...) “Neste lance, por ser o derradeiro,/Pois vejo a minha vida anoitecer,/É, meu Jesus, a hora de se ver/A brandura de um Pai manso Cordeiro./Mui grande é vosso amor, e meu delito,” (...) “Esta razão me obriga a confiar,/Que por mais que pequei, neste conflito/Espero em vosso amor de me salvar.”. O poema é uma prece ou pedido do poeta diante da divindade que lhe proporcione o descanso dos justos e não o tormento infinito reservado aos pecadores no inferno. O poema ganha esta tensão que será bem comum na poesia religiosa de Gregório.
AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO : Segue aqui um dos trechos de versos mais célebres da pena gregoriana, no que temos, em júbilo : “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,/Da vossa piedade me despido,/Porque quanto mais tenho delinquido,/Vos tenho a perdoar mais empenhado/Se basta a vos irar tanto um pecado,/A abrandar-vos sobeja um só gemido,/Que a mesma culpa, que vos há ofendido,/Vos tem para o perdão lisonjeado.”. O poeta se volta aos céus em sua contradição espiritual de poeta pecador e despido, no que segue : “Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada/Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,/Perder na vossa ovelha a vossa glória.”. O poeta anseia pela glória, de ser uma ovelha que a divindade não quereria perder ao abismo da morte e da maldade.
AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR. : O poema mais uma vez revela a contradição do homem barroco e seiscentista, encarnado aqui no poeta Gregório, que se bate entre céu e inferno, e temos : “Tremendo chego, meu Deus,/ante vossa divindade,/que a fé é muito animosa,/mas a culpa mui cobarde.” (...) “Como comerei de um pão,/que me dais, porque me salve?”. Anseio de salvação que torna aqui em estro metafísico, poema religioso, pois, no que segue : “de um pão, que é tão formidável/vendo, que estais todo em tudo,/e estais todo em qualquer parte?”. E a especulação se volta aos desígnios divinos, no que tem : “Senhor, eu não vos entendo;/vossos preceitos são graves,/vossos juízos são fundos,/vossa ideia inescrutável.” (...) “só sei, que importa salvar-me.”. E o poema segue então diante dos anjos do Senhor, em louvação e glória em que o poeta tenta acudir os brutos em sua oração e poema, e até aos montes e vegetais, numa louvação universal, no que temos, por fim : “Os Anjos, meu Deus, vos louvem,/que os vossos arcanos sabem,/e os Santos todos da glória,/que, o que vos devem, vos paguem./Louve-vos minha rudeza,/por mais que sois inefável,/porque se os brutos vos louvam,/será a rudeza bastante./Todos os brutos vos louvam,/troncos, penhas, montes, vales,/e pois vos louva o sensível,/louve-vos o vegetável.”
CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRÁVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS : O poema aqui se configura com a natureza terrena do humano que, contudo, tenta alcançar a glória do céu como seu destino, e não a terra que lhe forma e que lhe dá o caráter mortal de pó, no que temos : “Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,/Te lembra hoje Deus por sua Igreja,/De pó te faz espelho, em que se veja/A vil matéria, de que quis formar-te./Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,”. E o poema finaliza entre salvação e natureza terrena, no que tem : “Todo o lenho mortal, baixel humano/Se busca a salvação, tome hoje terra,/Que a terra de hoje é porto soberano.”
AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS
QUANDO APPARECEO. : O poema vai entre a parte e o todo, no que faz então um tipo de teoria poética sobre a divindade, no que vem : “O todo sem a parte não é todo,/A parte sem o todo não é parte,/Mas se a parte o faz todo, sendo parte,/Não se diga, que é parte, sendo todo./Em todo o Sacramento está Deus todo,”. E Jesus aqui é todo e não parte, o sacramento se dá inteiro, e então temos : “O braço de Jesus não seja parte,/Pois que feito Jesus em partes todo,/Assiste cada parte em sua parte./Não se sabendo parte deste todo,/Um braço, que lhe acharam, sendo parte,/Nos disse as partes todas deste todo.”.
MOTE 13 : O poema pinta bem a paixão do Senhor, e temos em versos delicados um trajeto que deseja a luz divina, no que temos :“Já requintada a fineza/nesse Pão sacramentado/temos, Senhor, ponderado/vossa inaudita grandeza :” (...) “Permiti por vossa cruz,/por vossa morte, e paixão,/que entrem no meu coração/os raios da vossa luz :/clementíssimo Jesus/sol de imensa claridade,/sem vós a mesma verdade,/com que vos amo, periga;/guiai-me, porque vos siga,/Ó divina Majestade.”. E Deus se fez Homem, a imagem do cordeiro então humaniza a divindade, e finaliza o poema, com júbilo : “na forma rendida/de um cordeiro a Majestade/aos olhos da humanidade/melhor a potência informa,/sendo cordeiro na forma,/Que sendo Deus na verdade.” (...) “que sendo Deus infinito,/Sois também Pão na aparência.”.
CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA CONTA, E VIDA RELAXADA. : O poema clama contra a morte em pecado que pode roubar a salvação do poeta, no que temos : “Ai de mim! Se neste intento,/e costume de pecar/a morte me embaraçar/o salvar-me, como intento?” (...) “Valha-me Deus, que será/desta minha triste vida,/que assim mal logro perdida,/onde, Senhor, parará?”. O poema segue seu rumo e teme pelo assédio diabólico, no que temos : “Que desculpa posso dar,/quando ao tremendo juízo/for levado de improviso,/e o demônio me acusar?” (...) “Nome tenho de cristão,/e vivo brutalmente,” (...) “Sempre que vou confessar-me,/digo, que deixo o pecado;/porém torno ao mau estado,/em que é certo o condenar-me :”. O poeta faz confissão, mas retorna ao seu próprio mal, no que temos : “Mas se tenho tempo agora,/e Deus me quer perdoar,/que lhe hei de mais esperar,/para quando? Ou em qual hora?/que será, quando traidora/a morte me acometer,/e então lugar não tiver/de deixar a ocasião,/na extrema condenação/me hei de vir a subverter.”. A subversão e a condenação são o temor deste poema inteiro, pois.
POEMAS :
A CHRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA.
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história :
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR.

