PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CONVERSA COM UM TELEPATA, DENTRO DE UM HOSPÍCIO

   Certo dia, isso já tem uns bons dez anos, resolvi passar uns três dias dentro de um hospício para fazer uma reportagem. Ela rendeu boas histórias, algumas delas até viraram contos pequenos, mas uma em particular me chamou atenção, e me remeteu às viagens de William Burroughs atrás de seu Yage, erva que continha a chamada substância da telepatia, a telepatina. Dentro do hospício, descobri, no meu segundo dia lá dentro, que havia um homem de uns 40 anos no quarto 12 que, segundo outros internos, era um mago. Depois, consultando o seu psiquiatra, descobri que era um sugestionado místico, que o paciente se julgava em transe espiritual e que tinha a faculdade de telepatia.
   Pedi autorização ao psiqiuatra para conversar com seu paciente que, por recomendação médica, passava a maior parte do dia sedado, numa cama, dentro do quarto 12. Fui até lá de tarde, que é quando o paciente em questão era liberado para o almoço, e que, após a refeição, podia passar umas horas da tarde interagindo com os outros pacientes daquele hospício. Fui até ele, vi que tinha um olhar do que, no espiritismo, que bem conheço, se tratava de um obsediado já em estágio avançado de fascinação. Fiquei uns bons dez minutos só olhando para ele, antes de abordá-lo, reparando na sua linguagem corporal e no seu diálogo com os outros internos: "Vejam só, eu tomei quinhentos ácidos em um ano, mas o porre mesmo foi o Yage, depois do peiote não deu nada, depois da ayahuasca não deu nada, mas a telepatina me deu o poder, posso ler todos os seus pensamentos, eu sou o dono desse lugar aqui, posso me comunicar com vocês através da telepatia, tomei telepatina e meu terceiro olho abriu, man!" Ao que outro interno respondeu: "Você é o mago, é? Me mostra sua chama vermelha, me mostra sua chama vermelha!" Outro, ao lado, começou a rir e falou: "O mago tá louco, depois somos nós que somos doidos!". Ao passo que o mago respondeu: "Posso ver o teu pensamento, tem um monstro dentro da tua cabeça, meu caro discípulo, invoco mamón e moloque, tenho a espada da justiça em minhas mãos, meu poder astral é magnânimo, vou me concentrar a criar o teu fogo interior, só um minuto e teu monstro vai sumir daí!". O outro paciente retruca: "Você é o mago, mas não me comanda, daqui a pouco vão te pegar e dar um sossega, você é besta, muito besta, até um metido à besta!".
   Olhava aquele diálogo surreal e incrível, e então, finalmente, me aproximei do mago para conversar com ele: "Fala mago! Como você está? Ouvi dizer que tu tem o dom da telepatia? Poderia me mostrar como isso se faz? Também posso me tornar um telepata?" "Ainda bem que você crê! Tenho esse poder da telepatia sim, você quer ver?" "Claro, sou médium e só me falta o dom da telepatia para que tudo funcione para mim." "Então vai lá, se concentra, vê o que estou vendo? Embuti uma flor de lótus dentro da sua cabeça, posso ver os seus pensamentos, agora vou lhe enviar um tipo de pensamento, e você me diz se recebeu." "Opa, peraí, um minuto, mais um minuto ... ahá! Agora eu vi, você pensou numa serpente lutando com um porco, não foi?" "Eh ... sim! Sim! Você entendeu tudo! Tá vendo como sou um telepata! Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!" "Sim, você é um telepata!" "Eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos de todos que estão aqui dentro! Eu sou um telepata! Tá vendo aquele gordão babando ali no meio do pátio? Ele tem o dom da cura nas mãos, ele é meu servo, sou o mago e sei o que ele está pensando agora, ele só pensa em coisas com bacon, seu corpo clama por bacon toda hora, olho e vejo um porco no lugar de sua alma." "Cara, isso é demais, vamos lá falar com seu servo, que tal?" "Claro, eu sou um telepata! Vamos lá que vou ouvir o pensamento dele e falar o que vi dele para você."
   Bom, àquela altura já sabia que a fascinação espiritual do autointitulado mago e telepata era um perigo para ele mesmo, sabia que seria muito difícil que ele saísse daquela trama psíquica, e que o máximo que podia fazer, como repórter que sou, e não como psiquiatra, era embarcar na onda pra ver até onde ela ia, e foi o que eu fiz, fingi ser um crédulo, "mais um discípulo". O mago também, a meu ver, tinha um problema sério de ego, sua crença em si mesmo parecia um tanque, ele era o dono de tudo, ao menos naquele lugar, mas, concretamente, não passava de um dos pacientes de um hospício, e pior, vivia a maior parte do tempo recluso, não se sabe e nunca se saberá o que passa exatamente por sua mente quando está sedado e recluso no quarto 12, nem o que sonha quando está dormindo, e nem o que tanta medicação provoca e o que tanta droga alucinógena provocou até ele chegar a este ponto que, agora, eu estava vendo.
   Fomos até o seu discípulo, o gordo babão, para mais uma exibição dos dons do mago telepata. "Eu sou um telepata! Todos aqui são meus discípulos, eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos daqui, vamos aqui, eu sou o mago e vou ler seus pensamentos." Se dirige ao gordo babão, "Eu sou um telepata! Agora vou me concentrar e olhar dentro de seu pensamento. Você está pensando em bacon, sempre pensa em bacon, não é verdade?" "Eeeeu tô pen pen san dôôôô ah ah ah ah! Bacoum bacoum magôôô eue tô pensano ou ou ou ou .... blah!" "Tá vendo, ele só pensa em bacon, toda hora ele só pensa em bacon, eu vi seu pensamento, ele tem a alma de um porco, um espírito está a seu lado, sua vida virou uma obsessão por bacon, ele nem fala direito mais, é meu servo, me serve taças de ouro maciço com vinho à meia-noite em um de meus banquetes reais. Faço magia negra dentro do meu palácio. Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!"
   Bom, depois daquela cena horrível de humilhação contra o gordo babão, pelo mago ególatra, deu quatro horas da tarde, e então dois enfermeiros recolheram o mago para tomar injeção, e o telepata em questão voltaria, pelo resto daquele dia, às trevas de sua reclusão no quarto 12. Da minha parte, produzi uma reportagem, algumas partes eu poupei para não chocar, e aqui está meu relato da principal história que vi dentro do hospício, foram três dias de uma experiência bem curiosa, como se fosse uma antropologia da loucura, muito mais do que o intuito da reportagem em si, ou de possíveis e forçadas psicologizações que não dão conta do fenômeno humano. E foi isso que eu vi lá, a natureza humana, talvez até mais amplificada por uma dor entre anestesias inexplicáveis.

