PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 17 de julho de 2016

FRANÇOIS VILLON, O PRIMEIRO DOS POETAS MALDITOS – PARTE I

“Villon tem uma biografia extremamente acidentada, na qual avultam crimes e prisões”
François Villon (Paris, 1431-1463) é o poeta francês mais importante da Baixa Idade Média, poeta que em seus escritos antecipou muito o que viria a surgir na poesia moderna, sendo considerado por muitos, portanto, como o primeiro poeta moderno da França, mesmo, como dito, ser Villon um poeta que viveu aos fins da Idade Média, e se vincule, por conseguinte, à tradição realística do século XIII, de Colin Muset e Rutebeuf. E Villon tem uma biografia extremamente acidentada, na qual avultam crimes e prisões. Villon tem uma vida controversa, cheia de polêmicas, ele era um misto de poeta e criminoso, e embora haja pouca informação proveniente dos processos jurídicos que sofreu, tais acontecimentos se confundem facilmente com a sua persona de poeta, e muito pode ser inferido disto em seus versos.
De nome François de Montcorbier ou des Loges, mais tarde adotou o Villon, de mestre Guillaume de Villon, cônego de Saint-Benôit-le-Bétourné e professor de direito canônico, que foi para ele mais que pai, uma vez que ficara órfão muito cedo. Em 1443 ingressa na Faculdade de Artes da Universidade de Paris, pela qual se torna bacharel em 1449 e, sucessivamente, licenciado, em maio de 1452, e mestre em artes, em agosto. Ainda como estudante, participa em 1451-1452, provavelmente, das várias peripécias da questão do Pet-au-Diable, na qual esse marco foi roubado. E tudo indica que Villon permaneceu ligado à universidade, pois continuou a dizer-se escolar em sua poesia (“Le Lais”), não tendo, contudo, feito carreira eclesiástica nem secular, como poderia, dada a sua habilitação. Em 1455 acontece um dos fatos polêmicos de sua curiosa biografia, pois provocado por um sacerdote, Philippe Chermoye ou Sermoise, Villon o feriu, e deste ferimento o padre veio a morrer. Villon, também ferido, deixou Paris, mas no ano seguinte obteve duas cartas de remissão por esse homicídio, em janeiro. Aqui se junta a poesia ao banditismo, que quero frisar neste texto que não tem nada de glamouroso ou romantizado, é apenas um fato biográfico, nada mais que isto.
E, continuando a sua peripécia, Villon, por volta do natal de 1456, participa do roubo do tesouro do Colégio de Navarra, em companhia de Colin de Cayeux, D. Nicolas, Petit Jean e Guy Tabarie. Este último dá com a língua nos dentes e Villon novamente se ausenta de Paris, levando vida errante na província. Esteve provavelmente em Bourg-la-Reine, Angers, Bourges, Blois, na corte de Charles d`Orléans, o príncipe-poeta, que compila diversos poemas seus, dentre eles a célebre “Dupla Balada”, e onde participa de um concurso de poesia e escreve a balada “Je meurs de soif auprès de la Fontaine”, segundo parece, sendo este mote fornecido pelo duque, ele próprio poeta de primeira linha.
Talvez aprisionado em Orléans, foi-o com certeza em Meung-sur-Loire, por ordem do bispo Thibaut d`Aussigny, em 1461, passando o verão num calabouço, onde provavelmente compõe “O debate do coração e do corpo de Villon”. Nessa oportunidade, o bispo o teria degradado de sua condição de clérigo, por fim. Foi libertado quando Luís XI passou pelo lugar, indultando os presos. No ano seguinte volta a Paris e é encarcerado no Châtelet, sob acusação de roubo. Quando estava para ser libertado, voltou à baila o roubo do Colégio de Navarra; foi solto em novembro, sob a promessa de devolver 120 escudos ao mesmo Colégio, no prazo de três anos. Villon é de fato um poeta de biografia complicada, e não lhe dou a pecha de herói romântico, algo que a cepa de poetas malditos glorificará, creio muitíssimo equivocadamente, pois tal epíteto é uma das afetações da história da poesia.
Balada dos enforcados: O título do manuscrito Fauchet e da editio princeps é “L`épitaphe Villon”, mas a “Ballade des pendus” é corrente. Villon tem presente o espetáculo horroroso do cadafalso de Montfaucon, neste que é um de seus mais celebrados poemas, escrito quando recebeu a condenação à forca.
E tem versos como: “Irmãos humanos que depois de nós viveis,/Não tenhais duro contra nós o coração,/Porquanto se de nós, pobres, vos condoeis,/Deus vos concederá mais cedo o seu perdão./Aqui nos vedes pendurados, cinco, seis:”, Villon aqui expõe a sua condição de condenado, e luta contra a dureza de coração, a mesma que ele deveria ter pensando antes de seus crimes, está pendurado, e apela a Deus, num ardil ou desespero. E segue sua ladainha: “Ninguém nos atormente, a vida já acabada./Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!”, pois então já se vê Villon diante da morte, e usa do estribilho do último verso mais uma vez apelando a Deus, no que consuma sua visão em tais versos: “Príncipe bom Jesus, de universal mandar,/Guardai-nos, ou o inferno então nos arrecada:/Lá nada temos a fazer, nada a pagar.” E Villon tem carga pesada, certo pagará, no inferno ou no próprio mundo.
Balada das damas dos tempos idos : Flora é a cortesã romana à qual se referiam Latâncio e os apologistas cristãos. Arquipíades : Alcibíades (dado como exemplo de beleza por Boécio), na Idade Média, até o séc. XV, era amiúde tomado como mulher. Taís citam-se várias cortesãs antigas, mas Michel opta pela Alexandria, citando assim Villon uma romana, uma grega e uma alexandrina. Eco é a ninfa que se apaixonou por Narciso e definhou até morrer por não ter sido correspondida, reduzindo-se então a uma simples voz. E a tirana é Heloísa, que foi discípula de Abelardo, com o qual se casou secretamente; o cônego Fulbert, tio da moça, não sabendo disso, mandou sicários castrarem-no. Abelardo se fez de monge, ela freira, encetando uma correspondência famosa. Foram sepultados juntos na Abadia do Paracleto, na Champanha. Buridan, por sua vez, é um escolástico, reitor da Universidade de Paris em 1328. Uma tradição o ligava à Torre de Nesle, onde uma rainha saciava sua luxúria e depois mandava apunhalar o amante eventual e lançá-lo ao Sena. Diz-se que Buridan soube escapar da morte. A rainha deve ter sido Margarida de Borgonha, mulher de Luís o Teimoso, condenada à morte por mau comportamento (1315). Seria ela, decerto, a rainha Branca dos versos. Outros supõem Branca de Castela, mãe de São Luís. Berta ou Beatriz, por sua vez, é mãe de Carlos Magno. Os nomes de Berta, Beatriz e Aelis figuram na canção de gesta Hervé de Metz. E Alis seria Aélis, uma das filhas de Alienor d`Aquitânia. A suserana, por fim, é Haremburgis, Arembour, condessa do Maine, morta em 1226. “E a boa lorena, Joana,/Que os ingleses queimaram em Ruão?”: Nada mais que Joana D`Arc.
Nos versos: “Onde a rainha que, leviana,/Mandou Buridan, num surrão,/Lançar ao Sena, doidivana?” aqui é o Villon como poeta histórico, lembrando que sua poesia é um mundo de referências às quais devemos estar atentos para entender a sua poesia, que fecha, ao som da balada, com estribilho, que é também a coda: “Mas as neves do outro ano onde estão?”.
Ao tempo em que alexandre ...: Alexandre, o Grande, que conquistou quase todo o mundo conhecido em sua época (356-323 a.C.). E ao chamado responde a anedota de Diomedes ou Dionides, que figura em Cícero e no retor Caecilius Balbus. Reproduzida no século XIII no Policratus, de João de Salisbury, e no séc. XIV, no Liber Scacchorum, de Jacques de Cessoles, com a obra traduzida em francês por Jean du Vignal. E Valério sendo Valério Máximo, que todavia não é a fonte da anedota.
Nos versos sobre Diomedes, temos: “Ante ele: era infamado/Como pirata corre-mar;”. E segue Villon, fazendo o diálogo louco entre Diomedes e Alexandre, entre o pirata que não tinha nada e o imperador que tinha tudo: “O imperador o interpelou:/“Por que tu és ladrão no mar?”/A isto o outro replicou:/“Por que ladrão me hás de chamar?”. E Villon faz Diomedes responder: “Pudesse eu, como tu, me armar,/Como tu imperador seria.”. E Villon explica a razão do banditismo, o qual também praticava, na voz de Diomedes:  “Miséria faz o delinquente,/E a fome o lobo faz sair.” E Diomedes (Villon) conclui, com muita simplicidade: “Não tenho renda, uma qualquer;”.
Balada dos senhores dos tempos idos: Calisto : Calisto III (Afonso Borgia) foi papa de 1455 a 1458. Alfonso : Afonso V, rei de Aragão, falecido em 1458. O duque de Bourbon : Carlos I de Bourbon, falecido em 1456, pai de Jean II, a quem Villon endereçou a “Requeste”. Artur : Artur III da Bretanha, condestável de Richemont, falecido em 1458, companheiro de Joana D`Arc. Carlos sétimo : Rei de França, falecido em 1461. Rei da Escócia : Jaime II da Escócia, que tinha uma mancha cor de vinho no rosto (atribuía-se à ametista, gema contrária à embriaguez, a cor do vinho) faleceu em 1460. Rei de Chipre : Jean III de Lusignan, falecido em 1458. Rei da Espanha : Juan II, rei de Castela e de Leão, falecido em 1454. Ladislau da Boêmia : Ladislau (Laszlo) d`Áustria, rei da Boêmia, falecido em 1457. Guesclin : O Condestável du Guesclin, que sob Carlos V combateu vitoriosamente os ingleses. Morreu no cerco de Randon em 1380. Delfim de Alvérnia : Beroldo III, conde-delfim de Alvérnia, falecido em 1426. Duque de Alençon : Ou Jean I, morto em Azincourt (1415), ou Jean II, considerado morto, com os bens confiscados e reunidos ao domínio real em 1458.
E aqui alguns dos versos de Villon neste poema, que posso citar: “Também o rei da Escócia, celebrado/Porque teve da face todo um lado/Como a pedra ametista apurpurado/Desde a fronte até o queixo, e isso é famoso?”. E aqui o estribilho que é coda, própria da balada: “Mas onde Carlos Magno, o denodado?”. E as tonalidades filosóficas do poema, em versos como: “O mundo, tenho-o uma ilusão julgado./Ninguém existe que resista ao fado,/Ou tenha proteção contra o imperioso.” O fado e o império dos acontecimentos, que nos fazem crer e descrer de toda a ilusão mágica e terrível de existir.

