PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

RACISMO E ANTIRRACISMO – PARTE II

 “O racismo estrutural, tese de Silvio Almeida, tem mais uma prova material com o caso de Beto”

O caso João Alberto Silveira Freitas envolve uma coincidência trágica, pois foi o assassinato de um homem negro por dois seguranças brancos na noite anterior à comemoração do dia da Consciência Negra. João Alberto, o Beto, foi espancado até a morte por um policial militar e por um segurança em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na noite desta quinta-feira, dia 19 de novembro de 2020.

As agressões começaram após uma discussão entre Beto e uma funcionária do Carrefour, e os seguranças o seguiram e o conduziram para fora da loja, quando Beto desferiu um soco em um dos seguranças, ocasionando a reação desproporcional que culminou em seu assassinato por asfixia.

Os dois agressores, Magno Borges Braz e Giovane Gaspar da Silva, foram presos em flagrante e são investigados por homicídio qualificado. Segundo a polícia, os seguranças ficaram sobre Beto por cerca de 5 minutos. Agora, corre uma gravação obtida pelo site GauchaZH, que mostra um terceiro homem que diz "Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez", enquanto João é imobilizado. A funcionária que tenta impedir a gravação do flagrante se chama Adriana Alves Dutra.

O Grupo Vector, ao qual pertenciam os seguranças, teve seu contrato rompido pelo Carrefour. A empresa francesa disse que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, a delegada responsável pelo caso, Roberta Bertoldo, disse que a reação dos seguranças foi desproporcional. Os investigadores seguem ouvindo várias testemunhas e analisando imagens de câmeras de segurança.

O Carrefour, embora agora se manifeste dizendo que fará rigorosa apuração interna do caso e que "nenhum tipo de violência e intolerância é admissível", possui um histórico terrível de diversas formas de violência, sendo o mais recente em agosto deste ano, que foi o caso de um promotor de vendas do Carrefour que morreu durante o trabalho em uma unidade de Recife, Pernambuco.

Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas, enquanto a loja seguiu funcionando como se nada tivesse acontecido. Seu corpo permaneceu no local entre 8h e 12h, até ser retirado pelo Instituto Médico Legal (IML). Outros casos de racismo, violações trabalhistas e agressões contra animais também são episódios ligados ao supermercado.

Vários protestos foram registrados em todo o país, sobretudo do movimento negro, no influxo do dia da Consciência Negra, e vão continuar, tivemos manifestações na avenida Paulista, no Rio de Janeiro, em Goiânia, e a mobilização se estende pelas capitais do país.

O caso e as manifestações levantam debates e ações antirracistas, trazendo à baila o racismo estrutural tematizado academicamente por Silvio Almeida, e com o governo federal tendo uma postura negacionista. Tanto o presidente da República, Jair Bolsonaro, como o vice, Hamilton Mourão, tiveram posturas negacionistas, e o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, disse que os casos de racismo no país são circunstanciais e não estruturais, tomando o efeito pela causa.

Num país de abolição tardia, feita sem respaldo social aos novos libertos, com casos de injúria racial recorrentes, com diferenças enormes de oportunidades, com sistemas de cotas muito bem-vindas, mas que nem todos os negros e negras do Brasil têm condições de aproveitar, dependendo de suas condições de partida e mobilidade social, o racismo estrutural é uma realidade incontestável.

As políticas públicas, produtos de uma má vontade institucional, não avançam no combate a estas desigualdades. As poucas formas de promover a mobilidade social da população negra, a concentração populacional negra nos grandes bolsões de pobreza de comunidades (favelas) dominadas por uma vida áspera de subjugação pela violência armada, seja de facções criminosas ou milícias armadas, escancara na nossa cara branca um problema secular, histórico, uma ferida aberta herdada de um país que um dia escravizou os antepassados desta população que hoje protesta nas ruas.

O Dia da Consciência Negra no Brasil não é o produto gratuito de uma circunstância, mas de um problema estrutural, a luta antirracista é uma consequência direta desta realidade persistente e acintosa de humilhação de homens negros e mulheres negras diante da falta de oportunidades, da realidade de injúrias raciais, de suspeitas açodadas de forças de segurança e quejandos, etc.

O racismo estrutural, tese de Silvio Almeida, tem mais uma prova material com o caso de Beto. O racismo no Brasil não é uma grande coleção de circunstâncias, mas um problema de fundo que deve e pode ser resolvido.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/racismo-e-antirracismo-parte-ii

 

 

 

domingo, 15 de novembro de 2020

AS MESAS GIRANTES

Jeannie Martal e Béatrice Gounod estavam em Paris, em 1853, e já se divertiam e estudavam há dois anos na cidade. Vindas de Marselha, elas conheciam um dono de bar e de um salão de festas, de nome Gérard Poquelin, um tipo de fanfarrão que dizia ser descendente familiar do comediógrafo Moliére.

Gérard tinha contato com um grupo místico de nome Nova Luz, e o líder do grupo era um tipo de ocultista meio arrogante e cheio de histórias de charlatanismo e problemas com a polícia de nome Jean-Baptiste Pappin, e que tinha a sua esposa, um tipo de metida a feiticeira de nome Louise Pappin.

Dentro deste grupo ainda tinha mais três pessoas que se destacavam, Alice Dumas, que se dizia médium, e Danna Sharon, também um tipo de médium, e a última, Anne Séraut, que era intitulada Papisa, pois dizia que tinha o dom da levitação quando entrava em seus transes mediúnicos.

Béatrice conversava muito com Gérard, que era vinte anos mais velho que ela e a tinha como um tipo de filha filosófica, e este lhe ensinava muita coisa sobre espiritualismo, sobre a Alquimia de Nicolas Flamel.

Gérard, ainda, misturava isto a uma miríade de mistificações e experiências que ele dizia ter tido em suas viagens à Índia, aonde dizia que presenciara fenômenos fantásticos de faquires levitando e encantamentos diversos de magia ancestral. Béatrice ficava fascinada e conversava depois com sua amiga de infância e companheira de estudos Jeannie.

O grupo Nova Luz, que tinha uma casa aonde se realizavam as reuniões espiritualistas, como dito, também frequentava o bar de Gérard, e já estava realizando estudos sobre fenômenos mediúnicos sobre o que estava sendo chamado em Paris de fenômeno das mesas girantes, que começou a tomar os salões da Europa desde 1849, até este ano de 1853, quando a prática se disseminava também em Paris, como um divertimento frívolo de adivinhação.

A Papisa, Anne Séraut, logo na semana seguinte à visita ao bar de Gérard pelo grupo Nova Luz, decide visitar um dos salões em que se faziam as experiências com as tais mesas girantes, e saiu radiante da noite em que teve conhecimento direto do que se passava, e queria aplicar aquilo nas reuniões do Nova Luz, uma vez que poderia conversar com Gérard, que já estava a par dos métodos e teorias que envolviam as tais mesas girantes, ele que era um ocultista autodidata, viajado e conhecedor dos segredos do Oriente.

Gérard, então, consultou a Papisa, depois de mais uma estadia desta em uma sessão de mesas girantes, para fazer a primeira experiência em seu salão de festas, e para isto poderia convocar a médium do Nova Luz, Danna Sharon, que invocaria os espíritos batedores e de ruídos para começar a produzir o fenômeno. Os três fariam testes prévios antes, e convocar a primeira sessão oficial. Danna Sharon dizia que tinha uma entidade que lhe acompanhava que saberia manipular os tais espíritos batedores e de ruídos.

Alice Dumas ficou sabendo do teste e consultou seu tabuleiro de ouija, e segundo a sua leitura, as sessões que se passariam no salão de Gérard seriam pioneiras para uma nova doutrina que estaria por vir, e que a Papisa ficaria rica ao prever situações com as decifrações feitas com as mesas girantes.

Alice só seria convocada como líder de uma sessão, a primeira oficial, depois desta verificação que a Papisa pretendia fazer com os poderes mediúnicos de Danna Sharon, que era uma médium muito forte e intensa, pois, embora a Papisa dissesse que levitava, era Danna Sharon que tinha o dom de transfiguração e de transporte de objetos, fazendo psicometria como uma arqueóloga psíquica. Danna gostava, também, de mostrar a sua coleção de talismãs mágicos, que ela dizia que materializava, e que tinham origem em tribos antigas e extintas.

Neste teste, em que a Papisa orientaria os trabalhos, enquanto Danna Sharon se concentraria para conversar com a sua entidade de guarda para poder fazer a invocação dos espíritos batedores e de ruídos, Gérard leria um tipo de livro sagrado, que nunca havia sido vendido comercialmente, que ele dizia que era uma das poucas cópias que existia, de um bruxo que ele conhecera na Bretanha, um tipo de mago celta que herdara alguns conhecimentos xamânicos dos druidas, o livro estava num tipo de inglês antiquado, uma tradução fajuta feita por um charlatão, na verdade, e que Gérard gostava de mistificar para se fazer de grande mago.

Danna Sharon chegou, então, na noite marcada, já às dez da noite, ao salão de festas de Gérard, ele fez uma preparação do ambiente com defumadores e colocou a iluminação de infra-vermelho, com lampiões cobertos por celofane translúcido em vermelho escuro, para gerar esta iluminação de infra-vermelho, próprio à invocação e à comunicação espiritual, o que Danna faria primeiro com seu guia.

Foram colocadas, também, no meio do salão, três mesas de pequenas para médias, em formato redondo, circular, em formação parelha, as cadeiras estavam em volta, as paredes não tinham proteção acústica, os barulhos da rua entravam eventualmente, mas o local era grande, com as janelas ficando fechadas para evitar o barulho do vento e das vozes que haviam num bar que ficava ali perto, concorrente de Gérard, embora fosse de uma família que ele conhecia de infância, num tipo de concorrência saudável por clientes.

Papisa, então, chegou meia hora depois, ela então fez as orações, citou uns mantras xamânicos, e Gérard se empolgou e pegou sua tradução falsa de um livro druida, o tal livro do bruxo da Bretanha, e entoou uns cânticos que tinha na tal tradução fajuta.

Danna Sharon se concentrou e entrou em transe depois de dez minutos, Gérard cobriu a cabeça de Danna com um lençol branco, Papisa aumentou o volume de sua voz em nova sessão de orações e mantras, Gérard então leu para a tal entidade guia de Danna dois pequenos textos do bruxo da Bretanha, Danna disse que a entidade pedia silêncio, que as citações do livro não lhe importavam, Gérard finalmente se calou.

