PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 31 de março de 2018

O LIVRO DISCUSSÃO DE JORGE LUIS BORGES – PARTE II

“a amplitude de um texto canônico não sofre com a ação livre de um tradutor”

A DURAÇÃO DO INFERNO

Jorge Luis Borges se confronta aqui com um dogma que lhe é incômodo, e creio ser um dos argumentos mais contra-intuitivos e perturbadores tanto do dogma católico do inferno, como da ideia geral que se tem de castigo infinito. O campo especulativo aqui tem um entrave filosófico diante de uma intenção religiosa dogmática que ignora o fim e o processo como algo provisório. Quando Borges nos diz, abrindo seu texto : “Especulação que vem se tornando cansativa com o passar dos anos, essa do Inferno.” Aqui ele já acusa a ideia de inferno incessante como algo tanto enfadonho como exaustivo, isto é, se cansa de pensar sobre ou imaginá-lo, este inferno em que o castigo é perene, burlando qualquer conceito mais verossímil de justiça divina.
E Borges então ainda nos lembra, e isto com a ideia crítica embutida que ele logo explicará, que já havia um inferno físico, as fogueiras eclesiásticas do Santo Ofício, aqui, este sim, um tormento temporal, e que Borges logo nos diz ser “uma metáfora do imortal e da dor perfeita sem destruição que conhecerão para sempre os herdeiros da ira divina”.
Nem Dante, segundo Borges, segue tal entusiasmo por uma ideia tão cruel, e então o autor Borges se depara com um dogma que se desgasta, e temos então o episódio irônico, já no século XIX, de um poeta como Baudelaire, que trata tal dogma com ironia, fazendo do inferno o seu ideal, simulando uma adoração do castigo, mas que no contexto do poeta francês é somente mais um sintoma da decadência de tal dogma diante da realidade e da ideia de justiça divina, mais uma vez.
E Borges então nos esclarece, dizendo : “a noção de inferno não é privativa da Igreja católica (...) seja o inferno um dado da religião natural ou apenas da religião revelada, o certo é que para mim nenhum outro assunto da teologia tem igual fascinação e poder”. Borges então desfaz a ilusão do senso comum de uma ideia primária de fogo, espetos e tenazes, imagem desgastada por escritores e autores, e que carrega também o conceito precípuo de “lugar de castigo eterno para os maus”. E o que vira objeto de conflito e contestação, tanto por parte de Borges, como de vários outros, é a ideia de eternidade da pena.
Borges, então, levanta o argumento do teólogo evangélico Rothe, em 1869, de que “eternizar o castigo é eternizar o Mal”. Pois se tem uma ideia mais cara contra o que seja o inferno como castigo eterno, que é a ideia mais clara de uma teologia que sabe que a criação do mundo é obra de amor, e a predestinação entra nesta ideia como o destino universal da glória.
Por fim, aqui se conclui a posição borgiana diante de tal inferno : “Creio que no nosso impenetrável destino, em que regem infâmias como a dor física, todas as coisas extravagantes são possíveis, até mesmo a perpetuidade de um Inferno, porém acredito também que é uma irreligiosidade crer nele”.

AS VERSÕES HOMÉRICAS

Temos uma certa relatividade em relação com a inferioridade das traduções, para Borges, uma superstição, mesmo que lhe tenha passado a questão da tradução de Quixote como algo que não destroça o texto original, ao contrário de um poema de Gôngora, temos também o fato de que a tradução não deve ser um fator negativo em relação com os textos originais, uma vez e até mesmo quando estes texto originais se perdem no tempo, como quando se fala de textos da Antiguidade como  nos exemplifica Borges com a Odisseia de Homero.
Ou seja, da relatividade da qualidade de tradução, passamos à constatação borgiana de que a amplitude de um texto canônico não sofre com a ação livre de um tradutor, pois já quando um leitor se volta para um clássico como é a Odisseia, já teremos ouvido sobre a obra tanto e de tal maneira, que sempre que alguém se volta para textos como a Odisseia de Homero ou mesmo trechos bíblicos, já se trata de uma segunda leitura.
E ficamos com o fenômeno de que a tradução, neste caso, não tem o que destruir, pois o cânone é indestrutível, e seu caráter de mensagem já foi passado, já está cristalizado na consciência histórica, e a tradução, qualquer que seja o estilo ou método desta, só dá seguimento a um texto que não tem mais como desaparecer, mesmo que seus originais antigos sejam completamente desconhecidos da leitura contemporânea.
A riqueza e amplitude da tradução estão aqui desde já garantidas, as relações de grandezas da obra são abertas e plenamente adaptáveis. Há várias versões da Odisseia de um lugar incógnito e universal da obra que, no entanto, não se desfez.

