PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

VITÓRIA E DERROTA

uma destas leis da vida responde pelo nome de evolução”


Os desafios da vida, em geral, são feitos de quedas e reviravoltas, voltas por cima, gente sucumbindo, vitórias incontestes, derrotas fragorosas, tudo o que representa uma disputa de territórios, de forças em choque, de rotas em colisão, de vontades, anseios, anelos, desejos, objetivos, ideias, que podem colidir e somente haverá dois lados, os que foram derrotados e terão que reorganizar o próprio desejo, anseio e delírio, quando é o caso, e o lado dos vencedores, estes que exercem a sua volição em toda a sua plenitude, produto de um caráter impassível, direto.

Existe um campo de batalha, uma guerra, em que não faltam tentativas de nos colocar em escaninhos, bem fáceis de entender e de manejar, e a luta precípua de uma vida original é decepcioná-los, jogar contra tudo o que pode tolher, podar, sabotar. Podemos também ser alvos de uma idealização, e também é nosso dever decepcionar sistematicamente uma proposta que não nos conduza ao que queremos, longe da idealização, com a vida real em campo, e nada mais.

A conduta clara, objetiva, não faz concessões, não regateia, e muito menos irá rifar a própria honra, e assumam as consequências desta escolha e de seus efeitos. Não há, de fato, o que negociar, a ética está determinada como vontade de poder, soberana, biográfica, sem peias em seu discurso, e que vai direto ao ponto. Não se rifa a honra e o respeito. A morte existencial, biográfica, reage, e dá um tiro de misericórdia no que poderia ser esta morte simbólica, que é a mentira, a farsa e o fingimento. E a vida afirmativa, livre, mata o seu matadouro, o buraco negro de planos que não lhe pertencem, e que sujam o seu nome.

De outro lado, o mau perdedor, em que pese a soberania dos fatos, como sempre, tem na impassibilidade dos resultados a determinação de sua derrota ipso facto, com a crueldade necessária do riso de escárnio que o mau perdedor precisa e merece. A vitória plena, diante do mau perdedor, exerce a sua soberania e classifica a realidade de acordo com o fato consumado. Seu parâmetro é a excelência do fato, da verdade, e nele se exerce a sua liberdade, produzida por sua vitória, e o mérito que afirma o seu critério distributivo de sucessos e fracassos, e o que será aprendido, ou não, com isto. 

Sartre tinha uma frase existencial muito importante, e que pode definir a diferença entre uma vida que vingou e uma que sucumbiu, que diz o seguinte : “Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. A força espiritual, em um campo de batalha, irá formar o caráter, sua estrutura, sua resiliência, e toda uma gama de habilidades que se tornarão necessárias para enfrentar a selva com tática e estratégia, para que a meta seja alcançada.

E não faltarão golpes abaixo da cintura, que poderão atingir diretamente a sua honra, e a ação direta serve como o escopo em que a batalha, a guerra, será decidida, e como se diz, não se faz um bom omelete sem quebrar alguns ovos, e os que são derrotados neste trajeto podem ser estes que ficam quebrados pelo caminho, em relação à nossa permanente construção biográfica. Golpes baixos não faltam e não faltarão, é preciso estar atento e forte.

As regras são claras e as consequências para quem as subverte são inauditas, dolorosas, não existe pena e comiseração com o erro, existe sim correção, e mais adiante, corretivo, e que é definitivo. Não há qualquer coitadismo, pois escolhemos, decidimos e deliberamos, e isto ocorre o tempo todo, diariamente, a cada gesto corporal e mental. Portanto, a responsabilidade física e moral sempre está em jogo, o tempo inteiro.

A liberdade é uma mistura de conquista e merecimento, a prisão, por sua vez, é um merecimento das consequências de atos nefastos, que confrontam a civilização com o que há de mais asqueroso, moralmente e existencialmente, e a afronta, o assédio, de uma sucursal do inferno, toma uma rasteira precisa, cirúrgica, metódica, sistemática. Não se reclama do destino, não se blasfema a própria sorte azarada de terem sido pegos em flagrante, é do jogo perder, ser derrotado, e mau perdedor é pior, vamos com sangue nos olhos, com a faca nos dentes, para liquidar a fatura, sem mais.

A vitória é um anelo pleno sobre anelos liquidados. Prestes a pegar os frutos, Tântalo escorrega e cai, esta é a lei da verdade, não se dá asas à cobra, e as regras do jogo são obedecidas, querendo ou não, justamente por suas consequências. Abrir o olho, se orientar, não são meras expressões, são rotas prudentes, bem urdidas, e para quem está cochilando, um sacode que a vida pode dar quando necessário. O susto, a pegadinha, é exatamente para formar o caráter, esta é a questão.

