PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 27 de agosto de 2017

CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE III

A POESIA DE CRUZ E SOUSA E A CRÍTICA LITERÁRIA

“uma poesia de visão aérea, obscura, e que ao fim se firma com sua afetação mística”

Quando da primeira edição dos dois volumes da História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero, este consegue realizar uma análise rigorosa e crítica de muitas obras, Cruz e Sousa, no entanto, ainda não aparece nesta edição, pois trabalhos como Julieta dos Santos e Tropos e fantasias, de 1883 e 1885, continuavam inéditos para o crítico. Sílvio passa a conhecer um pouco depois a prosa de Missal e os sonetos de Broquéis, bem como os poemas de Evocações, mas Sílvio Romero mal situa o nome de Cruz e Sousa na sua segunda edição da História publicada em 1902.  
Sílvio Romero em sua primeira edição de sua História, vai ao longo do ensaio fazendo uma reflexão sobre a poesia brasileira num panorama geral que segue a Prosopopeia de Bento Teixeira, vai então delimitando os estertores do Romantismo na escola condoreira, fechando seu ciclo, e que depois reflete a ascensão parnasiana em Delfino, Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Teófilo Dias, e que acerta no Simbolismo quando se depara com Cruz e Sousa.
Em 1899, sobre o livro Primícias, de Carvalho Aranha, Sílvio Romero publica o ensaio "O simbolismo", no qual ele descreve a inauguração da escola poética simbolista como um evento original. Sílvio então embarca numa poesia que ele define de um desnorteamento completo, em que ele confronta esta nova poesia como uma reação mórbida ao idealismo, uma poesia de visão aérea, obscura, e que ao fim se firma com sua afetação mística. Sílvio Romero descobre Cruz e Sousa como um exemplo de um poeta novo, mesmo que já morto, analisando Missal, Broquéis e Evocações como grandes trabalhos da Literatura Brasileira.
Na poesia de Cruz e Sousa temos uma composição que delimita uma elevação da alma, sentimentos nobres, inspiração que muitas vezes se volta para a natureza, sem esquecer os confrontos com a sociedade, e ainda pode conter as nuances doridas e prazerosas do coração, com o poder etéreo evocativo próprio do estro simbolista, em que a poesia não é descritiva e nem narrativa, pois se trata de uma poesia sugestiva, rarefeita, que desliza nos meandros do espírito.  
O Simbolismo, por sua vez, representa uma poesia que vai de encontro ao Naturalismo e suas grosserias, ao diletantismo esteta da arte pela arte do Parnasianismo, e que é assim uma reação espiritualista que envolve um clima lírico que pode, em certa medida, no seu auge de composição, retornar ao Romantismo na sua melhor expressão. A versão brasileira do Simbolismo, no entanto, terá de se desvencilhar de ladainhas e afetações como as de Bernardino Lopes e Alphonsus de Guimaraens, para, enfim, seguir a trilha aberta por Cruz e Sousa, que supera sua prosa abstrusa em Missal e nas Evocações, e que ganha propriedade lírica nos Faróis e nos Últimos Sonetos.  

POEMAS:

RECORDA : O poema memorial e simbólico ao mesmo tempo evoca em poesia pura um recordar que é o poema mais que uma descrição de fatos específicos, como convém ao toque sugestivo e não enunciativo da poesia de estro simbolista: “Quando a onda dos desejos inquietantes,/Que do peito transborda,/Morrer, enfim, nas amplidões distantes,/Recorda-te, recorda .../Revive dessa música já finda/Que nas estrelas dorme./Volta-te ao mundo sedutor ainda/Da Ilusão multiforme!/Volta, recorda eternamente, volta/Aos faróis da Esperança,”. O poema exulta e também é dorido, esta oscilação comanda toda a inspiração que então se torna hiperbólica, grandiloquente, sem, no entanto, afetar pose extrema de esteta, no que temos: “Revive! Goza! Desolado, embora,/Sorrindo e soluçando,/Erguendo os véus de já passada aurora,/Recordando e sonhando .../Cada alma tem seu íntimo recato/Numa estrela perdida/E cada coração intemerato/Tem na estrela uma vida.”. O poema segue ainda exclamativo, intenso: “Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,/Beduíno do Espaço./Aos sonhos brancos, que não são da Terra,/Dá, sorrindo, o teu braço ...” (...) “Ah! volta aos desenganos primitivos,/Volta à essência dos anos,/Volta aos espectros tristemente vivos,/Ah! volta aos desenganos!/Volta aos serenos, flóridos oásis,/Volta aos hinos profundos,/Volta às eflorescências dos Lilases,/Volta, volta a esses mundos!” (...) “Para o Amor, para a Dor e para o Sonho/Nas Esferas transborda .../E entre um soluço e um segredo risonho/Recorda-te, recorda ...”. E aqui faço a ligação do poeta com as Musas, encantos que da memória viram poesia, inspiração, portanto, divina.