BALADA DOS ENFORCADOS

Irmãos humanos que depois de nós viveis,
Não tenhais duro contra nós o coração,
Porquanto se de nós, pobres, vos condoeis,
Deus vos concederá mais cedo o seu perdão.
Aqui nos vedes pendurados, cinco, seis:
Quanto à carne, por nós demais alimentada,
Temo-la há muito apodrecida e devorada,
E nós, os ossos, cinza e pó vamos virar.
De nossa desventura ninguém dê risada:
Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!
Chamamo-vos irmãos: disso não desdenheis,
Apesar de a justiça a nossa execução
Ter ordenado. Vós, contudo, conheceis
Que nem todos possuem juízo firme e são.
Exculpai-nos – que mortos, mortos nos sabeis –
Com o filho de Maria, a nunca profanada;
A sua graça, para nós, não finde em nada,
No inferno não nos venha o raio despenhar.
Ninguém nos atormente, a vida já acabada.
Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

A chuva nos lavou, limpou-nos, percebeis;
O sol nos ressequiu até a negridão;
Pegas, corvos cavaram nossos olhos – eis! -,
Tiraram-nos a barba, a bico e repuxão.
Em tempo algum tranquilos nos contemplareis:
Para cá, para lá, o vento da virada
A seu talante leva-nos, sem dar pousada;
Mais que a dedal, picam-nos pássaros no ar.
Não queirais pertencer a esta nossa enfiada.
Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!
Príncipe bom Jesus, de universal mandar,
Guardai-nos, ou o inferno então nos arrecada:
Lá nada temos a fazer, nada a pagar.
Homens, aqui a zombaria é inadequada:
Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

BALADA DAS DAMAS DOS TEMPOS IDOS

Dizei-me onde, em que país,
Está Flora, a bela romana,
Arquipíades ou Taís,
Que foi sua prima germana;
Eco, beleza mais que humana,
Que na água estanque ou ribeirão,
Quando há barulho, fala e flana.
Mas as neves do outro ano onde estão?
Onde Heloísa, por quem se diz
Que, castrado, vestiu sotana
Pedro Abelardo, em São Denis?
Do amor lhe veio a dor tirana.
Onde a rainha que, leviana,
Mandou Buridan, num surrão,
Lançar ao Sena, doidivana?
Mas as neves do outro ano onde estão?

A rainha Branca de lis,
De sua voz sereia ufana,
Berta pé-grande, Aelis, Beatriz,
Do Maine e Arembour suserana,
E a boa lorena, Joana,
Que os ingleses queimaram em Ruão?
Que é delas, Virgem soberana?
Mas as neves do outro ano onde estão?
Príncipe, não gasteis semana
E ano a indagar onde serão,
Que do refrão sempre dimana:
Mas as neves do outro ano onde estão?

AO TEMPO EM QUE ALEXANDRE ...

Alexandre reinava; então
Um homem, Diomedes chamado,
Tendo correntes, qual ladrão,
Nos dedos todos, foi levado
Ante ele: era infamado
Como pirata corre-mar;
E posto ante o grande soldado,
Este de morte o ia julgar.
O imperador o interpelou:
“Por que tu és ladrão no mar?”
A isto o outro replicou:
“Por que ladrão me hás de chamar?
Porque me veem piratear
Numa pequena fusta esguia?
Pudesse eu, como tu, me armar,
Como tu imperador seria.
Mas que queres? De minha sorte,
Contra a qual não tenho poder,
Pois me trata com injusto porte,
Surge todo esse quefazer.
Vem-me teu perdão conceder,
E sabe que em grande pobreza
- Isto é comum ouvir dizer –
Não reside grande inteireza.”

O imperador teve por forte
Essa resposta do arguente.
“Eu mudarei a tua sorte
De má em boa” – fê-lo ciente.
E o cumpriu. Não mais malfazente
Mostrou-se o homem, mas honrado:
Que é verdade Valério o assente,
E o Grande em Roma foi chamado.
Se Deus me desse de encontrar
Outro Alexandre que, clemente,
Ao bem me viesse encaminhar,
No mal tombasse eu, reincidente,
Sentenciar-me-ia, imparcialmente,
A ser queimado e em cinza advir.
Miséria faz o delinquente,
E a fome o lobo faz sair.
Choro o tempo de juventude
(No qual mais que em outros gozei,
Até anunciar-se a senectude):
Sua partida não notei.
Não se foi ele a pé – julguei –
Nem a cavalo, mas voou
De súbito, ai! assim direi,
E dom algum não me deixou.
Foi-se e eu me encontro, então e agora,
Pobre de senso e de saber,
Triste, mais negro do que amora;
Não tenho renda, uma qualquer;
Chega até a me desconhecer
O menor dos meus, é verdade,
Deixando o natural dever
Porque vivo em necessidade.

(obs: esta é a primeira parte do poema, que é longo)

BALADA DOS SENHORES DOS TEMPOS IDOS

Onde será Calisto procurado,
Terceiro em nome e último finado,
Que esteve quatro anos no papado?
Alfonso de Aragão, rei afamado,
O duque de Bourbon, tão gracioso,
E Artur, que da Bretanha houve o Ducado,
E Carlos sétimo, de bom chamado?
Mas onde Carlos Magno, o denodado?
Também o rei da Escócia, celebrado
Porque teve da face todo um lado
Como a pedra ametista apurpurado
Desde a fronte até o queixo, e isso é famoso?
O rei de Chipre, que era renomado,
E o nobre rei da Espanha, ai! tão falado,
De quem eu esqueci o nome honroso?
Mas onde Carlos Magno, o denodado?

De falar neste assunto já me enfado;
O mundo, tenho-o uma ilusão julgado.
Ninguém existe que resista ao fado,
Ou tenha proteção contra o imperioso.
Mas perguntar inda é de meu agrado:
Ladislau da Boêmia, o potentado,
Onde está? E onde o seu avô faustoso?
Mas onde Carlos Magno, o denodado?
Onde está du Guesclin, bretão brioso?
Onde o delfim da Alvérnia será achado?
E o duque de Alençon, ido e animoso?
Mas onde Carlos Magno, o denodado?