NOTA SOBRE WALT WHITMAN

A busca de um livro absoluto, um livro que funcione como um tal arquétipo platônico que reúna em si todos os livros foi um sonho e uma prática de muitos autores, no que partimos de um Apolônio de Rodes, por exemplo, passamos por Camões, as transmigrações pitagóricas da alma em Donne, e a grandeza de um Milton que se dá com as culpas e o Paraíso, todos em busca de grandeza, tomar a obra absoluta pelo que ela implica de clichê, uma enormidade que tenha toda a História e toda a mitologia contida dentro dela.
Apenas quando Gôngora subverteu este conceito de livro absoluto como aquele que comporta uma grandeza histórica ou civilizatória, temos então esta ruptura do autor que nos dá este livro absoluto tratando de coisas frívolas que é o Soledades. O extremo então chega à Mallarmé que vai além do trivial e nos dá uma poesia sobre negativos, sobre ausências. Aqui o poeta segue a ideia de que as artes tendem à música, esta arte em que a forma é o fundo.
Temos ainda casos como o de Yeats que, em certo momento da virada para o século vinte, tenta flertar com um tipo de memória geral ou genérica da humanidade, que antecipa de certo modo os ulteriores arquétipos de Jung. E ainda, de outro lado, atos fundantes do Homem passam pela engenharia de Finnegan’s Wake, com a simultaneidade desta obra em relação com épocas diferentes, obra de Joyce que encerra um trajeto imenso do autor. E ainda, por fim, na poesia, temos Pound e T.S.Eliot no manejo poético de anacronismos para a construção de uma poesia de expressão aparente de eternidade.
Mas, em se tratando de Whitman, em 1855, temos aqui, as palavras do poeta inglês Lascelles Abercrombie, que diz : “Whitman extraiu de sua nobre experiência essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisa grandes da literatura moderna : a figura dele mesmo”.
E temos um autor, Whitman, que Borges compara com sua biografia e sua obra, como um Ulisses que conta grandes feitos, mas que na sua vida real nunca saíra de Ítaca. As biografias de Whitman então são sempre este contraste gritante entre o autor e a pessoa, e Borges então nos denuncia que existem dois Whitmans : “o amistoso e eloquente selvagem de Leaves of Grass e o pobre literato que o inventou”. Por fim, Borges então constata, quando se fala de poesia e de poetas, que : “Byron e Baudelaire dramatizaram, em volumes ilustres, suas desgraças; Whitman, a sua felicidade”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38191/17/o-livro-discussao-de-jorge-luis-borges-parte-ii










terça-feira, 27 de março de 2018

O MODERNISMO E A SEGUNDA GERAÇÃO COM AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

“Com o Modernismo temos então um projeto de reformulação na criação literária”

O Modernismo é o nome do movimento de renovação cultural e literária no Brasil que se deu a partir da Semana de Arte Moderna, esta que foi realizada em fevereiro de 1922, em São Paulo, sob influência da vanguarda europeia, sobretudo o futurismo, este vindo dos ares de Paris.
Com o Modernismo temos então um projeto de reformulação na criação literária e no campo da arte como um todo, que vai romper com o exaurido Parnasianismo, velharia literária, a esta altura, que vinha carregada de erudição afetada e esteticismo tradicional exagerado.
Seguindo a nova mentalidade de vanguarda, os artistas e escritores brasileiros da década de 20 resolvem então realizar em São Paulo durante três dias, em fevereiro de 1922, sob a direção de Mário de Andrade, contando com figuras como Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, a hoje celebrada Semana de Arte Moderna. Movimento este que se expandiu e ganhou novos adeptos como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
Dentre vários movimentos decorrentes do Modernismo, temos um predomínio dos temas nacionais, como o Pau Brasil, e também uma veia espiritualista, na qual se destacam escritores como Jorge de Lima, Murilo Mendes e Tasso da Silveira.
E vemos também a eclosão, posteriormente, de uma segunda geração de escritores, a Geração de 1930, com figuras como Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes que, por sua vez, se empenham a um retorno aos temas universais, com menos ímpeto nacionalista, mas mantendo, na forma, a poesia moderna e de vanguarda, mas que era, também, um tipo de poesia reflexiva, mais serena.