CANÇÃO DO BÊBEDO : O poema transita com surto de bebedice, e vai ao encontro boêmio e importuna o infortunado bêbedo, personagem do poema: “Na lama e na noite triste/Aquele bêbedo ri!/Tua alma velha onde existe?/Quem se recorda de ti?” (...) “Por que é que ficas à lua/Contemplativo, a vagar?” (...) “Que flores de graça doente/Tua fronte vem florir/Que ficas amargamente/Bêbedo, bêbedo a rir?”. O bêbedo ri em meio à desgraça, miséria é teu nome, mas comicidade é sua fuga: “Que soluço extravagante,/Que negro, soturno fel/Põe no teu ser doudejante/A confusão da Babel?/Ah! das lágrimas insanas/Que ao vinho misturas bem,/Que de visões sobre-humanas/Tu`alma e teus olhos têm!” (...) “Bendito seja o carinho/Que já te faça morrer!/Sim! Bendita a cova estreita,/Mais larga que o mundo vão,/Que possa conter direita/A noite do teu caixão!”. A morte do bêbedo é a coda extrema de um poema que faz troça e aqui desata a miséria alcoolica.

ESQUECIMENTO : Este poema agora nos fala do esquecimento, no que vem: “Ó Estrelas tranquilas, esquecidas/No seio das Esferas,/Velhos biliões de lágrimas, de vidas,/Refulgentes Quimeras./Astros que recordais infâncias de ouro,/Castidades serenas,/Irradiações de mágico tesouro,/Aromas de açucenas.”. O poema então tem um estro celeste, estelar, em que as quimeras dançam em frutos da juventude, no que segue: “Desvendai-me as Mansões do Esquecimento,/Radiantes sentinelas./Dizei que palidez de mortos lírios/Há por estas estradas/E se terminam todos os martírios/Nas brumas encantadas./Se nessas brumas encantadas choram/Os anseios da Terra,/Se os lírios mortos que há por lá se auroram/De púrpuras de guerra.”. As imagens do poema são fortes e ricas, no que o céu aparece voluptuoso: “O céu é o berço das estrelas brancas/Que dormem de cansaço .../E das almas olímpicas e francas/O ridente regaço ...” (...) “O Esquecimento é flor sutil, celeste,/De palidez risonha./A alma das cousas languemente veste/De um véu, como quem sonha.”. O poema ridente tem um esgar de alegria poética, simples e ao mesmo tempo profunda, fundo em que reside um sorriso de veia triste: “Como que o coração fica sorrindo/De um modo grave e triste,/Languidamente a meditar, sentindo/Que o esquecimento existe.” (...) “Rio do esquecimento tenebroso,/Amargamente frio,/Amargamente sepulcral, lutuoso,/Amargamente rio!/Quanta dor nessas ondas que tu levas,/Nessas ondas que arrastas,/Quanto suplício nessas tuas trevas,/Quantas lágrimas castas!/Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,/Meu tormento e meu vinho,”. O amargor só se cura com o verso, que aqui funciona como um vinho consolador: “Embora o esquecimento vão dissolva/Tudo, sempre, no mundo,/Verso! que ao menos o meu ser se envolva/No teu amor profundo!” (...) “Esquecimento! eclipse de horas mortas,/Relógio mudo, incerto,/Casa vazia ... de cerradas portas,/Grande vácuo, deserto,/Cinza que cai nas almas, que as consome,” (...) “Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,/De negra majestade,/Soluço nebuloso das Distâncias/Enchendo a Eternidade!”. A coda é o verso então como vinho enchendo a tão sonhada utopia, esta ideia rarefeita chamada eternidade.

POEMAS:

RECORDA

Quando a onda dos desejos inquietantes,
Que do peito transborda,
Morrer, enfim, nas amplidões distantes,
Recorda-te, recorda ...

Revive dessa música já finda
Que nas estrelas dorme.
Volta-te ao mundo sedutor ainda
Da Ilusão multiforme!

Volta, recorda eternamente, volta
Aos faróis da Esperança,
Do Sonho estranho as grandes asas solta
A celeste Bonança,

Recorda mágoas, lágrimas e risos
E soluços e anseios ...
Revive dos nevoeiros indecisos
E dos vãos devaneios.

Revive! Goza! Desolado, embora,
Sorrindo e soluçando,
Erguendo os véus de já passada aurora,
Recordando e sonhando ...

Cada alma tem seu íntimo recato
Numa estrela perdida
E cada coração intemerato
Tem na estrela uma vida.

Aplica o ouvido à correnteza fria
Dos golfões da matéria
E recorda de que lama sombria
É composta a miséria.

Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,
Beduíno do Espaço.
Aos sonhos brancos, que não são da Terra,
Dá, sorrindo, o teu braço ...

Dá o teu braço, pelos céus sorrindo
E recordando parte
E hás de entender os claros céus, sentindo
Que andas a recordar-te.

Bate à porta dos Astros solitários
Dos eternos Fulgores,
Em busca desses mortos visionários,
Almas de sonhadores.

Ah! volta aos desenganos primitivos,
Volta à essência dos anos,
Volta aos espectros tristemente vivos,
Ah! volta aos desenganos!

Volta aos serenos, flóridos oásis,
Volta aos hinos profundos,
Volta às eflorescências dos Lilases,
Volta, volta a esses mundos!

Fique na Sombra e no Silêncio d `alma
Todo o teu ser dolente.
Para tranquilo, com ternura e calma,
Recordar docemente ...

Na Sombra então e no Silêncio denso,
Como em mágicas plagas,
Faz acender o alampadário imenso
Das Recordações vagas ...

