PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 4 de agosto de 2013

O ANARQUISMO

"Todo anarquista luta por uma nova sociedade, o indivíduo e sua liberdade são as tônicas que fazem o movimento"

  O anarquismo se constituiu como um tipo de Filosofia política e prática de ação social que cresceu pela Europa durante a segunda metade do século XIX até os anos 30 do século XX. Atualmente, o anarquismo vem sendo recuperado, tal como se vê em movimentos de protesto pelo mundo, em que formações como os Black Blocks vêm tomando vulto desde a década de 80 do século passado.
   Para pensar sobre o anarquismo, torna-se impossível tomá-lo como um corpo doutrinário, uma vez que tal prática de ação política e social nunca foi hierarquizada ou teve um poder central. Muito pelo contrário, a autogestão social e a organização sindical descentralizada foram as formas que surgiram do seio do movimento, que sempre foi caracterizado por não ser feito por um único grupo ou orientação, mas pelo pluralismo de métodos e de atitudes.
   Se podemos reunir um ponto em comum de todos os movimentos anarquistas que surgiram, o que se vê é que o anarquismo sempre foi uma atitude de negação de qualquer tipo de autoridade, numa valorização da liberdade a todo custo. Liberdade radical que sepulta qualquer tentativa de abarcar o anarquismo como doutrina política.
   O anarquismo terá seis princípios básicos de teoria e de ação: autonomia individual, autogestão social, internacionalismo, ação direta, associações operárias e greve geral. Nestas frentes, o anarquismo sempre foi uma atitude de enfrentamento pela liberdade, ou seja, uma atitude libertária contra a estrutura do Estado (o anarquismo nega o Estado, luta pelo seu fim), e também contra a exploração capitalista, nascendo no seio da Internacional socialista entre os marxistas, com os quais entrará em conflito.
   Todo anarquista luta por uma nova sociedade, o indivíduo e sua liberdade são as tônicas que fazem o movimento, o anarquismo é uma teoria sociopolítica que se constrói como movimento social e que se funda como prática histórica, onde vale mais sua aplicação prática que as teorias que a compõe. O anarquismo é, sobretudo, uma condição de luta pela liberdade que seria realizada pela organização solidária entre os homens. O conceito errôneo de que todo anarquismo se refere à baderna ou a atos violentos destitui o sentido libertário e evolutivo em que o indivíduo solidário com seu semelhante é o ponto de inflexão da verdadeira revolução social anarquista, onde há o fim da autoridade, pela figura do Estado, e a ação direta se faz mais pela organização federalista, pela forma de sindicatos descentralizados pela autogestão social, do que pelas ações performáticas de anarquistas individuais em atentados duvidosos ou o puro vandalismo.
   A ação terrorista de alguns não seria a forma de operação do anarquismo tomado em seu sentido amplo, pois os principais pensadores do anarquismo, tal como Kropotkin, reprovavam ações de "lobos solitários", tais como as que ocorreram durante o desenvolvimento do movimento durante a segunda metade do século XIX, em que anarquistas individuais praticaram atentados contra autoridades e até imperadores, o que podemos ver em figuras daquela época como Louise Michel e Ravachol. O movimento mais intelectual do anarquismo, tinha mais a ação direta no sentido não da violência, mas da ação transformadora, através de uma organização solidária, e não de práticas terroristas que, na opinião de alguns mestres anarquistas, manchavam o anarquismo como pura violência desordenada, e não como ações sociais independentes de hierarquia, pelo fim das instituições, e pelo fim do Estado e de toda autoridade, numa afirmação de liberdade incondicional.
   O sentido do anarquismo como desordem se deu, sobretudo, pelo advento da Revolução Francesa, e sempre foi usada para dimimuir o movimento organizado que surgiu já quase um século mais tarde. O senso comum sempre associou o anarquismo como ação direta pela violência, esquecendo-se do conceito amplo de ações e atitudes que envolve toda prática social anarquista, onde a solidariedade é o ponto que funda a via transformadora, tendo na liberdade seu meio e seu fim. O que importa para o anarquismo é a afirmação da liberdade individual, numa transformação evolutiva da sociedade, que se destitui das instituições, de suas autoridades e hierarquias.
   O movimento difuso pela via sem centro e sem gerência hierarquizada é o movente da utopia de um homem melhor pela ausência do Estado, figura histórica que deve ser superada pela pura solidariedade entre os homens e pelo federalismo de grupos diversos em cooperação mútua, numa sociedade nova, surgindo com os valores libertários, e se sobrepondo aos valores do autoritarismo, um homem que tem na sua evolução pela solidariedade o fundamento da nova sociedade anarquista, em que a autogestão social supera a organização institucional, e onde não há mais uma autoridade, mas sim, grupos descentralizados que compõe o tecido social e que não têm mais a representação de um poder de cima para baixo.
   No anarquismo, não há mais poder organizador, e sim federações cooperando entre si, e onde a liberdade é o valor supremo, o que implica necessariamente, no anarquismo, a implosão de toda hierarquia, tudo se torna horizontal, não há mais mando e obediência. O anarquismo se caracteriza por um espontaneísmo de uma humanidade que só se melhora e evolui, naturalmente, pela via transformadora da ação direta pela liberdade, e pela organização federalista de cooperação e solidariedade, compondo no tecido social, grupos que não necessitam de um poder central.
   Na geração espontânea, tornada possível pelo fim do Estado e da autoridade, de um homem liberto e solidário, é que reside a fé e a esperança anarquistas, num viés evolucionista de uma sociedade que pode ser melhor quando o valor a ser propagado é o da liberdade de iniciativa e o fim do poder constituído. O fim das injustiças sociais é o fim do poder e do Estado. O anarquismo é a liberdade transformadora como prática social em uma rede de grupos ou federações que formam a sociedade nova sem Estado. A liberdade anarquista é o valor social gerado por esta forma de organização social, e na liberdade, para o anarquista, nasce a solidariedade entre os povos.
   A utopia anarquista ainda vive neste nosso século, e não se faz pela ação direta violenta somente, mas pela constituição de ações transformadoras libertárias, que visam ao bem comum, e que não precisam ser violentas. O anarquismo pacifista, por exemplo, prescinde de ações radicais, centrando seu interesse na propagação de novos valores libertários e não-violentos de uma sociedade mais solidária, em que os homens podem atuar pelo bem comum, sem precisar esperar o aval de instituições organizadas, e sem ficar refém do poder. O anarquista arregaça as mangas e vai à luta pela liberdade, o que não pode ser unicamente a depredação de símbolos capitalistas, como se faz nos Black Blocks. A prática libertária é muito mais ampla e consciente que a violência direcionada, temos recursos de ações e práticas que vão muito além da performance midiática e violenta desses novos anarquistas que parecem mais fascistas que libertários.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=9584&secao=14

