PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

DE POETAS SEDENTOS

Viceja a palma da fúria
e medra o grito d`alma.
Pelos sinos os frios atávicos
que a dor é flama.

Ventos, dos lagos mais puros,
ao calor a pena dança.
Faz feroz rio ao caudal do tempo,
e o riso o mais teatral emblema.

Dos corpos a rocha do topázio.
Do poema o flerte da lâmina.
Corte ao talante do verso,
carne ao instante perverso.

Ventos que correm à bruta sede,
ventos ao tempo da bruta fome.

Quais poetas morrem de absurdo?
Nenhum, dos que se matam
o sangue dorme,
dos que morrem
a vida renasce.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FLOR NASCENTE

O verde musgo, no altiplano do sol,
murmura indecências de seu atol.
Perfura a velha vela, o vento.

Como nos tempos dos febris corações,
a chuva se embala de água,
mais fria inda que o canto fluvial.

Das quenturas do corpo, o cerne final.
Vem de esmeralda a flor tarda,
mais fina da flora à calma.

Com os girassóis em silente flerte,
passa a faca à alma ausente,
e o colar madrepérola vem na sede.

Pelos alvos dias, ao flanco da hora,
emudece o karma ao sol mais espantado.
Tal a dor da carne inerme,
que de grito a paz fuzila.

Nomeio as estâncias de tal desterro.
Pois da fleuma a alma tola encanta,
e do tardar ao crepúsculo,
o corpo se fere de bruma.

Pela paz alva no negror da noite,
os corpos reluzem a tal poesia,
da qual a sede da alma desfalece.

Vem a bruma, ao pálido horror,
temer a sede mais bruta
do corpo,
matar a fome mais temível
do desespero,
e fundar seu rito
sob o sangue
do vinho
que derrama
tal clamor
violento.

E tudo se firma na funda estrela,
tal o torpor exangue,
que da máquina de morte
nasce uma flor.

04/11/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

JUNKY, WILLIAM BURROUGHS

"Burroughs não é um bom exemplo, mas que o resultado, por incrível que pareça, deu em literatura, não é para todos."