POEMAS :

MAR DESCONHECIDO (1942)

MAR DESCONHECIDO : O poeta aqui sente o mar dentro de si, e ele sente este volume que lhe faz ficar em prece, o poeta busca aqui a serenidade que ele julga por orações intraduzíveis, no que segue : “Sinto viver em mim um mar ignoto,/E ouço, nas horas calmas e serenas,/As águas que murmuram, como em prece,/Estranhas orações intraduzíveis.”. E o poeta segue, avante, no que ele agora então liga o mar com a música, em uma harmonia que lhe traz este poema que aqui ele nos dá, no que temos : “Sinto viver em mim um mar de sombras,/Mas tão rico de vida e de harmonias,/Que dele sei nascer a misteriosa/Música, que se espalha nos meus versos,/Essa música errante como os ventos,/Cujas asas no mar geram tormentas.”.

SONETO A CAMÕES : O soneto nos aparece aqui como a forma que é recuperada pela geração de Schmidt, depois de uma primeira onda de vanguarda modernista, e é aqui um soneto dedicado a Camões, um dos cânones da língua portuguesa, no que temos : “As tuas mágoas de amor, teus sentimentos/Diante das leis que regem nossas vidas,” (...) “As tuas dores de amar sem ser amado,/De procurar um bem que não se alcança,/E no canto clamar desesperado/Pelo que nunca vem quando se busca.” (...) “As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,/Como uma fonte, ficarão chorando/Dentro da língua que tornaste eterna.”. As dores de amor, as desditas de um coração amante, e que flui como a língua eterna camoniana, o maior de todos na poesia tradicional portuguesa, pois.

CONHECESTE AS HORAS ... : O poema se debruça sobre a amada e lamenta o infortúnio, as horas amargas que cita o poema, em que se deu uma luta sem consolo, no que temos : “Conheceste as horas amargas e monótonas,/Conheceste o amor infeliz e sem glória,/Conheceste a luta sem consolo,/E a pobreza velou sempre teu sono./Teu corpo frágil sofreu um dia duramente,/E sentiste o mundo insensível e perdido/Para a tua inocente ambição./O pouco com que sonhaste esteve longe./Sempre longe de ti, ó triste amada.”. E o poema tem um esgar de luz, talvez um consolo inútil, que traz ao poeta a doçura do olhar, ou ainda a voz e o afago que conforta a alma amante deste poeta que cita as horas diante da fragilidade, no que segue : “No entanto, o teu olhar é bom e simples,/E a tua voz, meu amor, é clara e doce,/E o afago de tuas mãos é inocente e feliz!”.

ELEGIA : A elegia, sempre ligada ao luto e à morte, nos dá esta beleza que canta o poeta, fascinado, no que temos : “Tua beleza incendiará os navios no mar./Tua beleza incendiará as florestas./Tua beleza tem um gosto de morte./Tua beleza tem uma tristeza de aurora.”. O gosto de morte e a tristeza da aurora, eis que o poeta segue no seu gesto de idolatria de sua figura amorosa, no que segue : “Tua beleza é uma beleza de rainha./Dos teus gestos simples, da tua incrível pobreza,/É que nasce essa graça/Que te envolve e é o teu mistério.” (..) “Nasceste para o amor :/E os teus olhos não conhecerão as alegrias,/E os teus olhos conhecerão as lágrimas sem consolo.”. E o poeta então faz a junção desta beleza que ele canta com o mistério, no que temos :  “De ti é que nasce esse sopro misterioso/Que faz estremecer as rosas/E arrepia as águas quietas dos lagos./Incendiarei florestas, incendiarei os navios no mar,/Para que a tua beleza se revele/Na noite, transfigurada!”. A beleza na noite, transfigurada, que incendeia os navios do mar, é um fenômeno que agita o poeta, ele que se rende ao poder estético que ele nos mostra neste poema.

FONTE INVISÍVEL (1949)

MARINHA : O poeta vê o navio e o mar, e o trajeto ele desenha neste poema, que vem : “Vi teu navio passar./Era um triste cargueiro/Tisnando/O mar azul.” (...) “Vi teu navio passar./Partias, grisalho e incerto/Com as tuas lembranças/De namoradas, de ruas antigas/De tranças e serenatas./Partias, grisalho e triste./Decerto choravas no tombadilho./Choravas a cidade/E a mocidade inútil./E choravas no mar/Que semeavas de lágrimas.”. O mar e o poeta que registra com tristeza uma lembrança já grisalha, de namoradas e de ruas antigas, o fardo na nostalgia que sucumbe o poeta neste fim em que semeadas são as lágrimas. 

