PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

POESIA BRASIL

Na selva caraíba, pindorama abre tal sol,

com a febre do degredado, a manha do 

corsário, para que a bela praia não se 

faça só de miçanga, mas no mito

fundador desta terra vera cruz.


O rio corre nestes ritos cruentos, 

da visão dantesca de Hans Staden, 

com a vinha de ayahuasca 

dos xamãs de nheengatu,

cortando a cana e o pau brasil,

com as araras das veredas vermelhas,

na fala brotada de tupi guarani,

de dança bantu, da cozinha iorubá,

de onde canta o sabiá.


21/08/2025 Gustavo Bastos - Sublime 

AS BRUMAS DO INVERNO

Noites há em que o cancro faz bolha,

e a batalha da erisipela é necrosada.

Os poemas são noites tonitruantes,

com o vagar dos ideais suicidas.


A jovem carne e ímpeto,

a arte solar, toda a estrela

que irrompe matutina,

entra em sedição anímica,

na guerra da angústia e do

caos.


Dos orbes desenhados,

a memória vira embuste,

os fantasmas e os miasmas

corrompem a fronte,

o coração embrutece,

o choro é convulsivo,

e os braços ficam dormentes,

à espera da picada.


Naquela noite sem fim,

o gole era sequioso,

e a cauda do desespero

era longa, alucinante. 


21/08/2025 Gustavo Bastos - Monster

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

TARIFAÇO E CRISE DA GLOBALIZAÇÃO

“ordem comercial neomercantilista”


O tarifaço de Trump está relacionado à desindustrialização dos Estados Unidos, resultando num declínio tecnológico e econômico que começou nos anos 1990, ao passo que a China avançava rapidamente com um crescimento econômico contínuo baseado em exportações. O problema da queda da hegemonia norte-americana nas cadeias globais de comércio se segue a uma estagnação dos países do bloco europeu e a liderança do crescimento econômico global pelos países dos Brics.

Este aumento da concorrência internacional agora resulta em um sistema de sanções, por parte dos Estados Unidos, que vai além da periferia capitalista, atingindo países como China e Rússia, na tentativa de conter a ascensão de uma potência na Eurásia, o que já tem a China no cenário próximo e logo mais pode ter também a Índia.

É bom lembrar que a política de Trump, embora de proporções maiores e um foco difuso ou até uma ausência de lógica e tudo se misturando em avanços, recuos, bravatas e vias de fato, ainda pode ter paralelo, guardada estas proporções, com o histórico recente da política de diplomacia comercial internacional norte-americana, pois ataques ao sistema de livre comércio internacional já foram efetuados pelo governo democrata de Barack Obama, no ano de 2012, em que houve bloqueios nas nomeações de novos juízes para o Supremo Tribunal de Comércio da OMC (Organização Mundial do Comércio). 

Tal medida era para deter o benefício dado pela OMC à China, uma vez que um tribunal estrangeiro não poderia se sobrepor a um norte-americano, de acordo com a Constituição dos Estados Unidos, pois havia ameaças à soberania do país com tal alegação de favorecimento da China pela OMC. Atualmente, a crise do imperialismo norte-americano é uma soma de derrota da Otan na guerra da Ucrânia, ascensão tecnológica chinesa, e o avanço da discussão sobre a desdolarização no campo monetário, em que Donald Trump, com a missão de fazer “A América grande novamente”.

Trump, então, leva o slogan à prática no sentido de reafirmação do tique secular do Destino Manifesto, na escala global de enfrentamento das regras da política comercial, em sentido contrário a acordos firmados no auge da era da globalização, nos anos 1990, por exemplo. Período este em que a globalização virou guia da economia política mundial, nos anos 1990, em que se aprofundou a interdependência e a cooperação internacional nas cadeias globais de produção, de exportação e importação, numa subdivisão de expertises, em que um mesmo produto poderia ser tanto resultado de diferentes componentes de diferentes regiões como moeda de troca para interesses mútuos de diferentes países.

Por sua vez, com o governo atual de Trump, a escala de medidas foi dos blefes e de um sistema de tarifas bilaterais para um pacote global de aplicações de tarifas, inserindo aí parceiros políticos e econômicos históricos dos Estados Unidos, em que pilares erguidos pela liderança dos próprios Estados Unidos, como o sistema multilateral de comércio,  após a Segunda Guerra Mundial, passaram a ser derrubados.

