PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A REPÚBLICA CONTRA OS BANANAS

 “o chauvinismo bolsonarista entra em curto-circuito”


Esta reviravolta política recente no panorama brasileiro se deveu, inicialmente, à ida de Eduardo Bolsonaro, deputado federal licenciado do PL, aos Estados Unidos, na tentativa de pressionar pela anistia de seu pai, já condenado como inelegível pelo TSE e, agora, em vias de ser condenado penalmente, com as alegações finais da PGR (Procuradoria Geral da República). 

Tal movimento, junto com o jornalista Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente militar João Figueiredo, além de pleitear a anistia de Bolsonaro e seus próceres, tenta ainda atingir o ministro do STF, Alexandre de Moraes, com apelos de Eduardo Bolsonaro a Trump e o secretário Rubio por um dispositivo chamado Lei de Magnitsky Global, que pode aplicar sanções como a revogação ou negação de vistos para entrada nos Estados Unidos, além do bloqueio de contas bancárias e transações comerciais.

Agora, o Bananinha desembarca em Washington, tentando dobrar a aposta, em busca de novas sanções do governo de Donald Trump, para viabilizar a anistia de Jair Bolsonaro. Como se sabe, um dos resultados deste pleito internacional foi este tarifaço de 50% de Trump sobre produtos brasileiros que são exportados para os Estados Unidos. Tal medida levou agora às reuniões de Alckmin, tanto com industriais como com o agronegócio, para pressionar o governo dos Estados Unidos, e se possível, junto ao empresariado norte-americano, também prejudicado pela previsão de tais tarifas, por um acordo.

Outro efeito, junto a este tarifaço, foi um discurso disparatado de Donald Trump sobre caça às bruxas, supondo uma perseguição política contra Jair Bolsonaro, como se episódios como o de 8 de janeiro e as outras articulações golpistas que agora estão em fase final de processo de condenação dos envolvidos no Brasil, se tratasse, na verdade, de um viés conspiratório do atual Executivo e de ritos autoritários de um lawfare brasileiro, uma ditadura de toga, em que um líder nacionalista teria sido tomado por alvo. 

Contudo, o tiro saiu pela culatra dentro do Brasil, pois o governo Lula, que se encontrava numa saraivada de críticas na azáfama em torno do IOF, ganha sobrevida ao tomar para si a perspectiva de resistência contra uma ingerência estrangeira, em que todo o chauvinismo bolsonarista entra em curto-circuito, pela sua já conhecida subserviência bovina e até de sabujice diante da figura de Donald Trump.

Tal postura de lacaios agora se aprofunda num tarifaço “anti-patriótico”, detonando uma crise até com empresários milionários que aderiram a todas as sanhas bolsonaristas, mas agora se veem atingidos diretamente pela trama diplomática do Bananinha. E,no meio deste imbróglio, foram registradas manobras patéticas, como a de Tarcísio de Freitas, que, de trumpista açodado, logo correu para apagar o incêndio com o empresariado paulista.

O tarifaço favorece Lula e coloca Bolsonaro em uma posição contraditória. A direita ainda tenta responsabilizar a esquerda por tal medida de Trump, se fiando no discurso surrado de que a articulação do BRICS, além de um anti-trumpismo do governo, seriam os responsáveis diretos pelo tarifaço. Este viés da direita logo desmorona quando se tem evidente e à luz do dia o ataque à soberania nacional, em meio de estultices e tiques de viralatice da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, que aprovou uma moção de louvor a Trump. Por fim, toda esta encenação aproxima o Executivo e o STF, renovando o republicanismo em face de um problema comum. 

Por sua vez, nas suas alegações finais, a Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais sete réus na ação penal que analisa se houve uma tentativa de golpe de Estado. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao falar sobre Bolsonaro, afirma que "as evidências são claras: o réu agiu de forma sistemática, ao longo de seu mandato e após sua derrota nas urnas, para incitar a insurreição e a desestabilização do Estado Democrático de Direito".