Danna Sharon, então, travou um diálogo com seu guia em voz baixíssima, quase sussurrada, e disse para a Papisa fazer a oração de abertura dos trabalhos, logo em seguida, no meio do transe mediúnico de Danna, ouvem-se batidas secas sobre uma das mesas, palmas batem nas paredes em meio ao infra-vermelho do enorme salão de festas.

Danna prepara, então, com o lençol na cabeça, uma infusão, ela derrama o líquido sobre a mesa em que se ouvira as batidas secas, começam os ruídos na madeira das mesas e das cadeiras, dura três minutos seguidos, depois vem mais uma oração de Papisa, e se segue um enorme silêncio naquele profundo infra-vermelho que dura mais três minutos intermináveis, até que Gérard desata novamente a sua ladainha com o tal livro pseudo-celta.

Logo após a saída de Danna Sharon, Papisa encerra as suas orações, as duas vão embora, e Gérard recolhe do salão de festas umas espécies de bobinas, fios e martelos, tinha ainda, em uma das paredes, mecanismos de fricção e no teto algumas roldanas que se ocultavam sobre o gesso espesso que cobria todo o teto do grande salão de festas, ele também tinha uma coleção de relíquias sobrenaturais forjadas que ele pegava de um charlatão que vendia aquelas mistificações para crédulos de toda espécie.

Béatrice e Jeannie, no dia seguinte, foram conversar com Gérard, que lhes disse que ali no seu salão começariam as sessões das mesas girantes, logo após a saída de Jeannie, ele diz sobre seus truques com Béatrice, e esta logo se empolga ao saber que médiuns sugestionados seriam manipulados na própria rede, ela adorou a ideia e disse que seria a assistente de Gérard naqueles espetáculos forjados de mágica para incautos.

Gérard, antes da primeira sessão oficial das mesas girantes em seu salão de festas, em que haveria cinco convidados da sociedade parisiense, incluindo um colunista frívolo que divulgaria o fenômeno nas edições de jornal em que trabalhava, vai à casa dos líderes do Nova Luz, o casal Pappin, e trava uma conversa longa com Jean-Baptiste e Louise, em que bebem muito vinho e comem croissants, e ficam de acordo que Gérard seria remunerado pelas sessões feitas pelo Nova Luz em seu salão de festas, e os Pappin atenderam o pedido de Gérard de levar Béatrice como assistente na organização destes trabalhos, pois esta era a pupila de confiança plena de Gérard.

Ficou marcado para um sábado de noite, a partir das sete, a primeira sessão de mesas girantes no salão de festas do bar de Gérard. A família do outro bar em frente, particularmente, o velho patriarca, Brennan, ficou curioso com toda aquela movimentação, perguntou a Gérard o que estava acontecendo e pediu que ele e sua esposa, Marianne, participassem como espectadores de tal sessão, Gérard então pediu a dois funcionários seus que terminassem de arrumar tudo, pois haveria mais dois convidados, além do colunista frívolo e dos membros da sociedade parisiense.

Durante a tarde, antes da noite marcada para a sessão, Gérard encontra Jeannie e Béatrice, eles conversam divertidamente numa padaria em uma mesa cheia de pães, doces e sucos, e riem de tudo, é quando Jeannie também fica sabendo dos truques que seriam praticados por Gérard, com a colaboração de Béatrice, na tal sessão espiritual de mesas girantes, Jeannie pede que numa segunda sessão pudesse participar fingindo ser uma médium, Gérard adora a ideia e treinaria os trejeitos de Jeannie para montar mais uma farsa espiritual.

Chega sete da noite, e o casal Pappin é o primeiro a chegar, eles são recebidos pelos dois funcionários de Gérard, este que sai do salão de festas e vai à recepção, junto com Béatrice, e estes fazem os elogios ao grupo Nova Luz, tecendo loas às médiuns Danna e Papisa, no que Jean-Baptiste, embora fosse um charlatão, ainda tinha para si de que seu grupo tinha verdadeiras médiuns que tinham dons especiais.

Jean-Baptiste, embora tenha cometido vários crimes de falsificações, charlatanismo e estelionato, era um entusiasta das mesas girantes e acreditava que tais fenômenos eram verdadeiros, e estas sessões no bar de Gérard lhe serviriam para atestar esta realidade espiritual e para ele documentar, no que, ele informa a Gérard, seria seu livro, um misto de autobiografia e tratado espiritualista moderno.

Às oito da noite, chegam Alice Dumas, Danna Sharon e a Papisa, às nove, os convidados, incluindo o colunista frívolo que queria enfileirar uma série sobre o sobrenatural em seus trabalhos de jornalista, seu nome é Alfred Bossuet, e ele era conhecido na sociedade parisiense como um tipo de polemista e piadista, os convidados que vieram com ele o conheciam muito bem e forneciam informações para a sua coluna de futilidades sociais de uma elite preguiçosa, frívola e acomodada.

Gérard, então, coloca seus dois funcionários para servir comidas e bebidas, não haveria álcool, pois as sessões espirituais não poderiam ter consumo de bebidas alcoólicas, naquele dia, para os participantes da sessão de mesas girantes.

Nesta janta, a Papisa já começa a ter seus tiques de vidente e fazer previsões sobre o futuro de Alfred Bossuet e sobre um dos convidados da sociedade parisiense, Béatrice olha aquilo tudo e passa a ter certeza de que se divertiria horrores com aquela credulidade irrefletida da maioria dos que ali estavam, tirando Bossuet, que também parecia se divertir e estar em meio a um número de comédia involuntária.

Bossuet tira seu caderninho clássico, um estilo que todos conheciam, pois ele era um tipo de colunista e repórter, quase uma espécie de testemunha ocular que documentava tudo o que via, e fazia isto o tempo todo, era o tipo de jornalista que sempre tinha um caderninho e canetas à mão, ele tinha uma coleção infinita de anotações, que organizava em ordem cronológica, e depois selecionava o que ele iria publicar.

Alfred Bossuet, já dez da noite, conversa animadamente com um milionário empreendedor de Paris, que ali estava, e nos últimos meses participara de várias sessões de mesas girantes em Paris, e sendo um dos maiores entusiastas do fenômeno, que, para ele, apontava para um futuro em que todos conheceriam a fundo a realidade espiritual, seu nome é Carl Morreau.

A atividade deste empresário ia do comércio até construções de residências e estabelecimentos, ele também usava seu dinheiro em filantropia e agora tentava investir em pesquisa espiritualista, pensando no grupo Nova Luz como uma experimentação promissora.

Jean-Baptiste, que sempre foi um mestre em enrolar gente endinheirada, prometia para o tal Morreau uma fonte inesgotável de fenômenos fantásticos, e que aquela história no salão de festas de Gérard era só o começo de uma grande jornada pelo mundo espiritual, da prova da existência da imortalidade da alma e da eternidade divina.

Jean-Baptiste, que, quando não podia contar com as suas médiuns de estimação, preparava ambientes de adivinhação para massagear o ego dos consulentes, que saíam acreditando em suas fortunas imaginárias, depois de Jean-Baptiste embolsar com a sua esposa, que se fazia de vidente.

O trabalho de Louise era dizer o que o consulente queria ouvir, e tudo funcionava por um tipo de poder precário de sugestão baseado numa linguagem retórica de persuasão de incautos desesperados. Ao passo que o trabalho com as três médiuns era objeto de uma credulidade pia por parte de Jean-Baptiste, que tinha certeza dos poderes mediúnicos daquelas moças intuitivas.

Dez e meia da noite, chegam Brennan e Marianne, que tinham acabado de encerrar o expediente no bar da frente, e Gérard conversa rapidamente com os dois, já orientando seus dois funcionários para terminar a organização do salão de festas e fazer a preparação com os defumadores, e fazendo com que estes, ao fim, preparassem o infra-vermelho da cobertura de celofane dos lampiões, para que os espíritos não se perturbassem com a claridade ou iluminações de coloração branca.

Desta vez, Gérard tinha mandado preparar todo um isolamento acústico, e os mecanismos ocultos para fazer os números mediúnicos, de conhecimento dos funcionários, tinha sido arrumado pelo próprio Gérard, junto com Béatrice, que estava aprendendo todas as manhas de Gérard com muita atenção, pois estava doida para fazer mistificações com médiuns sugestionados. E Gérard era um exímio conhecedor e manipulador de roldanas, pesos, mecanismos de fricção, dentre vários apetrechos de ilusionismo que aprendera com um físico mecanicista e mágico, na sua infância.

Chega a meia-noite, e as três mesas redondas estavam no meio do salão de festas, de forma parelha, com cadeiras em volta, e as médiuns tomam o centro da cena, e começam as orações da Papisa. Danna Sharon medita profundamente tentando forçar ou simular um estado de transe, Alice Dumas começa a falar em línguas estranhas, meio como se fosse uma crente também numa espécie de transe atávico e imaginário, Béatrice olha tudo com uma atenção sinistra, e no meio disso temos Gérard mandando piscadelas para a sua pupila.

Alice Dumas, finalmente, para de falar em línguas, e agora entra num tipo de transe mediúnico, em que entra em comunicação telepática com seu guia da Antiguidade, um egípcio que tivera sido um sacerdote no Templo de Karnak, e que falava com ela por imagens mentais.

Papisa diz, logo, que estava vendo o tal guia de Alice, e ele brilhava numa brancura diáfana e celeste, era um espírito muito evoluído, e que já tinha superado o ciclo das reencarnações. Papisa diz que a entidade estava ao lado de Alice fazendo a preparação para a levitação das mesas pelos espíritos batedores e de ruídos.

Gérard encosta, então, em uma das paredes do salão de festas, dali ele poderia manipular todos os seus mecanismos de fricção, roldanas para levantar pesos, e demais geringonças para usar de ilusionismo mecânico para fascinar tanto os convidados do encontro, como as próprias médiuns, que teriam a certeza de possuir poderes sobrenaturais, quando, na verdade, era uma trapaça de Gérard para um tipo de divertimento sinistro, que depois ele relataria para o colunista frívolo, este Alfred Bossuet, que adorava histórias bizarras e de vexame.

Gérard, então, observa os trejeitos das três médiuns, deixa a coisa correr solta, um show de transes e gestos estilizados, com estereotipias que se repetiam ad nauseam. Ele, então, aciona os ruídos, no que Alice Dumas logo se empolga e diz estar sentindo as vibrações pelas paredes.