Tais pilares remetem ao que se instituiu com o chamado Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, junto a uma liberação comercial, que daria, mais adiante, no surgimento da Organização Mundial do Comércio, a OMC.  Tal organização que, por conseguinte, beneficiou interesses norte-americanos até a crise dos subprime, na alavancagem que deu origem à recessão econômica internacional em 2008.

Os Estados Unidos anunciaram a sua saída da OMC, para enterrar seu “sistema geral de preferências”, e que internamente foi bem recebida por dois setores da burguesia do país, que inclui empresas não transnacionalizadas, que podem tomar parte do mercado interno que antes consumia bens importados, e as big techs, em vista de um melhor posicionamento frente à liderança tecnológica da China. Contudo, tal saída da OMC nunca ocorreu, pois Trump fez duras críticas, ameaças, pressão para atendimento das demandas norte-americanas, mas o que aconteceu foi a suspensão das contribuições à organização por parte dos Estados Unidos.

Tal suspensão veio dentro de um esforço do governo Trump de cortar gastos e levantar barreiras comerciais. Ou seja, os pagamentos para os orçamentos de 2024 e 2025 à OMC foram suspensos, num  processo de revisão das contribuições dos Estados Unidos para organizações internacionais, e não disse à mesma quando sairia o resultado dessa revisão. O fato é que Trump assinou uma ordem executiva instruindo o secretário de Estado Marco Rubio a revisar todas as organizações internacionais das quais os EUA são membros "para determinar se elas são contrárias aos interesses dos EUA". 

Tais atrasos podem prejudicar a capacidade operacional do Secretariado da OMC. E de acordo com as regras da organização, por sua vez,  qualquer membro que deixar de pagar suas taxas após mais de um ano estará sujeito a "medidas administrativas", e que se constituem em punições progressivas, à medida que o tempo sem pagamento das taxas se estende. O problema da paralisação da OMC promovida pelos Estados Unidos é que esta limita a capacidade da organização de arbitrar conflitos na área comercial, e isso em meio à guerra tarifária empreendida pelo governo Trump. 

A OMC foi criada em 1995, com apoio dos Estados Unidos, que estiveram no centro da criação e da operação do atual sistema internacional de comércio, quando o país tinha maior hegemonia econômica. Portanto, esta relação dos Estados Unidos com a OMC mudou a partir do crescimento da concorrência chinesa. Tal afastamento já se refletia na política industrial do governo democrata de Joe Biden, já com medidas protecionistas.

Por sua vez, quanto às empresas multinacionais, voltando a falar do atual governo Trump, houve uma compensação com a redução de impostos domésticos, com uma operação de cobertura de déficit comercial por tarifas de importação. Tal política econômica remete a uma ordem comercial neomercantilista, em sua versão moderna, que era praticada no século XIX, um completo retrocesso, segundo um apelo para a recuperação do protagonismo industrial dos Estados Unidos, que poderá, num primeiro momento, enfrentar um repique inflacionário e recessão.

Contudo, tais medidas do governo Trump enfraquecem a diplomacia norte-americana, abrindo oportunidades de acordos comerciais à revelia dos Estados Unidos e do sistema dólar, além de provocar um movimento de represálias ao país norte-americano, em que o Brasil, por exemplo, poderá se inserir em políticas de fortalecimento do sul global, com acordos regionais e cooperação através do Brics.

Por sua vez, os Estados Unidos iniciaram sua saída do Acordo de Paris em 2017, se retirando formalmente em 2020, e sendo reintegrado, em 2021, pelo governo Biden. Agora temos novamente um processo de saída do país do acordo sobre mudanças climáticas neste novo governo de Trump, com previsão para ser consumada em 2026. E aqui se configura, novamente, o problema de se tratar do segundo país do mundo em emissões de gases efeito estufa, podendo estimular outros países a sair também deste acordo de luta global contra as mudanças que estão aumentando a temperatura do planeta, em 1,5 ° C acima dos níveis de antes da Revolução Industrial. 