"As ações de Jair Messias Bolsonaro não se limitaram a uma postura passiva de resistência à derrota, mas configuraram uma articulação consciente para gerar um ambiente propício à violência e ao golpe. O controle da máquina pública, a instrumentalização de recursos do Estado e a manipulação de suas funções foram usados para fomentar a radicalização e a ruptura da ordem democrática", diz o PGR.

E Gonet continua : "as evidências revelam que o ex-Presidente foi o principal coordenador da disseminação de notícias falsas e ataques às instituições, utilizando a estrutura do governo para promover a subversão da ordem". E conclui: "portanto, cabe a responsabilização do réu pelos crimes descritos na denúncia”.

Não há, na verdade, qualquer possibilidade de uma anistia, seja dentro do Brasil, e muito menos por vias de uma ingerência trumpista através de pressões de uma guerra comercial. A fantasia de pretensos exilados nos Estados Unidos é nada mais que um viés infantilizado de meninos mimados, que se voltarem ao Brasil, estarão correndo riscos de condenação judicial, e ao fim, o que acontece e irá seguir é a fuga destes poltrões e quiçá do ex-presidente, que já pode vislumbrar um abrigo na embaixada norte-americana, caso o caldo entorne. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com 


quinta-feira, 3 de julho de 2025

O TELEGRAM E A PRISÃO DE DUROV - FINAL

 “Telegram enfrentou problemas de bloqueio e possível banimento”


O Telegram teve seus principais problemas em países europeus e na China. Sendo que, no Reino Unido, a plataforma foi usada na organização de protestos anti-imigração, depois que três meninas morreram no norte da Inglaterra. Canais do aplicativo foram utilizados por extremistas para propagação de ódio contra muçulmanos e o compartilhamento de informações sobre alvos de ataques. 

O Reino Unido considera agora o uso da Lei de Segurança Online, visando restringir o acesso a aplicativos de mensagens privadas, mas o Telegram ainda não foi proibido. O governo tem a intenção de agir contra plataformas que estimulam agitações políticas extremistas, contudo, o Telegram continua funcionando no país. 

Na Espanha, por sua vez, um juiz do país baniu temporariamente o Telegram, depois de reclamações sobre divulgação sem permissão de conteúdos protegidos por direitos autorais. Após solicitar informações sobre o caso e não receber respostas da plataforma, este juiz ordenou o bloqueio da mesma. A decisão acabou revertida depois de críticas sobre o possível impacto desta sobre milhões de usuários.

A Alemanha cogitou banir o Telegram diante da descoberta de dezenas de canais que possivelmente violavam leis do país contra discursos de ódio e no meio deles existiam canais antissemitas. Por fim, a plataforma acabou multada em 5 milhões de euros por descumprimento da legislação, sendo que esta afirmou que iria cooperar na remoção de conteúdos ilegais.

Na Ucrânia, após a invasão russa, o Telegram se tornou o principal meio de comunicação do país, sendo usado nas linhas de frente dos campos de batalha e pelo próprio presidente Zelensky. Por outro lado, a plataforma é usada por russos para disseminar desinformação. O banimento do Telegram, então, entrou na pauta ucraniana, a não ser que a empresa abrisse um escritório no país e removesse conteúdos nocivos. Por fim, O Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia restringiu o uso da plataforma em dispositivos oficiais após receber evidências de que o serviço especial russo poderia espionar as mensagens e os usuários.

Por sua vez, na China, o Telegram está bloqueado desde 2015. A censura da plataforma no país teve como causa, segundo alguns relatos, um ataque de negação de serviço distribuído (DDoS) sobre a mesma. Outros dizem, no entanto, que o bloqueio do aplicativo foi para barrar críticas contra o governo e o Partido Comunista Chinês. Portanto, o Telegram enfrentou problemas de bloqueio e possível banimento diversas vezes e em diferentes países, muito se devendo ao fato de que o algoritmo da plataforma faz recomendações tóxicas.

Como foi dito, no aplicativo temos a presença de grupos antissemitas e supremacistas, fraudes, pedofilia, terrorismo e tráfico de drogas e de armas. Quando se faz uma busca por “Donald Trump”, por exemplo, segundo demonstração da pesquisadora-chefe do SPLC, Megan Squire, se chega logo a indicações de canais promovendo o Q-Anon. Isso faz parte de uma investigação de 28 mil canais no aplicativo para o relatório chamado “As Recomendações Tóxicas do Telegram”.