13/11/2013 Crônicas (Guilherme Thompson)  
 

domingo, 10 de novembro de 2013

PULPHEAD, ENSAIOS DE SULLIVAN

"Há uma liberdade literária muito maior nos ensaios contemporâneos, e isso fica claro, no caso de Sullivan, em seu Pulphead."

   John Jeremiah Sullivan, norte-americano nascido em 1974, em seu segundo livro, Pulphead, de ensaios, se revela um talentoso contador de histórias, que tomou da ficção muito de sua veia ensaística. Com textos em revistas como Harper`s, GQ, The Oxford American e The Paris Review, tem sido comparado a Tom Wolfe e David Foster Wallace. Com uma prosa flexionada em torno de seu tema, assume dicção oitocentista americana, num eco de Emerson e Thoreau. Ao contrário da trama bem cortada de Tom Wolfe, Sullivan desenvolve seus ensaios através de uma trama que leva à diluição de sua prosa, esta mesma que, por sua vez, carrega o tema de modo desordenado, pois temos aqui o viés do romance dentro do ensaio contemporâneo, que toma seu método no tema que se espalha pela prosa, tal como num romance, e a trama não se fia em exatidão racional.
   O ensaio americano em revistas, tanto no texto longo como no ensaio crítico, floresce, atualmente, em condições novas, superando uma falsa nostalgia intelectualista da Nova York dos jornalões da década de 1950, pois nada faltaria a nomes como Edmund Wilson ou Alfred Kazin, nos dias de hoje. Revistas surgem, como McSweeney`s, n+1, The Point e The Common, e outras antigas aparecem reformadas. As revistas tomam o lugar, na crítica, dos jornais, os quais evaporam. O ensaio contemporâneo aparece como uma fronteira que supera a novelização, e se coloca no modo fragmentado, que tira o enredo e segue o fluxo, e que, numa fratura de parágrafos numerados, deixa-se de lado a verossimilhança, e põe-se no lugar uma relação imbricada de realidade e ficção.
   No ensaio contemporâneo, o autor deixa de lado sua impessoalidade na segurança da terceira pessoa, tendo então um autor que entra e sai, transgredindo a estrutura tradicional da ficção. Há uma liberdade literária muito maior nos ensaios contemporâneos, e isso fica claro, no caso de Sullivan, em seu Pulphead. É a nova prosa ensaística, que usa de técnicas retiradas dos truques da novela e do romance para negá-los, liberdade que passa por irrealidade ou a pura falta de qualquer definição categórica do que é real, num misto e paradoxo que não se desvela em unidade de percepção, permanecendo a dubiedade, uma vez que até a temática do reality show, por Sullivan, em um de seus ensaios, denota o fracasso desta distinção entre realidade e ficção, no mundo contemporâneo.
   Sullivan, embora posto pelo crítico Geoff Dyer, como um ensaísta fora de moda, tem seu talento no ponto exato da questão do real que passa pelo mundo contemporâneo, pois é no nexo de criar na realidade a ficção que Sullivan, portanto, consuma seus ensaios, numa aparente ficção criada a partir de dados reais. O ensaio de Sullivan joga de propósito com este duplo sentido e o coloca como fratura que é nada mais que indefinição, e que busca o real, apesar desta cisão contemporânea. "O realmente real" de Sullivan é afirmado e, paradoxalmente, questionado o tempo todo. Sua ficção é real, pois se funda em fatos reais de reportagem, à exceção de um ensaio malsucedido sobre animais em fúria contra humanos, deste mesmo livro Puplhead, que é um caso isolado de tentar uma ilusão de fato. Em Sullivan, ao fim de Pulphead, fecha-se a chave dupla do ensaio contemporâneo, pois, pelos escritos de Sullivan, esta chave bem atual do conceito de realidade não nega que haja, na forma, em tais ensaios, ainda uma prosa clássica ou oitocentista.
   Destaco três dos ensaios de Sullivan do livro Pulphead. Um sobre Michael Jackson, outro sobre Axl Rose e o último sobre Bunny Wailer. Começando pelo ensaio sobre Michael Jackson, que tem seu início num Michael no dilema entre as músicas encomendadas de seu grupo com seus irmãos nos Jackson 5, e a ambição que levaria Michael muito mais longe do que aquele início, e que, numa busca de seu instrumento interior, o leva ao estrelato. Pois, desde sua visita aos ensaios musicais de Stevie Wonder, sua curiosidade e sua intuição se tornaram as sementes que produziriam o maior astro pop da História. E tal História se firmou, de forma polêmica, numa ambiguidade de cor branca ou negra, que era um conflito de sua imagem, mesma imagem que sairá, mais tarde, arranhada por escândalos de pedofilia.