Houve, também, o anúncio da saída dos Estados Unidos, pelo governo Trump, da OMS (Organização Mundial da Saúde), a agência de saúde pública das Nações Unidas, pois, segundo o presidente, a OMS “continua a exigir pagamentos injustamente onerosos” ao país. A ordem executiva assinada por Trump menciona ainda a má gestão da pandemia pela organização, além da falta de independência desta em relação a seus países-membros. 

O problema remete a uma saída formal que já ocorrera no primeiro mandato de Trump, em julho de 2020, no meio da pandemia de Covid-19, em que houve congelamento dos repasses à OMS. Tal processo foi revertido pelo governo Biden, em seguida. E esta nova decisão de Trump de sair da OMS, por sua vez, responde à pressão de grupos internos dos Estados Unidos, com relação à pandemia, críticos das ações da OMS neste contexto, e que se trata de um grupo negacionista da ciência, antivacina.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) foi fundada em 1948, como uma agência especializada em saúde subordinada à Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Genebra, na Suíça. A organização tem papel no combate a doenças transmissíveis, como gripe e HIV, e doenças não transmissíveis, como câncer e doenças do coração. E ainda atua em ações de vigilância e prevenção. 

A OMS faz parte do conjunto de organismos multilaterais da ONU, em que ocorre uma transferência de poder dos países-membros para estas organizações. O fato é que somente no Conselho de Segurança tal concessão de poder se efetiva de modo mais evidente, pois nos outros organismos se tem uma dependência de consenso entre os países-membros, o que, no caso da OMS, em seu enfrentamento da pandemia da Covid-19, esta demonstrou uma capacidade relativa de inserção, de emitir ordens.

Diante da falta de força política desses organismos multilaterais, a saída dos Estados Unidos da OMS deixa um vácuo que será ocupado pela China, pois esta avançou em seu domínio tecnológico na área da saúde nos últimos anos, sobretudo na produção massiva de vacinas sob a demanda de combate da pandemia de Covid-19. Por conseguinte, os chineses já se caracterizam por grandes avanços técnicos e econômicos, e isso também resulta em maior influência política no nível mundial. 

Por fim, os cortes no financiamento dos programas da OMS pelos Estados Unidos atingirá, sobretudo, as ações da organização em países emergentes, pois o país é o maior doador individual da OMS, o que irá também prejudicar o desenvolvimento de pesquisas científicas, pois será cortado o contato dos centros de controle e prevenção de doenças que ficam nos Estados Unidos com a OMS. Esta saída dos Estados Unidos da OMS representa mais um desmonte no sistema internacional erguido após o fim da Segunda Guerra Mundial. O impacto é grande, pois o país norte-americano está na vanguarda da pesquisa científica ligada à medicina.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/tarifaco-e-crise-da-globalizacao/

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

PRISÃO DOMICILIAR DE BOLSONARO

“E o chumbo trocado continua”


Neste último dia 4, após a divulgação de uma vídeo-chamada e de um vídeo em redes sociais em que aparecia Jair Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), decretou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. O ministro alegou que o ex-presidente descumpriu reiteradamente as medidas cautelares, no que manteve as medidas de proibição de contato com embaixadores e de se aproximar de embaixadas, bem como o uso de redes sociais. 

Deste modo, em caso de descumprimento das regras da prisão domiciliar ou de qualquer das medidas cautelares, se terá a revogação destas regras e medidas e a decretação imediata de prisão preventiva do ex-presidente. Concomitantemente, a PF (Polícia Federal) cumpriu busca e apreensão na casa de Jair Bolsonaro, com a apreensão de seu celular. Além disso, o ex-presidente está proibido de receber visitas sem autorização prévia do Supremo.

A motivação da decretação da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro foi devido, portanto, a dois vídeos que foram divulgados no domingo dia 03 de agosto. Segundo Moraes, houve desrespeito das medidas cautelares com a produção de imagens, ligações de vídeo e a divulgação de seu apoio às manifestações que ocorriam em Copacabana, de modo massivo. 

Moraes ainda reiterou que “O flagrante desrespeito às medidas cautelares foi tão óbvio que, repita-se, o próprio filho do réu, o Senador Flávio Nantes Bolsonaro, decidiu remover a postagem realizada em seu perfil, na rede social Instagram, com a finalidade de omitir a transgressão legal”, se referindo ao vídeo que Flávio publicou, em que Bolsonaro dizia “Boa tarde, Copacabana. Boa tarde, meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos”.