Alice Dumas diz que seu guia egípcio estava colocando cinco espíritos de ruído pelas paredes, enquanto as máquinas de fricção de Gérard giravam e faziam seus barulhos bizarros, deixando Alice Dumas fascinada com seu suposto poder mediúnico, tendo uma certeza bizarra de estar manipulando entidades que faziam aqueles ruídos de forma aleatória e depois ritmada, num tipo de diversão maldosa de Gérard, que dava piscadelas para Béatrice, que tinha um tipo de sorriso sutil no rosto.

Como combinado, Béatrice segue, sutilmente, para a parede oposta em que estava Gérard, e puxa uns tipos de cordas transparentes, e uma das mesas levanta um dos pés, sobe e desce, batendo com um dos pés, Papisa diz que era um espírito de levitação. Começam umas batidas na mesa do meio. Na verdade, Gérard já tinha orientado e ensinado Béatrice a acionar as cordas transparentes por meio de ligações diretas com inúmeras roldanas que ficavam ocultas no teto, um festival newtoniano a serviço do ilusionismo espiritual.

Gérard, então, aciona uma roldana principal que suspende, de súbito, as três mesas simultaneamente, as mesas sobem muito, um metro e meio, e uma das mesas flutua pelo salão de festas, faz um tipo de passeio, Danna Sharon diz que seu guia estava comandando os tais espíritos que conduziam as mesas.

Logo, começam as tentativas de comunicação espiritual, com perguntas de sim e não, uma batida era sim, e duas era não, perguntas sobre a existência além-túmulo são feitas aos borbotões, tanto pelas médiuns, como por Jean-Baptiste e os convidados, e todas as respostas são afirmativas, e atendiam positivamente às expectativas sobrenaturais dos que estavam no salão.

Gérard se divertia com o viés de confirmação, e parecia um títere que brincava com seus fantoches embriagados. Béatrice se divertia mais ainda, ao fazer batidas com os próprios pés, também simulando ruídos com a boca num tipo de ventriloquismo, e os convidados estavam cada vez mais convictos das intervenções espirituais dentro do salão de festas.

Alfred Bossuet anota coisas freneticamente em um bloquinho verde, Carl Morreau, por seu turno, está fascinado com as mesas que flutuavam e diz para si mesmo que a realidade espiritual era incontestável.

Danna Sharon faz orações, e a Papisa simula mais um transe, diz coisas para as mesas girantes, e se dirige ao guia de Alice Dumas, este responde telepaticamente algo, ela fala sobre isso, mas não diz para os convidados o que é, pois envolveria uma tragédia com uma das pessoas que se encontrava dentro daquele salão de festas.

Béatrice, meio maldosamente, faz a mesa responder afirmativamente a todas as especulações desvairadas de Alice Dumas, que testava obsessivamente a mesa do meio com perguntas de metafísica mais elevada que um neoplatônico que atingiu o satori e saiu voando.

Gérard observa tudo em silêncio, tinha uma experiência bizarra com roldanas e mecânica, olhava tudo com calma e ironia. Carl Morreau estava celebrando o mundo espiritual, e disse que seria o benfeitor do Nova Luz. Alfred Bossuet percebe os olhares cifrados entre Gérard e Béatrice, e parece já estar entendendo tudo.

Mais movimentos estereotipados de Danna Sharon e Papisa, Alice Dumas conversa novamente telepaticamente com o seu guia, Gérard aciona as roldanas, os convidados da sociedade parisiense estavam eufóricos, Carl Morreau se volta para Jean-Baptiste radiante de felicidade, pois agora Morreau havia confirmado a existência da eternidade e da imortalidade.

Gérard faz as batidas, aciona a fricção, batidas e ruídos se alternam, as três mesas giram e flutuam pelo salão de festas, Béatrice olha para Alfred Bossuet e vê que ele faz um esgar irônico, sabia que aquele colunista frívolo não era bobo, e já maquinava sortilégios em seu bloquinho verde.

Finalmente, já às três da manhã, se encerra a sessão das mesas girantes, Gérard tira então a cobertura de celofane vermelho dos lampiões, e o salão de festas se ilumina, todas as roldanas e cordas transparentes já estavam devidamente ocultadas, Béatrice vai ao centro do salão e confere as mesas e as cadeiras, e afirma que ali tudo estava intacto, apesar da influência que tinha acontecido de espíritos batedores, levitadores e de ruídos.

As três médiuns saem da sessão mais vaidosas de seus poderes sobrenaturais, Jean-Baptiste estava satisfeito, pois agora tinha Morreau como seu benfeitor, enquanto Alfred Bossuet se coloca num canto e espera todos irem embora para conversar com Gérard e Béatrice.

Já quatro da manhã, estavam apenas Gérard, Béatrice e Alfred Bossuet no bar de Gérard, eles abrem um vinho, e Gérard decide mostrar os mecanismos que utilizara, com a ajuda de Béatrice, para Bossuet, que anota tudo em seu caderninho, e eles combinam de que sairia uma coluna revelando os segredos e colocando o grupo Nova Luz para cair no ridículo.

Gérard disse que seria feita mais uma reunião de mesas girantes, que ele marcaria com o Nova Luz, desta vez com uma outra pupila sua, Jeannie, que iria como uma médium fajuta para iludir as três patetas do grupo Nova Luz.

Gérard combina, então, que Alfred Bossuet registrasse tudo em seu caderninho, para quando saísse a matéria, colocasse estes mistificadores numa situação constrangedora. Após esta segunda sessão, Gérard combina com Alfred Bossuet que a matéria sairia, na semana seguinte à sessão, dizendo as estultícias de que o colunista frívolo fora testemunha, com a revelação do segredo por Gérard, o ilusionista.

Gérard passa uma das publicações fajutas que colecionava para Jeannie ler tudo antes da próxima sessão, um grimório misturado a teorias ocultistas que mistura tudo numa miscelânea de ecletismo filosófico que não resulta em nada, mas que estava recheado de teses estapafúrdias sobre sexto sentido, e tinha explicações para tudo o tempo todo. Jeannie lê tudo em três dias, e assimila alguns truques que aplicaria na tal segunda sessão das mesas girantes no salão de festas do bar de Gérard.

Jeannie se junta a Béatrice para fazer uma visita ao Nova Luz, que na verdade era uma incerta de Jeannie para analisar a personalidade de Danna, Alice e a Papisa, era um modo de Jeannie sugestionar as médiuns durante a próxima sessão das mesas girantes.

Jeannie, que já tinha conversado longamente com Gérard sobre tudo aquilo, como dito, já sabia dos esquemas dele e de Béatrice para se divertirem com os patetas do Nova Luz. Para Gérard, sua ideia era esperar a primeira parcela de Morreau para Jean-Baptiste, ele que considerava a inteligência de Morreau para os negócios inversamente proporcional à sua falta de astúcia em assuntos espirituais.

Duas semanas após a primeira sessão das mesas girantes, Morreau fornece um cheque absurdamente polpudo para a casa Nova Luz. Jean-Baptiste, sorrateiramente, coloca tudo em sua conta bancária pessoal, e no fim-de-semana seguinte, viaja com Louise para temporadas na Itália, bebendo vinho e comendo massas.

Morreau continuava achando tudo incrível, um tipo de entusiasta do futuro da humanidade, de um planeta de regeneração, ele acreditava que surgiria uma nova era espiritual, e que Jean-Baptiste era um tipo de guru daquelas médiuns poderosas, capazes de manipular espíritos para levitarem mesas, uma nova física estava para ser desbravada, oculta ainda ao conhecimento natural científico conquistado até ali.

Jeannie se encontra novamente com Gérard, e lhe diz que já poderia ser marcada a próxima sessão das mesas girantes. Jeannie tinha feito intimidade com Danna, e já sabia de todos os tiques de pensamento de Alice Dumas e da Papisa, esta última, para ela, a mais previsível.

Gérard diz que sabia bem como trabalhar com a vaidade das três médiuns, e que isto tinha funcionado maravilhosamente na primeira sessão das mesas girantes no salão de festas de seu bar. Contudo, na segunda sessão isto seria testado, mas no sentido oposto, ferindo esta vaidade das médiuns em seu âmago.

Béatrice tinha lido alguns volumes sobre mágica, e estava com um sarcasmo perverso cada vez mais desenvolvido, para o deleite de Gérard, que sabia ter encontrado duas moças com inteligência acima da média, Jeannie e Béatrice, para fazer truques de prestidigitação com incautos e vaidosos de toda espécie.

Depois do retorno de Jean-Baptiste e Louise da Itália, Gérard entra em contato com Jean-Baptiste, e diz que o Nova Luz já poderia marcar a segunda sessão das mesas girantes no salão de festas de seu bar, e pede a gentileza de trazer a médium Sacerdotisa.

Gérard diz a Jean-Baptiste que a médium Sacerdotisa era muito poderosa, e que faria um trabalho primoroso de levitação de mesas, do qual afiançou ter sido testemunha há poucos dias, em que conhecera a jovem moça de dons especiais e inteligência sutil. Jean-Baptiste aquiesceu, e tudo foi combinado. Dali a cinco dias, no sábado de noite, seria realizada a segunda sessão das mesas girantes sob o comando de Gérard, o anfitrião.

Gérard tem um encontro com Alfred Bossuet na quinta-feira, antevéspera da sessão, e também chama Jeannie e Béatrice, lá eles bebem e combinam o que cada um iria fazer na nova sessão de mesas girantes com os patetas do Nova Luz.

Gérard falaria com Morreau no dia seguinte, sexta, para iludir mais ainda o ensandecido empresário, que já pagara uma viagem para Jean-Baptiste sem saber, pois Louise se esbaldou em Milão e Florença.

Gérard sabia que faria o feitiço virar contra o feiticeiro, pois toda a cena de roldanas seria revelada ridiculamente pelo colunista frívolo Alfred Bossuet em uma matéria sensacionalista e humorística, e a imagem de Jean-Baptiste ficaria marcada por sua associação com malucas que pensam flutuar mesas.

Chega o sábado, e Jeannie já estava vestida com a personagem afetada Sacerdotisa, que seria a médium mais poderosa da sessão, para ferir a vaidade e causar inveja nas três malucas do Nova Luz.

Jeannie era tão perversa quanto Béatrice, e o mestre Gérard sabia estar com duas pepitas para montar a cena perfeita para fazer as incursões do Nova Luz pelo mundo espiritual cair no ridículo, e o metido a esperto do Jean-Baptiste provar do próprio veneno, ser feito de trouxa.

Gérard queria fazer isto para também ver a ira de Morreau, um tipo de ingênuo que só trabalhou a sua inteligência para fazer empreendimentos, mas esqueceu a astúcia em outras áreas num lugar desconhecido.