O BÊBADO NA ESTRADA : O poema vem com este canto em homenagem a um bêbado, este que compõe com a noite o poema de Schmidt como uma apologia do álcool e deste bêbado que é tanto um pedaço de voz na noite, como também este que se exalta pela noite boêmia, no que temos : “Um bêbado está cantando na estrada/A voz do bêbado vem de longe,/Lá de baixo da estrada molhada.” (...) “Foi a noite que exaltou o bêbado,/Ele é um pedaço de voz dentro da noite.” (...) “É um bêbado que está clamando, é um profeta no deserto/É um náufrago na estrada, no mar, no caminho./É um bêbado que está exaltado pela noite.”. Náufrago, profeta, o bêbado ganha matizes quase santificados pelo poeta, que aqui nos dá o poema, no que segue : “E procura se libertar do terror e do mistério/É um bêbado gritando/Pensará que está cantando?” (...) “É um perseguido pelos cães,/Mas a sua voz é um milagre./E bêbado na estrada úmida/E perseguido pelos cães/Ele povoa o mundo noturno de terror, de gravidade e do/sentimento da morte./É um bêbado na estrada.”. A imagem de um bêbado na noite, de um bêbado na estrada, perseguido pelos cães e pela morte, no mundo noturno de terror, o poeta canta este ébrio neste poema que é puro álcool.

HOMERO : O poema em homenagem a Homero, este poeta mítico, mito em vida e codificador do mito grego, é aqui retratado pelo poeta Schmidt, no que temos : “Poeta maior da raça peregrina,/Como teu canto é vivo e prodigioso,/Que o vento antigo treme e vibra ainda,/No veleiro que a Ulisses conduzia,/Pelos mares ilustres celebrados!”. E segue o poema que diz do mar a fonte de inspiração de Homero. O mar que a tantos poetas é fortuna e tormenta, no que segue : “Foi o mar que aos teus cantos deu o alento/E a veemência de forças indomáveis,/Que flutuam no tempo, eternamente./Foi o mar, que chamaste de infecundo/Que soprou nos teus versos essa flama/E essa palpitação de juventude!”.

POEMAS :

MAR DESCONHECIDO (1942)

MAR DESCONHECIDO

Sinto viver em mim um mar ignoto,
E ouço, nas horas calmas e serenas,
As águas que murmuram, como em prece,
Estranhas orações intraduzíveis.

Ouço, também, do mar desconhecido,
Nos instantes inquietos e terríveis,
Dos ventos o guaiar desesperado
E os soluços das ondas agoniadas.

Sinto viver em mim um mar de sombras,
Mas tão rico de vida e de harmonias,
Que dele sei nascer a misteriosa

Música, que se espalha nos meus versos,
Essa música errante como os ventos,
Cujas asas no mar geram tormentas.

SONETO A CAMÕES

As tuas mágoas de amor, teus sentimentos
Diante das leis que regem nossas vidas,
Desses fados que dão e logo tiram,
E a que estamos escravos e sujeitos.

As tuas dores de amar sem ser amado,
De procurar um bem que não se alcança,
E no canto clamar desesperado
Pelo que nunca vem quando se busca.

Poeta de enamoradas impossíveis,
E que num negro amor desalteraste
Essa sede de amar dura e terrível,

As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,
Como uma fonte, ficarão chorando
Dentro da língua que tornaste eterna.

CONHECESTE AS HORAS ...

Conheceste as horas amargas e monótonas,
Conheceste o amor infeliz e sem glória,
Conheceste a luta sem consolo,
E a pobreza velou sempre teu sono.

Teu corpo frágil sofreu um dia duramente,
E sentiste o mundo insensível e perdido
Para a tua inocente ambição.
O pouco com que sonhaste esteve longe.

Sempre longe de ti, ó triste amada.
A tua infância foi desprotegida e humilde,
E, moça, conheceste as mais secretas amarguras.

No entanto, o teu olhar é bom e simples,
E a tua voz, meu amor, é clara e doce,
E o afago de tuas mãos é inocente e feliz!

ELEGIA

Tua beleza incendiará os navios no mar.
Tua beleza incendiará as florestas.
Tua beleza tem um gosto de morte.
Tua beleza tem uma tristeza de aurora.