Tremendo chego, meu Deus,
ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que é tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me :
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa ideia inescrutável.
Eu confuso neste caso
Entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
E pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares :
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável.

CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRÁVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS
Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja,
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta pois, que o vento berra,
E se assopra a vaidade, e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina, e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS
QUANDO APPARECEO.

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

MOTE 13
Ó divina Onipotência!
Ó divina Majestade!
que sendo Deus na verdade
sois também pão na aparência.

Já requintada a fineza
nesse Pão sacramentado
temos, Senhor, ponderado
vossa inaudita grandeza :
mas o que apura a pureza
da vossa magnificência
é, quererdes, que uma ausência
não padeça, quem deixais,
pois que partindo ficais,
Ó divina Onipotência.

Permiti por vossa cruz,
por vossa morte, e paixão,
que entrem no meu coração
os raios da vossa luz :
clementíssimo Jesus
sol de imensa claridade,
sem vós a mesma verdade,
com que vos amo, periga;
guiai-me, porque vos siga,
Ó divina Majestade.

Na verdade esclarecida
do vosso trono celeste
toda a potência terrestre
de compreender-vos duvida :
porém na forma rendida
de um cordeiro a Majestade
aos olhos da humanidade
melhor a potência informa,
sendo cordeiro na forma,
Que sendo Deus na verdade.

Cá neste trono de neve,
onde humanado vos vejo,
melhor aspira o desejo,
melhor a vista se atreve :
aqui sabe, o que vos deve
(vencendo a maior ciência)
amor, cuja alta potência
adverte nesse distrito,
que sendo Deus infinito,
Sois também Pão na aparência.

CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA CONTA, E VIDA RELAXADA.

Ai de mim! Se neste intento,
e costume de pecar
a morte me embaraçar
o salvar-me, como intento?
que mau caminho frequento
para tão estreita conta;
oh que pena, e oh que afronta
será, quando ouvir dizer :
vai, maldito, a padecer,
onde Lucifer te aponta.

Valha-me Deus, que será
desta minha triste vida,
que assim mal logro perdida,
onde, Senhor, parará?
que conta se me fará
lá no fim, onde se apura
o mal, que sempre em mim dura,
o bem, que nunca abracei,
os gozos, que desprezei,
por uma eterna amargura.

Que desculpa posso dar,
quando ao tremendo juízo
for levado de improviso,
e o demônio me acusar?
Como me hei de desculpar
sem remédio, e sem ventura,
se for para aonde dura
o tormento eternamente,
ao que morre impenitente
sem confissão, nem fé pura.