Chega sábado, tudo arrumado pelos dois funcionários de Gérard, este já tinha revisto toda a mecânica e as roldanas e máquinas de fricção, ele montara um sistema de roldanas mais potente para o espetáculo da Sacerdotisa, dera uma envergada e também uma lustrada em vários dispositivos, estava tudo pronto para subverter falsamente as leis de Newton usando estas próprias leis.

Gérard era um físico mecanicista perverso, queria se divertir às custas do Nova Luz, e fazer Jean-Baptiste sentir o que é ser feito de trouxa. Ele sabia que a mais inteligente daquele salão seria, infalivelmente, Béatrice, e esta tinha um tipo de irmã de vida, Jeannie, que era mais teatral, e ficara a cargo da personagem estrambótica da médium Sacerdotisa.

Sete da noite, e chega primeiro Morreau, empolgado com mais uma observação que faria da alma imortal, de sua fé cada vez mais irrefletida numa realidade que poderia ser desvendada com facilidade pelos dons mediúnicos, pois Morreau realmente achava que a natureza oferecia esta possibilidade com a faculdade mediúnica, e que o grupo Nova Luz era um belo investimento, pois produziria um novo conhecimento e uma nova filosofia.

Morreau só não sabia do histórico de charlatanices de Jean-Baptiste, seu novo ídolo espiritual. E Gérard, primeiro, alimentou as ilusões de Morreau sobre Jean-Baptiste, para que maior fosse a sua ira, assim que saísse a matéria de Alfred Bossuet sobre o teatro de marionetes montado por Gérard, pois já estava combinado de que a matéria também revelaria os podres do casal Louise e Jean-Baptiste, que Gérard já sabia e já tinha provas materiais, incluindo a viagem à Itália às custas da benfeitoria de Morreau.

Na entrada do bar, oito da noite, estão Gérard, Alfred Bossuet, Béatrice e a paramentada Sacerdotisa, que era Jeannie, fazendo seus movimentos estereotipados de vidente e dona de dons sobrenaturais, um espetáculo que deixou Morreau fascinado e curioso para ver o que esta médium era capaz de fazer em estado de transe.

Morreau também se empolgara ao saber que o jornalista Alfred Bossuet faria uma matéria sobre o fenômeno das mesas girantes, sem saber que a tal matéria seria de escárnio e ironia, e que Alfred Bossuet era um tipo de colunista frívolo, que vivia atrás de polêmica e confusão. Gérard sabia que daria uma lição em Jean-Baptiste e daria um ensinamento importante para Morreau.

Os convidados chegam às dez da noite, meia hora depois, Jean-Baptiste, Louise e as três médiuns, Danna Sharon, de branco com um tipo de túnica, e as outras duas, Papisa, como um tipo de vestal, e Alice Dumas, num traje que lembrava uma grega de Atenas, todas com a afetação típica de quem pensava saber mais do que sabe, além de considerar suposições como um conteúdo do próprio saber.

Gérard apresenta a Sacerdotisa para as três médiuns, e diz que esta que comandaria a sessão das mesas girantes, no que estas médiuns, presumidas e gabolas, logo ficaram assustadas, pois perderiam o estrelismo daquela noite. Gérard fala com Béatrice ao pede ouvido, e esta se dirige ao salão de festas, arruma uns mecanismos, dá uma revisada em tudo, pois já sabia de tudo o que Gérard sabia acerca daquilo tudo, ela aprendera muito rápido as manhas e as técnicas de seu mestre existencial.

Onze da noite chegam todos os convidados, desta vez Alfred Bossuet vira uma espécie de guia da sociedade parisiense ali presente, e faz o número do repórter espiritualista empolgado com mais uma sessão de mesas levantadas por espíritos, ele era o responsável por divulgar aquele fenômeno na imprensa, e Gérard se coloca como um tipo de anfitrião que faz também o mesmo número de espiritualista empolgado, juntando-se a este teatro a presença maldosa e inteligente de Béatrice.

Quando começa a meia-noite, a Sacerdotisa, que era Jeannie disfarçada, começa a fazer um número de concentração e meditação, logo Béatrice aciona o novo mecanismo de roldanas e as mesas levitam de maneira fantástica, provocando a inveja das três médiuns do Nova Luz, e deixando Jean-Baptiste ávido por ter aquela médium poderosa em seu grupo espiritualista, enquanto Gérard e Béatrice trocam piscadelas manhosas.

A Sacerdotisa então chama as três médiuns para demonstrarem seus poderes, então Beátrice, de propósito, faz com que Danna Sharon se concentre para levitar uma das mesas e nisso a mesa apenas se arrasta sem flutuar, a Papisa interfere e a mesa levanta um dos pés sem levitar, ao fim, Alice Dumas simula um transe mediúnico e desta vez a mesa levita, mas logo volta ao chão, ao passo que a Sacerdotisa entra novamente em cena, e Béatrice aciona as roldanas de modo violento, fazendo com que as tais mesas levitem quase até o teto, fazendo inveja novamente nas tolas médiuns do Nova Luz, pois as patetas acharam que a Sacerdotisa tinha poderes incríveis.

Alfred Bossuet fez inúmeras anotações em seu caderninho verde, Gérard sai de uma das paredes e fala ao pé do ouvido do colunista frívolo, a Sacerdotisa, neste momento, simula um transe mediúnico em que as mesas flutuam e andam pelo salão de festas, num ensaio que Jeannie e Béatrice tinham feito para humilhar as médiuns do Nova Luz.

Neste ínterim, temos Danna Sharon olhando para a Sacerdotisa com raiva, entra no meio do espetáculo mediúnico dela, mas Beátrice, de propósito, coloca as mesas no chão, por meio das roldanas, e todos os esforços mediúnicos de Danna Sharon são em vão, as mesas não saem do lugar, então, para piorar, a Sacerdotisa volta à cena e todas as mesas dançam pelo salão de festas, no que Danna Sharon olha para a Papisa desacreditada e desiste da competição de poderes mediúnicos.

Termina a segunda sessão de mesas girantes, que fora, na verdade, um predomínio da Sacerdotisa sobre a cena, com Jean-Baptiste indo até ela para convidá-la para o Nova Luz, no que ela declina e diz já fazer parte de um grupo filantrópico muito sério que ela não poderia abandonar, e então Morreau, impressionado, tenta convencer a Sacerdotisa a continuar a frequentar as próximas sessões de mesas girantes, ela pergunta a Gérard sobre mais sessões, e ele diz, ironicamente, que seria depois das publicações da coluna de Alfred Bossuet.

Todos saem da sessão às três da manhã, e na manhã seguinte, Gérard, Jeannie, Béatrice e o colunista frívolo Alfred Boussuet se reúnem numa padaria e comem pães, doces e bebem suco, se divertem, riem desbragadamente, tudo estava nos bloquinhos de Alfred Bossuet, o espetáculo de roldanas, que seria o título de sua matéria.

Depois desta manhã animada na padaria, portanto, pelo resto da semana, Alfred Bossuet organiza suas anotações e prepara a matéria, que é publicada na semana seguinte e é uma bomba humorística fazendo o grupo Nova Luz cair no ridículo.

Alfred Bossuet também revela os podres de Jean-Baptiste, provocando a ira de Morreau, que tenta invadir a casa de Jean-Baptiste, com dois guardas de sua confiança, para espancá-lo, Jean-Baptiste foge pelo lado de trás de sua casa, encontra depois Louise, e eles fogem com o que restava do dinheiro amealhado em seus golpes e também do que tinham do próprio Morreau e se mandam novamente para a Itália, desta vez por tempo indefinido.

O grupo Nova Luz, diante do escândalo e do ridículo, acaba sendo extinto, e as três médiuns passam a ser vistas pelos leitores de colunas frívolas com escárnio e personagens de peça cômica. Alfred Bossuet consegue obter sucesso com esta desconstrução de um espiritualismo irrefletido e poroso, e Morreau deixa de acreditar nas mesas girantes, revoltado com aquele espetáculo doentio de roldanas de Gérard que ele tinha descoberto no jornal.

Depois do escândalo e do escárnio com as matérias de Alfred Bossuet, um mês depois, Gérard está cuidando de seu bar, seu salão de festas agora teria espetáculos de ilusionismo mecânico, e ele contrata Béatrice para trabalhar com ele nestes espetáculos de ilusionismo para uma plateia parisiense que já sabia das farsas das mesas girantes, mesmo que muitos ainda acreditassem e praticassem estas sessões mediúnicas pela Europa.

Numa tarde, no entanto, Gérard estava em seu bar, na recepção, Béatrice estava perto das adegas, cuidando de alguns afazeres, é quando começam movimentos estranhos por todo o bar, inclusive no salão de festas, vários objetos começam a flutuar, mesas se arrastam, tudo começa a virar um caos, era um tipo de poltergeist, Béatrice está perto das adegas, e uma prateleira cheia de objetos de vidro e cortantes desaba sobre a sua cabeça, ela se corta seriamente na cabeça e no pescoço, Gérard tenta salvá-la, ela acaba morrendo em seus braços, depois de uns vinte minutos, ele fica desesperado, o poltergeist intenso enfim cessa, ele sai desesperado pelas ruas.

O trabalho de perícia conclui que Béatrice tinha sido agredida e assassinada, e todas as suspeitas recaem sobre Gérard, que acaba pegando uma pena de reclusão de três anos, seu bar é confiscado e fechado, Jeannie chora a morte de sua irmã de fé, e acaba acreditando na tese do assassinato de Béatrice.

Gérard diz a Jeannie, na cadeia, que tinha havido algo como um poltergeist em seu bar e que tinha sido tudo um acidente, Jeannie tanto não acredita, como se revolta com aquilo tudo, e decide voltar para Marselha, os shows de Gérard que estavam marcados são cancelados. Contudo, ainda teriam muitas sessões de mesas girantes por Paris naqueles anos.

Contos Psicodélicos – Volume II

Conto pronto em 15/11/2020

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

SHOW DO JIMI HENDRIX NO SANA

“eu pude ver a névoa púrpura, como um tipo de aura, iluminando e cobrindo com seu brilho a figura de Jimi Hendrix”

Cheguei em Casimiro de Abreu, peguei um ônibus em direção ao Sana, vi toda aquela natureza excepcional, meu trabalho de documentarista teria um dia especial, segui ao Sana Camping, encontrei uma amiga, conversei e comi uns pães e bebi leite e café. Tudo muito divertido, fui então me refrescar na Cachoeira das Sete Quedas.