Tua beleza é uma beleza de escrava.
Nasceste para as grandes horas de glória,
E o teu corpo nos levará ao desespero.

Tua beleza é uma beleza de rainha.
Dos teus gestos simples, da tua incrível pobreza,
É que nasce essa graça
Que te envolve e é o teu mistério.

Tua beleza incendiará florestas e navios.
Nasceste para a glória e para as tristes experiências,
Ó flor de águas geladas,
Lírio dos frios vales,
Estrêla Vésper.

Nasceste para o amor :
E os teus olhos não conhecerão as alegrias,
E os teus olhos conhecerão as lágrimas sem consolo.
Tua beleza é uma luz sobre corpos nus,
É a luz da aurora sobre um corpo frio,

De ti é que nasce esse sopro misterioso
Que faz estremecer as rosas
E arrepia as águas quietas dos lagos.

Incendiarei florestas, incendiarei os navios no mar,
Para que a tua beleza se revele
Na noite, transfigurada!

FONTE INVISÍVEL (1949)

MARINHA

Vi teu navio passar.
Era um triste cargueiro
Tisnando
O mar azul.

Vi teu navio passar.
Era um velho navio, humilde
No esplendor do mar azul
E do céu.

Vi teu navio passar.
Partias, grisalho e incerto
Com as tuas lembranças
De namoradas, de ruas antigas
De tranças e serenatas.

Partias, grisalho e triste.
Decerto choravas no tombadilho.
Choravas a cidade
E a mocidade inútil.

E choravas no mar
Que semeavas de lágrimas.

O BÊBADO NA ESTRADA

Um bêbado está cantando na estrada
A voz do bêbado vem de longe,
Lá de baixo da estrada molhada.

A voz do bêbado vem da noite úmida,
Vem da estrada que as chuvas da tarde ensoparam.
Foi a noite que exaltou o bêbado,
Ele é um pedaço de voz dentro da noite.
É uma voz exaltada clamando,
É alguma coisa de exaltado
Dentro da noite.

É um bêbado, longe, é um bêbado
Que está na estrada
Como um sapo,
Como um pedaço de voz dependurada numa cerca.
É um bêbado que está clamando, é um profeta no deserto
É um náufrago na estrada, no mar, no caminho.
É um bêbado que está exaltado pela noite.
É um furioso entre as furiosas forças invisíveis.
É uma voz gritando contra as árvores,
É uma voz que se levanta da lama,
E procura se libertar do terror e do mistério
É um bêbado gritando
Pensará que está cantando?
É um bêbado na noite,
É um homem na noite,
É uma alma no mundo,
É um bicho misterioso que fala,
É um participante do mistério.

É um homem esse bêbado,
É um ser que se levantará bêbado,
Ao som das trombetas
E virá exaltado,
E virá cambaleando,
E virá clamando,
Pelo grande caminho.
É um ser, é um bêbado na noite.
É um perseguido pelos cães,
Mas a sua voz é um milagre.

E bêbado na estrada úmida
E perseguido pelos cães
Ele povoa o mundo noturno de terror, de gravidade e do
sentimento da morte.

É um bêbado na estrada.

HOMERO

Poeta maior da raça peregrina,
Como teu canto é vivo e prodigioso,
Que o vento antigo treme e vibra ainda,
No veleiro que a Ulisses conduzia,

Pelos mares ilustres celebrados!
Poeta da Aurora de rosados dedos,
Que Aurora nasce da tua voz tão fresca
Como as águas à luz do claro dia!

Foi o mar que aos teus cantos deu o alento
E a veemência de forças indomáveis,
Que flutuam no tempo, eternamente.

Foi o mar, que chamaste de infecundo
Que soprou nos teus versos essa flama
E essa palpitação de juventude!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38128/17/o-modernismo-e-a-segunda-geracao-com-augusto-frederico-schmidt

  


domingo, 25 de março de 2018

TRABALHO BRAÇAL

Me leve ao departamento
de chefia, está marcada
a reunião e a pauta é densa,

serve o café e a pasta de projetos
já deve estar arrumada,

um tiro de canhão acorda
até o sétimo céu,
a nuvem em que dormia
o sonho acorda no susto,

com a cara lavada e assustada
segue o nobre operário,
com seu quite de primeiros socorros,
com seu caderno de anotações
prestes a ser destruído
por um acidente de trabalho,

ah, o café estava quente,
e havia em meio aos papéis
do velho trabalhador
um risco enorme
em que se planejava
aposentadoria compulsória.