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/29667/17/francois-villon-o-primeiro-dos-poetas-malditos-parte-i


domingo, 10 de julho de 2016

FRIEDRICH SCHILLER, O POETA DO TEATRO E SUA EVOLUÇÃO ARTÍSTICA

“Schiller mantém uma coerência de conduta, pois em toda a sua obra é um idealista”

“Schiller é, sem dúvida nenhuma, o mais destacado entre os dramaturgos clássicos alemães, não por submeter-se estritamente às regras desse movimento, mas por transformar realmente o teatro alemão, emprestando às suas obras a ambicionada síntese do bom, do belo e do verdadeiro.” (Erwin Theodor)
DOIS RETRATOS
Num retrato pintado em 1780, o jovem Schiller aparece numa imagem em que reflete um ar sonhador e inquieto, uma alma jovem, com o cheiro da rebeldia e da descoberta. O nariz destaca-se nesse rosto que não chega a ser belo, mas tem um certo fascínio. Os cabelos estão presos atrás por um laço de veludo, que são claros e fartos. A camisa branca está aberta ao peito, no melhor estilo do romantismo, era o período de eclosão do Sturm und Drang. Schiller tem nessa época vinte e um anos, e veste-se à moda de Werther, o herói sentimental do romance de J.W. Goethe, que comovera toda a Alemanha. Schiller é um Werther de carne e osso, moda alemã daquele contexto de ruptura com a razão iluminista e de jovens poetas em busca de emoção e afirmação.
Aos vinte e um anos Schiller já é considerado um “gênio”, no sentido pré-romântico do termo. E um “gênio” como sendo a ideia que envolve todo aquele, ainda mais quando artista, que tem coragem de se libertar das regras sociais e literárias, e de colocar o sentimento acima da razão, de recusar aquilo que é ordenado e racional, em suma, era a rebeldia, a ruptura, e um mundo novo e admirável. Aos vinte e um anos o jovem Schiller prepara sua primeira peça de teatro, Os Bandoleiros, expressão de sua rebeldia e da rebeldia de uma geração, era o primeiro ato de uma obra grandiosa. Todos os jovens irão se espelhar em Karl Moor, o herói da peça: um estudante que, incompreendido pela família, transforma-se num bandido para corrigir com as próprias mãos as injustiças do mundo. Contraste entre revolução e banditismo.
Dezenove anos depois, outro retrato. Agora está Schiller em Weimar, sentado numa cadeira dourada, o rosto de perfil. O casaco é escuro, a camisa branca impecavelmente abotoada. Está com uma expressão calma, a tempestade e o ímpeto já tinham passado, e muito bem, pois Schiller é agora um poeta do teatro em plena forma. Ao fundo, o perfil clássico de uma cabeça grega. Schiller tem quarenta anos e o movimento pré-romântico alemão, conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), é apenas uma grata lembrança de juventude.
Neste contexto, já estava escrevendo Maria Stuart, a tragédia da rainha da Escócia, em versos iâmbicos, severamente ordenados, e dali para a frente consolidaria seu nome e obra teatral. Os impulsos românticos do jovem Schiller foram disciplinados e ele não se lança mais anarquicamente contra a sociedade e suas normas, não se utiliza mais da ferocidade revolucionária, mas dos meandros da retórica eficiente. E com o avanço de seu estudo na História e na Filosofia, sobretudo a kantiana, ele agora alcança o humanismo, e a busca da conciliação se impôs: Schiller deseja realizar a síntese do bom, do belo e do verdadeiro, na sua própria teoria estética.
REBELDIA E SENTIMENTALISMO
Em 1773, Schiller dá adeus aos seus planos eclesiásticos, e cai numa cilada, pois é recrutado pela Carlsschule, destinada a formar funcionários e oficiais para o ducado de Württemberg. Lá, Schiller viveu o período mais triste de sua vida. Privado da família e do mundo exterior, durante oito anos sentiu-se numa prisão. A natureza apaixonada de Schiller adaptava-se mal a esse regime de caserna e tinha crises de rebeldia, severamente punidas. Em 1775, começa enfim a fazer o curso de medicina em Stuttgart. Nessa época, apesar de proibidos, autores como Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), Maximilian Klinger (1752-1831) e J.W.Goethe (1749-1832) eram lidos por Schiller e alguns companheiros, clandestinamente. Era inevitável que Schiller se apaixonasse por esses autores e pelos princípios que eles defendiam. E Goethe, sobretudo, terá não só uma presença literária, como pessoal, em sua vida.
O movimento pré-romântico alemão, denominado pelos representantes do movimento Sturm und Drang, título de uma peça de Klinger, não estava apenas empenhado na renovação literária da Alemanha. Na realidade, seus objetivos eram mais amplos. A luta era também contra o absolutismo, contra a arbitrariedade, o luxo, a prepotência dos nobres, o moralismo e a severa disciplina militar. Não foi por mero acaso que Os Bandoleiros (Die Rauber), uma das maiores expressões do pré-romantismo alemão, começou a ser escrita por Schiller na Carlsschule. O ambiente de opressão culminou numa obra exaltada de revolução jovem, era a peça de alguém sob forte vigília, que ali explodia.
Schiller começa, então, a procurar editores para Os Bandoleiros, sem qualquer sucesso. Afinal, resolve contrair uma dívida de 150 florins para editar a obra por conta própria. A peça, montada pelo teatro de Mannheim, obteve um sucesso triunfal, e na noite da estreia, Schiller abandona o quartel e parte escondido para Stuttgart, no que é descoberto, tendo como pena quinze dias de prisão, mais a interdição de viajar e a proibição de escrever. Em setembro de 1782, Schiller foge para Mannheim, na esperança de ser recebido pelo barão Von Dalberg, diretor de teatro, que ficara entusiasmado com Os Bandoleiros.
Schiller leva consigo o manuscrito de um novo drama, Fiesko, tragédia em cinco atos, mas o barão recusa encenar a peça, pois sabe que o jovem escritor desertou e não deseja comprometer-se. Então, Schiller segue viagem e vende a peça por uns poucos florins, o que o mantém durante dois meses, em albergues baratos, e depois de três meses de andanças, para em Bauerbach, um vilarejo perdido na Turíngia. Em 1783, Dalberg escreve-lhe uma carta muito amável. O diretor lera Intriga e Amor, peça que Schiller escrevera em seu retiro em Bauerbach; gostara muito da obra e o convida a ser o poeta do teatro. A 11 de janeiro de 1784, Fiesko estreava em Mannheim. Fiesko foi escrita no melhor estilo do pré-romantismo alemão: movimento, cenas rápidas, com livre tratamento do espaço. Mas não conseguiu obter o mesmo sucesso de Os Bandoleiros.
Mas, logo em seguida, com Intriga e Amor, ele se reconcilia com o público de Mannheim. Considerada a última obra da fase pré-romântica de Schiller, esse drama é também uma das primeiras peças alemãs a levar à cena o mundo pequeno-burguês. Então Schiller encerra aqui o primeiro momento de sua obra, e que tirando Fiesko, mantém-se em evidência na sua partida com Os Bandoleiros, e na sua primeira chegada com Intriga e Amor. Schiller não poderia mais deixar o teatro, e nem passava pela sua cabeça a volta à medicina, começara como um fugitivo da opressão militar, e se libertava finalmente dos grilhões, afirmando uma arte até ali de rebeldia, própria do movimento Sturm und Drang.
FILOSOFIA E HISTÓRIA
Depois de um período em Leipzig, Schiller se vê atraído por dois campos do conhecimento: a Filosofia e a História. Schiller escreveu duas obras históricas importantes: História da Insurreição dos Países Baixos, publicada em 1788, e História da Guerra dos Trinta Anos, aparecida em 1791 e 1793, num almanaque histórico. E junto com as preocupações históricas, despontaram também as suas inquietações filosóficas, em que descobre a obra do filósofo Immanuel Kant (1724-1804), que é decisiva para o seu afastamento dos pressupostos do Sturm und Drang para a elaboração de sua própria estética. É neste momento que Schiller tenta fazer a sua filosofia e parte para a fronteira além do teatro, na qual retornaria com vigor mais adiante, e que levaria como homem autor de teatro até o fim de sua jornada.