Lá, encontrei um hippie, ele me deu um ácido e disse que meia-noite, perto da cachoeira, estava sendo organizado um show, perguntei, curioso, do que se tratava, e o hippie maluco disse que Jimi Hendrix estava vindo dos Estados Unidos e que ficaria hospedado num camping, e daria um show no Sana, eu perguntei então se tinha ingresso, ele me disse que o show seria naquela meia-noite, ao ar livre, pertinho das Sete Quedas.

Fiquei achando aquela história muito bizarra e guardei o ácido para o tal show, poderia pensar que era um tipo de delírio, poderia ser uma banda cover da Experience? O que aquele hippie quis dizer com aquilo? Jimi Hendrix no Sana? Será o benedito? Bom, vou tomar o ácido, assim posso confirmar que o mundo real não passa de um delírio, e verei o show do Jimi Hendrix ao vivo, sou um privilegiado.

No meio da tarde, para me preparar para o show, coloquei um CD que tinha trazido, era o Band Of Gyspys, fiquei ouvindo Machine Gun por várias vezes e fazendo air guitar que nem um maluco, a recepcionista do camping me pegou em flagrante, fazendo gestos de guitarrista imaginário, e perguntou se estava tudo bem, se eu estava precisando de alguma coisa, fiquei meio constrangido, e interrompi por um minuto a minha performance, que foi retomada assim que a recepcionista deixou o local em que eu estava acampado, finalizei a performance com Power of Soul e me senti o máximo.

Jantei a comida que tinha trazido, depois comi uma sobremesa, me alimentei bem naquela noite e segui para o tal show perto das Sete Quedas, lá encontrei o hippie maluco e enigmático novamente, conversei com ele sobre música e arte, ele disse que o Jimi estava se preparando em seu camarim, que vestiria a sua roupa do show que ele fez na Ilha de Wight, repetindo toda a cena de Blue Wild Angel, o que todos veriam ali era Jimi Hendrix ressuscitado, ao vivo e a cores, privilégio exclusivo para quem estava no Sana.

Deu meia-noite, tinha uma banda local de hippies que faria a abertura do show do Jimi, tomei o meu ácido, depois de uma hora ele começou a fazer efeito, o tal hippie, que havia sumido por um tempo, reaparece com um baseado e dá uma baforada na minha cara, eu já estava tendo os sinais de daltonismo e sinestesia, tudo parecia maravilhoso e agora acreditava piamente na história daquele hippie, haveria de fato um show do Jimi Hendrix no Sana.

E então, depois de encerrado o show da banda local de hippies, começa um estrondo, um barulho ensurdecedor de guitarra e distorção, reconheço ligeiramente a bateria de Mitch Mitchell, começa Manic Depression, logo vejo Jimi Hendrix entrar no palco, com sua roupa lendária do Blue Wild Angel da Ilha de Wight, estava tudo muito real, a figura corporal de Jimi, o som de sua guitarra, Mitch tocando, Billy Cox em seu cantinho acompanhando o delírio sonoro do maior guitarrista do mundo.

Jimi então enfileira Castles Made Of Sand, In From The Storm, Hey Baby, Hey Joe, Machine Gun, começa uma calmaria com The Wind Cries Mary, faz um blues longo com Red House, para em seguida explodir com Fire, e depois fazer um improviso mais bonito que todo aquele que ele fez em Woodstock, junto com Villanova Junction, ele então toca o tal hino americano com bombas do Vietnã, seus solos podiam ser ouvidos por todo o Sana, as Sete Quedas vibravam de ácido e música.

O meu ácido duraria o efeito por seis horas, e já ia uma hora de show deste gênio da guitarra no Sana. Encontrei o tal hippie de novo e descobri que o que ele me disse mais cedo era tudo verdade, estava tendo um show do Jimi Hendrix no Sana, aquele hippie não era maluco, era um visionário. O hippie passa por mim novamente e dá mais uma baforada de seu baseado na minha cara e diz que o ácido que ele me deu era importado da Holanda, que era para eu agradecer aos deuses aquela ambrosia.

Minha sinestesia se aprofunda, ouço então Sargent Peppers, Killing Floor e a composição hendrixiana de Are You Experienced, seguida de Until Tomorrow e uma viagem lisérgica com Burning Of The Midnight Lamp, One Rainy Wish, e o fim do show vem com dois petardos, que são Voodoo Child e House Burning Down, e com o bis, última música, Purple Haze, em que eu pude ver a névoa púrpura, como um tipo de aura, iluminando e cobrindo com seu brilho a figura de Jimi Hendrix no palco, foi a minha experiência transcendental, meu transe místico.

O show se encerra, Jimi Hendrix não queimou a guitarra e nem tocou com o dente, mas solou impiedosamente sua Fender Stratocaster, ele se juntou então a Mitch Mitchell e Billy Cox e os três agradeceram o público, cumprimentaram o público do palco, havia umas cem pessoas no show, uma mistura de esquerda festiva, playboys perdidos na vida e hippies vendedores de artesanato, tudo muito bom e relaxante, a banda deixa o palco, eu tinha acabado de ver o show do Jimi Hendrix no Sana, e foi inesquecível.

Guilherme Thompson, cronista e outsider.

Guilherme Thompson é um cronista outsider, documentarista eventual, jornalista autodidata, nascido em 01/01/1974 na cidade do Rio de Janeiro, ganha a vida em jornais diversos, trabalha por demanda própria, vive nas ruas caçando pauta, meio como um antropólogo intuitivo, estuda literatura e filosofia por conta própria, gosta de se vestir com camisas de bandas de rock clássico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/show-do-jimi-hendrix-no-sana 

 

   

domingo, 8 de novembro de 2020

REVOLUÇÃO AMERICANA – PARTE I

LIVE INSTAGRAM DE : 08/11/2020

Os eventos que levaram à declaração de independência dos Estados Unidos da América, em 1776, e à elaboração da sua Constituição, em 1787, a chamada Revolução Americana, se configurou como um movimento de revolta contra o domínio britânico e de resistência contra a exploração colonial. Tal resistência se deu, sobretudo, no período que se seguiu à Guerra dos Sete Anos, que terminou em 1763, quando o império britânico tentou exercer maior domínio sobre as colônias norte-americanas.

Em 1775, por sua vez, começam os conflitos que serão o da guerra da independência destas colônias, que instituiu um processo de emancipação política e de autodeterminação contra o domínio colonial britânico. Foi então um evento militar, de guerra, que culminou numa revolução política que instaurou um novo tipo de governo e de modelo político, que se consolidou com a Constituição de 1787.

Como dito, o domínio britânico se aprofunda sobre as colônias norte-americanas depois da Guerra dos Sete Anos, pois esta representou o triunfo britânico sobre os franceses, que tiveram, então, a sua presença no continente americano quase anulada, pois a França foi obrigada, pelo Tratado de Paris de 1763, a ceder vastas porções dos territórios que controlava nesse continente à Inglaterra, como o Canadá e toda a região do vale do Rio Ohio, e os britânicos também adquiriram a Flórida, que pertencia à Espanha.

Veio, por conseguinte, como consequência do resultado da Guerra dos Sete Anos, fenômenos de crescimento demográfico, com a instalação de mais britânicos na faixa oriental que compunham as colônias, uma expansão territorial e o desenvolvimento econômico. O aumento da população de colonos foi grande, entre 1750 e 1770 os habitantes das colônias britânicas duplicaram, de um para dois milhões, tornando-se um elemento importante do império britânico. Após a guerra dos sete anos, tivemos uma emigração de protestantes irlandeses e escoceses, que já tinha começado no início do século XVIII.

Também começou, após a vitória sobre os franceses, a expansão territorial para o Oeste, depois de mais de um século em que os colonos britânicos tinham estado confinados a uma estreita faixa de terreno ao longo da costa atlântica do continente americano. Tal movimento teve correspondência na expansão econômica anglo-americana da segunda metade do século XVIII, pois na Grã-Bretanha, já havia sinais do que viria a ser a Revolução Industrial, e os americanos também prosperavam neste influxo.

Os americanos, na expansão econômica, exportavam cada vez mais cereais para a Grã-Bretanha, com o crescimento da procura e dos preços das exportações americanas, com os americanos aumentando a sua aposta nos produtos agrícolas para o mercado europeu. Na década de 1760, cidades comerciais relativamente distantes da costa, tais como Staunton, na Virgínia e Salisbury, na Carolina do Norte, já enviavam grandes quantidades de tabaco e de cereais na direção leste para portos como os de Baltimore, Norfolk e de Alexandria.

Mesmo com a prioridade dos produtos agrícolas, o aumento dos níveis de consumo nas colônias também levaram a uma atividade manufatureira, como na produção têxtil e de sapatos, com os transportes e as comunicações melhorando com rapidez, e em 1750, o Post Office, sob a liderança de Benjamin Franklin, instituiu correio semanal entre Filadélfia e Boston, reduzindo para metade o tempo gasto nas entregas.

Contudo, a preferência dos produtos britânicos por parte dos americanos, ainda deixava a balança comercial desfavorável para as colônias, e ainda havia o investimento considerável de capital no solo americano por ingleses e escoceses. Em 1760, as dívidas coloniais para com a Grã-Bretanha totalizavam já 2 milhões de libras; em 1772 tinham saltado para 4 milhões.

Devido às demandas financeiras advindas da Paz de Paris, de 1763, que pôs um fim na Guerra dos Sete Anos, que envolveu a questão da reforma do império britânico no sentido de reorganizar o território tomado da França e da Espanha no continente americano, houve demandas estas que passavam por necessidades como o de estabelecimento de novas autoridades, delimitação de fronteiras, regulação do comércio com as tribos nativas, e evitar disputas entre estas tribos e os colonizadores americanos, para não ocorrer uma guerra.

Portanto, o dispêndio foi grande, e então, no final da Guerra dos Sete Anos, a dívida de guerra da coroa britânica era de 137 milhões de libras, com um juro anual de 5 milhões, uma quantia imensa quando comparada com o orçamento médio em tempo de paz de 8 milhões de libras. E o império britânico viu a necessidade, também, de uma força permanente de 10 mil soldados para conseguir manter a paz com os franceses e os índios, e também para lidar com as populações locais, que desafiavam cada vez mais as autoridades coloniais. Por conseguinte, nesta década de 1760, o império britânico decidiu por manter um exército permanente em solo americano.

Na busca de recursos financeiros para dar conta destas despesas, a Grã-Bretanha enfrentou a dificuldade de que a população britânica estava se recusando a pagar o chamado “cider tax” de 1763, e mais impostos, fazendo com que este império olhasse para as colônias americanas como solução para o problema, levando a uma profunda transformação no sistema imperial britânico.