domingo, 28 de julho de 2013

CANTO DE PÃ

Bato as horas que urdiram
na paz silvestre do cipreste.
Caule mudo das entranhas na seiva.

Sob o frondoso livro ao qual me detive
o sonho fecunda o eclodir das gemas,
sândalo toma a forma da música
e o hino sente a flor e o dia.

Canto às dores, martírios e rosas.
Da paz faustosa o doce aroma.

Planto a semente na fúria e no amor.
Qual fúria amorosa me toma de albor?

Planta em meu corpo
                        a semeadura
                                     de meu espírito
                        na rútila vinha
                                      da flauta
                        qual Pã
                                na embriaguez
                    das festas de Baco.

28/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)  

CORPO DE DRAMA

Venha cortar as pontas dos lençóis
na noite da boêmia amorosa
cantar e sussurrar
o vento da gasolina
nas ruas da fartura
emoldurando poemas sectários
de flores negras
que apanharam
no jardim das delícias
com os corpos violáceos
das delícias do horror
vamos em frente como raparigas
vendendo ilusões de carne
como serpentes nuas
no velódromo das dores senis
vamos como corsários
da fome de roubo
no ataque de uma andorinha
no vinho das estátuas mortas
pleiteando nas semanas literárias
o topázio e uma turmalina no dente
um corpo de sonho nas asas azuis
os símbolos das guerras de tótens
os crápulas e os vampiros
de puro fausto quando o poeta
silencia todo seu drama
sob a fúria da pena.

28/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

OS OLHOS DESPERTOS

Visão
     na vida
            do corpo
                     que finda
                                na alma

Alma
     que surge
               no corpo
                         e acorda
                                 na vida
                                        como visão

Contempla a visão
              ausculta do coração
                                  olha e entende
                                               tudo que vê.

28/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

DESEJO DO BEIJO

Beija a areia a boca úmida
           contorce a língua
                  na pedra

cai no ósculo entre arraias
             vejo o vinho
                        que vai ao fim da fonte
             no delta
                     da visão

beijo o frio do mar
                  o mar gélido
                                que contempla e sonha

beijo você na hora do sono
                  como um amante da poesia
                              do sonho

28/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)  

DO VOO DA GAIVOTA

Vejo por cima de minha cabeça nua
                  uma gaivota no plácido silêncio
                               o marulho
                               contorna
                               a gaivota

                 E quero ser o voo
                                       e então silencio
                                    contemplo
                                          o
                                        vazio
                                          da
                                        visão
                                        numa
                                      gaivota
                                      que voa
                                                para lá

Tento achar o meu próprio voo
                              desisto e caio
                     me espanto
                              com este voo
                                         da gaivota
                              que é o encanto
                                     de tudo
                                             que voa.