A partir de 1786, quando manifestou pela primeira vez seu pensamento em Cartas Filosóficas, ficou claro que os conceitos de Bom, Verdadeiro e Belo eram os valores máximos do poeta, e que estes eram indissociáveis da ética e da cultura.  Para Schiller era fundamental, portanto, criar uma concepção filosófica que juntasse ética e estética, sendo a ética uma condutora dos ideais maiores da estética, pois com a prudência da ética se poderia ampliar o escopo da estética e torná-la enfim rica e filosófica, e não apenas um tema da arte, pois a estética era também uma grande pedagogia, e para tal, se usava da ética para consumar-se em verdadeira filosofia.
Para Schiller, o homem devia tender, em sua evolução, para a totalidade de sua natureza. Mas esta só podia se realizar por intermédio da educação estética do indivíduo: a cultura era a única força capaz de elevá-lo e de harmonizar suas forças intelectuais e emocionais. E, uma vez esse elemento tão importante – a cultura – era fruto do homem e das civilizações, apenas a sociedade constituída, detentora de todo o conhecimento acumulado pelas gerações durante séculos, teria condições de fazer com que o ser humano desenvolvesse suas virtualidades. Portanto, tal educação estética era parte de um grande e amplo processo histórico e de genealogia cultural, vários passos dados por gerações sucessivas.
A partir dessa conclusão pela cultura, como o bastião ético da estética, Schiller não mais podia aceitar o apelo pré-romântico de volta à natureza, nem colocar o homem em conflito com a sociedade – como fizera nas obras de juventude. As dicotomias se apagavam: razão-sentimento, convenção-natureza, indivíduo-sociedade. A síntese e a harmonia eram possíveis e por meio delas poder-se-ia chegar ao ideal humanista. O humanismo era, portanto, despertado, e era fenômeno de cultura e não de nostalgia pela natureza, como o temperamento Sturm und Drang um dia havia pensado. Portanto, aqui Schiller passa das peças de juventude e se torna filósofo e historiador, era agora, além de homem de teatro, um pensador da cultura como ética aplicada na edificação de sua estética.
WEIMAR
O ambiente intelectual que Schiller encontrou em Weimar, por sua vez, ajudou-o a consolidar e ampliar cada vez mais seu pensamento. Weimar se destacava dos outros ducados alemães como centro de difusão artística e literária. Lá viviam Goethe – que na época da chegada de Schiller encontrava-se na Itália vivendo uma fase das mais determinantes da sua vida – Christoph Martin Wieland (1733-1813), autor do poema épico Oberon – que exerceu enorme influência numa geração de poetas -, e Johann Gottfried Herder (1744-1803), historiador, poeta e pensador, que exercera papel importante na obra do jovem Goethe.
Schiller chegou a Weimar no ano de 1787. Foi logo recebido por Wieland e Herder, que o introduziram nos círculos literários e artísticos de Weimar e Iena. Em dezembro desse mesmo ano, conheceu Charlotte von Lengefeld, uma jovem de família aristocrática por quem se apaixonou. Casou-se com ela em fevereiro de 1790, depois de conseguir, graças a Goethe, a cadeira de Filosofia e História na Universidade de Iena. Além disso, o grande mecenas, o duque Carlos Augusto, concedeu-lhe uma pensão de 200 táleres.
O ENCONTRO COM GOETHE
Estabelecido em Weimar, Schiller encontrou o ambiente ideal para criar. Goethe chegara da Itália em 1788, mas não se aproximara imediatamente de Schiller. Houve, aliás, uma certa reserva de início, que só se apagou em 1794, quando os dois poetas se encontraram por acaso numa reunião científica em Iena. Goethe escreverá, a propósito desse encontro: “Nós estávamos certos de nos aproximar mais cedo ou mais tarde, mas o que foi particularmente significativo e muito importante para cada um de nós, é que esse encontro se deu depois de minha viagem à Itália e quando Schiller começava a se lançar em suas especulações filosóficas”.
E estes são os dois pontos fundamentais para as histórias de Goethe e Schiller: a viagem à Itália do primeiro, e o mergulho na filosofia kantiana do segundo. Com isso, ambos, cada um à sua maneira, chegam à superação do pré-romantismo. Ao se encontrarem em 1794, ambos proclamavam o ideal de um humanismo puro e a necessidade do desenvolvimento integral da personalidade humana. Ambos já eram humanistas consolidados, e não mais jovens do Sturm und Drang. E o que fascinava Goethe era o idealismo de Schiller. E o que fascinava Schiller era a vitalidade e o realismo de Goethe. Segundo Erwin Theodor, “assim como Goethe deveu a Schiller um valioso estímulo e uma nova primavera, a espiritualidade ativa e o idealismo abstrato de Schiller foram frutificados pela plenitude das visões reais de Goethe, pelo impacto exercido graças às manifestações da riqueza e pureza naturais, onipresentes na obra goethiana”.
O entusiasmo e a admiração de um pelo outro levou-os a se entregarem a trabalhos que estavam por algum tempo abandonados. Em 1796, Goethe retomou Fausto e Schiller – que depois de Don Carlos nada escrevera para o teatro – começou a escrever Wallenstein. Mas o ano de 1796 é também o das Xénias, centenas de epigramas, nos quais os dois faziam críticas e elogios a diversos autores, artistas e cientistas da época. No ano seguinte, ambos irão partir para um gênero épico particular – o da balada. Schiller escreve O Anel de Polícrates, Os Grous de Íbico, O Mergulhador, A Luva, A Canção dos Sinos, até hoje leitura obrigatória nas escolas alemãs. E em agosto de 1797, dez anos após ter sido escrita, Don Carlos é montada em Hamburgo. Nesta peça Schiller está mais próximo dos trágicos franceses, Corneille (1606-1684) e Racine (1639-1699), no equilíbrio e no tom contido. Embora a verdade e a liberdade continuem sendo os ideais de seus heróis, estes não os conquistam nem por meio da violência nem da revolta, mas da retórica. Aqui o ímpeto jovem dá lugar à astúcia da linguagem.
O IDEALISMO DE SCHILLER
Na época em que Schiller escreveu Don Carlos, já estava bastante envolvido com a História e a Filosofia, mas foi em Wallenstein, escrita de 1794 a 1799, que ele utilizou seus conhecimentos históricos para compor uma personagem. Em 1799, por sua vez, Schiller escrevia a Goethe dizendo que depois de Don Carlos e Wallenstein, estava saturado de heróis, guerreiros e déspotas. Mas em 1800 escreveria Maria Stuart, em 1801, A Donzela de Orleans, em 1803, A Noiva de Messina, e em 1804 cantaria o heroísmo suíço na obra Guilherme Tell. E sua morte interrompeu a realização de Demetrius, tragédia política que se ambientava na Rússia de Boris Godunov. Na verdade, Schiller dedicou os últimos anos de sua vida àquilo que é o melhor de sua obra: as peças de teatro. E, se o poeta buscava sua matéria na História, isso não acontecia unicamente pelo fato de ser ele um historiador, mas sobretudo porque certos temas ilustravam admiravelmente seu idealismo. Portanto, o elo entre o jovem Schiller e o mesmo maduro não foi desfeito, pois era sempre o idealismo que guiava sua obra, com a diferença de que o jovem era impetuoso e o maduro era fundado já numa teoria estética, na astúcia retórica, e na fundação de documento histórico em função do ato teatral. Portanto, Schiller mantém uma coerência de conduta, pois em toda a sua obra é um idealista.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/29552/17/friedrich-schiller-o-poeta-do-teatro-e-sua-evolucao-artistica