Houve, então, a “Proclamation of 1763”, que criou três novas instâncias governamentais na América, Flórida, Flórida Ocidental e Quebec, e alargou a província da Nova Escócia. Também foi proibida aos colonos a compra de terras índias, com a Grã-Bretanha transformando a área para além dos Montes Apalaches numa reserva índia, com o objetivo de manter a paz no Oeste e centralizar a migração da população ao norte e ao sul.

Contudo, houve a revolta dos Índios liderados por Pontiac em 1763, no vale do Ohio, que fez com que a Proclamação de 1763 fosse implementada de forma açodada, com a linha de demarcação ao longo dos Apalaches sendo traçada com pouco rigor, fazendo com que alguns colonos, de súbito, se encontrassem em reservas índias. Também houve confusão nas novas regulamentações do comércio com as tribos nativas, e houve pressão dos americanos para a expansão a Oeste, pois estes estavam interessados nestas terras, fazendo com que a Grã-Bretanha fosse pressionada a conversar com os índios.

Por sua vez, com a promulgação do “Quebec Act” de 1774, houve protestos, pois esta lei transferia para a província do Quebec o território compreendido entre os Rios Ohio e Mississippi, bem como o controle do comércio com os Índios na região. Esta nova medida prejudicou os americanos, por exemplo, os especuladores imobiliários, os  colonizadores e os comerciantes.

As mudanças feitas pelos britânicos no comércio colonial também prejudicaram os colonos americanos, como foi o “Sugar Act” de 1764, com maior controle britânico sobre o comércio colonial, com medidas como novos poderes aos funcionários aduaneiros e a inspeção de navios americanos por parte da marinha britânica, e à lista de produtos coloniais que tinham de ser exportados diretamente para a Grã-Bretanha, como o tabaco e o açúcar, foram acrescentados o ferro, a madeira e outros.

Por fim, os comerciantes e navegadores americanos ficaram presos numa burocracia imensa sobre autorizações de navegações, licenças de comércio, etc. O mais grave, contudo, foi a imposição de novos direitos alfandegários, estes que aumentaram as despesas dos importadores americanos. O “Sugar Act”, então, colocava novos tributos sobre o açúcar, o café, as roupas e o vinho importados pelas colônias.

Depois, em 1765, o governo britânico promulgou o "Stamp Act", impondo o uso do papel selado e novos impostos sobre os jornais americanos bem como sobre o correio. Em 1766, através do "Declaratory Act", o parlamento britânico reafirmou o seu poder e a sua autoridade sobre as colônias americanas em "todas as matérias". No ano seguinte, foi a vez dos "Townshend Acts", um conjunto de três leis francamente desagradáveis para as colônias americanas. Uma delas obrigava as autoridades coloniais de Nova Iorque a não desenvolverem qualquer tipo de atividade comercial até abastecerem os soldados britânicos estacionados naquela colônia. Outra criava um corpo de oficiais britânicos no porto de Boston para supervisionar a aplicação e o cumprimento das leis britânicas. Finalmente uma terceira lei criava novos impostos sobre produtos importados pelas colônias, nomeadamente vidro, chumbo, tinta, papel e chá.

Em suma, as colônias norte-americanas estavam agora sujeitas a uma ocupação militar permanente, a mais impostos e a limitações na sua liberdade de comércio e também na sua expansão territorial. Foi neste contexto que se iniciou o movimento de resistência e de revolta contra a política britânica. Em 1770 ocorre, em Boston, uma primeira revolta contra os soldados ingleses estacionados na cidade. Três anos depois a situação tornar-se-ia explosiva, sobretudo quando o governo britânico decidiu atribuir o monopólio do comércio de chá na América do Norte à Companhia Inglesa das Índias Orientais. Os colonos americanos revoltam-se contra este "Tea Act" de 1773, no movimento que ficou conhecido como a "Boston Tea-Party". Colonos americanos disfarçados de índios, liderados por Samuel Adams, lançaram ao mar a carga de três navios ingleses. Os ingleses, por seu turno, responderam com os "Intolerable Acts" (assim chamados pelos próprios colonos) de 1774.

Isto é, em vez de cederem às pretensões coloniais e negociarem com os americanos, os britânicos vão: ordenar que as autoridades coloniais e as suas assembleias legislativas sejam fechadas e que não se processem mais reuniões até os representantes da Coroa darem permissão; implementar o "Boston Port Act" que determinou o encerramento daquele porto a qualquer navio mercante, cortando assim todo o seu comércio marítimo; proibir o povo da colônia de Massachusetts de organizar reuniões sem o consentimento do governador da colônia.

A resposta dos americanos a estas medidas britânicas foi a realização em setembro de 1774 do primeiro Congresso Continental, em Filadélfia, com representantes de todas as colônias americanas, à exceção da Geórgia. O Congresso aprovou uma declaração dos direitos dos colonos e dos abusos de que eles tinham vindo a ser vítimas por parte dos ingleses.

Esta declaração anunciava já que apenas os colonos e as suas instâncias governativas locais tinham poder para estabelecer impostos sobre si próprios e para fazer leis para o seu próprio governo. Os colonos deviam ter o direito de se reunir pacificamente, o direito de enviar petições e protestos ao governo inglês, o direito de viverem sem a presença de um exército inglês permanente em tempo de paz. Mais ainda, os delegados decidiram impor um boicote aos produtos ingleses e não importar ou consumir bens e produtos ingleses até que os "Intolerable Acts" fossem revogados.

REVOLUÇÃO AMERICANA - PARTE I

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Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESCARTES E A MACONHA – PARTE IV

“o tabagismo na Holanda se disseminava, então é de se concluir que Descartes experimentou o tabaco”

Frédéric Pàges continua seu périplo para pesquisar sobre a estadia de Descartes na Holanda, e em sua tentativa de refutar a tese canábica de Tobie, no que descobre que o tabaco havia chegado na Holanda ao fim do século XVI, pouco antes da ida de Descartes para o país, e nas palavras de Pàges, em relação ao retorno de Descartes para a Holanda : “Em 1628, quando volta, ele encontra um país enfumaçado”.

Segundo Pàges : “Os Holandeses se tornaram os especialistas do tabaco na Europa. Fizeram dele um comércio, fumavam-no intensamente, até mastigavam-no. Além das escarradeiras, fabricavam cachimbos renomados, e, no fim dos anos 1630, conseguiram aclimatar em seu país, nos campos de Amersfoort em particular, a erva de Nicot”.

E segue : “Voltemos a Descartes. Ele viu uma população se entregar com furor e deleite a uma erva que apavorava, em toda a Europa, os poderes públicos. Na Inglaterra, o consumo de tabaco foi severamente reprimido pelo rei James I. Na Rússia, o czar mandou decapitar os fumantes. Na França, um decreto de 1629 proibia que os fumantes se reunissem em lugares públicos. Na Holanda, os calvinistas denunciaram a erva do diabo, o que não impedia que alguns deles a comercializassem”.

Contudo, o tabagismo na Holanda se disseminava, então é de se concluir que Descartes experimentou o tabaco, o que Pàges coloca ironicamente como : “Daí a imaginar que, no lugar do “Grande Livro do Mundo”, Descartes partiu para descobrir o grande Herbário da Europa ...”. A respeito das tabernas, Pàges descobre que Descartes frequentou o Bogt van Gune (Golfo da Guiné).

E Pàges volta a falar de Tobie : “Era nesse tipo de taberna, segundo Tobie, que Descartes havia encontrado uma certa Helenja. Em todo caso, meu provocador conhecia esse “Golfo da Guiné”, pois tinha dado o mesmo nome ao seu “coffee shop” de Amsterdã”.

Em relação a Helenja, Pàges se remete ao relato de Alexandre Astruc, em seu Le Roman de Descartes, no que temos : “Em Amsterdã, onde reside, Descartes (...) tem junto dele uma empregada, jovem holandesa de Deventer, uma bela moça loira de vinte anos, alegre como todas as holandesas, Helenja Jans (Helenja, filha de João). O filósofo a via ir e vir dentro de sua morada”. Contudo, foi ficção, em parte, o que Pàges descobre é que houve uma Helenja de 39 anos, nascida em Deventer.

Pàges afirma que Descartes amava as mulheres, e diz : “A respeito do instinto que nos leva “ao gozo das volúpias corporais”, ele diz (que) “não deve ser sempre seguido” ... Não sempre ... Somente algumas vezes ... Por exemplo, naquela noite de 15 de outubro de 1634, na qual sabemos por uma confidência de Descartes a Mersenne que ele fez um filho em Helenja”.

Pàges segue : “Em 19 de julho de 1635, foi batizada na igreja luterana de Deventer uma pequena “Francintge”, filha de Helenja Jans e Reyner Joachems (Renato filho de Joaquim). Francine ou literalmente Francinette, que nome cheio de significado! ... Homenagem ao solo natal! São nos pequenos detalhes como esse que vemos se somos franceses ou não. Esse nascimento encantou nosso quarentão. Com sua pequena família, ele se instalou em Santpoort, numa casa com um grande quintal”.

No relato de Pàges, esta menina morreu com cinco anos, e depois não se sabe do paradeiro de Helenja. Diante do questionamento de Voetius, Pàges nos relata : “Mas esse concubinato com uma empregada (alguns dizem que houve casamento) foi assumido orgulhosamente por Descartes quando Voetius o acusou de fazer filhos naturais. Ao que Descartes respondeu com uma larga e honrosa expressão em latim : “Nuper juvenis fui” ... (“Não faz muito tempo que eu era jovem”). E continua : “et nunc adhuc homo sum.” (“e hoje ainda sou homem.”) ... E faço o que eu quiser ...”.

Pàges então enumera os amigos de Descartes : “entre os amigos franceses que vieram ver nosso “Reyner Joachems” na Holanda, encontravam-se personagens duvidosos. O primeiro da lista, o amigo íntimo, é Claude Picot, libertino radical, conhecido em Paris por sua vida de devassidão, entretanto capaz de traduzir em francês os Principia do filósofo”.

Pàges então cita novamente Tobie, e enumera mais dois amigos de Descartes : “Descartes tinha um cachorro que se chamava Monsieur Grat. O cachorro de Tobie! Decididamente, o dono do Bogt van Gune conhecia bem a biografia de Descartes ... Mas continuemos a lista. Outro amigo próximo : um chamado Touchelaye, “apesar de abade, um devasso desleixado e indelicado”, nos informa René Pintard. Enfim, um certo Des Barreaux, “senhor incontestado da gula e um crápula””, que Pàges situa como autor de um poema-manifesto que, segundo ele, “não deve ter desagradado Descartes”.