Pousa a cabeça, meigamente pousa
Nesse augusto Quebranto
E nem da Terra a mais ligeira cousa
Te desperte do Encanto.

Para o Amor, para a Dor e para o Sonho
Nas Esferas transborda ...
E entre um soluço e um segredo risonho
Recorda-te, recorda ...

CANÇÃO DO BÊBEDO

Na lama e na noite triste
Aquele bêbedo ri!
Tua alma velha onde existe?
Quem se recorda de ti?

Por onde andam teus gemidos,
Os teus noctâmbulos ais?
Entre os bêbedos perdidos
Quem sabe do teu – jamais?

Por que é que ficas à lua
Contemplativo, a vagar?
Onde a tua noiva nua
Foi tão depressa a enterrar?

Que flores de graça doente
Tua fronte vem florir
Que ficas amargamente
Bêbedo, bêbedo a rir?

Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
E o teu palácio de fadas,
Meu sonâmbulo arlequim?

De onde trazes essa bruma,
Toda essa névoa glacial
De flor de lânguida espuma,
Regada de óleo mortal?

Que soluço extravagante,
Que negro, soturno fel
Põe no teu ser doudejante
A confusão da Babel?

Ah! das lágrimas insanas
Que ao vinho misturas bem,
Que de visões sobre-humanas
Tu`alma e teus olhos têm!

Boca abismada de vinho,
Olhos de pranto a correr,
Bendito seja o carinho
Que já te faça morrer!

Sim! Bendita a cova estreita,
Mais larga que o mundo vão,
Que possa conter direita
A noite do teu caixão!

ESQUECIMENTO

Ó Estrelas tranquilas, esquecidas
No seio das Esferas,
Velhos biliões de lágrimas, de vidas,
Refulgentes Quimeras.

Astros que recordais infâncias de ouro,
Castidades serenas,
Irradiações de mágico tesouro,
Aromas de açucenas.

Rosas de luz do céu resplandecente,
Ó Estrelas divinas,
Sereias brancas da região do Oriente,
Ó Visões peregrinas!

Aves de ninhos de frouxeis de prata
Que cantais no Infinito
As Letras da Canção intemerata
Do Mistério bendito.

Turíbulos de graça e encantamento
Das sidéreas umbelas,
Desvendai-me as Mansões do Esquecimento,
Radiantes sentinelas.

Dizei que palidez de mortos lírios
Há por estas estradas
E se terminam todos os martírios
Nas brumas encantadas.

Se nessas brumas encantadas choram
Os anseios da Terra,
Se os lírios mortos que há por lá se auroram
De púrpuras de guerra.

Se as que há por cá, titânicas cegueiras,
Atordoadas vitórias,
Embebedam os seres nas poncheiras
E no gozo das glórias.

O céu é o berço das estrelas brancas
Que dormem de cansaço ...
E das almas olímpicas e francas
O ridente regaço ...

Só ele sabe, o claro céu tranquilo
Dos grandes resplendores,
Qual é das almas o eternal sigilo,
Qual o cunho das dores.

Só ele sabe, o céu das quintessências,
O Esquecimento ignoto
Que tudo envolve nas letais diluências
De um ocaso remoto ...

O Esquecimento é flor sutil, celeste,
De palidez risonha.
A alma das cousas languemente veste
De um véu, como quem sonha.

Tudo no esquecimento se adelgaça ...
E nas zonas de tudo,
Na candura de tudo, extremo, passa
Certo mistério mudo.

Como que o coração fica cantando
Porque, trêmulo, esquece,
Vivendo a vida de quem vai sonhando
E no sonho estremece ...

Como que o coração fica sorrindo
De um modo grave e triste,
Languidamente a meditar, sentindo
Que o esquecimento existe.

Sentindo que um encanto etéreo e mago,
Mas um lívido encanto,
Põe nos semblantes um luar mais vago,
Enche tudo de pranto.

Que um concerto de súplicas, de mágoa,
De martírios secretos,
Vai os olhos tornando rasos de água
E turvando os objetos ...

Que um soluço cruel, desesperado
Na garganta rebenta ...
Enquanto o Esquecimento alucinado
Move a sombra nevoenta!

Ó rio roxo e triste, ó rio morto,
Ó rio roxo, amargo ...
Rio de vãs melancolias de Horto
Caídas do céu largo!

Rio do esquecimento tenebroso,
Amargamente frio,
Amargamente sepulcral, lutuoso,
Amargamente rio!

Quanta dor nessas ondas que tu levas,
Nessas ondas que arrastas,
Quanto suplício nessas tuas trevas,
Quantas lágrimas castas!

Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,
Meu tormento e meu vinho,
Minha sagrada embriaguez e arrulho
De aves formando ninho.

Verso que me acompanhas no Perigo
Como lança, preclara,
Que este peito defende do inimigo
Por estrada tão rara!

Ó meu verso, ó meu verso soluçante,
Meu segredo e meu guia,
Tem dó de mim lá no supremo instante
Da suprema agonia.

Não te esqueças de mim, meu verso insano,
Meu verso solitário,
Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,
Meu templo, meu sacrário.

Embora o esquecimento vão dissolva
Tudo, sempre, no mundo,
Verso! que ao menos o meu ser se envolva
No teu amor profundo!