Foi feita, ainda, outra pesquisa de busca sobre revoltas no Reino Unido que levaram a sugestões de canais de grupos violentos de extrema direita. O Telegram, mais uma vez, relatou que suas equipes de moderação, além de sua ferramenta de inteligência artificial, removem milhões de conteúdos considerados ilegais ou tóxicos diariamente. Sendo que o usuário só recebe pelos conteúdos que assina, uma vez que a plataforma não faria promoção de conteúdo.

Em 2020, por sua vez, o negacionismo científico, durante a Covid-19, tomou como plataforma principal o Telegram, uma vez que o Parler, apesar de ser, até então, o aplicativo preferido da extrema direita, ficou, por um tempo, fechado. Com o protagonismo do Telegram na presença de usuários de extrema direita na pandemia, a plataforma se tornou um foco de campanhas de desinformação e fake news, sobretudo de cunho negacionista da ciência.

O caráter de sigilo da informação propagado pela administração da plataforma, por sua vez, sendo então o Telegram conhecido por sua segurança de dados, no entanto, não se configura desta forma na prática, tal como imagina a maioria de seus usuários. Na verdade, no quesito confidencialidade de conteúdo, a plataforma está atrás de outras semelhantes.

O Telegram, para deixar claro, não possui a propalada criptografia ponto-a-ponto. Tal criptografia existe, de fato, nos aplicativos WhatsApp e Signal, em que os dados são mantidos encriptados entre emissor e receptor, sem a participação de um terceiro. No caso do Telegram, entretanto, a criptografia se dá entre o emissor e o servidor e daí entre o servidor e o receptor. E o problema reside na falta de clareza da comunicação do Telegram sobre isso, pois a mensagem, ao chegar no servidor, é desencriptada, e aparece no formato de texto.

Embora seja possível mudar a configuração para permitir a criptografia ponto-a-ponto no Telegram, não é algo fácil de fazer, e não funciona para todos os tipos de chats. Acabe que quase tudo que é escrito na plataforma é armazenado em seus servidores, com acesso de Durov e de sua equipe a este conteúdo, o que coloca o Telegram, na verdade, como um aplicativo bem vulnerável em termos de privacidade. Outro agravante é o fato de se ignorar onde tais servidores estão localizados, uma vez que o Telegram não divulga esta informação.

Outra dificuldade é que o Telegram não foi fundado nos Estados Unidos, como a maioria dos outros aplicativos de mensagens, sendo administrada por Durov, um russo que deixou seu país para evitar pressão do governo e que, a partir daí, mudou a sede da empresa por diversas vezes, passando por Berlim, Londres e Singapura, até finalmente se instalar em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. 

Tais mudanças podem implicar um modo de evitar os agentes da lei. Por sua vez, a sede em Dubai dá credibilidade a Durov em relação aos usuários da plataforma, pois denota a independência da empresa de influências dos poderes estatais, uma vez que, por exemplo, o CEO não pode ser tão facilmente perseguido por autoridades alemãs e norte-americanas. Por outro lado, o fato da administração do Telegram ser inacessível prejudica os usuários, pois caso alguém seja vítima de um  golpe dentro da plataforma, por exemplo, não tem a quem recorrer. Tal distância, por fim, só beneficia os usuários criminosos, pois, caso alguma autoridade tente identificá-los, terão dificuldades de acesso a informações para fazer isso.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com 


terça-feira, 1 de julho de 2025

POEMA AMERICANO

A taça já foi levantada, de Miami a Los Angeles,

por Seattle ou Charlotte, uma copa e uma bola,

um passo a outro lugar, e novo horizonte,

e o mundo no campo, na defesa e no ataque.


Cada sonho um sonho, e que se realiza ao vivo,

no instante da resenha, no canto do poema.


E então comemora, com a cara no vento,

tua vida, na cara do gol, pois aqui tem

de Bárbara a milhão, e o povaréu

que bebe suas vitórias e derrotas.