sábado, 9 de julho de 2016

FRIEDRICH HÖLDERLIN E SEUS POEMAS DA ERA PRÉ-ROMÂNTICA – PARTE IV

“Hölderlin manteria seu dom intacto mesmo na mais profunda loucura”

Os temas do divino e da utopia reaparecem agora na fase dos hinos, a qual sucede as elegias na poesia de Hölderlin. Temas que são tratados com ainda mais clareza, como no poema “Como num dia feriado”, tal que é um poema sobre o poeta, uma descrição poética da feitura que o poeta encarna, e que no seu traquejo com a linguagem, será a expressão de uma habilidade que, nesta altura da criação de Hölderlin, irá se tornar controversa ou incompreendida. Alturas incógnitas de Hölderlin que levará o grande filósofo Heidegger a lhe dedicar um ensaio de interpretação, filósofo que iria, no século XX, ser um dos maiores intérpretes da poesia de Hölderlin. E o fenômeno Hölderlin, também em sua loucura, irá ser uma expressão disfuncional que, decerto, terá no século XX seu estatuto na poesia de vanguarda, algo surpreendente, pois se fala de um poeta que viveu até antes de terminar o meio do século XIX.
O “dia feriado” do título representa a ideia mítica do retorno dos deuses à terra, descrição de um despertar da Natureza, pouso idílico, que é também uma potência anterior ao tempo e acima de todos os deuses, que é tomada de entusiasmo, cheio de Deus dentro de si, e que, miticamente, por sua vez, encarna o sopro criador de Dioniso. Hölderlin acende também “um fogo na alma dos poetas”, os quais, como vates que são, portanto, vaticinam o Advento, dom da profecia, aqui o futuro, e de outro, por tratar o mito, dom da memória, acendendo o passado, numa narrativa de origem, e também o dom da ação, acendendo o presente, pois tem a presença de “novo signo, os feitos do mundo de agora”, sendo que o fogo aceso na alma dos poetas pelo entusiasmo de Dioniso lhes faculta irem até o cósmico, é uma ascensão, uma narrativa mítica e transcendente, para reconhecer de pronto, tanto com o sol, como com a terra e a tempestade, as “forças vivíssimas dos deuses” presentes. Origem, profecia, ascensão, elementos que o poema vaticina, refunda e torna presentes com o dom final da palavra.  
Esse vislumbre panteísta, revelação da divina unidade do mundo, Uno filosófico, unio mystica, é também uma lembrança edênica, obnubilada pela consciência comum que dorme, que o comum dos homens esqueceu, mas que a memória fiel dos poetas guarda sempre viva, razão que leva à compreensão de que os poetas são guardiães da sabedoria e da palavra ancestral, pois na mitologia, por sinal, as Musas eram filhas da Memória. Mas, para alcançar a própria alma ou o entendimento extático que é dos iluminados pelo fogo do céu – o mesmo fogo que Prometeu foi roubar aos deuses, sendo punido por isso – e com este fogo chegarem à clareira do autoconhecimento e da decifração do mundo em sua totalidade, através da dádiva do poema, que é também revelação, não religiosa, mas de geração espontânea, fenômeno artístico e poético, e para alcançar a alma dos homens, devem os poetas pagá-lo, assim como Prometeu, ao preço do sofrimento, que é nada mais, falando de mito, o raio divino que fulmina, arrebata e queima poetas, assim como queimou Sêmele.
Os seus últimos grandes hinos, Hölderlin os compôs no limiar da loucura definitiva, era já, nas próprias letras apresentadas, o caminho evidente de um colapso. Daí alguns exegetas terem visto, já nas suas elipses violentas, e na produção de uma dicção consumada, por sinal, em aparente incoerência, as primeiras expressões de sua desordem mental. Mas isso, por outro lado, em nada prejudicou o valor intrínseco do que ele então escreveu, pois Hölderlin manteria seu dom intacto mesmo na mais profunda loucura, o que se comprovará nos relatos seguintes de sua história.
Tais bruscas elipses e suposta incoerência de discurso, ao contrário de uma loucura sem sentido, talvez até contribuísse para realçar o caráter de antecipador da modernidade que hoje lhe é reconhecido. Pois o cubismo poético de Apollinaire, por exemplo, irá explorar os efeitos de descontinuidade e simultaneidade das sensações através das famosas justaposições de versos ou grupos de versos sem vínculos de ordem discursiva ou lógica entre si, o que era nada mais do que levar ao extremo as elipses de Hölderlin, assim como o recurso à escrita automática, no surrealismo, para a produção de imagens de impacto dotadas de “absurdez imediata” levaria a igual extremo a desconexão lógica dos últimos hinos hölderlinianos. A linguagem disfuncional, por mais irônico e curioso que pareça, ganha adeptos no despontar do século XX, sendo um sinal de modernidade e de vanguarda. O que culminará na demolição da onipotência do sentido pelos dadaístas, loucos sóbrios e sedentos de futuro.
Foram contemporâneas da composição dos últimos hinos as traduções que Hölderlin fez de suas duas tragédias de Sófocles, Édipo-tirano e Antígona; as quais conseguiu publicar em volume por volta de 1804. Os entendidos da época caçoaram delas, pois  Voss, tradutor de Homero, perguntou em carta a um amigo: “Que me diz você do Sófocles de Hölderlin? O homem é mesmo maluco, ou finge sê-lo”. E Schelling, o filósofo que havia sido colega do poeta em Tubinga, escreveu a Hegel: “A versão de Sófocles mostra uma condição mental assaz decadente”.
A exasperada busca de equivalentes capazes de fazer justiça à riqueza dos matizes de significado do texto grego levou Hölderlin a forçar até o limite as possibilidades expressivas do alemão, enchendo-o de decalques, imitando giros sintáticos do grego, paralelizando-lhe a ordem das palavras, mesmo ao custo de violar a índole do alemão, uma exigência e rigidez que tornou o alemão disfuncional, uma tradução que de tão fiel decaiu o vernáculo e coerência do alemão, incompreendida de pronto nas primeiras impressões. No entanto, pela sua radicalidade e pelo seu vigor, essas traduções marcaram época. George Steiner as considera da “maior importância” por serem “o ato mais violento, mais deliberadamente extremado de penetração e apropriação hermenêutica de que se tem notícia” na história da tradução poética.
No mesmo ano de 1804 em que saíram publicadas suas traduções de Sófocles, Hölderlin conseguiu, por intercessão de seu amigo Sinclair, o cargo simbólico de bibliotecário da corte do landgrave ou príncipe Frederico V, que lhe havia anteriormente encomendado “Patmos”. Mas foi uma sinecura de curta duração; e logo Hölderlin perdeu este subsídio, e agora o poeta se deparava com um estado mental que piorava cada vez mais; sua decadência se tornava nítida, e um médico declarou, após examiná-lo em 1805: “sua loucura está-se convertendo em frenesi, e é impossível compreender-lhe a linguagem, que parece uma mistura de alemão, grego e latim”. No ano seguinte, Sinclair decide interná-lo numa clínica de Tubinga. A esta altura, com seus cabelos que já começavam a embranquecer; Zweig o evoca cambaleando então “pelas ruas de Tubinga, escarnecido pelos rapazes, cercado de estudantes que o ridicularizavam, estudantes que não souberam ver aquele espírito apagado através do invólucro trágico do corpo”.
No verão de 1807, de nada tendo adiantado o tratamento na clínica, ele é entregue aos cuidados do marceneiro Zimmer, de Tubinga, o qual, por admirá-lo desde que lera Hiperíon, se dispusera a tomar conta dele. Até o fim da vida o poeta irá viver em casa de Zimmer, confinado numa torre com vista para o Neckar e para a tranquila paisagem ribeirinha. As suas crises vão-se espaçando, e os passeios pela vizinhança o ajudam a acalmar-se. Para o simplório e bondoso marceneiro que o hospedava, ele tinha enlouquecido “não por falta de espírito, mas por causa do seu muito saber”; e diagnosticava: “Foi o entusiasmo pelo paganismo que o fez descarrilar, e todos os seus pensamentos se detiveram num ponto em torno do qual gira e gira sem descanso”. Mas Zimmer testemunha que o poeta, por outro lado, muito dócil, como uma criança, não lhe dava maior trabalho, pois servia-se sozinho à mesa, vestia-se e ia para a cama sem ajuda. E, o que era mais importante, além de distrair-se tocando flauta e cravo, continuou a escrever até o fim dos seus dias. Costumava oferecer pequenos poemas, compostos na hora com espantosa facilidade, aos seus raros visitantes, entre eles alguns dos escritores românticos alemães que o começavam a descobrir.
E falando agora dos tais “poemas da loucura” (aqui citados inteiros três: A Beleza, Os Prazeres e A Primavera) de Hölderlin, Roman Jakobson dedicou um minucioso estudo a estes poemas, pois ao se deter sobre a poesia daquele que considerava “o maior dos esquizofrênicos”, lembra Jakobson que as fórmulas de extremada reverência (vossa alteza, vossa graça, vossa santidade) com que o poeta sistematicamente tratava os seus visitantes tinha por objetivo manter o mundo exterior à distância, assim como a adoção de um cognome era “uma tentativa de excluir o próprio eu do colóquio e mais tarde até dos escritos”. Um exemplo do distanciamento de Hölderlin da vida prática, já em seu estado disfuncional para o mínimo de coerência discursiva, salvo na poesia, quando lhe foram levar, em 1826, um exemplar da edição de seus poemas, ele observou: “Os poemas são autênticos, são meus, mas o título é falso. Na vida, não me chamei Hölderlin, mas sim Scardanelli, ou algo assim”.
Obliterando a sua identidade real, Hölderlin se despersonalizava, ou melhor, assumia a plenitude da sua interioridade de criador, e leva ao extremo a ideia de criação poética, que, para ser um todo artístico, em todo o seu tempo, obnubila o outro tempo comum, e o torna disfuncional pelo resto da vida, fazia-se então Hölderlin uma encarnação do “logos poético do homem, isto é, da linguagem em sua pureza e simplicidade arquetípicas”, segundo Jakobson. E nos poemas da loucura, por sua vez, aparecem as paisagens tranquilas, edênicas, que tais últimos poemas pintam em pequenos quadros numa figuração de um mundo primevo de perfeição e felicidade, algo semelhante com o mundo platônico das ideias. Sendo mais um ponto de interesse de tais poemas o fato da crescente preferência, neles, pelo presente do indicativo, com o consequente abandono das relações modal-temporais, representando uma nova autocracia do presente, talvez revelando também um estado de alienação, pois Hölderlin vivia agora numa torre, isolado, ou ainda, nestes poemas pode ser que ele quisesse, como dissera muito antes o próprio, fazer “uma atualização do infinito”.
E, na transição dos hinos, última fase lúcida de Hölderlin, para os poemas da loucura, na verdade não há tal transição, há sim uma ruptura, pois tal é que não foi uma ruptura de sua poesia, mas de sua mente, o que radicaliza o fenômeno deveras. O curioso, nesses poemas do estágio mais adiantado da sua esquizofrenia, é eles nada terem em comum, sobretudo quando se fala em estilo de escrita, tanto na forma como no conteúdo e expressão, com os grandes hinos que o antecederam de mais perto. Em contraste com o verso livre e a dicção larga e copiosa dos hinos, os poemas da loucura são um abismo novo e tragicamente interessante, pois são, além de breves, uma ou duas estrofes no geral, metrificados e rimados como os poemas da fase da adolescência.
Poemas de loucura que revelam a busca de Hölderlin de um refúgio (agora na torre diante do Neckar), que são uma paz de espírito, uma simplicidade pueril e uma meiga melancolia que nada têm a ver com a exaltação dos hinos, pois em sua loucura Hölderlin fala do que foi e não é mais, mas está em paz com sua nova condição, embora trágica e muitas vezes melancólica. Era como se, dentro do homem em conflito com o mundo, o poeta estivesse reconciliado, a união divina apontada o tempo todo em seu trajeto poético agora se consuma em poemas lacônicos dentro de uma torre. Opunha-se assim, no nível linguístico, o monológico da fala lírica do eu ao dialógico da fala pragmática com outrem; um dos autores citados por Jakobson nota que “era maravilhoso o encanto exercido pela forma poética” sobre o Hölderlin doente, ao passo que, em prosa, ele “caía numa confusão total”. Ou seja, um “estridente contraste entre (...) a grave perda da capacidade de tomar parte em colóquios com outras pessoas, de um lado, e o gosto, mais que isso, a capacidade – estranhamente intacta e inclusive aumentada – de uma improvisação poética ágil, espontânea e consciente, de outro”.
Ao alternarem pinturas de calmas paisagens edênicas com reflexões acerca do significado da vida, os “poemas da loucura” de Hölderlin lembram um pouco a dicção icástica das “Canções de inocência e experiência” de William Blake, poeta pré-romântico inglês que, mais velho do que ele, foi seu contemporâneo. À semelhança de Hölderlin, Blake era também um visionário cheio de unção religiosa que admirava a Revolução Francesa e clamava contra os males da barbárie industrial; e muitos o tiveram não pelo grande poeta que de fato foi, mas como apenas um maluco pitoresco e inofensivo que se comprazia em conversar com os espíritos. Assim também, em seus últimos anos de vida, Hölderlin aparece como um “débil ancião, desdentado, que vai tateando com o bastão e levanta a mão descarnada dizendo versos, num mundo imperceptível para os que o veem”.  