O outro vídeo feito pelo ex-presidente foi compartilhado por Nikolas Ferreira durante a manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo. Em que o deputado afirmou que Bolsonaro não podia falar, mas podia ver. Neste dia Nikolas também criticou a atuação do Supremo, dizendo que esta não está acima do Brasil. 

Tal interação de Bolsonaro com o público se deu através de ligação telefônica com chamada por vídeo, em que Moraes entendeu como mais um desrespeito às medidas cautelares, pois estas comunicações por telefone e pelas redes sociais foram utilizadas para propagação de ataques ao Supremo, insuflando manifestantes na pressão e coação da Corte.

Tais medidas, indo do uso de tornozeleira eletrônica e agora à prisão domiciliar, entra num contexto do país em que juízes do STF estão em vias de avaliar a condenação de um grupo que planejava um golpe militar no final de 2022. 

Lembrando que promotores brasileiros acusam Bolsonaro de liderar uma organização que planejava anular o resultado eleitoral, dar um golpe militar, e muito além disso, assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Tal plano de atentado foi admitido recentemente em depoimento do general da reserva Mário Fernandes, ao dizer que tal plano se tratava de um “pensamento digitalizado”, se tratando do famigerado plano batizado de “Punhal Verde Amarelo”. Título que, por sua vez, faz alusão à “A Noite das Facas Longas”, que em alemão se escreve Nacht der langen Messer.

Esta chamada Noite das Facas Longas se trata nada mais do que um expurgo político ocorrido na Alemanha Nazista, entre 30 de junho e 2 de julho de 1934, em que foi ordenado por Adolf Hitler a execução de membros de seu próprio partido, consideradas ameaças ao seu governo, incluindo líderes da SA (Sturmabteilung). Ou seja, mais uma dessas associações obscuras da extrema direita atual com uma forma cifrada de supremacismo e neonazismo.

Tal fetiche já tinha aparecido no caso da demissão do então Secretário da Cultura de Bolsonaro, Roberto Alvim, dramaturgo que trocara a cocaína pelo catolicismo, ao imitar fala do nazista Goebbels, em que copiou trechos do discurso do ministro da Propaganda de Hitler, num vídeo com a ópera Lohengrin, de Richard Wagner, como música de fundo, em pronunciamento que foi para as redes sociais, num plágio de trechos de um discurso do ministro nazista.

Portanto, ao som de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler, o então secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, disse o seguinte “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa [...] ou então não será nada”. 

Ao passo que Goebbels havia dito: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferrenhamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa (...) ou então não será nada”. Tal mistura de pastiche com infâmia resultou na demissão do então secretário.

Por sua vez, tivemos também o caso do ex-assessor de assuntos internacionais do ex-presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, que acabou condenado pela Justiça pelo gesto alusivo à supremacia branca feito durante uma sessão do Senado, em 2021. O que se chama de apito de cachorro, que inclui coisas como beber leite puro e outros sinais imagéticos. 

E, em meio a este histórico de viés neonazista, este documento intitulado “Punhal Verde Amarelo” é de autoria de Fernandes. O general da reserva, por conseguinte, se encontra preso desde novembro do ano passado e tentou minimizar a importância do documento, como se fosse mero fruto de sua visão militar, e que nunca foi compartilhado com outras pessoas. 

Durante o interrogatório no STF (Supremo Tribunal Federal), Fernandes disse que "É um arquivo digital que nada mais retrata do que um pensamento meu que foi digitalizado. Um compilar de dados, um estudo de situação meu, de pensamento... Uma análise de risco que eu fiz e, por um costume próprio, resolvi inadvertidamente digitalizar", afirmou o ex-número 2 da Secretaria-Geral da Presidência no governo de Jair Bolsonaro, homem de confiança do então presidente.

De acordo com o general, o documento foi impresso por ele para "para não forçar a vista" com telas e "logo depois" o rasgou. Ele foi um dos réus ouvidos no interrogatório do STF dos chamados núcleos 2 e 4 de acusados por tentativa de golpe após a derrota de Bolsonaro para Lula nas eleições de 2022. 

O núcleo 2 estaria encarregado de direcionar as forças policiais e produzir minutas golpistas. O núcleo 1, do qual Bolsonaro faz parte, por sua vez, já teve interrogatórios realizados e aguarda a fase das alegações finais, para começar o julgamento final, previsto para fins de agosto e início de setembro. 