   William Burroughs é como o irmão mais velho da geração de doidões, sobretudo norte-americana, que surgiu nos anos 50, e que ganhou o epíteto de geração beat. Burroughs era nada mais que o velho "Old Bull Lee", retratado genialmente por Jack Kerouac, em sua história romantizada, On the Road (Na Estrada), senhor sábio, entre jovens alucinados, relaxando as células em sua cabine de orgônios (invenção de Wilhelm Reich).
   Burroughs, que já tinha dado seu depoimento em Almoço Nu, numa narrativa fragmentária e cheia de nuances, ganha agora uma edição definitiva, com o texto original de sua obra Junky, uma viagem romantizada e autobiográfica, misturando literatura e história de vida, no mesmo caldo criativo do qual grande parte de seus escritos se alimentou.
   Pois então. Junky, obra também marcada por este viés de vida e literatura como uma coisa só, tem sua versão honesta, ou seja, sem os cortes e interferências (censura, não é mesmo?) que nublaram esta obra por décadas. Junky, então, se afirma como mais um dos grandes clássicos da contracultura, e Burroughs mostra toda a sua veia de um homem de inteligência metido em peculiares situações de riqueza biográfica.
   A autobiografia de Burroughs, em Junky, pode parecer, aos olhos conservadores, uma coisa que não passa de um relato sujo e perdido de alguém doente, seja de caráter, ou mesmo de um exilado da vida "normal". Tal normalidade, questionável, onde reina tanta boçalidade como nas pilantragens do submundo de que Burroughs se alimentou por anos. Esta aventura no submundo, por Burroughs, resultou nestes escritos. Mundo ignorado pelo sujeito dito normal, talvez tão perdido "moralmente" quanto os pobres junkies, e que não poderá ofertar senão o tédio de estar dentro de um sistema que se reproduz a si mesmo.
   Burroughs viveu e produziu. Ao contrário de quem faz sempre o mesmo, e não produz nada de novo e criativo, imerso num mundo que tem horror à arte, um mundo que não se atreve a pensar a si mesmo, sobretudo a partir dos outros mundos abertos pela arte, mesmo que, no caso de Burroughs, entrasse aí a receita questionável da adição monstruosa de drogas, principalmente o junk (heroína, morfina), o que o levou a conhecer os meandros da malandragem dos EUA, Nova York principalmente. Meandros e segredos que, depois de uma fuga da justiça, o levou ao México.
   Bom, não se trata de uma vida que deva ser romantizada, Burroughs não é um bom exemplo, mas que o resultado, por incrível que pareça, deu em literatura, não é para todos. A maioria dos junkies não produz nada, e muitas vezes, ao sair do junk, caem no alcoolismo, na depressão, e se suicidam, como citado em alguns trechos do livro de Burroughs.
   William Burroughs, escritor beat, resume muito bem a vida junky neste trecho de seu livro: "Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida." Bom, analisando este trecho de Burroughs, fica claro que o modo de operação do junk é bem diferente do que se vê em outras drogas, como na maconha, por exemplo. Burroughs diz que a maconha é uma droga gregária, e que os "fumetas" (maconheiros), como ele diz, sempre querem atrasar o traficante, pois descambam a fumar a droga antes de dar no pé. Com o junk é bem diferente, reina uma objetividade fria. Burroughs diz, que quando seu vício se instalou, ele tinha que parar de sair à noite e de beber álcool. O junk é a rotina, ou de estar chapado, ao menos três vezes ao dia, ou, no momento que sobra, estar à procura de mais droga. O meio de vida de que Burroughs fala, é que tudo vira um périplo de, ou buscar morfina, heroína, ou de burlar receitas, com os chamados "coveiros" (médicos), para adquirir paregóricos, ou codeína, para quebrar a fissura.
   Tal rotina descrita por Burroughs, em Junky, revela uma mecânica que também leva o viciado ao tráfico, e, no meio desse imbróglio, se tem soluções excêntricas para a cura do vício. Uma dessas curas que prometem uma libertação indolor, é a famigerada cura chinesa. Na cura chinesa, sua promessa, é que se diluem placebos, para enganar o viciado, até ele estar injetando apenas água, o que, no caso de Burroughs, não funcionou, aumentando a lenda em torno deste método tão curioso de desintoxicação.
   Em meio disso tudo, no périplo de Burroughs, loucos passam chapados de benzedrina, ou ligadões, com bolinhas de nembutal. Um conflito permanente com caguetes é o efeito colateral mais perigoso do junk, para Burroughs, isso sem contar os viciados implorando grãos, e toda uma saraivada de polícias estadual e federal, com os quais Burroughs joga muito bem, tentando sempre se safar pelo lado onde dá menos prejuízo, em meio ao endurecimento da lei norte-americana em relação às drogas e seus usuários.
   Internações são feitas. Burroughs entra na fissura, encontra meios de controlá-la, fica meses sem usar junk, e sempre acaba voltando, tudo para, no fim deste périplo, tentar outros meios de experiências com drogas, uma vez que nem o peiote funcionou com ele, o levando a pensar, no fim de tudo, em uma viagem à América do Sul, para experimentar o Yage.
   No fim do livro Junky, vemos um Burroughs fascinado pelo Yage. Uma planta, que diziam, despertava faculdades mentais telepáticas, sem contar a história que dela se extraía a telepatina, aumentando a credulidade de Burroughs misturada à sua convicção de que a telepatia era um fenômeno real.
   Uma vez que Burroughs conclui que estava, agora, em busca do barato que expande a mente, e não mais do junk, que, em sua opinião, e com conhecimento de causa, o leva a afirmar que o junk não expande, mas estreita a mente, toda a romantização possível que poderia se dar ao leitor incauto da obra Junky, cai por terra. Heroína e morfina, na língua de Burroughs, o junk, não dá barato, é só uma rotina, como ele bem diz, um meio de vida, é uma máquina de um mundo paralelo, uma realidade oca e ensimesmada.
   Quando Burroughs, ao fim de seu caminho com o junk, afirma que esta droga estreita a mente, fica bem claro que isto ocorre e como. Pois, quando o junk é o meio de vida, ele é bem mais viciante que drogas expansivas da mente. A doença junk é bem o tempo próprio em que entra o viciado. Burroughs diz que a rotina é sempre a mesma, e é só se saindo dela, depois de vários anos, que é possível perceber uma vida diferente. Pois, na verdade, haveria duas vidas: a rotina do junk, que é um mundo à parte, repleto de escravos, caguetes e malandros, além da lei atrás de todos, e o mundo após a libertação do junk, onde o que há não é mais a fissura, e nem a falta, mas uma curiosidade genuína de como tudo realmente pode ser bem diferente e interessante. Se sai de uma rotina, e se entra na vida. E agora, Burroughs busca sua expansão, talvez como esta busca da própria vida, na experiência mística do Yage, e não mais no estreitamento do junk, mundo estreito que é bem o nome que se deveria dar ao que ele chamava de rotina junk.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:http://seculodiario.com.br/13639/14/junky-william-burroughs

sábado, 26 de outubro de 2013

O GRITO DA VIDA

Lute com o teu sal de antanho,
das lidas, o esgar mais fundo,
do copo cheio, a alma do mar.