Esquecer é andar entre destroços
Que além se multiplicam,
Sem reparar na lividez dos ossos
Nem nas cinzas que ficam ...

É caminhar por entre pesadelos,
Sonâmbulo perfeito,
Coberto de nevoeiros e de gelos,
Com certa ânsia no peito.

Esquecer é não ter lágrimas puras,
Nem asas para beijos
Que voem procurando sepulturas
E queixas e desejos!

Esquecimento! eclipse de horas mortas,
Relógio mudo, incerto,
Casa vazia ... de cerradas portas,
Grande vácuo, deserto,

Cinza que cai nas almas, que as consome,
Que apaga toda a flama,
Infinito crepúsculo sem nome,
Voz morta à voz que a chama.

Harpa da noite irmã do Imponderável,
De sons langues e enfermos,
Que Deus com o seu mistério formidável
Faz calar pelos ermos.

Solidão de uma plaga extrema e nua,
Onde trágica e densa
Chora seus lírios virginais a lua
Lividamente imensa.

Silêncio dos silêncios sugestivos,
Grito sem eco, eterno
Sudário dos Azuis contemplativos,
Florescência do Inferno.

Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,
De negra majestade,
Soluço nebuloso das Distâncias
Enchendo a Eternidade!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35492/17/cruz-e-sousa-desbrava-as-trilhas-da-versao-brasileira-do-simbolismo





segunda-feira, 14 de agosto de 2017

HAMILTON NOGUEIRA – DOSTOIÉVSKI – PARTE I

“há uma verdadeira participação autoral neste sofrimento universal que nos dá a dimensão do romance dostoievskiano”

INTRODUÇÃO

O romance dostoievskiano pode ser entendido como uma espécie de tragédia, o meio romanesco aqui também é utilizado como um instrumento de conhecimento da alma humana pelos personagens deste autor que atuou como um verdadeiro psicólogo ficcional. O caráter sui generis do romance pelas mãos de Dostoiévski é este em que as personagens passam por transformações, recomeços, na luta de contrariar o destino, de enfrentar com toda a alma as agruras do desespero e da loucura, aqui a tragédia dostoievskiana ganha sentido amplo e profundo, com todo o caráter de conhecimento intuitivo das relações e situações da alma humana que são possíveis para um romancista dar exemplo e fazer a sua construção, o que Dostoiévski consegue como poucos, e de um modo único, com a sua impressão e assinatura.
Dostoiévski tem suas personagens numa trama que nem sempre é bem-sucedida, pois a ideia de vitória na vida pode resultar no infernal malogro das intenções, aprofundando, no entanto, o caráter e a definição sólida de tais figuras do romance dostoievskiano, e que pela escrita do autor nos aparecem como personagens falhados tais como os humildes, fracassados, vencidos, numa pedagogia que revela o humano em situações-limite, e que também nos leva a esta alma ou análise psíquica dos dilemas e dores demasiado humanos da trama romanesca dostoievskiana.
A piedade do autor para com tais personagens na sua ficção também nos dá esta dimensão do caráter humano tanto do trabalho literário como de quem o realiza, que é o homem biográfico Dostoiévski, pois a riqueza de suas personagens também nos revela o caráter deste autor, um dos mais destacados da História da literatura russa e mundial, pois há uma verdadeira participação autoral neste sofrimento universal que nos dá a dimensão do romance dostoievskiano, a medida do destino humano está posta como exemplos em vários destes romances do autor.
Dostoiévski passa com seus personagens por experiências diversas como sentimentos de revolta e de ódio, anseios vingativos, toda uma teia de relações em que as paixões transbordam, um lado obscuro da alma eclode e, no entanto, tal situação negativa nos dá uma dimensão de fé inaudita pelo senso comum, pois está iluminada mesmo em tramas de caráter alucinante e de situações dolorosas. Portanto, há uma luz, o divino se manifesta nesta trama visível e caótica do destino humano, nas forças dispersivas do mal temos, como efeito reverso, a luz da fé ou ainda da própria razão natural.
Dostoiévski elabora suas personagens de um modo que o leitor, já nos seus primeiros contatos com tais figuras, fica sabendo bem em que terreno está pisando, pois instantaneamente no romance dostoievskiano as personagens já se nos apresentam inteiras, em todo o seu caráter e luta, tais espíritos puros e sólidos lutando contra o sofrimento universal, esta balança das situações em que a provação é a regra, na ideia ou imagem precípua da queda.
E como nos diz Hamilton Nogueira: “As suas resoluções, como as dos anjos, são por assim dizer irrevogáveis. Não há possibilidade de volta, nem mesmo de parada. Tudo obedece àquele ritmo trágico.” Temos uma estrutura psicológica firme e bem definida nas personagens dostoievskianas, nos revelando almas impassíveis face aos fatos mais extraordinários, como se a predestinação fosse a forma dominante da percepção exercida por tais figuras criadas pelo autor.
O fenômeno humano e comum do desespero aparece aqui como a intensidade máxima do sofrimento, mas que temos também que tal sofrimento não é definido por sua dimensão dorida, mas pela luta de forças antagônicas, a luta interna reveste a angústia de tais personagens, e não uma medida de intensidade de tais sofrimentos, uma vez que a personagem dostoievskiana tem a sua liberdade e sua alma inteira em conflito contra os limites impostos pelas formas visíveis da natureza humana, tal força oculta e angélica, que tende à vida contemplativa, é sucumbida no mundo cotidiano e físico dos sentidos terrenos e suas agruras.  
O mundo romanesco de Dostoiévski, por conseguinte, é revelador de um universo humano vertiginoso, pleno de contradições, de oscilações extremas e repletas de paradoxo, como se dá comumente em almas intensas e autênticas, com movimentos rápidos e intuições imediatas, não existindo nenhuma dimensão de indiferença em tais personagens, familiarizadas com a tragédia humana que são, e que são, portanto, personagens com convicções profundas e caráter constante, isto é, com condutas claras. E o resultado é que tais personagens, partícipes diretas do sofrimento universal, buscam a solução para o problema do destino e da tragédia, numa pesquisa sequiosa pela verdade, com posições extremas, e o mistério da vida então perpassa todo o dilema e vivência ativa de tais personagens dostoievskianas.
A eclosão de sentimentos antagônicos nas personagens dostoievskianas é bem comum, pois amor e ódio se revezam em tais corações com uma presteza nauseante, a amplitude psicológica de tais figuras desenhadas por Dostoiévski dá vazão para estas alternâncias bruscas de sensações num mesmo ambiente ou situação, e a alma pode ter como uma sua definição dostoievskiana como uma ideia de contradição, o paradoxo dos sentimentos reina como o sentido de sua própria riqueza e da amplidão da percepção de tais almas sofredoras.
Ou como nos diz Hamilton Nogueira sobre Dostoiévski: “Ele é o soberano criador dos estados angustiosos, é o mestre incomparável no jogo dificílimo da fixação desses imponderáveis que constituem a vida mesmo do espírito, vida ilógica, inatingível nas suas raízes, mas vagamente perceptível no mundo tumultuoso de ideias e de sensações que afloram à superfície da nossa consciência.”