   O retorno de Michael à sua infância, por sua vez, se torna o reflexo de alguém que só tomou consciência de si, já no caminho do estrelato. Por outro lado, depois de Off The Wall, em que Michael consegue grandes êxitos, ele não se dá por satisfeito, e queria fazer algo realmente grande, se juntando aos irmãos mais novos, Randy e Janet, com os quais já tinha criado "Don`t Stop `Til You Get Enough", e produz a pérola "Billy Jean". Daí pra frente, Michael explode com Thriller, e se considera um abençoado de Jeová, ao qual agradece pelo seu talento. Michael alcança o tal próximo nível de sua carreira solo e tem seu sonho realizado. Ele não queria inclusão, mas ter o público a seus pés. Sullivan afirma que ainda falta uma biografia realmente séria sobre Michael, pois ele era o centro onde convergiam todas as correntes culturais da música americana.
   Em seu outro ensaio, Sullivan fala de Axl Rose. Este ensaio é uma prosa, evidentemente, de um fã incondicional, pois Sullivan defende Axl até de sua velhice, tentando deixar claro que ele ainda é o mesmo Axl que despontou na juventude, de onde veio do nada, do centro de Indiana, lugar do nada, para Sullivan. E Axl grita: "You know where you are?", ao que o mesmo responde ao público no final: "You`re in the jungle, baby." Clássico indefectível, os Guns N` Roses ainda conseguem dar conta do tranco, mesmo que a banda não seja mais a original, só tenha Axl, mas que, devidamente, substituiu o guitarrista Buckethead por um cara chamado Bumblefoot, que toca muito, e os caras, então, decidiram conseguir tocar as partes do Slash. Tudo está perfeito, nota por nota, é uma batalha entre ver todos esses caras que não estavam no Guns N` Roses original, pulando no palco com Axl, e tocando músicas dos Guns N` Roses, e as qualidades duradouras das músicas em si. Axl, desde o início, segundo Sullivan, foi o único dançarino branco e homem indispensável de sua geração, o único que valia a pena imitar de brincadeira. Para Sullivan, sobre os Guns N` Roses: "Eles foram a última grande banda de rock a não achar que existe algo meio constrangedor em fazer parte de uma banda de rock."
   Para fechar, falo aqui do ensaio sobre Bunny Wailer, que é, disparado, o que mais gostei neste livro de Sullivan, uma verdadeira aula sobre a Jamaica e Kingston, pela visão de um de seus mestres, Bunny, que foi, nada mais, que um dos membros originais da lendária banda que lançou Bob Marley, os Wailers. No início de julho de 2010, Sullivan foi de avião até a Jamaica, com o intuito de entrevistar Bunny Walier.
   Kingston, em uma década, viu o surgimento de Bob Marley & The Wailers, Toots & The Maytals, Jimmy Cliff, Desmond Dekker, The Pioneers e The Paragons, The Melodians e The Ethiopians, The Heptones e The Slickers, The Gaylads e todo um rol de gente, que formam um vórtice de talento de primeira linha. A maioria veio dos mesmos conjuntos habitacionais, e em grande parte, estava cantando para sair deles. E o motivo pelo qual o melhor material jamaicano se aprofunda com o passar do tempo, é que a música, na Jamaica, tem um sentido espiritual.
   Na entrevista com Bunny Wailer, Sullivan ouve muitas histórias antigas sobre Kingston, de como, a partir da década de 60, o país jamaicano se tornou um dos mais violentos do mundo, pela tomada das milícias, que se dividiram em dois partidos rivais, o esquerdista People`s National Party (PNP) e o conservador Jamaica Labour Party (JLP). E, nos anos 70, a coisa piorou. O líder do PNP, Michael Mandy, manifestou simpatia por Fidel Castro, o que levou ao apoio da CIA americana ao líder do JLP, Edward Seaga, e as armas recebidas pelas milícias, portanto, aumentaram em quantidade e calibre. Era Manley contra Seaga, socialismo contra capitalismo, PNP contra JLP. Kingston se tornara um front em miniatura da Guerra Fria.
   Enfim, fecho esta resenha com a curiosa história de conversão de Bunny Wailer ao rastafarianismo. Bunny conta a sua história: "Eu sabia dos rastas desde criancinha." explicou, "mas Blackheart Man era o nome dado ao Rastaman para manter todos os jovens longe daquele indivíduo, porque ele arrancaria o coração deles para comer e coisas do tipo. E quando alguém desobedecia ou fazia qualquer coisa errada na família, diziam: Se não se comportar direito, vou chamar o Blackheart Man para pegar você."    
   Em Kingston, na região de Trench Town, quando os garotos se atrasavam para a escola, costumavam cortar caminho pelas valas para chegar mais rápido. Os rastas moravam nas valas, onde montavam acampamento. "O Blackheart Man morava no lixo", disse Bunny. Às vezes um desses místicos com dread-locks saía do barraco "para encher sua panela de água" e, quando as crianças o viam, corriam na direção oposta. Bunny então percebeu que, enquanto ele e seus amigos fugiam correndo dos rastas, estes voltavam aos seus buracos andando calmamente. Uma vez, Bunny parou e interrogou um rasta, que fez, numa pequena conversa, converter Bunny ao rastafarianismo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:http://seculodiario.com.br/13877/14/pulphead-ensaios-de-sullivan-1
   

