PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

SÉCULO DO TERROR

Foi assim o terror da meia-noite

em que a espada de Átila ceifou

a vida dissipada, de carteados

romanis, de festões, de túnicas

folgazãs, e o santuário embebido

em vinho de odres rabiscados.


Já vai toda a turba ao 

Campo de Marte,

com os ritos de que Júpiter 

brotava como o senhorio

das centúrias que 

avultavam com cânticos

herdados dos espartanos.


Tais os temidos lacedemônios

de invasão dórica,

como se matassem

hilotas ao fio

da espada,

hunos eram 

da ira os

heróis. 


06/02/2023 Gustavo Bastos 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ODE DA BESTA-FERA

Alvo preferencial,

o poema bica

tua cara de bobo,

dá pontada

que nem faca

na sevícia

dos idiotas,

como um pastelão,

uma mixórdia 

de barafunda,

uma azáfama

de burburinho,

não doura

a pílula,

cospe 

fogo.


03/02/2023 Gustavo Bastos 


CHARQUEADA

Brota a vinha do paraíso,

com meu chope e desdém

na nuvem de fogo,

abrir o céu com espada

e a fome bruta

que voa paramentada,

da grei o loa das seitas,

e a alma mundi 

que toda a lida

estorva, tonitruante,

à rés-do-chão,

e arranca as toras,

numa maçada

de fogueira

e carne.


03/02/2023 Gustavo Bastos


ASAS DO ARCHOTE

No verbete se encontra o fulcro

da filologia, na poesia a metonímia

se esboroa em canto ácido,

os corpos derretem

na imaginação que arde.


As asas sonham voar,

o voo sonha as suas asas.


Cada pássaro é este poema

e seu estro, desta doida vida

que faz e refaz caminhos,

do amor estourado

que queima

sua chama.


O vate, bardo, rapsodo,

da ode o primor

do metro de trova.


Tonteia a armada,

o ferro e o aço,

de chumbo a mão 

forte esmurra

a lida bruta.


Eis do poema

sua força

e seu voo,

pois peleja

e voa,

bate, rebate,

e ama.


03/02/2023 Gustavo Bastos 


CORAÇÃO FELIZ

Perto do coração feliz pulsa a flora 

e o vigor da dança,


espero a este canto de esperança

ter elencado, sem mazelas,

o idílio e minha doce

profanação.


As flores rezam na chuva,

do orvalho a plena pena

se faz verso.


Tiram-se as tenazes 

dos braços,

e o corpo baila

ao profundo.


03/02/2023 Gustavo Bastos 


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A MINUTA DO GOLPE

“Para referendar o dia do caçador, Anderson Torres está preso”


A minuta do golpe que foi encontrada no apartamento do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres, do governo de Jair Bolsonaro, agora ex-presidente da República, é mais um fato que vem se somar à miríade de tentativas tanto de contestar o resultado das eleições presidenciais de 2022, como de servir para um balão de ensaio de golpe e anulação deste resultado.

A sanha golpista do que representou o governo de Jair Bolsonaro e de uma parte intervencionista do espectro do bolsonarismo, e que culminou na conspirata da depredação dos Três Poderes no fatídico 8 de janeiro de 2023 em Brasília, tem nesta minuta mais uma prova de que foram ensaiadas diversas saídas para negar a derrota eleitoral e virar a mesa.

E na dinâmica do dia da caça e do caçador, esta caçada insana por uma saída inconstitucional foi pega em flagrante. A minuta era um rascunho para um decreto de golpe, indo de encontro ao Artigo 2 º da Constituição Federal sobre a independência dos poderes. A redação da minuta seguia todos os quesitos de um texto jurídico e fundamentado, porém, na forma, pois o conteúdo era escandaloso, e obviamente inconstitucional.  O documento, portanto, foi elaborado por juristas, mas com intenções de burlar a Carta Magna.

A independência entre os Três Poderes foi algo referendado desde a obra de Montesquieu, um dos pilares do Iluminismo,  na Teoria da Separação dos Poderes, que é o Sistema de Freios e Contrapesos, na obra O Espírito das Leis, que se seguiu a elaborações embrionárias com fontes na Política de Aristóteles e no Segundo Tratado do Governo Civil, de John Locke. O Espírito das Leis, por sua vez, circulou primeiramente no período da Revolução Francesa.

A minuta do decreto, golpista, visava a instauração do estado de defesa na sede do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com o objetivo de mudar o resultado das eleições de 2022. O estado de defesa, previsto no artigo 136 da Constituição Federal, é um mecanismo de restabelecimento da ordem pública em casos de calamidades naturais e de instabilidade institucional, o que na minuta não demonstra fundamentação, portanto, está no terreno da inconstitucionalidade. Para ficar mais claro, a pretensão da minuta, em seu conteúdo, era uma tentativa de imputar abuso de poder, suspeição e medidas ilegais ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na condução das últimas eleições no Brasil. 