Nome tenho de cristão,
e vivo brutalmente,
comunico a tanta gente
sem ter, quem me dê a mão :
Deus me chama co perdão
por auxílios, e conselhos,
eu ponho-me de joelhos
e mostro-me arrependido;
mas como tudo é fingido,
não me valem aparelhos.

Sempre que vou confessar-me,
digo, que deixo o pecado;
porém torno ao mau estado,
em que é certo o condenar-me :
mas lá está quem há de dar-me
o pago do proceder :
pagarei num vivo arder
de tormentos repetidos
sacrilégios cometidos
contra quem me deu o ser.

Mas se tenho tempo agora,
e Deus me quer perdoar,
que lhe hei de mais esperar,
para quando? Ou em qual hora?
que será, quando traidora
a morte me acometer,
e então lugar não tiver
de deixar a ocasião,
na extrema condenação
me hei de vir a subverter.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-entre-o-religioso-e-o-profano
       

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MUSEU NACIONAL


“muito trabalho árduo foi perdido junto com a História”

Este museu mora na minha memória afetiva. Lembro de ter uns nove anos, e depois de uma excursão de minha escola num museu no interior do Espírito Santo, acho que um lugar com pássaros, se não me engano, cheguei nas férias de verão no Rio de Janeiro, e falei com meu pai que queria conhecer museus do Rio. Dentre idas a vários museus, lembro bem da Casa de Rui Barbosa, do Palácio do Catete e, claro, do Museu Nacional.
Fui ao Museu Nacional com meu pai e vi todo seu acervo, e eu era uma criança curiosa e devo ter, realmente, visto tudo que tinha no museu, passando pelos ossos montados de dinossauros logo na entrada, muita coisa de história natural, passando pelo setor do Egito Antigo, objetos históricos da família imperial, acho que foi no museu nacional que vi uma múmia de uma mulher sem nariz, e quando eu contei a história na minha escola já em Vitória, uma menina achou que era mentira, a múmia, se não me engano, era de uma esquimó.
Lembro que já na saída do museu, no parque da Quinta da Boa Vista, na porta do museu, começou uma briga homérica de um casal, daquelas brigas bem baixaria, e todos ali ficaram assistindo, e eu e meu pai também, uma coisa escandalosa da qual me lembro que encerrou a nossa visita naquele museu maravilhoso, o ano provavelmente deve ter sido 1991, e foi a fase em que eu comecei a ler a série de livros Conhecer Atual, no que um dia levei o livro 1 que tinha reprodução humana para a minha sala na escola, e os meninos puderam ver uma cena científica de sexo no contexto do conhecimento reprodutivo.
Bom, voltando ao tema aqui, claro, me refiro a tragédia do incêndio que destruiu o Museu Nacional e que é fruto do descaso do Brasil com a cultura, um país que vive só de momentos e que ignora a História, a memória e a cultura, e que nutre um desprezo pelo conhecimento que pude sentir dando aula para algumas turmas (não todas) de adolescentes, e que é reflexo tanto do momento que vive o país, como de uma certa alienação pela tecnologia, a qual poderia ser uma ferramenta do conhecimento, mas que também pode ser nociva ao se ter alunos tirando selfies no meio da aula.
A questão da verba pública logo foi levantada, a falta de recursos para os museus no Brasil, aqui tomando o exemplo trágico do Museu Nacional, num cenário, agora falando do Rio de Janeiro, em que temos um esqueleto do MIS (Museu da Imagem e do Som) em Copacabana, o qual sempre contemplo nas minhas caminhadas pela praia, e um investimento poderoso que houve no Museu do Amanhã.
Há todo o questionamento de se a UFRJ tem mesmo capacidade de financiar o Museu Nacional, muito se falou da verba que viria do BNDES, e se a iniciativa privada não poderia ter solucionado um problema de orçamento que vinha desde 2014, ou ainda se a UFRJ não deu prioridade ao museu, o que é inviável falar em prioridade em qualquer coisa num orçamento engessado que vai todo para pagar servidores, e que aumentou nos últimos anos da UFRJ. Se o MinC não teria sido também tolhido, como sempre, das prioridades da União, etc, etc.
Não culpo a UFRJ pelo acontecido, mesmo com todo o cenário de abandono que também inclui aqui a casa de shows Canecão, que está parada sem ter nada há anos. O problema eu julgo de prioridades de uma forma geral, o problema de uma postura cultural que não dá valor mesmo ao que se tem de patrimônio histórico e natural no país, e que vive de obras superfaturadas ou de iniciativas que acabam sem terminar e ficam em compasso de espera, como o caso que falei do MIS (Museu da Imagem e do Som).
E vemos então este fenômeno comum de comoção (justificada e legítima) mas que vem sempre depois da tragédia, tendo manifestações impostadas, de outro lado, por políticos em campanha que logo querem se promover como súbitos arautos da cultura nacional, e que agora virou cinzas naquela noite trágica da Quinta da Boa Vista, em que o abandono que já vinha sendo alertado há alguns anos não foi devidamente combatido com iniciativas que solucionassem o problema de financiamento para  a manutenção e incremento de eventos do museu, cujo último presidente da República a pisar lá foi Juscelino Kubitschek, e agora temos os tais paladinos da cultura depois do que foi consumido pelo fogo.
Todo um repertório de pesquisas científicas e antropológicas virou cinzas, tudo foi embora, alguns poucos setores se salvaram, como o herbário, o meteorito Bendegó, como símbolo de resistência, em meio a devastação feita pelo fogo, todo um trabalho de várias pessoas que não guardavam apenas um passado, não apenas um lugar que completa 200 anos de História, mas que tinha um compromisso com o futuro, muito foi perdido, coisas únicas, temas, arquivos, objetos, natureza, todo um trabalho voltado para o futuro, o registro que existia só ali, seja de história natural, seja de antropologia social, muito trabalho árduo foi perdido junto com a História do próprio lugar, e de sua potência simbólica, que agora grita como tragédia cultural.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/museu-nacional 