NASTÁSSIA FILIPOVNA

Nastássia Filipovna é uma dessas personagens dostoievskianas que são plenas de contradições, com sentimentos divergentes e desordenados convivendo na mesma alma, é também devido a esta amplitude de sensações que temos uma das chaves do enigma interior de Nastássia. E tal se dá, isto é, este enigma que envolve várias camadas de uma luta interior intensa, por conseguinte, em meio à incompreensão de um mundo medíocre, amiúde unidimensional ou preto no branco. Nastássia Filipovna, por sua vez, como nos diz Hamilton Nogueira : “é um dos mais extraordinários tipos de mulher criados pelos romancistas em geral, e sem dúvida a máxima criação feminina de Dostoiévski.”
E segue Hamilton Nogueira, quando nos diz: “o segredo do seu mundo interior, as suas lutas íntimas, a sua imensa amargura, a sua profunda desolação, o seu desespero ao ver-se arrastada por um turbilhão de lama, e sobretudo o fundo de pureza que ainda perdura na sua alma, permanecem inatingíveis ao olhar profano dos homens que a rodeiam. Somente uma outra criatura também ordenada no sentido da perfeição poderá compreender a tragédia de sua vida e contemplar maravilhado o lado luminoso da sua realidade existencial, o príncipe Muischine. Esse jovem de olhos claros e luminosos, de palavra suave, olhando-a com expressão de quem a conhecia, impressionou profundamente o espírito de Nastássia.”
É tanto a construção da personagem como a história de Nastássia Filipovna que faz de O Idiota uma obra-prima, pois é revelador de uma escrita com alma rebelde, o que não seria comum num espírito resignado de ideologia reacionária que estava no homem Dostoiévski. Neste romance temos um autor tanto trágico e lírico, como também satírico, e temos que Nastássia Filipovna está situada entre as personagens femininas de maior envergadura e complexidade da literatura russa e mundial.  
O romance O Idiota tem a participação assídua da personagem Nastássia, pois ela reina no centro dos acontecimentos, dando assim a sua dimensão de grande personagem da obra literária de Dostoiévski. E em meio a canalhas e beberrões temos uma Nastássia que atravessa altiva a ignomínia geral, com todo o rigor de um caráter firme e uma alma inteira e bem edificada, pois ela conhecia todos os celerados que a cercava, sem sucumbir a tais odores depravados, num plano de vingança bem urdido que deixava ao sabor das intenções de farsa de tais homens como um modo de fazê-los cavar as suas próprias ruínas devido aos impulsos podres que Nastássia manipulava com episódios desenhados por Dostoiévski como verdadeiras cenas de teatro, quando o autor é mais uma vez o plasmador perfeito tanto da psicologia individual como da coletiva.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35285/17/personagens-de-dostoievski-sao-instrumentos-de-conhecimento-da-alma-humana





CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE II

“um esbanjamento aflito, cheio de dor, espiritual, transcendente”