(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/descartes-e-a-maconha-parte-iv 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

EDWIN SHNEIDMAN, O PAI DA SUICIDOLOGIA

“Shneidman vai além dos famigerados marcadores biológicos, e centraliza o foco do suicídio como um fator de fracasso da sociedade”

Edwin Shneidman nasceu em York, em 1918, e morreu em Los Angeles, em 2009. Este estudioso, que é considerado por muitos como o pai ou o fundador da Suicidologia, foi um psicólogo de formação, e como um dos expoentes principais na investigação intelectual e empírica na área do suicídio e da tanatologia, trouxe muitas contribuições em caráter pioneiro que culminou nas ações preventivas contra o ato suicida.

Shneidman foi um dos pioneiros do Centro de Prevenção do Suicídio de Los Angeles e da Associação Americana de Suicidologia, foi professor na Universidade da Califórnia,  e ajudou na fundação da revista “Suicide and Life-Threatening Behavior”. As obras principais de Shneidman são : “The definition of suicide”, de 1985, “Suicide as psychache”, de 1993, e “The suicidal mind”, de 1996.

Shneidman partiu para as suas investigações sobre o fenômeno do suicídio tendo como uma das inspirações as teorias da personalidade de Henry Murray, e Shneidman então consolidou a concepção de que o suicídio seria o resultado final da confluência de um máximo de dor, um máximo de perturbação e um máximo de pressão, uma espécie de modelo cúbico que ficou conhecido como o “cubo suicida de Shneidman”.

Neste cubo as variáveis podem aumentar ou diminuir a sua força, o que leva a especificar do que se trata tais variáveis. Ou seja, quando Shneidman se refere à dor, ele fala deste tipo de dor psicológica, que se refere à frustração pela falta das necessidades básicas psicológicas, e que se constitui como o fator central do fenômeno suicida.

No que se refere à concepção sobre a perturbação, esta engloba todo tipo de distúrbio, que podem ser exemplificadas pelas distorções cognitivas e as auto-mutilações. A concepção sobre a pressão se refere ao que está fora e dentro do indivíduo, que está relacionado às vivências e aos acontecimentos da vida do indivíduo.

Shneidman coloca a intencionalidade do suicida em três aspectos que são a morte intencional, que implica num protagonismo consciente do suicida, um ato deliberado de se matar, temos a morte não intencional, em que pode ocorrer uma morte auto-infligida, mas em caráter acidental, como o disparo de uma arma de fogo de modo involuntário, temos também, por fim, a morte subintencional, com um protagonismo indireto ou inconsciente do indivíduo, como ocorre, por exemplo, num acidente automobilístico violento.

As 10 características mais comuns aos suicidas, na classificação de Shneidman, tem definições como : Propósito – procura de solução, Objetivo – parar a consciência, Estímulo – dor psicológica intolerável, Stress – frustração pela falta das necessidades psicológicas, Emoção – desespero-desesperança, Estado cognitivo – ambivalência, Estado perceptivo – constrição, Ação – fuga, Ato interpessoal – comunicação de intenção, Consistência – de acordo com estratégias de “coping” mal adaptativas do passado.

Shneidman reúne os elementos que podem contribuir para o ato suicida, e que é seu ensaio de um cenário suicida explicativo, que coloca então o sentimento de dor intolerável, que se refere a necessidades psicológicas básicas que foram frustradas e não realizadas, as atitudes de auto-depreciação, baixa auto-estima, que denotam uma auto-imagem que sucumbe ao não suportar uma dor psicológica intensa e profunda.

Ainda temos a incapacidade do indivíduo de dar conta de sua vida prática, de suas tarefas diárias, também incluindo a sensação de isolamento, e o desespero e a desesperança, em que o individuo já não vê o que fazer para sair de sua situação difícil, ainda temos a fuga, em que a cessação da existência é o que resta como solução para uma dor intolerável.

Em 1987, Shneidman escreve : “ No Ocidente, o suicídio é um ato consciente de auto-aniquilação, melhor compreendido como uma doença multidimensional num indivíduo carente que acredita ser o suicídio a melhor solução para resolver um problema”.

Em 1996, por sua vez, Shneidman vai além dos famigerados marcadores biológicos, e centraliza o foco do suicídio como um fator de fracasso da sociedade. Em 2001, ele afirma : “ O suicídio é um drama da mente … quase sempre relacionado com a dor psicológica, a dor das emoções negativas”.

Shneidman estará também na elaboração do que será chamado de autópsias psicológicas, uma metodologia de investigação empírica sobre casos de suicídio. Este termo surgiu então em 1958, autópsia psicológica do suicídio se ligando ao esclarecimento de mortes após a realização da autópsia médico-legal, numa colaboração entre médicos-legistas e a Psiquiatria e a Saúde Mental.

Saindo de Los Angeles para o mundo, esta metodologia de investigação reuniu dados mundiais que nos trouxeram a realidade de, nos referindo a estudos que envolveram milhares de suicidas, a existência de patologia psiquiátrica em cerca de 90% dos casos e depressão em mais de 50% dos suicídios.

No que se refere ao cuidado da família dos suicidas, a intervenção de Shneidman foi designada pelo próprio como “pósvenção”, que é, então, a intervenção específica sobre os familiares e amigos do suicida, sobretudo no auxílio aos processos de luto, no direcionamento de sua resolução.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-pai-da-suicidologia

 

 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

MARÍLIA GARCIA NO CONTEXTO DA POESIA CONTEMPORÂNEA

“a ideia de “corrente literária” se dilui neste novo milênio como uma diversidade de tendências”

No início dos anos 2000 a poesia brasileira ampliou a sua voz numa miríade dialógica que é reflexo direto de um mundo em que há mais informação circulando e um acesso inaudito às fontes diversas da cultura.

Esta amplitude em poesia nos coloca numa perspectiva nova em que a ideia de “corrente literária” se dilui neste novo milênio como uma diversidade de tendências e a operação linguística destas influências se direcionando para uma complexidade e uma ambiguidade em sua possível definição. Isto é, cada poeta pode nos aparecer com uma personalidade própria.

Por conseguinte, neste novo milênio surgiram novas propostas poéticas que juntam referências nacionais e internacionais, em que podem aparecer novas vozes poéticas como as de Angélica de Freitas e Ricardo Domeneck.

Temos também poetas que transitam entre a academia e as publicações independentes, como Annita Costa Malufe e Marcos Siscar, que trouxeram referências diversas da atualidade, muito se devendo aos exercícios de tradução e de pesquisa teórica.

Nesta amplitude toda, não temos apenas a referência de uma pesquisa sobre atualidades, mas um cabedal de influências que remontam ao passado, reconstituindo este passado, seus cânones, por exemplo, com nomes que haviam sido ofuscados em sua própria época ganhando uma nova leitura e um novo status na poesia como um todo.

Aqui, nesta nova poesia dos anos 2000 em diante, se abrem estratégias e abordagens poéticas bem abertas em suas possibilidades. As referências aqui, portanto, são amplas no tempo e na geografia, envolvendo tempos diversos e países diversos nesta pesquisa poética contemporânea.

Marília Garcia, neste novo contexto poético, produz um material com uma voz poética híbrida, na qual se mesclam a coloquialidade e experimentos de linguagens, em camadas sobrepostas. A poesia de Marília flui neste estilo complexo de composição, com temas e termos que vão e retornam. Leit-motivs e temas-valise, obsessões de escritores, aqui em Marília como produto de sua pesquisa e de sua feitura dos poemas.

Tentar desvendar o que está oculto na banalidade do mundo objetivo pode ser este sentido procurado em Câmera Lenta, este livro que sugere a ideia de câmera, um objeto que possui uma lente que substitui a experiência direta da visão, um mundo sensorial que aqui se acopla a um artefato, e temos a experiência da realidade aqui mediada pelos artifícios.

Entender a poesia como uma espécie de resgate da percepção humana não impede de colocar esta linguagem, a poesia, em seu próprio questionamento, se confrontando com seu estatuto, e a câmera de Marília tenta captar como artefato um modelo de poesia que faz a mediação entre o sensorial e o mundo artificial.

Tendo a ideia de velocidade, obsessão de vanguardas do início do século XX, como o Futurismo, por exemplo, esta aparece em Marília Garcia se ligando com meios de transporte como  aviões, helicópteros, trens, automóveis, caminhões, marcando toda a construção da voz poética produzida em Câmera Lenta.

O deslocamento que evoca a ideia de velocidade e, talvez, de instantaneidade, marca toda uma literatura que veio após a Revolução Industrial, e neste livro Câmera Lenta da poeta Marília Garcia, os meios de transporte são os representantes deste novo mundo tecnológico e veloz, com todas as ameaças que isto acarreta, como ruídos ensurdecedores, acidentes e terrorismo.

Temos toda uma gama de operações de perigo iminente e uso deste conhecimento para a guerra, por exemplo. O que no Futurismo, como citei, era motivo de glória, a velocidade e a guerra, numa espécie de visão pré-fascista, a velocidade aparece aqui em Marília Garcia, com seus artefatos, como meio de percepção em Câmera Lenta, em seus poemas experimentais e coloquiais, ao mesmo tempo.

POEMAS :

DESCREVA : LONGILÍNEA : Este poema começa a sua descrição, a escrita é complexa e opera mediante colocações que não definem, abrem um campo de especulação em aberto, no que temos : “de lá, ele diz que um cataclismo é algo/que pode ser estendido/indefinidamente” (...) “escreva isso, descreva,/ele diz e eu só penso/em como dobrar a/esquina sem cair,/em como seguir pela beira/num lugar sem parede, num lugar em que/a pergunta certa deveria ser :/você tem tempo?”. A ideia da parede, o tempo, uma confrontação entre a ideia de lugar, de limitação, e a descrição como esta tentativa do poema de captar algo, e logo vem o flerte de Marília Garcia com meios de transporte, o avião, aqui, no que vem : “tomar o avião à noite/numa cidade em que noite/significa apenas/noite./e depois?/descreva escuro, ele diz.”. Novamente o confronto com o tempo e todas as suas demandas, no que temos : “dias dias dias,/um depois do outro e você tem sempre que/recomeçar. naquele dia, acordei/com o som dos helicópteros/e li uma frase :/há um ano ela olhava o mar desta janela/aqui os sons da fala/se intercalam com/os helicópteros/mas ele não diz nada,/só escreve :/descreva isso agora”. O imperativo da descrição é o desafio da coda e de todo o poema.