E é dentro de todo este contexto que temos agora as tentativas de intervenção de Trump em favor do ex-presidente, com a questão do tarifaço, e que, mesmo com algumas mudanças e recuos,  está em vigor, atingindo muitas áreas da agricultura, da indústria e do comércio brasileiro, na produção de mercadorias do país para os Estados Unidos.

A intervenção trumpista, por sua vez, se funda em uma interpretação mais enviesada que açodada da situação brasileira, feita pelo presidente norte-americano, pois, na verdade, esta é uma forma de pressão sobre o Brasil para recuar nas relações e resoluções feitas no Brics, por exemplo. 

O interesse diplomático internacional sempre é nacional, ao fim e ao cabo, ainda mais em se tratando dos Estados Unidos. Pois, se trata de uma nação cuja característica mais marcante é sua cultura autocentrada, e que ganhou autoconfiança através de sua indústria cultural hegemônica. 

Pois, mesmo que Trump não faça sequer uma vaga ideia do que se passa no Brasil, a hipocrisia da real politik norte-americana segue esta sua tradição, com o pano de fundo de sempre, da excepcionalidade dos Estados Unidos desde a publicação de seu Destino Manifesto em seu nascimento como nação. 

E agora, além do argumento deslocado de caça às bruxas feito por Trump, em relação ao processo contra Jair Bolsonaro, culminanndo no anúncio do tarifaço, temos os efeitos da Lei Magnitsky sobre o ministro Moraes, com sanções que se fundamentam na acusação de que o ministro estaria censurando setores conservadores de direita na internet. E o chumbo trocado continua, portanto, com esta decretação de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, por parte do ministro do Supremo. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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terça-feira, 5 de agosto de 2025

PRAIEIRA

Do sol esta praia se estende maravilha.

O poema, que nem sol, vai ao mundo,

e sorri toda a messe de mar, deste plano

de paisagem corpo e alma,

a sã sadia manhã, aurora

que vem, do dia nascente.


Ela joga, e toda alta, vem toda

de jogo em sua vista, de uma 

pele queimada de sol,

diante do mar que oferece

o seu sal.


Tem sempre que estar neste

caudaloso verso de mar,

este poema que faz praia.


Hora, tarde, noite,

de lua e sol estrelado,

que desponta matutino

de todo céu de nuvem

na areia do tempo.


05/08/2025 Vibe (Gustavo Bastos) 

VESÂNIA

O nervo estava seco, o cérebro reduzido, toda a carga

que salta para fora da vista, num ponto cosmológico

em devaneio, o desatino desta letra suja, que

emana seus eflúvios e miasmas como seus

vícios em torpeza e torpor.


Assim é o verso apedeuta dos dias de fúria.

E toda a astúcia serve ao poema como

seu esqueleto, sua vértebra, seu câncer.


Eis toda esta arte de vinho e sangue

que desce feito rio nas linhas traçadas

desta vista de névoa, deste moinho

de vento delirante, este parque

alucinatório, a vesânia de que

a poesia e o poeta um dia

já viram, na impressão

estourada da paixão.


05/08/2025 Monster (Gustavo Bastos) 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

FALÁCIA NORTE-AMERICANA

“O Pix representa um sistema de pagamentos inovador”


A partir do anúncio, pelo governo norte-americano, da abertura de uma investigação comercial contra o Brasil, com foco sobretudo em supostas irregularidades no Pix, bem sucedido sistema de pagamentos do país, logo se percebeu que se tratava de um pretexto para defesa dos interesses das big techs dos Estados Unidos. A medida do governo Trump, por sua vez, foi anunciada pelo USRT, sigla em inglês que se traduz por Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, em que se alega que o Pix estaria prejudicando empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos.

Tal medida vem junto ao pacote do tarifaço, que se fia na falácia de caça às bruxas, levantada por Trump, em relação à possível condenação penal de Jair Bolsonaro no Brasil, o qual já se encontra inelegível. Ainda se soma a isso o argumento, que beira a bufonaria, de que a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos teria um suposto déficit contra os norte-americanos. 