E como tem sol e chuva

nesta Terra de Tio Sam!

E a água na grama, e o dia

anunciando a América.


The best way of life!

Because in Brazil 

we used to play soccer.

Nice. So we are champions

on football.


01/07/2025 Vibe (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 30 de junho de 2025

SUPERVIA

Verme das estepes, a rua entulhada, 

toda a xepa miserere com este 

urbanismo abismal.


A peste, os ídolos da noite suja,

em campanha estavam os ladrões,

toda a trupe, a chusma basbaque,

se empanturrando de birita, de carne,

de sobremesa, ao lado estes banguelas.


Os indigentes com erisipela, 

com difteria, protozoários na barriga, 

fumando crack, delirando de febre 

na beira do trem, como no terror 

do espanto e do macabro.


Começou o canto diabólico 

que o estulto entoava 

na alta madrugada diante 

da grande fogueira, em meio

à terra arrasada, e o vagão

que passava com seu estalo

de carroça enferrujada.


30/06/2025 Monster (Gustavo Bastos) 

TRANSE NOTURNO

Estes rios passando ao longe, este jardim florido,

que a varanda toda ruma em fruteira e rede balançando.

De noite se toca o violão, o vinho aquece o peito,

de todo ardor e do gozo vem poesia, e toda esta

estrela pousa na vinda constelação de abóbada.


Ergui o castelo e a torre, no canto do mais altiplano,

por toda nuvem de toda chuva, a verve tonitruante

borra a pintura, e toda esta borrasca vem como

alavanca, tal é o sopro, e o tremor da terra.


Terra ignota, o incógnito ser de toda bússola,

em teu mistério adormece, como em idílio

pincelado, pois os poemas estão em transe

na noite estrela estrela.


30/06/2025 Estrela Estrela (Gustavo Bastos)

POEIRA CÓSMICA

Mira esta estrela, o sétimo céu que a leva,

este estandarte, ao páramo constelado,

debalde os reis, os fanfarrões, os idiotas,

todo este poema vigora, esteta do clã,

espiralado, tribal, em uma horda primal.


Canto vívido, esta estrela ponta de lança,

ao poema mais que sol, ao poema toda lua,

e tua estrela cantante, no sonido bruma,

espumante, todo vinho bebendo vento,

da estrela mártir, embriagada de galáxia.


30/06/2025 Estrela Estrela (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O TELEGRAM E A PRISÃO DE DUROV - PARTE 2

 “autoridades legais responsabilizaram pessoalmente Durov pelos problemas do Telegram”


Depois que o governo russo tentou banir o Telegram em 2018, em face da recusa de Durov de fornecer a descriptografia para os serviços de segurança do país, ao passo que este tentou desafiar esta exclusão, ao invés de um conflito sem volta, o banimento do aplicativo acabou suspenso em 2020. E a situação virou ao se ver hoje que o Telegram é uma das poucas plataformas estrangeiras (sua sede fica em Dubai, nos Emirados Árabes) que opera livremente na Rússia e, mais ainda, sem ter feito qualquer concessão ao Kremlin, apesar de Durov afirmar que deixou o país depois da briga de 2010.

Com esta prisão recente de Durov, por sua vez, o Kremlin trabalhou rapidamente em nome do CEO, com a Embaixada da Rússia em Paris indo atrás de soluções. Esta detenção de Durov na França que foi motivada, por conseguinte, pela falta de moderação de conteúdo da plataforma Telegram, com questões que perturbavam outros governos ocidentais, como lavagem de dinheiro, pedofilia e tráfico de drogas e de pessoas. O Telegram, por sua vez, alegou que seria absurdo que a plataforma ou seu proprietário fossem responsabilizados pelos abusos de usuários e disse que obedece às leis da UE (União Europeia) e que Durov não tinha nada a esconder.

O debate sobre a relação do executivo de tecnologia e o comportamento dos usuários da plataforma de mensagens, então, foi inciada no momento em que as autoridades legais responsabilizaram pessoalmente Durov pelos problemas do Telegram, como a cumplicidade de sua gestão com transações ilegais dentro do aplicativo, permitindo a distribuição de material de abuso sexual infantil, tráfico de drogas, fraude e, por fim, a recusa de colaboração do CEO com a aplicação da lei.