SOBRE O POETA E SUA POESIA

Cruz e Sousa teve um julgamento contemporâneo não muito à sua altura, sobretudo na Academia, mas angariou dimensão crítica positiva na geração seguinte, sinais de sua glória já aparecem neste período posterior, como nos diz, por exemplo, da poesia de Cruz e Sousa, em comparação com outras, Mário Pederneiras : “Tenho um devotado culto pelos sonetos magistrais de Luís Delfino, o das Naus e da Madalena aos pés da Cruz, e tanto admiro o verso quente e meridional de Olavo Bilac como a impressão catedralesca de Emílio de Meneses. E por que não dizer também que me delicio com a arte estranha de Cruz e Sousa, do Satã, do Acrobata da Dor e do Meu filho, e que nutro uma delicada afeição pela meiga simplicidade encantadora de Cesário Verde e Macedo Papança?”. Seguindo, Cruz e Sousa também pode ser bem situado entre os nomes de Alberto de Oliveira, Raimundo Corrêa, Olavo Bilac, Teófilo Dias, B. Lopes, Guimarães Passos, Artur Azevedo, Adolfo Caminha e outros. 
Lembrando de um tipo de poesia que tem pendor no inefável, no absoluto, e que tematiza o vago, o indefinido, podemos situar Cruz e Sousa como um grande poeta, mesmo com limites em seu estro, como por exemplo no dom de clareza clássica, que lhe faltava, tem de outro lado um esbanjamento aflito, cheio de dor, espiritual, transcendente, de sentido trágico, na poesia e na sua biografia, configurando a inspiração e atividade poética de um escritor singular.
A obra literária de Cruz e Sousa não tem nem a definição de um trabalho incompleto, falhado, nem tampouco chega ao outro extremo de ser a maior poesia lírica produzida na literatura brasileira. Por sua vez, podemos dizer que o satanismo de Baudelaire aparece em sua poesia combinado a uma melancolia repleta de ceticismo, e que se mesclava também com o misticismo mórbido de Antero do Quental, a poesia de Cruz e Sousa era de uma alma sofredora de imprecações alucinadas, com um grito contra a opressão, com toda a sua expressão falhada e insuficiente produzindo um clímax lírico do qual foi um precursor.  
Cruz e Sousa, diante da História subsequente da literatura brasileira, pode ser considerado um exemplar conspícuo de uma poesia ainda empolada, rebuscada, obscura, e da qual sobra uma fortuna crítica que sobra pouco na posteridade, no que podemos ter desde já dez ou quinze composições poéticas que podem garantir a sua imortalidade, como um poeta lírico por excelência, no que o nosso poeta negro se defendia contra os golpes que lhe desferiam com os Broquéis, e que projetava logo a seguir um clarão em meio ao caos que lhe tomava com seus Faróis. E o poeta, como um típico simbolista, maior representante desta corrente de poesia no Brasil, tinha o dom da sonoridade, pois a musicalidade dominava seu estro, se descolando com mestria do parnaso que lhe precedera, com uma poesia de formas novas e de busca da essência transcendente numa visão amiúde evanescente, configurando uma experiência simbólica sui generis, a do poeta que foi Cruz e Sousa, pois ele foi este poeta que renunciou ao parnasianismo para se lançar na musicalidade mais leve do verso simbolista.

POEMAS:

TUBERCULOSA : O poema, fina flor, nos abre o mundo da tísica em forma musical, sonora, planando cerúlea diante do fenômeno da doença: “Alta, a frescura da magnólia fresca,/Da cor nupcial da flor da laranjeira,/Doces tons d`ouro de mulher tudesca/Na veludosa a flava cabeleira./Raro perfil de mármores exatos,/Os olhos de astros vivos que flamejam,/Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactos” (...) “Radiava nela a incomparável messe/Da saúde brotando vigorosa,” (...) “Era assim luminosa e delicada,/Tão nobre sempre de beleza e graça/Que recordava pompas de alvorada,/Sonoridades de cristais de taça./Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza/Daquele corpo virginal e fino,/Sacrário da mais límpida beleza,/Perdeu a graça e o brilho diamantino./Tísica e branca, esbelta, frígida e alta/E fraca e magra e transparente e esguia,/Tem agora a feição de ave pernalta,/De um pássaro alto de aparência fria.”. Temos a abertura do poema com o estro descritivo de uma presença fêmea de angelitude, mas que logo também se nos apresenta com a face murmurante da tísica e toda esta interação doentia que a poesia tem com tal carma de poetas: “E faz lembrar uma esquisita planta/De profundos pomares fabulosos/Ou a angélica imagem de uma Santa/Dentre a auréola de nimbos religiosos./A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,/Ganhando corpo, como num terreno .../E com prelúdios místicos de salmo/Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno./Jamais há de ela ter a cor saudável/Para que a carne do seu corpo goze,/Que o que tinha esse corpo de inefável/Cristalizou-se na tuberculose.”. A tuberculose, neste contexto de poesia simbolista, é uma espécie de doença mística da poesia, a tísica é um modo ideal de enfermidade.

FLOR DO MAR : O poema marítimo navega leve no estro simbolista de Cruz e Sousa, que nos brinda com tais versos que seguem aqui: “És da origem do mar, vens do secreto,/Do estranho mar espumaroso e frio/Que põe rede de sonhos ao navio” (...) “Possuis do mar o deslumbrante afeto/As dormências nervosas e o sombrio/E torvo aspecto aterrador, bravio” (...) “Num fundo ideal de púrpuras e rosas/Surges das águas mucilaginosas” (...) “Trazes na carne o eflorescer das vinhas,/Auroras, virgens músicas marinhas,/Acres aromas de algas e sargaços ...”. A riqueza imagética do poema se mescla com uma sonoridade que nos dá poesia como música, o poema é de um estro que joga com o som e as ondulações da expressão com pleno domínio formal do poeta Cruz e Sousa.