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O DIA EM QUE CONHECI BILLY MOON

   Em minhas andanças pelas ruas, tenho o hábito de observar quem, por todas as vias que passo, pode se tornar personagem de uma boa crônica, ou de uma má crônica, por que não? Não se trata exatamente de achar em qualquer um o "Santo Graal das ideias", e nem a busca de um surto de criatividade em meio ao caos urbano, não, mas de pinçar em meio de tudo, algo singular, fora dos padrões.
   Numa madrugada de quinta-feira, depois de eu ter tomado três doses de conhaque, depois de ter passado pela beira da praia e visto mulheres e travestis sendo exploradas por rufiões do submundo, e passando por um quiosque, no qual resolvi tomar um suco de laranja e fumar um cigarro, vi ao longe, na areia, um grupo de pessoas, me aproximei deste grupo, vi que eram jovens que escutavam um recital de um velho com cabelo rasta, e que tinha todo um tom teatral, cheio de meneios, uma coisa realmente vigorosa, aquilo me encantou, me tirou do lugar comum daquelas doses rotineiras de conhaque, nas quais estava muito habituado. Entrei num mundo paralelo, ali, e já deveria ser bem umas três horas da madrugada, até porque trabalho só de noite, como cronista maldito de planfetos, de jornais clandestinos, passo flyers também, não tenho vínculos com o sistema, e por isso me identifiquei logo de cara com aquele senhor rasta que era pura ousadia, e que tinha o poder de hipnotizar um grupo de uns dez jovens, que estavam ali, admirando a performance do velho style rasta.
   Ouvia-se da sua performance (peguei o bonde andando): "Tenho tudo do sabor, sabor do vento, sabor da praia, gosto de madrugada e de cerveja, gosto da juventude, tenho tesão de tudo, e tudo me pertence, tal como a água do mar!". Fiquei extasiado com aquelas palavras que eram puro oráculo e pura sabedoria de rua, e com erudição de inteligência universal. "Me visto do jeito que quero, faço o que quero, pois Jah Ras Tafari é meu pêndulo, meu relógio, tenho minhas horas ao vento, sou poeta ao relento." Que noite! Pensei em acompanhar aquilo até o fim, via naquele velho rasta um vigor raro de quem tem a coragem de romper, e na ruptura estar mais dentro de tudo que todos os outros. "Venha juventude, temos o tempo do universo, o eterno universo, do qual faço verso e canto pela noite sem fim." Nada mais restaria para mim naquela madrugada, senão travar um lero com aquela figura fascinante que me acordou de um transe de conhaque em plena madrugada urbana. "Passei pela Jamaica sim, minha cabeça vai aonde eu quero e como eu quero, sou músico, cantor e poeta. Dou a seta, dou a flecha, sei da queda." Encantamento puro, êxtase divino e místico, iria entrevistar aquele cara, não poderia sair dali mais, sem saber um pouco de sua história, este rasta provavelmente já deveria ter passado por muita coisa, coisa que ninguém nunca viu. Logo vieram os urras daquela juventude que fazia um círculo em volta do rasta, parecia um culto, era um culto, o pastor daquelas ovelhas era o velho rasta derramando seus versos de sapiência de um lugar único, sua alma que rodava pela noite, não teria realmente mais nada para fazer, e mesmo se tivesse, cancelaria tudo só para ver como aquele evento terminaria.
