PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 10 de abril de 2023

CAMINHOS DA SABEDORIA

Sente o vento na face 

em que o sol doura

na plêiade poética.

Com um cartaz

está o desenho 

que se vende

como uma turnê ácida.


O que está mais perto do coração?

Perguntava a cotovia no vento

que bailava entre as folhas.

O coração está perto da esperança,

que mora na coragem,

disse a águia.


E o vento se deliciava de contemplação

nos planos de Deus e nos cânticos

dos anjos que flutuavam na abóbada.


Vem meu coração, vem minha esperança,

sortida de coragem e de fortaleza,

em que a poesia vê seu sol

como meta e horizonte.


O que mais quer o coração?

Perguntou o bem-te-vi.

No que a patativa logo disse : 

O coração ama

e não sofre 

quando

sabe

viver.


Depois restou 

ao mar ver 

seu albatroz

mergulhar,

e finda

estava

a jornada

do poeta.


10/04/2023 - Gustavo Bastos 


segunda-feira, 3 de abril de 2023

ARTE DE VIVER

É como está no coração do mundo

o que você fez e não fez, 

tudo o que foi produzido

foi inscrito na pedra,

não antes e nem depois,

foi na hora do estalo,

em que o pensamento

com seu corpo executa,

e a retina lacrimosa

registra sua própria 

vida na arte de viver.


03/04/2023 Gustavo Bastos 


A CARTA DAS ORIGENS

Foi encontrada a carta das origens, 

no fundo do mar, em uma garrafa

de vinho, num navio naufragado,

em que os desígnios eram definidos

de modo ontológico e teológico :  

“Está feito o mundo,

pulsa a natureza 

como esta nave

guiada por Deus

e sua emanação,

o ser e seus atributos,

por sua vez, os modos

e as categorias inumeráveis,

a processão dos seres todos,

seus acidentes lutando

como acasos, as necessidades

fundando fatalidades,

e o jogo de contradições,

querelas, universais

em contrapontos

particulares e singulares,

e o hino divino

dos pássaros, 

a senda dos peixes,

a colheita dos víveres,

a plenitude do caminho

virtuoso, a temperança

na qual a coragem se

agiganta em sabedoria,

e a prudência cuja

fortaleza é sua precisão.

Por fim, a justiça em que 

tudo se equilibra,

os desejos interiores

e os desígnios sobrenaturais,

em que se sucede

a beleza da vida, 

e o poeta, levado

de roldão pela admiração,

pelo espanto, é o 

esteta que flutua

nesta nuvem, e que 

vive nesta terra

vasta de finitude

e infinito, de morrer

e de ressurgir

na glória espiritual

da eternidade”.


03/04/2023 Gustavo Bastos 


quinta-feira, 30 de março de 2023

LAPIDAÇÃO

Para se lapidar a pedra bruta,

em que o diamante, a escultura,

e toda uma gama de dons

se tenha urdido,

é necessário o trabalho

paciente de burilar,

constantemente,

dom e talento,

sobretudo vocação,

para o intento

da arte suprema,

realizada,

plena.


Quando este poema nasce,

ele reflete o trabalho

de seu dom, mas ao fim

se consolida em vocação.

 

Um ouro veraz,

em que a prata

brilhante lustra

todo este dossel

de flor botânica

e as asas de vento

que versa cintila

estrela lua sol

na vida a vívida

visão de seu

próprio horizonte.


30/03/2023 Gustavo Bastos 


BOLACHAS DE BORRACHA

O biscoiteiro foi passear, 

vocação de aparição,

na foto pousa a papagaiar.


Festa fica que nem arroz,

bota uma beca afetada,

sorriso na foto de carona.


Biscoiteiro vive de 

holofote efêmero.

O biscoito tem pouca

valia, se morde

e acaba rápido.

O flash é veloz.


Vai a vida de biscoiteiro,

catar pedaços de fama

sem com o que se trabalhar.

Querendo biscoito a torto

e a direito, é um robert

que a imprensa

até hoje ignora

… ou esqueceu.


30/03/2023 Gustavo Bastos 


JORNADA LOUCA

Um cavalo e sua cavalaria

a dar coices, para ridicularizar

a burguesia, uma trupe de doidões,

aquele aroma de haxixe,

a montar, na praça,

o anfiteatro, uma peça

de Molière, detonando

os costumes, na verdade, 

uma adaptação tosca,

com garrafas de vinho,

mesas com comida,

cigarros acesos,

um acrobata

en passant,

e o ator principal

tossindo, bebendo

e cuspindo.


Vai toda a trupe,

um cavalo empina

no proscênio,

deram o nome dele

de Jaime, e uma égua

prenha também veio,

de nome Fátima,

uma atriz toda louca,

viciada em bolinha,

declamava um último

poema, depois de Apollinaire,

um E.E.Cummings


e findo a onomatopeia

o poema bobo

escarrado

a borbulhar

na panela

cheia de ácido

lisérgico,

ventos bons

me trazem, 

me levam, 

me conduzem,

minha amada

é foda.


30/03/2023 Gustavo Bastos 


GODOT REGURGITADO

A ânsia do idiota e de sua patota

é uma comédia montada,

um godot dos outros

é o que anelava

sem astúcia

a patota e

o idiota.


Vamos lá, que este poema

não saberá rimar para ti,

nem como patota,

nem como idiota.


O anelo implode

numa ânsia explodida,

já se sabe de antemão,

gestos pré-fabricados,

um chiste apático,

uma gag involuntária.


E se tem o resto fétido 

de tentar gritar,

mas nunca se ouve,

mas não se tem 

em conta, tampouco,

vagas espatifadas

de idiotas e suas 

patotas.


Eis a gentinha

que dorme sem norte,

a esperar de godot

a mesma languidez

de um anelo do nada

e do vazio, tão ridículo,

tão atormentado,

tão derrotado.


30/03/2023 Gustavo Bastos