DESCREVA : PAREDE : O poema parte da parede, de sua composição, e segue rumo à lataria do avião, o cinzento, o mundo moderno, no que temos : “queria falar da parede/neste lugar./descreva, ele diz,/escreva sobre como foi/chegar ali –/mas antes de chegar tinha o cimento/e o cinzento da lataria do avião.”. A altura, o avião e o que ele evoca, esta sensação de estar no alto, no que temos : “o pior de estar no alto é ver os reflexos/luminosos no aço/“acabamos de atravessar/10 mil pés de altura””. A ideia de dirigir e sua descrição, no que vem : “dirigir é sempre perigoso/por causa dos bichos que atravessam correndo/que atravessam os anos que vão passando/que atravessam esse estado de sítio/descreva, ele diz,/escreva o que aconteceu/com a gente.”. O mundo moderno, aqui para a poeta como sensação futurista, no que temos : “- já reparou que as cidades são velhas/ou futuristas?/estou no 20° andar de um prédio/que dá para uma antena.” (...) “quando cheguei, pensei que fosse um ano/no futuro com tantos arranha-céus/prateados jogando luzes por todo/canto, mas a cidade é baixa por causa/dos terremotos, é cheia de ruínas/e construções de pedra vermelha,/todas as paredes de um tom/avermelhado, vermelho-escuro/e fechado.” (...) “o fechamento/- não são tijolos,/são pedras de origem vulcânica./tezontle.”. A ideia toda de modernidade e de seus materiais, tudo o que compõe matéria destes artefatos e construções, o poema que lida com esta objetividade descritiva, o trabalho aqui da voz poética de Marília Garcia em sua reflexão e miríade de sensações.

TERREMOTO : O  terremoto aqui no poema tem seu caráter tectônico, mas também perturba a sensação do tempo, no que temos : “um terremoto replicando/por vários dias,/à noite as luzes de néon paradas/e, na manhã seguinte,/a tremedeira outra vez./você pensa que o futuro/ainda não chegou, mas/de repente o terremoto/replicando faz tremer a língua/os dentes e tudo o que é/matéria.”. O terremoto como transformação radical : “era como um país virando mar/um terremoto replicando/sem parar.”. O poema entra num circuito especulativo e de imagens bizarras, no que temos : “como conciliar o/inconciliável?, pergunto/no momento de/maior/desligamento e/ele responde :/- agora o seu wasabi/tem radioatividade.” (...) “de um verde quase prata,/era como a luz batendo no mar/bem na hora em que o chão –/e tudo recomeça.”. Ao fim, este poema lida com sua inconclusão, o imponderável é seu terremoto, no que temos : “quero pedir/silêncio, mas não sei lidar/com o imponderável./um dia acordo/e não espero/mais resposta.”.

AQUI COMEÇA O LOOP : O poema flerta aqui com a imagem bizarra que abre sua ideia, no que vem : “para ver no escuro,/uma mulher injetou nos olhos/um colírio feito da mesma substância/que existe nos olhos dos peixes/que moram no fundo do mar.”. A imagem de ver na escuridão e tudo o que isto implica, no que temos : “no dia 1,/ela disse :/“aqui começa o loop”/e aquele era o começo.”. O loop, que intitula o poema, e esta ideia de começo e recomeço, no que vem : “no dia 2,/veio à casa uma jovem./olhou as geringonças no escuro/e disse :/noite americana./eu perguntei : o quê?/“eu tinha quatro anos/e a guerra tinha acabado de começar””. Se sucedem os dias em estrofes, e a ideia de começo que reverbera, em seu loop, recomeço, no que vem : “no dia 3,/estou sentada num trem/e penso : como se começa uma conversa/com alguém?” (...) “no dia 4,/leio :/“o estômago dos polvos/é assombroso”/esse era um dos começos/e eu me lembro do fundo do mar.”. A sucessão, a repetição, e o que vem depois, no que temos : “ele me diz :/“coisas acontecem depois”/e era uma espécie de deixa./você pensa que é como/o fim da linha, como chegar atrasado/sem saber o que fazer para consertar/o engano./alguma coisa acontecerá depois,/mas por enquanto/sabe que acabou./precisa fazer as malas, cruzar/o mapa para voltar./precisa se lembrar das regras :/não pular as etapas e seguir os fatos/numa sequência ordenada.”. A sabedoria da sucessão no tempo e suas etapas, sua sequência natural, sem pular ou fazer movimentos desordenados, a ordem do tempo em sua impassível sucessão que todos obedecem sem saber, uma espécie de entidade onisciente, o tempo que tudo sabe e que dá a sequência de seu movimento impassível, e nós lhe somos os devedores de suas lições, e o poema se encerra : “você morde a cabeça do violão com força :/os dentes na madeira/ressoam e o corpo/é continuação do som,/a caixa craniana vibra/com o movimento/e chega-se ao fim/pelo contato.”.

POEMAS :

 

DESCREVA : LONGILÍNEA

 

de lá, ele diz que um cataclismo é algo

que pode ser estendido

indefinidamente. e de repente

estou num lugar

que se escreve

com s.

 

escreva isso, descreva,

ele diz e eu só penso

em como dobrar a

esquina sem cair,

                           em como seguir pela beira

num lugar sem parede, num lugar em que

a pergunta certa deveria ser :

você tem tempo?

 

tomar o avião à noite

numa cidade em que noite

significa apenas

noite.

e depois?

descreva          escuro, ele diz.

nessa língua tudo poderia

ser escuro ou vacilar.

dias dias dias,

 

um depois do outro e você tem sempre que

recomeçar. naquele dia, acordei

com o som dos helicópteros

e li uma frase :

há um ano ela olhava o mar desta janela

aqui os sons da fala

se intercalam com

os helicópteros

(mas ele não diz nada,

só escreve :

descreva isso agora).

 

DESCREVA : PAREDE

 

queria falar da parede

neste lugar.

descreva, ele diz,

escreva sobre como foi

chegar ali –

                       mas antes de chegar tinha o cimento

e o cinzento da lataria do avião.

não posso entrar nesta máquina que

parece trem de carga e que lembra

a guerra.

 

o pior de estar no alto é ver os reflexos

luminosos no aço

“acabamos de atravessar

10 mil pés de altura”,

ouve o piloto dizer e não sabe

quais são os sinais.

chegamos à metade do caminho

e talvez já possa parar de

respirar, pensa.

eles jogam sal na rua

ouve a senhora ao lado dizer

para andar sobre a neve

 

dirigir é sempre perigoso

por causa dos bichos que atravessam correndo

que atravessam os anos que vão passando

que atravessam esse estado de sítio

 

                                               descreva, ele diz,

escreva o que aconteceu

com a gente.

 

- já reparou que as cidades são velhas

ou futuristas?

estou no 20° andar de um prédio

que dá para uma antena.

quando cheguei, pensei que fosse um ano

no futuro com tantos arranha-céus

prateados jogando luzes por todo

canto, mas a cidade é baixa por causa

dos terremotos, é cheia de ruínas

e construções de pedra vermelha,

todas as paredes de um tom

avermelhado, vermelho-escuro

e fechado.

- você quis dizer “tijolos”?

ele pergunta quando

tento explicar o que são

paredes vermelhas determinando

o fechamento

                            - não são tijolos,

são pedras de origem vulcânica.

tezontle.

 

TERREMOTO

 

um terremoto replicando

por vários dias,

à noite as luzes de néon paradas

e, na manhã seguinte,

a tremedeira outra vez.

você pensa que o futuro

ainda não chegou, mas

de repente o terremoto

replicando faz tremer a língua

os dentes e tudo o que é

matéria.

 

por mais que use palmas

para cobrir os ouvidos,

a ternura – o que você quer dizer? –

aliás, a tremura chega

arrastando tudo.

era como um país virando mar

um terremoto replicando

sem parar. se as réplicas consistem

em tremedeiras, e se uma língua é desenhada

fora das linhas,

como conciliar o

inconciliável?, pergunto

no momento de maior

 

desligamento e

ele responde :

- agora o seu wasabi

tem radioatividade.

essa cor brilhante,

de um verde quase prata,

era como a luz batendo no mar

bem na hora em que o chão –

e tudo recomeça.

 

quero pedir

silêncio, mas não sei lidar

com o imponderável.

um dia acordo

e não espero

mais resposta.

 

AQUI COMEÇA O LOOP

 

para ver no escuro,

uma mulher injetou nos olhos

um colírio feito da mesma substância

que existe nos olhos dos peixes

que moram no fundo do mar.

 

no dia 1,

ela disse :

“aqui começa o loop”

e aquele era o começo.

ficava no escuro            sublinhando as palavras

em vermelho

e recortando os começos.

o primeiro era este :

“aqui começa o loop”

 

no dia 2,

veio à casa uma jovem.

olhou as geringonças no escuro

e disse :                                   noite americana.

eu perguntei : o quê?

“eu tinha quatro anos

e a guerra tinha acabado de começar”

 

no dia 3,

estou sentada num trem

e penso : como se começa uma conversa

com alguém?

estava nisso quando ele disse

de qual terminal sai o seu voo?

e eu perguntei : o quê? 

 

no dia 4,

leio :

“o estômago dos polvos                  é assombroso”

esse era um dos começos

e eu me lembro do fundo do mar.

você sabia que as baleias

se comunicam por

ultrassons?

- mas e os olhos? você lembra

dos olhos das baleias?

voltemos, por favor,                     agora

voltemos lentamente

para o começo :

 

para ver no escuro

uma mulher injetou nos olhos

um colírio feito da mesma substância

que existe nos olhos dos peixes que moram

no fundo do mar.

 

aqui já passamos da metade

e estamos

 

quase no fim.

os dedos seguem as teclas no mesmo ritmo

mecânico, seguem o fio

sem voltar atrás :

 

um dia,

ele me diz :

“coisas acontecem depois”

e era uma espécie de deixa.

você pensa que é como

o fim da linha, como chegar atrasado

sem saber o que fazer para consertar

o engano.

                       alguma coisa acontecerá depois,

mas por enquanto

sabe que acabou.

precisa fazer as malas, cruzar

o mapa para voltar.

precisa se lembrar das regras :

não pular as etapas e seguir os fatos

numa sequência ordenada.

 

no último dia,

lê as instruções em voz

alta :

                              “o som só pode existir se ele ressoa

com um certo corpo”.

você morde a cabeça do violão com força :

os dentes na madeira

ressoam e o corpo

 

é continuação do som,

a caixa craniana vibra

com o movimento

e chega-se ao fim

pelo contato.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/marilia-garcia-no-contexto-da-poesia-contemporanea