   Eu, Guilherme Thompson, cronista e outsider profissional, reconheci ali um outsider muito mais profundo que eu, era o extremo, eu ainda cantarolava no meio, o rasta já tinha passado do meio, tava na estrada paralela total, ali vivia e como vivia, não sei, só sei que tava ali, vivo, e declamando no meio da praia, em plena madrugada de quinta pra sexta, no meio de uma cidade em que metade de tudo dormia, naquela hora de plenitude e amor. O rasta certamente era muito mais outsider que metade destes que posam por aí, pois ali não tinha pose, era a performance da vida, um cara vivido ali falava, e sabia que jovem é o que vale a pena, pois são eles que ouvem os "malucos da rua".
   Ali continuava a performance mais vigorosa que já tinha visto: "Eu penso através do encanto, tudo o que canto eu falo do coração, poesia é tudo de canção, não rima com não, tem tudo de si, pois é sim, sim pra vida." Na lata! Tinha acabado de ver um golaço. E os urras dos jovens não paravam, e eram urras de respeito total, nada irônicos, a galera ali realmente tava curtindo de montão, e eu, com uma curiosidade infinita. Guilherme Thompson, the observer, tinha dado um furo, já tinha pauta, yes!
   E, depois de mais uns quinze minutos de improvisação (sabia que o rasta improvisava tudo ali, no momento, on the spot), então veio a coda máxima: "Eu só como vegetais e frutas, tudo é planta, a planta marginal das ideias, e tudo que é ideia vem da alma, vai pro corpo e vira palavra, vira canto e é sinal da estrada, vida da estrada, vida de cantor, vida de quem bate tambor e toca violão, vida de quem bateu de cara, levantou e virou lenda, é a lenda de cada um, folclore da realidade, vida em atividade, ação direta de amor, vida incerta que o rumo deu." Fechou a coda. Vivas e bravos. Decidi me aproximar, discretamente, do velho rasta.
   Cheguei até ele, entre os dez jovens que conversavam com ele. Pedi licença, educadamente, e travei o lero que precisava: "Caramba cara! Gostei muito de tudo que você disse, foi tudo de improviso, man?" "Ah, eu sempre faço o que dá na telha, sempre foi assim, desde que fugi de casa com dez anos de idade, lá no Nordeste, e resolvi viver por aí. Conheci um velho hippie, isso era lá pelas bandas dos anos 60, e ele me ensinou artesanato, e depois mandou eu me virar. Foi bom, passei a viver na estrada, conheço a América do Sul na palma da minha mão, e tenho tudo escrito em diários, não sei se passo isso pra frente, mas desencanei e resolvi dar uma de desapego bicho, sabe como é?!" "Puxa, sua vida é fascinante, desculpe, não me apresentei, sou cronista de planfetos, de jornais marginais, meu nome é Guilherme Thompson, e isso que você fez, aqui agora, foi a melhor coisa do meu dia, muito obrigado cara, posso citá-lo num texto? Seria uma honra, qual a sua graça?" "Meu nome de batismo é Francisco, mas, meu nome de guerra, em meio aos rastas, é Billy Moon. Bem doido, né bicho?" "Incrível." "Ah, e pode escrever o que tu quiser bicho, não tem grilo de nada não, nem peço nada, me viro bem por aí, e boa sorte aí nos seus trampos, a vida não é fácil, mas com poesia e música tudo fica bom, bicho. Nem sabia que tinha um jornalista aqui por estas bandas, me vendo nessa doideira improvisada, muito legal bicho, e a juventude nem se fala, são os únicos que nos ouvem por aqui nesse lugar maluco, já já volto pra mata, que é lá o meu lugar." "Que bom cara, vou escrever a matéria hoje, o dia em que conheci Billy Moon, inesquecível, muito obrigado bicho." "Não foi nada, é isso aí!" "Valeu cara, a gente se vê por aí." "Paz de Jah." "Paz de Jah".