25/03/2018 Gustavo Bastos

FÊNIX

No limite do entendimento
temos o curto-circuito,

esta percepção seca dos afazeres
e do cotidiano, um remédio
diário para os nervos,
e o humor em frangalhos,

outra é a energia que se quer,
um canto otimista,
minutos de auto-ajuda,
o que fazer para uma tarde
produtiva,

oh, que o sinal permanece fechado
é o detalhe da alma em luto,
pois que num quadrante novo
poderá a esperança ressuscitar,
como uma fênix depois
de um sono mortal.

25/03/2018 Gustavo Bastos

A EDUCAÇÃO DA ALMA

Como esta fase do saber fundamentado
me tornou um sapiente?
Não. Este assunto de conhecer para
ser sábio não funciona, e nem mesmo
uma educação moral me torna
um bom caráter.

Ah, mas não existe trabalho suficiente
para a nossa formação,
algo de infantil permanecerá
no resto do dia,

somos um tanto tolos,
quase ingênuos,
se faz poemas
de amor como
marcas do coração,

e o saber bem fundado,
este saber do cuidado de si
e do amor pelo outro,
este dom é um presente
divino,

não se faz a santidade
apenas por cultura,
nem sabedoria por educação,
o termo livresco caiu em desuso,
e nossos deveres e direitos
convivem no caos e na injustiça.