COMO NUM DIA FERIADO ...

Como, num dia feriado, o lavrador
Vai de manhã ver seu campo após a noite
Abafadiça, em que raios refrescantes
Caíram o tempo todo, e longe ronca
Ainda a trovoada e o rio volta a seu leito,
E o solo reverdece
E de chuva do céu goteja
A vinha, alegre, e as árvores do bosque
Se erguem cintilantes sob o sol sereno __

Assim erguem-se num tempo favorável,
Elas que mestre algum, além da Natureza,
Prodígio onipresente, poderosa
E divina beleza, educou.
Por isso, nas quadras do ano em que parece
Ela dormir no céu, nas plantas ou nos povos,
Também se enluta o rosto dos poetas.
Parecem estar sós, mas vaticinam sempre;
Vaticinando é que ela própria dorme.

Mas eis o dia! Esperei-o e o vejo vir,
E do que vi o Sagrado é testemunha.
A Natureza, mais velha dos que os tempos
E acima dos deuses de Ocidente e Oriente,
Desperta num estrépito de armas
E do Éter até o fundo dos abismos
Segundo firme lei, nascido, como outrora,
Do Caos sagrado, sente o entusiasmo,
O criador de tudo, renovar-se.

E, como brilha um fogo nos olhos do homem
Que nutre alto desígnio, assim também
O novo signo, os feitos do mundo de agora
Acendem um fogo na alma dos poetas.
E o que outrora aconteceu, mal percebido,
Torna-se agora notório
E no disfarce de servos sorridentes
A nos lavrar o campo, enfim reconhecemos
As forças vivíssimas dos deuses.

Perguntas onde estão? Seu espírito sopra
No canto se vem do sol, da terra morna,
Das tormentas do ar e de outras que,
Geradas nas entranhas do tempo,
Mais compreensíveis, mais cheias de sentido
Para nós, vagueiam entre céu e terra
E entre os povos, lembranças do espírito comum
Findando-se em paz na alma dos poetas.

Alma tocada de pronto e conhecida
Do infinito há muito, que freme à lembrança
E, acesa pelo raio consagrado,
Produz o fruto do Amor, obra de homens e deuses,
O poema que a ambos testemunha.
Assim, segundo dizem os poetas, caiu
Sobre a casa de Sêmele, que rogara
Vê-lo, o raio do deus, e a fez parir,
Fruto da tormenta, o Baco divino.

Por isso os filhos da terra agora podem
Beber sem perigo o fogo do céu.
Mas cabe a nós, poetas, enfrentar,
Cabeça nua, as tempestades de Deus,
E agarrar com nossas mãos o próprio raio
Do Pai e oferecer ao povo,
Encoberta em canto, a dádiva celeste.
Pois, como temos puro o coração
De criança e nossas mãos são inocentes,
Não nos queima o puro fogo do raio do Pai,
E, tocado fundo pela dor de um deus,
O coração persiste, eterno e compassivo.

A BELEZA

A beleza é própria das crianças,
Uma imagem de Deus, talvez, fiel.
Nela há paz e silêncio, uma aliança
Que nos anjos também é um laurel.

OS PRAZERES ...
Os prazeres do mundo desfrutei-os todos;
Foram-se, e há quanto tempo! as alegrias de moço.
Abril e maio e junho estão muito distantes.
Não sou nada; já não amo viver, como antes.

A PRIMAVERA

O dia acorda, o céu é magnificente,
Foi-se o turbilhão de estrelas lá de cima,
É na contemplação que o homem se sente,
O princípio do ano é tido em alta estima.

Nos nobres montes, os rios são fulgores,
Lembram coroas, nas árvores, as flores,
O jovem ano começa como em festa,
Com o melhor e mais alto o homem se apresta.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/29547/17/friedrich-holderlin-e-seus-poemas-da-era-pre-romantica-parte-iv


domingo, 3 de julho de 2016

BIBELÔ DE CARTINHAS

Alavanca:
tens edulcorado meus fotogramas?
Pois penso, de A à Z,
que um meio de carta e depoimento
é um caminho muito poeta
à fazer poesia!

Assim:
misto de carta,
com todos os ais possíveis,
com leves estampidos de sentir,
com todas as flores embrutecidas
dos solilóquios mil.

Misto de carta,
com papel borrado
de caneta estourada,
com vícios de pequenez
em pequenos frascos
de veneno.

Assim:
misto de depoimento,
veias saltadas,
parque biográfico,
ventos loucos de campanha,
noites armadas aos dentes da ilusão,
um pouco de febre,
um chororô nas horas perdidas,
e um sorriso ao nada
que diz estou vivo.

03/07/2016 Gustavo Bastos


POEMA-ESPELHO

Juro que não perco a hora,
pois têm milésimos que escapam.

O tempo brincante, deste lúdico
porvir, alimenta as minhas
antenas, busca no âmago os meus
esquemas, forma um aço puro
de correção, uma alma mais bruta
para o palco da vida.

E de três questões:
O que faço de mim?
O que faço dos outros?
O que faço do mundo?
Tenho três mil interrogações,
como um cabedal que constrói e destrói,
ao bel-prazer das platitudes.

Os asnos, fiscais de tudo,
pecam em demasia com fichas
numéricas, esquetes abobalhadas,
ficções de rodapé.

Eu, por meu turno,
digo que dos pés à cabeça,
sei de muito em poucos dias,
sei de tudo em poucas letras.