28/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)    
                         

SOBRE UM PESADELO

   Quando eu era criança, tinha pesadelos. Uma vez bem marcante, foi quando eu sonhei que tinha sido preso por matar o homem do cabelo branco do Jornal Nacional (depois me disseram seu nome: era o Cid Moreira).  E, no pesadelo, na cela em que eu estava preso, lá estava a figura de Freddy Krugger, com suas unhas de aço, me perseguindo naquele pesadelo. O filme se tornara realidade, eu estava no filme, igual ao filme, quando Freddy vem te pegar nos sonhos, no caso, um pesadelo.
   Lembro que, na noite antes de dormir, ou nas noites anteriores, se não me engano, estava obcecado por uma figurinha que tinha o Diabo de um velho álbum do qual eu só tinha algumas figurinhas e não o álbum em si, de nome Impacto, que uma amiga minha tinha me passado. Lembro que, nos meus oito ou nove anos de idade, eu tinha obsessão pelos diferentes nomes dados ao tinhoso. Decorava todas as denominações com o signo Diabo possíveis. Cramulhão, pé-de-bode, tinhoso, capeta, diabo, satanás, demônio, lúcifer, etc.
   Sei que, antes de dormir, fiquei visualizando a figurinha do Diabo e morria de medo, eu tinha gosto por filmes de terror, teve uma vez que tinha acordado com terror noturno de madrugada, pois estava sendo atacado por um lobisomem. Desta vez, na manhã seguinte, eu não me lembrava, quem me falou foi meu padastro. Mas, voltando, me alimentei muito dos filmes do Freddy e do Jason, dentre outros, e até de umas revistas que vendiam na época, histórias reais de lobisomem e de vampiro. Então, foi que Freddy me pegou, e fiquei tão fascinado com este pesadelo, que falei para toda a minha família. Talvez, este sonho tenha sido o mais marcante da minha vida, logo um pesadelo com as marcas de todos os pesadelos, Freddy Krugger. E eu ainda era um assassino preso por ter matado o âncora do Jornal Nacional. Muito curiosa, tal trama. Como o Freddy foi parar na cela para me perseguir? Só Deus sabe, ou todos os nomes que colecionava de diabos para me divertir. O medo é um prazer mórbido infantil, ao menos na minha infância, o terror tinha um papel importantíssimo nos meus exercícios de medo.
   Penso que o medo, através do terror, e a simbologia do mal, tudo é fascinante na cabeça infantil, flertar com o medo nos educa para lidar com o inconsciente desde cedo. Freddy Krugger não conseguiu me pegar no sonho, só lembro da imagem dele rindo, com as unhas de fora, numa sombra lateral da cela em que eu estava enfurnado por ser um assassino. Tinha matado o Cid Moreira, meu Deus!
   O medo, dizem, é um tipo de demônio. Ouvi isto, uma vez, em uma das pregações cristãs que via na TV, há uns tempos atrás. Logo, Freddy Krugger era o demônio do medo no meu pesadelo de criança. Mas, o medo nos impede de fazer coisas temerárias, o medo tanto educa para não nos machucarmos, como também é o demônio, o cramulhão, o pé-de-bode, o tinhoso, o lúcifer, o Mal metafísico da morte. O medo também nos dá a chave da sobrevivência e nos dá a morte como ameaça. A morte foi representada por Freddy Krugger naquele pesadelo, no filme ele representa a morte real de forma onírica, e talvez seja a maior das fantasias oníricas o momento da morte de cada um.
   O medo, como um tipo de demônio? Boa perspectiva para pensar o medo. O pregador diz para não termos medo. Mas, como não se deliciar com o sofrimento do medo, ainda mais quando se é criança, e uma criança que amava filmes de terror? Então, o que eu fazia, quando era criança, ao colecionar todos os nomes de diabo possíveis, era nada mais que uma coleção de medos. Um tentar ver a morte de perto, os medos como demônios.
   Então, na minha visualização do próprio Diabo, numa reles figurinha da Impacto, antes de dormir, para ter meu encontro com Freddy Krugger, eu também me tornei  outro demônio macabro, que tinha matado o Cid Moreira.  Para saber das coisas do medo, não se pode ter medo, agora entendi a pregação cristã de outro dia. O medo é um tipo de demônio, encarando por esta linha, não podemos cair na tentação do medo. Desafiar o medo era tentar não ter medo. Ver filmes de terror com a imaginação fértil também é tentar vencer o medo, tentar não cair na armadilha dos diabos que moram na gente. O medo é um tipo de demônio. Freddy Krugger? Jung explica. Coisas de criança.

28/07/2013 Crônica
(Gustavo Bastos)