25/03/2018 Gustavo Bastos

sábado, 24 de março de 2018

O HOMEM VITRUVIANO

Numa garganta diabólica se faz o Homem, este ente que não se reduz ao solo de um ser inanimado, embora seja pó quando confrontado com a morte. Seu sonho rutila como foice e trabalho duro que se expande no cosmos e na mente universal, logo eu que sou poeta teria que contar-lhes do destino cósmico, como um grande som que faz melodia na escalada do tempo infinito, como um pássaro que vê luz e sombra, mas não perde o voo.
Assinatura dos artistas em suas pinturas, eu vi em um grau violento os ângulos da visão filosofal, em termos que o notório saber se anulava frente ao dom místico e visionário que somente a poesia em seu ébrio fardo poderia nos decifrar sua simbologia, é o dom do ocultismo que revela as águas de Caronte, os vinhos que não se detêm no mar dos mortais, eu tinha uma velha arma de brinquedo que eu trazia no meu colo quando eu era ladrão, e minha ideia de luta era um nariz quebrado.
Eu deleitava os chifres de um diabo azul, eu carregava em vermelho as astúcias de uma dose de uísque quando derretia o gelo. Lá na pedra ametista remava com langor o santo beberrão que idolatrava o anjo caído dos sóis, leve como a pluma um vingador lutava também, com a cara na areia, seu deserto intelectual, seu academicismo que era deglutido pelo mundo cão das efervescências de álcool e patifes.
Dentro do proscênio andava a diva dos horrores, pintava a cara de rosa, como uma feiticeira olhava ao derredor, era casta, embora na galhofa se portasse qual prima-dona. Uma ópera se enegrecia no campo do fastio, o solo seco em que o vinho indócil descia era feito dos ossos de antepassados que nos velhos trágicos de Ésquilo vestiam-se de embriaguez e máscara.
Ali, perto do Oriente, dravidianos faziam um ensaio do Mahabarata, velhos lemas contorciam-se no barato transcendental de um soma pré-Huxley. Eu cantava de gaiato um pouco desta concórdia besta de estar impressionado com a natureza e a paisagem, um futuro se abrindo como um leque florido e cheio de vivo calor, somente quando eu entrava em transe é que era possível ver o fantasma que morava dentro da poesia de salão, um meneio de menina rosa somava-se ao caos que o trabalho ajudava a desenhar naquele átrio de pedra.
Um cachorro cego e louco latia com estribilho rouco, eu disse ao dono da banca de jornal ali perto que o dono deste cão deveria estar preso, um homem vitruviano e renascentista do futuro não poderia tolerar violência contra o cachorro louco, era contra a paz urbana que reinava na manhã de domingo quando eu lia na página de cultura que um poeta havia passado por uma prova de fogo, saía da lama e do lodaçal e agora vivia num jardim com seus gnomos cantando alegria do lótus e mantras da era de aquário, ele e seus bobos cantores subiam a montanha para se embriagar de vinho e ver na estrela vésper talvez um disco solar ou uma nave vinda de órion ou do portal que um médium de umbanda havia psicografado na noite de sexta na festa de exu.
Depois deste conhecimento oculto travado com os dravidianos, se costumava ter uma certa memória fictícia de um tibet longínquo ou ainda de Rama, mas mesmo no maior do silente campo, nada superava a dinastia atlante depois das colunas de hércules, sete sábios e um livro do sol em que as coordenadas já estavam postas, o dom da profecia estalava naquele sol vermelho após o dilúvio. As bruxas do mar já dançavam, e as sereias ainda viviam naquele mar de arquipélago em que creta ainda reinava. Somente o capitão fenício tinha rompido as fronteiras em direção ao sol marroquino e a uma cartago que ainda balbuciava nas primeiras casas de terra marrom.
O mapa que tinha o sol ao centro agora, neste mundo contemporâneo, invadia-se de sinais de rádio, de sons de vidas conectadas, elétrico sonho de hiperlink, o sonho faustoso dos programadores cobol, as sinapses virando-se em máquinas em busca da imortalidade, o delírio subatômico e a eterna busca da teoria de tudo, um certo rancor capitalista de injustiça e sonhos derrotados, uma grande miséria rondando o progresso técnico, e o fim da linha para uma sociedade que produz lixo.
Na beira do precipício vira o milênio o homem vitruviano, este que para visionários tem o espírito completo, é uma luz búdica, e que diante da técnica não se satisfez em ter o dom da luz, mas quer se unir ao seu maquinário para ser um ser híbrido, confrontando seu espírito imortal, seu corpo finito, e sua mescla robótica e sua memória que poderá virar um chip dentro do circuito da imortalidade eletrônica. O futuro estará em mãos androides, um fundo distópico sempre realizado em cibercultura, o hiperlink da memória produzirá um super-ser, não mais homem, não mais máquina, este que tinha o dom da luz, e agora tem como que um sonho de golem para conquistar a natureza que lhe destruirá, o homem vitruviano que perderá seu ângulo com a natureza, e como homem decaído, será levado pelo caos climático deste seu sonho de indústria e máquina.
Corta agora para cá, a cinemática romperá a febre do milênio, novos remédios, novas aventuras, abre-se a estrada do sol, como em toda road trip, um poeta e alguns loucos, um filósofo e um cientista, um monge e um ébrio. Abre esta carta náutica, temos dois pólos, uma linha equatorial, eu espero sinceramente que o feitiço que produziu o universo tenha um bom dom de revelar talentos quando tudo está perdido, e o dom da poesia nos faça sol em meio da tempestade, eu rimava bem como um furto, eu ia bem antes do surto, mas não tem tempo de lamento, tem tempo de razão, e minha mira já derrubou diabos e pobres diabos, tenho em mim várias cores em que firmo meu diapasão, e na bússola que sonha, delírio é poesia.
Acerta teu contrato com o editorial do dia, o julgamento político atingirá os carreiristas, os afortunados passarão por provação, já ligo os pontos que um idiota tentará se eleger, em vão, o dia brilha e o sol é justo, vamos em frente com toda a rotina, as cartas estão na mesa e na manga, tira um coelho e mata dois coelhos, tira um ás e guarda teu coringa, um diabo faz guerra, um anjo traz paz, entre os demônios da roda de sangue, a guerra acaba, e a paz mais funda tem poema que lhe dê a forma, que é a forma do riso, poema que enforma, a forma alegre, o dom de ser feliz.
Mas, não fique aí, este teu lamento é de poetas que se suicidam, não seja um poeta triste, se és um homem vitruviano, você, homem e mulher, trans ou o que quiser, teu dom já vem todo inteiro, como Buda, já temos tudo, o dom de ser é que já temos, e nada mais importa, viverá mais quem for ver que tudo cabe em um mundo mais justo, o mundo cão dos injustos cairá, nada restará aos porcos do sistema, vejo luz em vocês, cada um ao seu tempo, como uma orquestra ou big band que se inspira com o raio do sol.

Segue aqui o último trecho do poema :

TEMPO SOLAR :
Eis que tudo é ritmo, eu sei, eu sei,
Acendo um cigarro ou um charuto
e parece sempre tudo a mesma coisa,
mas nem toda revolução se dá no susto,
o território a se tomar muitas vezes
tem o tempo, este mestre, para
nos dar a razão com que sempre
sonhamos.