O Pix foi desenvolvido durante a gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB) e foi lançado em 2020, já no governo de Jair Bolsonaro. Atualmente, o sistema de pagamento possui mais de 170 milhões de usuários. Portanto, a grita norte-americana se trata de um movimento que se insere num contexto de competição tecnológica, em que os Estados Unidos sempre visa tirar do caminho qualquer tipo de tecnologia que não esteja sendo gerida dentro do país ou que esteja sob seu controle.

O Pix representa um sistema de pagamentos inovador e com grandes níveis de adesão no Brasil. A acusação de deslealdade é mais uma retórica enviesada, pois, na verdade, o problema vem acontecendo desde 2020, em que a Meta, do CEO Mark Zuckerberg, que é o antigo Facebook, se considera prejudicada em uma disputa entre a empresa e órgãos do governo brasileiro. 

No caso, a operação do WhatsApp Pay, que pertence à Meta, foi lançada em junho de 2020 no Brasil, o que permitiria pagamentos através do aplicativo, numa parceria com a empresa Cielo, numa época em que o país já tinha cerca de 120 milhões de usuários do WhatsApp. Entretanto, esta mesma operação foi suspensa pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por meio de medida cautelar. 

Neste caso, por conseguinte, o Cade avaliou que a Cielo já tinha uma participação vantajosa no mercado brasileiro de credenciamento de captura de transações, além de existir uma base de milhões de usuários do WhatsApp, o que daria um poder significativo para o sistema de pagamentos da Meta, dificultando a replicação do modelo por concorrentes da Cielo, pois havia um acordo de exclusividade entre a empresa e o WhatsApp. 

Para piorar a situação da Meta, em novembro daquele ano, o Banco Central lançou o Pix. Por fim, quando o Cade reverteu a decisão de suspensão do WhatsApp Pay, autorizando o seu lançamento no Brasil, o serviço não conseguiu adesão da população. Tal contexto reafirma o fato de que estas empresas de mobile commerce que tentaram monetizar suas mídias sociais não deram certo aqui no país.

Por sua vez, o argumento do governo norte-americano em relação ao Pix não se fundamenta, também, pelo fato de que quem utiliza este serviço no Brasil compõe as classes C e D, sendo que muitos são desbancarizados e abriram contas em bancos digitais, o que implica no crescimento de empresas como Nubank, PicPay e Mercado Pago, sem qualquer concorrência, por parte do Pix, com empresas como PayPal, Google Pay ou Apple Pay.

Mesmo que possa haver impacto em empresas como Visa ou Mastercard, com o Píx superando o uso de cartões de débito e de crédito no Brasil, a questão é política, envolvendo indivíduos específicos, que são CEOs de tecnologia associados ao cofundador do PayPal, Peter Thiel. Tais figuras, por sua vez, exercem influência enorme e possuem aliados que ocupam cargos-chave no governo Trump, incluindo o vice-presidente J D Vance. 

As big techs, portanto, tentam justificar suas dificuldades por uma concorrência desleal quando, na verdade, estas empresas devem se adaptar ao mercado brasileiro como ele está constituído no momento, em que se tem um sistema bancário e de fintechs bem estabelecido, entregando qualidade para uma população sem renda, num contexto histórico de altos índices de inadimplência, e ainda assim, gerando receita e oferecendo outros tipos de serviço. 

A questão política, por sua vez, vai além e se estende a medidas de retaliação a países do Brics que discutiram alternativas ao dólar nas transações comerciais, no intuito de valorização de outras moedas. Neste debate, cogitou-se sobre o Pix como um candidato potencial para ser base de pagamentos internacional, além de ter sido tematizado, ainda, reformas no FMI (Fundo Monetário Internacional). Contudo, o sistema internacional de pagamentos possui instituições consolidadas, em que é usado o Swift, uma plataforma criada na década de 1970.

No momento, a ameaça do Pix ainda é pequena, se tratando de uma reação, por parte do governo norte-americano, de negociação preventiva. Por fim, temos um grande grupo de lobby financiado pelas Big Techs dos Estados Unidos, que tem como membros a Meta, além da Apple, Google, Microsoft, Amazon, Pinterest, Uber e E-Bay, se relacionando, por conseguinte, com as ameaças do governo Trump de investigação das práticas comerciais do Brasil, junto a medidas de aumento de tarifas de importação sobre os produtos brasileiros. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/falacia-norte-americana/