Agora os investigadores da Polícia Federal recebem informações de que a minuta do decreto circulou por mensagens de celular entre assessores do então presidente Jair Bolsonaro, já com o fito de uma intervenção na Justiça Eleitoral, e também circulou entre membros do comitê da reeleição. Tal informação é importante para entender a atuação do ex-secretário da Segurança Pública do Distrito Federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública no final do governo de Jair Bolsonaro, Anderson Torres. 

A tentativa da Polícia Federal agora é de acessar dados do celular de Anderson  Torres que estejam disponíveis em nuvens de plataformas digitais. Anderson Torres não trouxe o seu celular para o Brasil, numa conversa mole de quem tem muito o que explicar na Justiça, pois está tudo à luz do dia.

Por sua vez, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal remetesse uma cópia da minuta do decreto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O material agora é anexado a uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral que tramita contra Bolsonaro na Corte por sua inelegibilidade, já desde o episódio fatídico de seu convescote com embaixadores em julho de 2022, também um pretexto apócrifo e desconjuntado de questionar as urnas eletrônicas. Uma piada diplomática. 

O ministro Benedito Gonçalves, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), portanto, determinou a inclusão da minuta do decreto nesta ação de investigação. Tal anexação da minuta a esta ação foi atendendo a um pedido do PDT, e que pode tornar Jair Bolsonaro inelegível. Agora a trama do golpismo está entrelaçada, pois as ações estão sendo unificadas, juridicamente, como se fosse a melhor documentação da cantilena bolsonarista, o dia da caça se batendo com o dia do caçador. 

Para referendar o dia do caçador, Anderson Torres está preso, e se encontra encalacrado com as consequências de sua ausência do Distrito Federal durante o episódio de vandalismo e tentativa de golpe que ocorreu em 8 de janeiro deste ano, uma obra prima da ignorância, o opus da cantilena bolsonarista que cultua a burrice em todas as suas formas possíveis e impossíveis. Agora à sua via crúcis se adiciona este achado, este artefato, que é a minuta do golpe, que estava em seu apartamento.

Por fim, Benedito Gonçalves, ministro-corregedor da Justiça Eleitoral, recebe uma petição de Bolsonaro que contém uma alegação farsesca tentando a desconsideração da minuta do decreto, a minuta do golpe. O argumento feito para temperamentos ou inteligências do reino mineral não convence, pois mistura a ideia de documento apócrifo, de que a minuta não deixou a residência de Anderson Torres, de que não foi publicado, e de que o rascunho não foi transposto à realidade. Ou seja, argumentos capazes de deixar corada uma rúcula, como vemos. Mas, vai que cola, só que não. A minuta era um balão de ensaio de golpe, e para variar, morreu na praia. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-minuta-do-golpe 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

MEDO E DELÍRIO EM BRASÍLIA

“ o patriotismo perdeu de goleada”


A anomia do fascismo é um desejo de tutela contraditório. Agentes do caos querendo "ordem". A contradição nevrálgica é a falta de senso completo do desespero, do grito irracional, a falácia extremista quando sai da moita (o que ocorre na derrota). Por sua vez, a intervenção federal no DF é decretada por Lula contra os "intervencionistas" que sucumbiram à selvageria. Suprema contradição, sem trocadilho. 

Internacionalmente, como ninguém nasceu ontem, nem a Giorgia Meloni compra esse barulho. A tribo inteira vai deixar esta aberração agonizando na floresta. Mundo real é assim. E seguimos com a conduta inconcebível da segurança do DF (Distrito Federal) com o agora ex-secretário Anderson Torres que terá de se apresentar no Brasil para não entrar na lista da Interpol como foragido.

A república de Orlando agora se instala para não rodar, em meio aos crocodilos e iguanas. Culturalmente, temos as cenas de Palmira, na Síria, feitas pelo Talibã, que tiveram um ensaio cretino no DF (Distrito Federal): Di Cavalcanti retalhado, esculturas destruídas. E sim, isso tem DNA, logomarca, capital simbólico e responsabilidade política : Jair Bolsonaro. O bolsonarismo que manietou a Cultura e a Fundação Palmares. 

A invasão dos Três Poderes é a culminância de uma trama alucinatória que foi sendo cevada progressivamente por fake news, bolhas de WhatsApp e Telegram, e que intentou uma conspirata mambembe que resultou em fracasso retumbante e desmoralização para este pseudo-movimento. 