segunda-feira, 10 de setembro de 2018

JORGE LUIS BORGES, OS CAMINHOS DA METÁFORA


“os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo”

INTRODUÇÃO

Temos aqui, neste texto, partes resenhadas de uma palestra borgiana que veio a se tornar livro, Esse Ofício do Verso, e se trata de palestras proferidas em inglês por Jorge Luis Borges nos anos de 1967 e 1968 na Universidade de Harvard, e aqui temos a digressão do escritor sobre questões que tocam ao estudo linguístico e a literatura, numa riqueza de erudição própria do saber que podemos chamar sui generis da percepção intelectual borgiana.

O ENIGMA DA POESIA

Borges começa tratando da palavra enigma já dizendo que não tem nada a revelar neste sentido, que o mistério que cerca a poesia como um todo não é facultado a seu intelecto desvelar, portanto, aqui já de saída desmistifica-se a poesia e seu enigma, uma vez que o saber borgiano discorre mais etimologicamente sobre o tema do que sobre um suposto dom revelador de um adivinho das letras que Borges logo refuta.
Portanto, a postura de Borges diante da poesia é muito mais lúdica, de perplexidade, isto é, de um leitor que tem dúvidas sobretudo, do que de um conhecedor profundo de arcanos que na verdade não existem, pois o intelecto borgiano funciona aqui muito mais como um documento do que um fundamento para a análise da poesia.
E, falando da perplexidade, Borges nos convida ao próprio espanto histórico de que se fez e com a qual se edificou todo o saber filosófico, pois desde as origens do pensamento reflexivo da filosofia temos o espanto, aqui em Borges com a palavra perplexidade, a qual alimentou as especulações filosóficas desde os hindus, chineses, gregos, escolásticos, seja já na filosofia moderna com Berkeley, Hume, Schopenhauer, etc, tal sentimento de dúvida que Borges nos faz saber e compartilha como o começo de sua reflexão sobre o estro poético.
Na análise borgiana temos sobretudo a refutação da ideia ou conceito de forma e conteúdo como expressão, esta que vem da estética, e que está aqui bem citada no livro de estética de Benedetto Croce, área teórica que toma poesia e linguagem segundo o conceito de expressão, num modo de ver que Borges julga equivocado, pois se descola da coisa própria, a poesia aqui vira um fato para a teoria, mas Borges tenta situá-la em seu terreno, a vida.
Borges nos cita John Keats em seu famoso e batido soneto “On first looking into Chapman`s Homer”, o qual é, na fala de Borges, “um poema escrito a respeito da própria experiência poética”. Aqui vigora não a comunicação tomada como tal, mas uma paixão e um prazer, no qual Borges se vê impactado e impressionado não somente em seu intelecto como “com todo o meu ser, minha carne e meu sangue”.
E, fenômeno comum a um leitor, a primeira impressão ao ler um poema impactante nunca se repetirá, isto é, a primeira leitura de um poema causa ao leitor algo tão intenso em termos de deleite e paixão, que não se repetirá em leituras posteriores, já esfriadas por um conhecimento de causa. Contudo, Borges, mesmo diante desta evidência, ainda tenta nos fazer crer que a leitura de um poema se renova e que é possível termos “uma experiência nova a cada vez” com a poesia.
Borges lembra da importância da memória e do saber oral nos inícios da Antiguidade e como isto evoluiu para escritas sagradas como a Bíblia e o Alcorão, sendo aqui o sagrado como escrita do Espírito Santo, por exemplo, quando falamos das Sagradas Escrituras, e atributo do próprio Deus, quando falamos do Alcorão. E segue a leitura de Borges então sobre os clássicos, que lhe são mais caros pela beleza do que necessariamente por sua tomada imortalidade histórica.
E a experiência de beleza passa aqui por uma operação etimológica que se modifica a cada tempo e que na leitura poética tem em palavras de origens diversas uma leitura própria nestes contextos em que a poesia se exerce. A poesia ganha aqui impacto próprio, mesmo em diversas experiências de tradução pelas quais passe. Quando Borges nos diz da beleza, ele nos diz da permanência da poesia.