Mas, do aço ao vitral,
como uma esfera,
perco o milésimo e a hora,
sou um burro de carga
com água no joelho,
uma lhama mascando o terror,
doidivanas às turras com brumas,

levitando canções com sustos
em cartas náuticas,
devedor dos pagãos,
credor dos cristãos,
salvador dos ateus,

poeta sadio com bolhas na mão,
regente de saturno quando
estou nervoso e inquieto,
mensageiro de almas penadas,
carteiro por todas as ruas,
pesquisador de crânios,

volta e meia me dá a doida
e chego na hora.

03/07/2016 Gustavo Bastos

FRIEDRICH HÖLDERLIN E SEUS POEMAS DA ERA PRÉ-ROMÂNTICA – PARTE III

“Hölderlin apontava como caminho de unidade nacional o despertar intelectual e material da Alemanha”

Em “Canto do alemão”, repetindo conceitualmente o que foi feito em alguns pontos explicitado no seu clássico Hiperíon, Hölderlin critica a Alemanha de sua época por ainda não ter consciência nacional, por ainda não ter em sua grandeza despertado para um só destino. Nos estertores do século XVIII, que presenciara a revolução na França, a Alemanha ainda nem sonhava em unidade política, não passando de um monstro grotesco de aproximadamente 1800 territórios autônomos.
Por sua vez, Hölderlin apontava como caminho de unidade nacional o despertar intelectual e material da Alemanha, lembrado numa das estrofes do “Canto do alemão”: “Vi nas margens, em cidades nobres onde/As oficinas trabalham em silêncio/Florir o saber e o teu sol brando/Conduzir o artista à seriedade.” Aqui aparece a cidade pré-industrial, com o trabalho das oficinas, como anunciação de uma nova época vindoura que traria o saber para uma nação até então fragmentada. Em seu poema, no entanto, não prevalecem o chauvinismo militarista que viria a surgir na Alemanha unificada de Bismarck, mas um patriotismo de outra natureza: a grandeza que o poeta sonhava para a sua pátria era, ao contrário da unidade militar, a grandeza da paz, do saber, da fraternidade: “Terra do gênio mais alto, mais severo!/Terra do amor!”.
No poema “O arquipélago” já vemos o Hölderlin da fase das grandes elegias, tal poema que é o mais longo e mais sustentado de sua obra poética. Trata-se de uma peça de temática sobre a Grécia da Antiguidade, algo que é comum a vários poetas, o tema mítico, que hoje é apenas algo que se confunde com tiques de poetas perdidos nas ruas com seus livrinhos de bolso achando que são “novos Homeros”, poesia deslocada, para ser gentil, mas que por muito tempo agraciou a poesia do mundo.
O poema do arquipélago é um amplo sopro de épica, cujo destaque está nas estrofes consagradas à descrição da batalha de Salamina. O registro descritivo da épica, seu componente mítico por excelência, se junta aqui com os lamentos de elegia, na sensação clássica e comumente humana pelo que foi e já não é mais e com invocação de ode para saudar as glórias do passado e as promessas do futuro. As invocações do poema vão dirigidas ao arquipélago grego que lhe dá título, o Ancião ou Pai, testemunha da Idade de Ouro (aqui a ideia de origem, que anda ao lado da de perfeição), em cuja companhia vivem os Celestes.
O registro elegíaco serve a Hölderlin agora para evocar as sombras sagradas do passado numa libação fúnebre em que se manifesta a presença de fundo órfico, sua ida ao além e o conhecimento profundo que vem do mundo dos mortos, orfismo cujo título de iniciado Hölderlin se confere, e que também é irá se fundir com o dionisíaco, conforme se vê no poema “Pão e vinho”, também de caráter elegíaco, desta fase em que estava a poesia de Hölderlin, que pode ser considerada o clímax de sua poesia, antes do colapso que o colocaria nas trevas da loucura.
“Pão e vinho” foi escrito em 1801, e este é um dos poemas supremos de Hölderlin, o ponto no qual a mitologia grega, que hoje pode ser um tique funesto em alguns casos, para a poesia, ganha, naquela época da Alemanha, todo o sentido, pois Hölderlin sempre tematizara a Grécia diante da Alemanha, e não como um emulador canastrão de um Homero imaginário. Neste poema se alternam os pólos opostos, porém complementares, numa evocação indireta aqui a Heráclito, o filósofo do pólemos que vira harmonia, poema em que aparecem o dia e a noite, a lucidez e a embriaguez, a terra e o céu, o sofrimento e a alegria, numa série antinômica cuja conciliação se faz à luz do sentimento do divino, e tal divindade harmônica vai resultar exatamente na eclosão de toda uma dimensão latente da consciência, o alcance transcendente é um destes anelos das elegias míticas de Hölderlin, mas que sempre resultará na utopia da Alemanha nova.
Há, nesse empenho de conciliação, algo de órfico, na medida em que o orfismo representou, na religiosidade grega, a harmonização entre o apolíneo e o dionisíaco. Cabe lembrar que não há menção expressa ao orfismo na poesia de Hölderlin, os traços de orfismo que aparecem são certamente explicados pelas suas leituras gregas – Heráclito, Empédocles, Platão, Píndaro – onde eles estavam bem presentes. O título, por sua vez, explicita as duas espécies comungatórias do culto de Deméter-Dioniso.
E à “noite inspiradora” celebrada na segunda seção do poema estão ligados os motivos da embriaguez e da loucura de Dioniso, e o papel intermediário de Orfeu no conciliar a luz apolínea do intelecto, da ordem e da proporção, com a noite dionisíaca dos instintos, da loucura e da embriaguez. E no poema tal habilidade é transferida ao próprio Baco, quando diz deste que “concilia o dia e a noite”. O fulcro órfico de “Pão e vinho”, por sua vez, se estabelece principalmente no caráter soteriológico (salvacionista) da sua visão da proximidade e intersecção possível entre o humano e o divino, tendo seu momento de epifania na venturosa Grécia da Idade de Ouro, mais um clássico idílio da poesia em seu mito de origem, lugar onde se busca nada mais que a perfeição.
“Pão e vinho” vê o reinstaurador do divino entre os homens, este ponto em que há no mito de origem da idade de Ouro, na verdade, a conexão da Grécia antiga e arcaica com a Alemanha do futuro, o poeta Hölderlin vive o presente, mas sua poesia insiste em se comportar como visionária, apontando sempre para além, num resgate do divino no aquém, e há então a volta do mito como um religare (religião) do homem com o divino, e nisto com a poesia propondo a unidade da Alemanha vindoura.
Esse epíteto faz inclusive pensar na sucessão mítica de Zeus por Dioniso, anunciada nas escrituras órficas, como o advento de uma segunda e futura idade de ouro, assim como a primeira surgira também de uma sucessão do velho pelo novo: a de Cronos por Zeus. E, uma vez que Hölderlin já tinha diante de si o exemplo dado pela Revolução Francesa, quando o novo veio substituir-se dramaticamente ao velho, mais uma vez vem o ímpeto irresistível, que se torna anelo, na tentativa de estabelecer algum tipo de laço, por remoto que seja, entre a esperança no regresso dos deuses e a utopia política, horizonte de referência de Hiperíon, por exemplo, que é a obra representativa do nome Hölderlin.
E também neste poema e nesta trama do mito grego com a Alemanha unificada do futuro, por sinal, estaria possivelmente a nostalgia do ex-seminarista de Tubinga pela Parusia ou segundo advento: o pão e o vinho da transubstanciação que a liturgia cristã herdou da órfica fazem Cristo e Baco confluir na mesma figura messiânica do “filho do Altíssimo”. O resgate é utopia, aqui o mito de origem como perfeição da Idade de Ouro é a volta do divino como apontamento de realização de uma utopia futura, nada mais natural para um poeta, ainda mais quando se fala de fenômenos visionários.   

CANTO DO ALEMÃO

Oh sagrado coração dos povos, pátria!
Tão paciente quanto a muda Terra-Mãe
E incompreendida, se bem os estrangeiros
Do teu seio tirem o melhor.

Ceifam o teu pensamento, teu espírito;
Gostam de colher-te o racimo, mas zombam
De ti, vide disforme que corres
Pelo chão, indecisa e bravia.

Terra de um gênio mais alto, mais severo!
Terra do amor! Sendo embora eu um dos teus,
Muita vez chorei de raiva ao ver-te,
Sempre tola, negar a própria alma.

Mas não podes me ocultar tantas belezas;
Muita vez, de pé no claro monte, do alto
Dos teus ares, contemplei o verde
Do teu vasto jardim e te vi.

Percorri os rios teus, pensando em ti,
Enquanto o tímido rouxinol cantava
Sobre o vime flexível e o sol
Pairava contra um fundo sombrio.