O culto da ignorância é resultante de um traço de personalidade (caráter) psicopata que inspirou estas falanges. O comportamento abjeto e o exemplo anti-vacina, da falta de decoro, etc. A História ocorrendo da pior forma. Triste. Destruindo-se Di Cavalcanti, Brecheret etc, vemos a manifestação da faceta do ignorante que odeia o que não entende. Ele não sabe que a sua raiva é do que não entende, ele ainda acha que é da obra. 

Por sua vez, a alienação QAnon “alt-right” ganhou terreno fértil no bolsonarismo, um universo paralelo que tem consequências materiais no mundo real. O ponto para suturar a sangria é identificar e punir quem financia. E a cena dantesca : defecar no Congresso é a síntese de que o bolsonarismo é uma merda. E como dizia Ferreira Gullar, o poeta : “Arte não é cocô.”

O clímax ou epítome do que representou a ascensão ao poder executivo brasileiro da figura de Jair Bolsonaro é este tiro pela culatra da ala mais alucinada do bolsonarismo, dos intervencionistas mambembes com um patriotismo de fancaria, destrutivo e autodestrutivo, uma cantilena que começou com a contestação, por parte do ex-presidente, sobre o resultado final das urnas. 

E esta cantilena, ladainha, se tornou estridente, aguda, com a marcha da insensatez, com escolta e tudo, rumo aos três poderes de Brasília, para cenas lamentáveis e revoltantes de vandalismo contra o bem público e patrimônio cultural do Brasil. Uma cena de destruição vestida de verde e amarelo, gritando as palavras Deus, Pátria, Família e Liberdade, e que, traduzidas, dizem o seguinte : “Destruição, Insensatez, Ignorância e Fascismo”.

O culto da ignorância, o desprezo pela cultura, tudo o que causou engulhos durante os últimos quatro anos, veio à tona com o inconformismo diante da derrota eleitoral por parte de pessoas que se perderam numa realidade paralela, histérica, de um chauvinismo insciente, embrutecido, anódino, e que através de um pensamento mágico, tiveram segundos de certeza, dentro de um Supremo devastado, de que tinham atingido o seu intento. Ou seja, se tratou de uma obra de incautos existenciais e cognitivos, e que logo teve a reação institucional à altura, e muitos foram detidos para a triagem dos culpados em Brasília.

A inspiração vinda da invasão do Capitólio nos Estados Unidos é evidente, e o influxo feito pela contestação das urnas também. A selvageria parecia um recreio dos horrores de gente tomada pela desinformação, adultos em surto com a visão infantilizada da realidade como uma questão de intervir de modo rudimentar e amador frente à frustração de uma derrota. Maus perdedores, a infância política de parte do país esteve à luz do dia, com pessoas perdidas na própria cegueira e cultivando absurdos, infâmias, ao mesmo tempo em que se auto intitulavam como patriotas.

Neste caso, o patriotismo perdeu de goleada. Pois, diante do Parlamento destruído, do Poder Executivo destruído, do Supremo destruído, a pátria, a de verdade, regurgitou como nunca antes na História deste país, diante de uma cena constrangedora que ganhou as manchetes internacionais. Sorte nossa, é a de que lá fora se sabia das causas, para a nossa vergonha não ser maior ainda. 

O Brasil está diante da necessidade de uma inflexão forte, de virar esta página triste, infeliz, das consequências da ausência de cultura e da falta de investimentos na educação, e que produzem bestas feras que, tomados de um voluntarismo ensandecido, quebram obras de arte com o fito de “salvar o Brasil”. E esta salvação do Brasil se contrapõe a esta malta bizarra, possessa, e que mancha de cinza um dia em Brasília, todos vestidos de verde e amarelo. 

O que causa revolta, engulhos, desolação, é a cena devastadora deixada para trás nos três poderes, um misto de gastura e choro, e de tentar entender, mais uma vez, que o país tem uma avenida gigantesca pela frente para evoluir como políticas de Estado e de maturidade civil. Os gritos desta primeira infância política, mimada, destrutiva, ainda estão no seu auge, um retrato infeliz, de uma versão provinciana, alienada, do Brasil, que mistura estações pela desinformação de que estão imersos.  

O outro Brasil, das políticas públicas, da iniciativa privada, do progresso social e cultural, agora tenta ver a luz do dia novamente, em meio a esta tribulação do bolsonarismo, quando o país deu vários passos para trás na sua evolução civil e política, e que agora pode retomar o fôlego e se fortalecer, num movimento de volta ao decoro, às falas e atitudes construtivas, de uma concertação que agora se trata não somente de uma virada cultural, civil e política, mas de reerguer o próprio processo civilizatório do Brasil.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/medo-e-delirio-em-brasilia