MÚSICA MISTERIOSA : O poema aqui como música misteriosa é o flerte comum da poesia simbolista com a transcendência e o mundo das essências etéreas, no que temos: “Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,/Que abris a doce luz de alampadários,” (...) “Pelos raios fluídicos, diluentes/Dos Astros, pelos trêmulos velários,/Cantam Sonhos de místicos templários,/De ermitões e de ascetas reverentes .../Cânticos vagos, infinitos, aéreos/Fluir parecem dos Azuis etéreos,” (...) “E vai, de Estrela a Estrela, à luz da Lua,/Na láctea claridade que flutua,/A surdina das lágrimas subindo ...”. O poema é sidéreo, cerúleo, tem um fluido que lhe dá a forma espectral e ao mesmo tempo com a solidez sonora de um poeta possuído pelas suas imagens como sons de um fundo poético que reverbera o tempo todo na superfície em que se tece o poema, mistério em azuis etéreos, poema que entende estrelas.

POST MORTEM : O poema nos dá as chaves das formas inefáveis, esta busca do poeta simbolista do indefinido e que do amor tem este como enigma e música suprema, e aqui no estro de um poema post mortem: “Quando do amor das Formas inefáveis/No teu sangue apagar-se a imensa chama,/Quando os brilhos estranhos e variáveis/Esmorecerem nos troféus da Fama,/Quando as níveas Estrelas invioláveis,/Doce velário que um luar derrama,/Nas clareiras azuis ilimitáveis;/Clamarem tudo o que o teu Verso clama,/Já terás para os báratros descido,/Nos cilícios; da Morte revestido,” (...) “Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas/Pelo alto ficarão de eras supremas/Nos relevos do Sol eternizados!”. O poema tem uma coda magistral, um relevo solar que culmina como um clarão infinito na poesia e na mística imagem da inspiração.

ACROBATA DA DOR : O poema exemplar do estro de Cruz e Sousa é este do acrobata da dor, um poema belo não só pela forma, mas, fato raro no simbolismo, também pelo conteúdo: “Gargalha, ri, num riso de tormenta,/Como um palhaço, que desengonçado,/Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado/De uma ironia e de uma dor violenta./Da gargalhada atroz, sanguinolenta,/Agita os guizos, e convulsionado/Salta, “gavroche”, salta, “clown”, varado/Pelo estertor dessa agonia lenta ...” (...) “E embora caias sobre o chão, fremente,/Afogado em teu sangue estuoso e quente,/Ri! Coração, tristíssimo palhaço.”. A descrição clownesca é de um humor de riso bem talhado, e a queda é a imagem clássica do palhaço triste.

ÂNGELUS ... : O poema tem este estro de religiosidade em forma poética e simbólica, portanto, caindo em mística, forma comum do inefável em poesia simbolista como a de Cruz e Sousa, no que temos: “Ah! lilases de Ângelus harmoniosos,/Neblinas vesperais, crepusculares,/Guslas gementes, bandolins saudosos,/Plangências magoadíssimas dos ares .../Serenidades eterais de incensos,/De salmos evangélicos, sagrados,/Saltérios, harpas dos Azuis imensos,/Névoas de céus espiritualizados./Ângelus fluidos, de luar dormente,/Diafaneidades e melancolias .../Silêncio vago, bíblico, pungente/De todas as profundas liturgias./É nas horas dos Ângelus, nas horas/Do claro-escuro emocional aéreo,/Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras/Ondulações e brumas do Mistério./Surges, talvez, do fundo de umas eras/De doloroso e turvo labirinto,/Quando se esgota o vinho das Quimeras/E os venenos românticos do absinto.”. O poema tem estes eflúvios infindos que povoam o ar ou ambiente em que se tece este poema de ângelus, pura luz de poesia diamantada, que nos seduz com mais versos, tais quais: “Num enlevo supremo eu sinto, absorto,/Os teus maravilhosos e esquisitos/Tons siderais de um astro rubro e morto,/Apagado nos brilhos infinitos./O teu perfil todo o meu ser esmalta/Numa auréola imortal de formosuras/E parece que rútilo ressalta/De góticos missais de iluminuras.” (...) “Nos êxtases dos místicos os braços/Abro, tentado da carnal beleza .../E cuido ver, na bruma dos espaços,/De mãos postas, a orar, Santa Teresa! ...”. O poema se conclui com Santa Teresa e sua direta relação com os êxtases dos místicos.

MAJESTADE CAÍDA : O poema tem na imagem da queda a sua inspiração: “Esse cornoide deus funambulesco/Em torno ao qual as Potestades rugem/Lembra os trovões, que tétricos estrugem,/No riso alvar de truão carnavalesco./De ironias o momo picaresco/Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,/Verdes gengivas de ácida salsugem/Mostra e parece um Sátiro dantesco./Mas ninguém nota as cóleras horríveis,/Os chascos, os sarcasmos impassíveis/Dessa estranha e tremenda Majestade./Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,/Senil, que embora rindo, está chorando/Os Noivados em flor da Mocidade!”. Como um fauno aqui descrito, o poema descreve este deus funambulesco, sátiro que dança na flor da treva, descrição também de cóleras e sarcasmos impassíveis, o tétrico rindo na flor da mocidade, sem mais.