Na França a situação se agravou devido ao Telegram se destacar em vários casos de crimes no país, os quais envolviam abuso sexual infantil, crimes de ódio na internet e tráfico de drogas, com a ausência da gestão da plataforma para respostas aos pedidos de cooperação por parte de promotores. Tal problema foi relatado tanto pelos promotores franceses como por autoridades legais da Bélgica e de outros países da Europa. Diante desta ausência de respostas, se abriu uma investigação sobre a responsabilidade criminal dos executivos do Telegram, com a prisão de Durov se tornando foco de um debate sobre a liberdade de expressão na internet.

Durov tem cidadania na França e nos Emirados Árabes, segundo informação do Telegram. A plataforma entrou nas investigações das autoridades a partir do conhecimento de comunicações feitas nesta por traficantes de drogas e de armas, organizações terroristas, grupos de extrema direita com discursos de ódio, implicando em recrutamento de pessoas para várias destas atividades. 

Especificamente, o Telegram passou a funcionar como um tipo de loja com todo tipo de mercadoria ilegal, tais como cartões de crédtio clonado para venda, incluindo vídeos em que criminosos drenam caixas eletrônicos usando cartões falsos e mostram maços de dinheiro, vendas de bolinhos e cookies de maconha, além de vapes ilegais, e no quesito drogas, tudo quanto é substância, com canais no Telegram para venda, e também venda de armas e medicamentos restritos sem prescrição, tendo vouchers e cartões-presente falsos para AirBnB, Marriott Hotels, Amazon, Apple, Walmart etc. Por fim, ainda tem venda de tutoriais para hackers, malwares, passaportes roubados etc.

Foi a partir destes canais de vendas de artigos ilegais que o Telegram virou uma espécie de dark web de bolso, nomenclatura que vem da dark web que dependia de uso de softwares específicos para o seu acesso e um conhecimento técnico para seu uso, no que tivemos dentro desta web oculta plataformas como a Silk Road, em 2011, dando seguimento a uma série de sites com vendas de mercadorias e serviços ilegais. Por sua vez, com a facilidade de manuseio e acesso do Telegram, este se tornou popular pára criminosos atraírem clientes. 

A dark web tem a vantagem de manter o anonimato dos usuários, pois seu tráfego de internet é redirecionado pelo mundo, ocultando a localização destas pessoas e dificultando a identificação de quem está por trás dos nomes de usuários. Por sua vez, o Telegram, por ser mais fácil de usar, se tornou popular para criminosos cibernéticos menos habilidosos e com menor conhecimento de informática.

O Telegram, apesar de afirmar que sua moderação está nos padrões de outras plataformas, não é membro do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC), dos EUA, nem da Internet Watch Foundation (IWF), que trabalham na remoção desses materiais criminosos na internet. O aplicativo é acusado de não combater o material de abuso sexual infantil e esta foi umas das acusações principais dos promotores franceses.

Dentre outros problemas apontados também está no fato do Telegram ter virado o principal foco de atividade online do Estado Islâmico já por uma década. Em relação aos recursos de privacidade o argumento usado é o de que tais aplicativos, e aí incluindo também WhatsApp e Signal, por exemplo, não possuem dados para repassar para as autoridades. O Telegram usa a chamada criptografia de ponta a ponta, contudo, tal função não é configurada como padrão na plataforma, e os canais ilícitos que atuam nesta nem sempre estão configurados como secretos.

A organização de direitos digitais Access Now afirma que está acompanhando os acontecimentos, e mesmo sendo um grupo que defende uma "internet livre" disse que o Telegram "não é um modelo de responsabilidade corporativa". No entanto, a Access Now alerta que "a detenção de funcionários de plataformas que as pessoas usam para exercer seus direitos à liberdade de expressão e de reunião pacífica, sem uma demonstrável conformidade com os princípios dos direitos humanos, pode resultar em censura excessiva e pode reduzir ainda mais os espaços cívicos".

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-telegram-e-a-prisao-de-durov-ii/