PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A PESTE – PARTE V

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a interrupção do uso da cloroquina e hidroxicloroquina em testes para tratamento contra a Covid-19”

A cloroquina deriva da quina, uma árvore usada por indígenas para curar febres desde antes da chegada dos europeus no continente americano, esta substância foi sintetizada em laboratório em 1934, e virou medicamento no combate da malária, devido à sua eficácia para matar o parasita da doença. A hidroxicloroquina, por sua vez, foi desenvolvida em 1946, e foi uma versão menos tóxica e mais aprimorada da cloroquina, em tratamentos de longo prazo, e é aplicada nas terapias de doenças autoimunes como artrite reumatoide e lúpus, além dos casos de malária provocados por protozoários resistentes à cloroquina.
Em 2007, pesquisadores liderados pelo infectologista Didier Raoult, da Universidade de Medicina de Marselha, na França, fizeram testes in vitro para demonstrar que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ser usadas contra infecções bacterianas, fúngicas e virais, como o HIV e o Sars-CoV-1, e no surto do novo coronavírus, baseados neste estudo francês, pesquisadores resolveram testar a aplicabilidade ao Sars-CoV-2, e o primeiro teste foi feito por cientistas chineses e publicado no início de fevereiro de 2020, mostrando efeitos similares aos da pesquisa de 2007. Outro, também realizado na China e divulgado em março, validou a eficácia destes medicamentos in vitro.
Contudo, o uso de tais medicamentos implica riscos, pois a cloroquina e a hidroxicloroquina podem provocar problemas gastrointestinais, de visão, fraqueza muscular, sangramentos, alterações de humor, problemas cardiovasculares, com seu perigo aumentando no caso do coronavírus. A cloroquina e a hidroxicloroquina aumentam o risco de arritmias e de mortes, o que demonstra os resultados do maior estudo já feito sobre esses dois possíveis tratamentos contra o coronavírus, que analisou mais de 96.000 pacientes em 671 hospitais do mundo todo. Os dois medicamentos chegaram a ficar esgotados em muitos países e seu uso indevido já provocou mortes.
O estudo publicado pela revista médica The Lancet, analisou a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina administradas isoladamente ou juntamente com um antibiótico macrólido em comparação com doentes que não receberam nenhum desses tratamentos. A mortalidade no grupo de controle que não recebeu os medicamentos foi de 9,3%. Já entre os que tomaram esses medicamentos, morreram 16% no grupo que tomou apenas cloroquina e 23% no que tomou hidroxicloroquina e antibiótico, também demonstrando que todos os pacientes que tomaram algum dos remédios analisados tiveram um risco maior de sofrer arritmias, o que pode provocar morte súbita.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a interrupção do uso da cloroquina e hidroxicloroquina em testes para tratamento contra a Covid-19, motivado pelo estudo publicado pela The Lancet, visto que a cloroquina era uma das substâncias consideradas promissoras para o tratamento da doença pelo novo coronavírus, por isso entrou no projeto SOLIDARITY da OMS, em março deste ano, que é um estudo colaborativo mundial para avaliar a ação das principais drogas no tratamento da Covid-19.
Segundo o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, a interrupção vai acontecer enquanto o Conselho de Monitoramento de Segurança de Dados, do Grupo Executivo do estudo SOLIDARITY, analisa os dados disponíveis sobre benefícios e malefícios da cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19. Contudo, Tedros ressaltou a importância do uso desses medicamentos em doenças autoimunes e contra a malária, não devendo haver interrupção para estes casos.
Nesta segunda-feira, a FDA (Food and Drug Administration), agência que controla a aprovação de medicamentos nos Estados Unidos, publicou um documento que revogou a permissão de emergência para o tratamento com cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com COVID-19. A autorização foi emitida pela primeira vez em março e aplicada em pacientes hospitalizados submetidos a ensaios clínicos (pesquisas). Em abril, a FDA fez um alerta contra sua aplicação para casos do COVID-19, fora dos locais de testes, e o documento que foi publicado agora não deve atingir os ensaios clínicos.
A revista Lancet também publicou sobre resultados satisfatórios sobre testes clínicos realizados em Hong Kong com uma combinação tripla das substâncias interferon beta 1-b, lopinavir-ritonavir e ribavirin em 127 pacientes adultos diagnosticados com covid-19, que foi um estudo do tipo clínico randomizado controlado, e o artigo, assinado por mais de 40 cientistas, liderados pelo professor da Universidade de Hong Kong, Kwok-Yung Yuen, mostra que a combinação tripla eliminou o coronavírus em média sete dias após o início do tratamento.
Os 127 pacientes envolvidos foram diagnosticados com covid-19 através de testes e foram internados entre 10 de fevereiro e 20 de março, pois em Hong Kong, toda pessoa que tem resultado positivo para o novo coronavírus é hospitalizada. Os pacientes que receberam a combinação tripla, neste período, continuaram recebendo tratamento padrão para covid-19, como ventilação, diálise e antibióticos.
No surto de SARS em 2003, a combinação lopinavir-ritonavir (normalmente usada contra o HIV) e o ribavirin (usado contra a hepatite C) reduziu significativamente a ocorrência de insuficiência respiratória e mortes em pacientes hospitalizados, e o interferon beta 1-b, desenvolvido para tratar da esclerose múltipla, também levou a redução da carga viral e melhora nos pulmões em testes com animais para MERS.
Fora da equipe responsável pela publicação no Lancet, Sarah Shalhoub, pesquisadora da Universidade Ocidental do Canadá, comentou por escrito à imprensa sobre o artigo da Lancet : “A maioria dos estudos publicados até agora foram do tipo retrospectivos ou observacionais. Portanto, esse estudo controlado e randomizado, com objetivo prospectivo, agrega um valor significativo ao acúmulo de evidências sobre tratamentos, eliminando uma série de limitações inerentes aos estudos retrospectivos. (...) No entanto, como os autores reconhecem, são necessários estudos futuros para examinar a eficácia do interferon beta-1b sozinho ou em combinação com outros medicamentos para tratar pacientes graves com covid-19, além de uma comparação com placebo.".

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



Nenhum comentário:

Postar um comentário