Faz, ritmo intrépido
até a alma faz.

Feito, que de teus sonhos
os tenha feito.

Dito, que de teu verbo
não caia a língua.
Dito, feito, tudo o que faz.

Lute com a boca do mundo.
Mergulhe na grande boca
do mundo.

O mundo cruel nos chama.
O fiel esgar da máquina pula.
Os rios nos quais
todos correm
é a boca grande
e faminta
do mundo
gritando
vida.

25/10/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

AMOR D`AURORA

Meneia seus cabelos, flor d´aurora!
Que inda é dia! Que inda é dia!

Faz da nuvem, poema.
Faz do tempo, a sorte.
Que finda o dia, minha linda!

Flor que te quer florida,
dança na água
com suas madeixas,
que ferve calma
qual gueixa,
que não tem nada
que te dê queixa.

Meneia, envolve a tua carne
na minha espada,
e olha o mar,
e sinta o sal,
e diga ao sol
todo o amor
de que o anzol
foi testemunha.

25/10/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

OS DONS DO HORIZONTE

Sangra como o suor do chão.
As botinas cavam o esterco
e a mão pega na massa informe.

Duas horas seguidas na roda.
O ventre corta o osso da visão.
Os olhos lacrimejam de raiva.
Os dias duros não, ainda,
embruteceram a alma,
tão somente firmaram
os dentes,
os quais mordem
a pasta do esterco
sob o sol e a ferida aberta
da tarde mais dura da terra.

Sangrar como o suor do chão
é não lamuriar diante da senda
e ter em paisagem
todos os dons
do horizonte.

25/09/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

domingo, 13 de outubro de 2013

MERQUIOR E A ANÁLISE DO MODERNISMO

"após a fundação da grande obra dos modernistas, para Merquior, nada mais alterou profundamente a poesia brasileira."