Vi nas margens, em cidades nobres onde
As oficinas trabalham em silêncio,
Florir o saber e o teu sol brando
Conduzir o artista à seriedade.

Conheces os filhos de Minerva? Há muito
A oliveira é-lhes favorita; conheces?
Ainda vive, ainda reina entre os homens,
A alma ateniense e cisma, embora

O jardim sagrado de Platão não mais
Viceje à beira do rio, e um homem pobre
Lavre entre cinzas de heróis, e chore,
Sobre uma coluna, a ave da noite.

Oh sacro bosque da Ática! Ele feriu-te
Também com seu raio terrível, e tão cedo?
E ascenderam ao Éter, libertos
Pelas chamas, os que te animavam?

Mas tal como a primavera, o gênio vaga
De um país a outro. E nós? De nossos jovens
Algum haverá que não esconda
Um anseio, um enigma no peito?

Graças às mulheres alemãs! Guardaram
A alma afável das imagens dos deuses
E sua serenidade expia
A desordem má de cada dia.

Mas onde poetas a quem concedesse
O Deus, como aos nossos antigos, piedade
E alegria, ou sábios, como os nossos,
Frios, indômitos, insubornáveis?

Saudações pois a ti, nobre pátria minha,
Com um novo nome, o fruto mais maduro
Do tempo! Tu, última e primeira
Das Musas, Urânia, eu te saúdo!

Mas calas e tardas, e concebes uma
Obra alegre, que dê nova imagem tua
Que, nascida como tu do amor,
Fosse tão virtuosa quanto o és.

Onde estão teu Delos, tua Olímpia, a festa
Suprema em que nos encontremos todos?
Como, Imortal, adivinharia
Teu filho o que há tanto lhe preparas?

O ARQUIPÉLAGO

Retornam a ti as gruas? E os barcos, buscam novamente
Seu curso em tuas costas? E as brisas, sopram elas
A paz das tuas águas? E, atraído lá do fundo,
O golfinho aquece o dorso à luz nascente?
É tempo de florir na Jônia? Na primavera, sempre,
Quando o coração dos vivos se renova e o amor primeiro
Acorda nos homens as lembranças da Idade de Ouro,
É que eu venho a ti e em teu silêncio saúdo-te, Ancião!

Tu vives sempre, Potestade, e como outrora dormes
À sombra dos teus montes; com braços juvenis estreitas
Ainda a tua terra encantadora e tuas filhas, Pai!
Tuas ilhas florescentes, nenhuma delas se perdeu.
Creta aí está, e Salamina verdeja no ocaso dos loureiros;
Com raios à volta, eleva Delos, na hora do nascente,
Sua cabeça inspirada, e eis Tinos, Quios
Abarrotadas de frutos púrpura, e os outeiros bêbados
A verter o licor de Chipre, e de Caularia correm,
Como antes, regatos de prata até tuas antigas águas, Pai.
Ainda vivem todas, mães de heróis, as ilhas,
De ano em ano florindo, e quando às vezes, desde o chão
Do abismo,

Também os Celestes – as serenas forças das alturas,
Que da plenitude do poder trazem até a cabeça
Dos homens sensíveis o dia risonho, o doce langor
E os prenúncios -, eles também, os antigos companheiros,
Moram contigo como outrora, e amiúde, no crepúsculo,
Quando dos montes da Ásia chega o sacro luar,
As estrelas encontram-se nas tuas vagas
E resplandeces então de brilho celestial; enquanto
Elas gravitam, tuas águas se mudam, e ressoa
No teu peito o canto noturno dos irmãos lá do alto.
Quando o que tudo transfigura, o sol dos dias,
Miraculoso filho do Oriente, surge enfim
E todos os viventes num sonho dourado encetam
O que a cada manhã o poeta lhes apronta,
A ti, deus em luto, eles enviam sortilégio mais ridente
E sua luz amistosa não é ela própria tão bela
Quanto a coroa, sinal de amor que sempre, como outrora,
Ele entrelaça, recordando-te, aos grisalhos anéis do teu cabelo.
E não te envolve o Éter? E não regressam dele
As nuvens tuas mensageiras que te trazem o raio,
Dádiva dos deuses? Tu as mandas então correr as terras
Para que, na praia em fogo, os bosques ébrios de tormenta
Contigo ondulem e marulhem; para que, filho sem rumo
Chamado pelo pai, o Meandro de mil córregos
Fuja dos extravios, e o Caístro, da planície,
Acorra a ti em júbilo e, primo nato, o Ancião
Que por tanto tempo se guardou, o Nilo majestático
Vindo de monte longínquo, avance agora vitorioso,
Num fragor de armas te abrindo os braços anelantes.

Porém te sentes só; na noite muda, apenas o penhasco
Te ouve o lamento, e amiúde a alada nuvem,
Com raiva dos mortais, foge de ti rumando para o céu.
Pois já não vivem contigo os nobres favoritos,
Os que te honravam, os que com belos templos e cidades
Coroavam antes tuas praias; os sacros elementos,
Heróis em busca de coroa, estão sempre à procura,
No coração dos homens sensíveis, da glória que lhes falta.

(obs: o poema é longo, portanto, esta é a parte inicial para apreciação)

PÃO E VINHO
(a Heinze)

1
Dorme a cidade à volta; cala-se a rua iluminada,
E, ornados de tochas, partem os carros rumorosos.
Fartos do dia intenso, os homens vão-se repousar em casa,
E uma cabeça ajuizada pondera lucros e perdas
No conforto do seu lar; vazio de racimos, de flores,
De coisas feitas à mão, jaz tranquilo o operoso mercado.
Mas sons de música soam longe, nos jardins, por onde
Talvez toque um enamorado ou lembre um solitário
A mocidade, os amigos distantes; ouvem-se as fontes
Correndo, sempre frescas, junto aos canteiros perfumosos.
Numa surda alegria, replicam sinos ao crepúsculo,
E, atento ao curso das horas, um vigia as vai gritando.
Vem um sopro agitar o topo das árvores do bosque,
E também, vede! Silhueta de nossa Terra, a Lua
Secretamente surge; desdobra-se a noite inspiradora,
Cheia de estrelas e muito pouco preocupada conosco.
Cintilante, surpreendente, forasteira em meio aos homens,
Ela se eleva, melancolia e pompa, sobre os montes.

2
Maravilhosa é a graça da Altíssima, e ninguém sabe
Donde provém ela nem o que dela lhe caberá.
Eis como ela move o mundo e a alma esperançosa dos homens.
Sábio algum compreende bem o que ela prepara porque
Assim o determina o deus supremo, que muito te ama;
Por isso, em vez dela preferes o dia circunspecto.
Mas de quando em quando o olhar límpido ama também a sombra
E busca por gosto, mais que por necessidade, o sono;
O homem fidedigno, por gosto também, perscruta a noite.
Sim, não quadra mal oferecer-lhe coroas e cânticos
Porque a noite está consagrada aos insensatos e aos mortos,
Mas ela própria mantém sempre e sempre o espírito isento.
Todavia, cumpre-lhe ainda, para que, na hora hesitante,
Possamos em meio à treva encontrar algo palpável,
Propiciar-nos o esquecimento, a sagrada embriaguez, dar-nos
A palavra transbordante que, como os enamorados,
Seja insone, e taça mais plena e vida mais audaciosa
E a sagrada memória em vigília até o fim da noite.

3
Em vão calamos o coração no peito, o sentimento
Em vão o contemos, nós, mestres e aprendizes, pois quem
Iria impedi-lo, iria proibir nossa alegria?
O fogo divino também nos incita, dia e noite,
A ir adiante. Vem, pois, contemplar o aberto, buscar
Um bem que seja o nosso próprio, por distante que esteja!
Uma coisa é segura: por volta do meio-dia ou perto
Da meia-noite, existe sempre uma medida comum
Para todos, mas há para cada um um bem particular.
A buscá-lo vai cada um e chega até onde consegue.
Que da troça troce a alegre insensatez quando apossar-se
Repentinamente dos poetas na noite sagrada.
Vem para o Istmo, pois! Lá onde o mar aberto canta ao pé
Do Parnaso, e o brilho da neve envolve os rochedos délficos.
Lá no país do Olimpo, lá nas alturas de Citáiron,
À sombra dos pinheiros, no meio das vinhas, lá de onde
Chega o rumor de Tebas e Ismenos, no país de Cadmos:
De lá vem e para lá aponta de volta o deus vindouro.

(obs: o poema é longo, portanto, esta é a parte inicial para apreciação)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/29445/17/friedrich-holderlin-e-seus-poemas-da-era-pre-romantica-parte-iii