06/11/2013 Crônicas (Guilherme Thompson) - I
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

CICATRIZES

Desde as veredas de tempo acre,
morde o poema a flor pela chuva.
Desce o castiçal com maldoror de frio,
e os cântaros ressoam a altiva canção.

A febre, flor de susto,
retumba no cadáver sonhador,
ao náutico clarão o poema ferve
de espada e coturno,
e o grito pelo vento ecoa
tal chiste de bruma ao sol.

Vento mais acre da dor perdida,
desespero de vento no caule da selva.
Vento de puro prazer no corpo,
silêncio de vento no braço dormente.

Vai o tempo ao caos de mistério,
revelar o osso da estância,
e do instante, o eterno frio.

Desde os trópicos o negror d`alma
funda seu pavio de canção,
poeta mais tardo da tarde bruta,
poeta d´aurora que a ferida
possui de seus dons de cicatriz.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

POEMA PURO

Benquisto o poema
ao sol de fúria,
que à dor funda
rebate.

O corpo, tal corpo,
é mais carne
que olor de alma.

O tédio, espírito imundo,
é matado de tanto tempo,
do verso o espanto
viceja,
e o tédio,
tal tempo tardo,
cai exangue
de verso duro.

Maldito o poema puro,
que de andor e fulgor
o espanto braveja,
e com o verso em riste,
vento de dor
e prazer de flor
à paz mais limpa
o poema se tece.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

DE POETAS SEDENTOS

Viceja a palma da fúria
e medra o grito d`alma.
Pelos sinos os frios atávicos
que a dor é flama.

Ventos, dos lagos mais puros,
ao calor a pena dança.
Faz feroz rio ao caudal do tempo,
e o riso o mais teatral emblema.

Dos corpos a rocha do topázio.
Do poema o flerte da lâmina.
Corte ao talante do verso,
carne ao instante perverso.

Ventos que correm à bruta sede,
ventos ao tempo da bruta fome.

Quais poetas morrem de absurdo?
Nenhum, dos que se matam
o sangue dorme,
dos que morrem
a vida renasce.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FLOR NASCENTE

O verde musgo, no altiplano do sol,
murmura indecências de seu atol.
Perfura a velha vela, o vento.

Como nos tempos dos febris corações,
a chuva se embala de água,
mais fria inda que o canto fluvial.

Das quenturas do corpo, o cerne final.
Vem de esmeralda a flor tarda,
mais fina da flora à calma.

Com os girassóis em silente flerte,
passa a faca à alma ausente,
e o colar madrepérola vem na sede.

Pelos alvos dias, ao flanco da hora,
emudece o karma ao sol mais espantado.
Tal a dor da carne inerme,
que de grito a paz fuzila.

Nomeio as estâncias de tal desterro.
Pois da fleuma a alma tola encanta,
e do tardar ao crepúsculo,
o corpo se fere de bruma.

Pela paz alva no negror da noite,
os corpos reluzem a tal poesia,
da qual a sede da alma desfalece.

Vem a bruma, ao pálido horror,
temer a sede mais bruta
do corpo,
matar a fome mais temível
do desespero,
e fundar seu rito
sob o sangue
do vinho
que derrama
tal clamor
violento.

E tudo se firma na funda estrela,
tal o torpor exangue,
que da máquina de morte
nasce uma flor.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)