A METÁFORA

Borges logo nos dá o fenômeno inusual de que as combinações metafóricas se nos dão como infindáveis, mas que temos contudo o fenômeno usual de que muitos de nossos poetas se utilizam geralmente de metáforas surradas que se repetem pelos anos, no que Borges nos dá este paradoxo em que a amplitude da língua se limita, talvez, quando tratamos desta na língua poética.
Borges segue a sua análise e tem em conta que a metáfora se dá tal qual, isto é, funciona sempre para a percepção do leitor como ela é, ou seja, uma metáfora. Podemos até bem citar a análise borgiana das palavras poéticas como espécies de palavras-valise (aqui lembrando uma leitura exógena carroliana que aqui o resenhista inclui por contra própria) e temos então usos que se dão em metáforas que fluem diversamente, independentemente de condições lógicas prestabelecidas, mas do uso diverso feito pelos poetas e suas idiossincrasias simbólicas feitas pelo estro em ação, e que Borges nos dá exemplos como pela palavra noite, ampla em seu ir e vir pelas metáforas em seu sentido e uso.
Contudo, embora Borges nos dê a diversidade da palavra noite como metáfora, nos dá a entender também, por conseguinte, a limitação das metáforas surradas em palavras como lua, rio e pela manjadíssima comparação das mulheres com flores num estro romântico desavisado em língua-clichê que a poesia sempre conflui para o bem ou para o mal. Temos que a metáfora surrada dos poetas é um limite não linguístico, mas estilístico, em que o poeta é escravo de seu próprio estilo e não tem para onde ir.
E Borges segue a sua análise comparando o argumento filosófico em seu conteúdo lógico como insuficiente diante da verdade metafórica encontrada na poesia, e temos que Borges vê um discurso filosófico como o de Martin Buber, por exemplo, tendo mais valor como algo de beleza poética ou sonora como de um argumento filosófico propriamente dito, o que leva Borges a viver em Walt Whitman, por conseguinte, uma medida que ele usa para chancelar sua análise de que a poesia é mais convincente do que as ideias racionais, pois estas estão sem o brilho da beleza que a poesia proporciona.
E Borges nos dá sinais na poesia que atuam como velhos encantamentos que passam com o tempo a configurar truques de obviedade de modelos limitados de metáforas na poesia, desde afetações gongóricas do repertório barroco ou ainda imagens reiteradas de um estro romântico byroniano, por exemplo.
O que temos, por fim, dados exemplos de poetas históricos, é que os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo, “novas variações das principais tendências” em que temos o paradoxo dos modelos limitados, quase truques, com a inovação possível ainda por novos poetas históricos em correntes ou tendências ainda inauditas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/jorge-luis-borges-os-caminhos-da-metafora