   José Guilherme Merquior, em seu livro de crítica literária e análise estética, Razão do Poema, reúne, neste trabalho, diversas reflexões sobre poesia e estética, concentrando alguns de seus textos em reflexões sobre alguns poetas brasileiros, no que eu dou destaque, aqui, ao segundo texto do livro: A Poesia Modernista. Tal texto é uma análise da geração de 22, aonde Merquior tece uma elogiosa enumeração dos feitos dos poetas modernistas desta geração, ficando, posteriormente, demolida a geração de 45, em um outro texto, que não cabe aqui agora citar em detalhes.
   O fato que tem que ser colocado é que Merquior engrandece o nacionalismo e coloquialismo da geração de 22, dando bordoadas no resgate da lírica antiga da geração de 45. Para ele, o espírito de 22 se conserva vivo, pois, após a fundação da grande obra dos modernistas, para Merquior, nada mais alterou profundamente a poesia brasileira.
   À parte de alguns desastres programáticos de tal geração, a obra deixada foi superior aos eventuais desastres de tais programas literários. É na geração de 22, para Merquior, que a poesia brasileira se afirma como tal, deixando de lado formas alambicadas de parnasianismos que, dentro da forma, se afogavam, dando lugar à conquista do Brasil por esta nova poesia, e que colocava a importação de expressões estrangeiras como ponto secundário desta nova manifestação. A linguagem sai do eixo da forma colonizada, e entra num novo modo de operação que busca a identidade nacional, dentro do regionalismo e do coloquialismo como portas de entrada para a poesia brasileira que se queria construir na ocasião, e como saída das velhas armadilhas líricas de que padecia a poesia antiga. Velha poesia, que tinha como sua expressão canônica, Olavo Bilac.
   Merquior elogia, por exemplo, um regionalismo que se universaliza em Cobra Norato, obra de Raul Bopp, onde se reúne a particularidade do solo com a excelência da arte, num apoderamento do realismo social e psicológico da nação, que culminou numa expressão lírica variada do homem nacional. Por sua vez, o poema-piada, tão criticado posteriormente (vide a geração de 45), entra como elemento de demolição do parnasianismo arraigado de gerações passadas, onde a piada era o terreno mais apto para uma maior liberdade lírica, em que se revelaram a típica emoção de Manuel Bandeira, e o velado sentimento de Drummond.
   O dizer suave de Bandeira realizou uma transição na lírica da poesia brasileira. A qual passou de um viés puramente literário, para uma voz concreta do mundo e da língua falada, numa nudez da expressão sem atavios, onde se obedece mais à língua do que ao vernáculo puro, tendo na ironia a fundação principal de tal expressão, em que Bandeira se erguia no mais alto lirismo, numa marcha real do português-brasileiro. A lira de Bandeira, pois, embora ainda tocasse o som clássico, estava mergulhada de forma contingente no modernismo.
   Drummond, por sua vez, retirou o lirismo da subjetividade encastelada, e o colocou numa linguagem renovada e objetiva, numa direção social, e numa agudeza reflexiva e irônica, que virou o lirismo até então praticado pelo avesso. O autor de A Rosa do Povo se emocionava nos sentimentos coletivos, e o terceiro Drummond, o de Claro Enigma, fundou, então, a grande meditação poética sobre as razões da existência, que era uma poesia pensativa da condição humana.
   Por sua vez, Cassiano Ricardo tira da dor, não uma expressão sentimental, mas uma sensibilidade voltada à própria vida, com a aspereza social, numa disposição comunicativa de vivência. Jorge de Lima consegue realizar, na visão de Merquior, o que seria um dos mais ambiciosos poemas do modernismo, A Invenção de Orfeu. Tal poema que, para se compreender, deve-se aceitar o fundo barroquismo da literatura novecentista, e ainda, lhe juntar a contribuição do surrealismo. Com a deslizante carreira de imagens e sons na qual o poeta livre,  e sobretudo um poeta surrealista, cai, tal poeta pode se encontrar ébrio de tanta liberdade, e descambar no excesso da expressão e no desfiguramento do dizer. Jorge de Lima, com seu barroquismo de molde surrealista, perde a unidade, e se encontra fragmentado, numa visão de Ariosto, em que, embora possa reunir trechos magníficos, perde a obediência à língua, trocando-a pela profusão imagética e musical, que é, antes de tudo, um bom elemento expressivo, mas pouco estabelecido como discurso. De outro lado, temos Mário de Andrade, numa lírica lúcida de realismo vibrante, e, ao seu lado, Oswald de Andrade, como uma concentração da imagem.
   Na análise de Merquior, toda esta riqueza conquistada pelos poetas de 22, se viu, a partir da década de 30, ameaçada pelas reações neo-românticas de um retorno ao lirismo convencional, tendo como principal responsável pelo retorno ao "sublime", o poeta Augusto Frederico Schmidt. Temos, neste poeta, uma angústia que se dilui numa linguagem aguada. Por sua vez, surgia, de outro lado, o misticismo inicial de Vinícius de Moraes, que, mais tarde, abandonou este derrapante no "sublime", transformando-se no maior poeta popular do modernismo.
   Merquior, no entanto, no fim de sua análise do modernismo da geração de 22, conclama os novos poetas do Brasil a "resgatar" uma nacionalidade social, para uma expressão dita "brasileira". Nacionalismo que, na minha visão, vejo com sobras de desconfiança, pois cai no mesmo pecado de resgate mais anterior, de que Merquior acusou a geração de 45. Ou seja, não se trata, exatamente, de resgatar ou progredir na poesia brasileira, mas, de encontrar vozes e diálogos possíveis com toda a tradição, sem, contudo, se fiar na repetição de temas. Embora a expressão se auxilie na tradição, sempre deve buscar na pluralidade de vozes, a sua própria voz. Voz que não se funda em mimética, mas em intuição de ritmo e exercício constante de ter no discurso e na expressão poéticos, a nova poesia.
    Devemos entender tal nova poesia, nos dias de hoje, não mais como ruptura, mas como voz autêntica. Vejo com desconfiança o proselitismo de Merquior a favor da geração de 22 e contra a geração de 45, numa divisão maniqueísta do que se pode fazer em poesia nesta nossa nação. Merquior toma o regionalismo que se empenha em bandeira nacional como uma virtude, e, com isso, nega o experimentalismo donde nascem novas ideias de expressão. Nacionalismo que é vendido como fortuna verdadeira da literatura brasileira, que, ébria de seu viés popular, se esquece, desavisadamente, da riqueza expressiva de uma linguagem que se queira como universal, onde a tese de que a aldeia reflete o mundo, nem sempre deve ser levada ao pé da letra.
   Devemos, sim, como bem disse Merquior, ter atenção detida nos temas objetivos, sociais e filosóficos, como temos em João Cabral de Melo Neto, mas sem o cacoete de "brasilidade" de que padeceram muitas de nossas melhores cabeças. Identidade nacional que soa datada, e que é superada pelo cosmopolitismo de nossa nova literatura brasileira do século XXI. (Lembrando que as reflexões de Merquior se referem a outro tempo, datando este texto sobre o modernismo, de 1962).

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/13384/14/merquior-e-a-analisebrdo-modernismo