POEMAS:

TUBERCULOSA

Alta, a frescura da magnólia fresca,
Da cor nupcial da flor da laranjeira,
Doces tons d`ouro de mulher tudesca
Na veludosa a flava cabeleira.

Raro perfil de mármores exatos,
Os olhos de astros vivos que flamejam,
Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactos
E esse alado das pombas, quando adejam ...

Radiava nela a incomparável messe
Da saúde brotando vigorosa,
Como o sol que entre névoas resplandece,
Por entre a fina pele cor-de-rosa.

Era assim luminosa e delicada,
Tão nobre sempre de beleza e graça
Que recordava pompas de alvorada,
Sonoridades de cristais de taça.

Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza
Daquele corpo virginal e fino,
Sacrário da mais límpida beleza,
Perdeu a graça e o brilho diamantino.

Tísica e branca, esbelta, frígida e alta
E fraca e magra e transparente e esguia,
Tem agora a feição de ave pernalta,
De um pássaro alto de aparência fria.

Mãos liriais e diáfanas, de neve,
Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,
Ela apresenta a fluidez, a leve
Ondulação da vaporosa lua.

Entre vidraças, como numa estufa,
No inverno glacial de vento e chuva
Que sobre as telhas tamborila e rufa,
Vejo-a, talhada em nitidez de luva ...

E faz lembrar uma esquisita planta
De profundos pomares fabulosos
Ou a angélica imagem de uma Santa
Dentre a auréola de nimbos religiosos.

A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,
Ganhando corpo, como num terreno ...
E com prelúdios místicos de salmo
Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

Jamais há de ela ter a cor saudável
Para que a carne do seu corpo goze,
Que o que tinha esse corpo de inefável
Cristalizou-se na tuberculose.

Foge ao mundo fatal, arbusto débil,
Monja magoada dos estranhos ritos,
Ó trêmula harpa soluçante, flébil,
Ó soluçante, flébil eucaliptos ...

FLOR DO MAR

És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços ...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços ...

MÚSICA MISTERIOSA

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivárius
Erram da Lua nos clarões dormentes ...

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes ...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo ...

E vai, de Estrela a Estrela, à luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo ...

POST MORTEM

Quando do amor das Formas inefáveis
No teu sangue apagar-se a imensa chama,
Quando os brilhos estranhos e variáveis
Esmorecerem nos troféus da Fama,

Quando as níveas Estrelas invioláveis,
Doce velário que um luar derrama,
Nas clareiras azuis ilimitáveis;
Clamarem tudo o que o teu Verso clama,

Já terás para os báratros descido,
Nos cilícios; da Morte revestido,
Pés e faces e mãos e olhos gelados ...

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, “gavroche”, salta, “clown”, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d´aço ...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

ÂNGELUS ...

Ah! lilases de Ângelus harmoniosos,
Neblinas vesperais, crepusculares,
Guslas gementes, bandolins saudosos,
Plangências magoadíssimas dos ares ...

Serenidades eterais de incensos,
De salmos evangélicos, sagrados,
Saltérios, harpas dos Azuis imensos,
Névoas de céus espiritualizados.

Ângelus fluidos, de luar dormente,
Diafaneidades e melancolias ...
Silêncio vago, bíblico, pungente
De todas as profundas liturgias.

É nas horas dos Ângelus, nas horas
Do claro-escuro emocional aéreo,
Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras
Ondulações e brumas do Mistério.

Surges, talvez, do fundo de umas eras
De doloroso e turvo labirinto,
Quando se esgota o vinho das Quimeras
E os venenos românticos do absinto.

Apareces por sonhos neblinantes
Com requintes de graça e nervosismos,
Fulgores flavos de festins flamantes,
Como a Estrela Polar dos Simbolismos.

Num enlevo supremo eu sinto, absorto,
Os teus maravilhosos e esquisitos
Tons siderais de um astro rubro e morto,
Apagado nos brilhos infinitos.

O teu perfil todo o meu ser esmalta
Numa auréola imortal de formosuras
E parece que rútilo ressalta
De góticos missais de iluminuras.

Ressalta com a dolência das Imagens,
Sem a forma vital, a forma viva,
Com os segredos da Lua nas paisagens
E a mesma palidez meditativa.

Nos êxtases dos místicos os braços
Abro, tentado da carnal beleza ...
E cuido ver, na bruma dos espaços,
De mãos postas, a orar, Santa Teresa! ...

MAJESTADE CAÍDA

Esse cornoide deus funambulesco
Em torno ao qual as Potestades rugem
Lembra os trovões, que tétricos estrugem,
No riso alvar de truão carnavalesco.

De ironias o momo picaresco
Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,
Verdes gengivas de ácida salsugem
Mostra e parece um Sátiro dantesco.

Mas ninguém nota as cóleras horríveis,
Os chascos, os sarcasmos impassíveis
Dessa estranha e tremenda Majestade.

Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,
Senil, que embora rindo, está chorando
Os Noivados em flor da Mocidade!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35284/17/cruz-e-sousa-pode-ser-considerado-um-exemplar-conspicuo-de-uma-poesia-ainda-rebuscada