24/03/2018 Gustavo Bastos
(poema em prosa)







  


quarta-feira, 21 de março de 2018

OLHO MAIOR QUE A BARRIGA

"É a Literatura, estúpido!"

O cenário literário brasileiro está ganhando tonalidades alarmantes, hoje qualquer projeto literário (a não ser que você pertença à alta sociedade ou a uma panelinha) está inviabilizado num primeiro momento, e talvez até num segundo momento. É uma profusão de concursos literários caça-níqueis, com exigências absurdas como não publicação impressa ou eletrônica, no caso das publicações eletrônicas um sinal de ignorância preocupante, em plena era dos blogs e das redes sociais literárias.
De outro lado, editoras que veem o escritor como uma fonte de renda incalculável, não para a venda de livros, por óbvio, mas pelo preço que o infortunado tem que pagar para ter míseros cem exemplares rodando nas livrarias e feiras literárias.
O que vislumbro, com muito pesar, é um cenário literário de cisão, de um lado os burguesinhos com seus livros de poesia de oitenta páginas, e de outro lado um mundo de gente na internet com blogs e divulgações marginais pelas redes sociais literárias.
A cisão será a consequência desta visão anacrônica e, ao mesmo tempo, exploratória sobre os escritores deste país. Anacrônica por ignorar ou fingir que não há uma nova realidade: os blogs e grupos na web de literatura, onde o objetivo é divulgar os trabalhos escritos para, depois, tentar vender seu peixe com uma publicação que seja. O que acontece? Concursos literários exigindo exclusividade sobre direitos e divulgações, um monopólio absurdo da lavra alheia que resulta em fracasso coletivo para a maioria dos escritores deste país.
A visão de que o mercado é que manda é uma visão ultrapassada, quem manda é o escritor, quem manda é quem trabalha e não quem vende. O caminho para os que fazem blogs literários terá de ser o caminho da independência e da autopublicação, senão terão que se submeter aos ritos de um mercado que exige exclusividade sob uma coisa que não deveria lhes pertencer, o trabalho feito é do escritor, e se ele quiser divulgar seu trabalho em um blog ou outro veículo virtual e, posteriormente, vender seu livro, não vejo problema nenhum.
Entendo que o leitor que se interessar por um determinado blog ou rede social literária comprará o livro. Não vejo o blog e outros meios de postagem (que não é publicação como entende equivocadamente os famigerados concursos caça-níqueis) como um impeditivo para venda de publicações, embora possa haver leitores que ao ver o trabalho no blog não comprem o livro, o que é uma visão pessimista e utilitária, pois quem gosta de literatura terá vontade de comprar um livro publicado pelo escritor-blogueiro.
O cenário dos blogs literários e redes de compartilhamento como o Medium é uma realidade, e, como toda realidade, não pode ser ignorada e defenestrada por uma visão pragmática e econômica de que não há como divulgar um trabalho na web sem prejuízos às publicações futuras. Esta é uma visão anacrônica que não tem mais pé com a realidade, que não é a realidade de mercado, mas a realidade de um cenário novo que veio para ficar.
O caminho da cisão será inevitável, novos escritores independentes correrão por fora desta canalha de editoras e concursos literários que só veem a literatura como produto e não como trabalho, em que a visão de produto ignora a visão laborativa da escrita que deveria estar em primeiro plano.
Certos estarão os que vendem seu tempo para o mercado, e errados os que correrem por fora sem abrir mão de suas convicções e conscientes de que a realidade é outra, totalmente diferente, onde o download e a autopublicação, os blogs e redes sociais literárias serão uma voz dissonante dos chupadores de sangue da velha visão de mercado e de que tudo que é literário tem que se pagar um alto preço para ser divulgado.
Não vou aderir às exigências de um mercado literário que não respeita o trabalho escrito e restringe este crescimento com a propriedade de um produto, como se literatura fosse comida e não ideias. E cito os preços escorchantes cobrados por algumas editoras para um escritor inédito se aventurar numa publicação, algo proibitivo para quem não nasceu em berço de ouro.
Ignorando o cenário da literatura da web teremos esta cisão de que falo, onde só haverá uma patota bem nutrida em suplementos literários de jornais, enquanto uma massa crítica se forma por fora do mercado no mundo vasto da internet.
Se não há escapatória ao mercado, azar do mercado.
É a Literatura, estúpido!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38068/14/olho-maior-que-a-barriga