A formação pela derrota é uma universidade para os fortes, pois os fracos olham para o abismo, flertam, e o abismo passa a olhar para eles, pois o atalho do cambalacho leva ao abismo, e o caráter em questão é subsumido pelo desastre de seus próprios atos. Os sintomas são auto evidentes, e as causas claras, para quem sabe ler situações, gestos e atos. Não tem mistério, e o derrotado é obrigado a lidar com este desconhecido, seu próprio futuro, o que ele terá que pensar finalmente, uma vez que seu anelo foi destruído, sua ambição sem nobreza colocada em xeque. 

A confrontação existencial pela qual passa o derrotado é intensa, merecida, precisa em seu propósito, e fico feliz em informar que não há escapatória, a universidade da vida tem suas próprias leis. E digo que uma destas leis da vida responde pelo nome de evolução, que é uma régua, uma métrica, em que uns avançam e outros sucumbem, podem devoluir, regredir, acontece também, não é algo linear, pois a evolução também é uma escolha, uma decisão e uma deliberação, mas como lei da natureza, ela se dá itself, no todo, ou em certa conjuntura, até como nêmesis sobre os que regridem e sucumbem.

Uma conquista, uma vitória, é um merecimento de um esforço e sobretudo de uma postura, contra inúmeras correntezas, de benesses das quais o inferno está cheio, e não tem choro, a bala vai no alvo, o desiderato foi e é implacável. A vida biográfica não dorme no ponto, e a honra não poderá sofrer mácula, a reputação não joga com a glória, mas com a verdade, e este é o jogo supremo da vida, sua verdade, seus fatos, sua própria história, que não foi colonizada, alienada, sequestrada. A vitória é a vida plena, em que se escolhe, se decide e se delibera, sempre com os horizontes amplos em que o olhar pode se abrir e se expandir, feliz consigo mesmo e com seus eleitos.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/vitoria-e-derrota

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

OS DELIRANTES DA INTERVENÇÃO FEDERAL

 “fase de negação é reflexo desta perspectiva irreal”


As cenas patéticas pós-eleições reconfirmam a presença de um mundo paralelo no Brasil. É uma gente que se informa exclusivamente por grupos no Telegram, WhatsApp e demais núcleos que, invariavelmente, produzem fake news aos borbotões, e cria uma massa acrítica e delirante que, se alguém desavisado visitasse este momento, poderia concluir estar diante de uma psicose coletiva. 

Não se trata exatamente de um quadro psicótico, passível de intervenção e tratamento adequados, mas os fenômenos produzidos por fake news estão, de fato, no terreno do delírio da alienação. São pessoas, algumas com boa fé, que estão sendo manipuladas por grupos que financiam barricadas pelas estradas, da alt-right que patrocina esta bestialização e regresso cognitivo que se alimenta e depende da ignorância, voluntária ou não, para ter seus objetivos realizados. 

Uma coisa chocante, quando você acessa a internet, e vê pessoas em Porto Alegre, de verde e amarelo, comemorando a prisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e se perguntar como este mundo paralelo se insere no mundo real, empírico, em que os fatos cotidianos se sucedem. As informações que não chegam são substituídas por versões falsas que funcionam como um verniz para confirmar crenças. 

É como quando a pessoa toma uma droga e a usa como um verniz para tornar tudo mais brilhante e interessante, e que em doses exageradas leva à loucura e alienação mental. O nível de desinformação de parte da população do país é uma obra do atraso, do pouco investimento em educação, em cultura, e que abriu caminho para um culto negacionista, romantizando atitudes ignorantes e destemperadas de um líder que é mito, isto é, uma farsa, não governou e não soube governar. 

O que achamos ridículo, uma mulher batendo no próprio peito, chorando e agradecendo ao Senhor pela prisão de Alexandre de Moraes, por sua vez, é a demonstração de um país que falhou, até agora, em desenvolver suas faculdades cognitivas, culturais. Lembra a cena bizarra do caminhoneiro chorando por um Estado de Sítio que não tinha acontecido, era fake news. Existe um déficit, um atraso, e uma anti-cultura em que pendores reacionários fazem eclodir fantasmas que dormiam, e volta e meia levantam da tumba, de uma versão do Brasil sinistra, com palavras ocas de tradição, pátria e família, e que são a tentativa de adequar o mundo inteiro, no caso o Brasil, a uma perspectiva de curto alcance, numa espécie de camisa-de-força do atraso e do retrocesso.

A contradição é que esta tentativa de colocar o Brasil inteiro nesta camisa-de-força de perspectiva anódina está produzindo tipos de loucos que agora estão em fase de negação, esperando um Deus Ex Machina da intervenção federal, com panfletos e cartazes escritos, por vezes, em inglês errado. A imagem perfeita desta fase de negação, por sua vez, foi a do patriota do caminhão, pois é algo irreal e que tenta interferir num fato consumado, reconhecido, do resultado final do segundo turno das eleições. 

O pensamento mágico sempre precisa deste Deus da Máquina, no caso, uma intervenção federal, pois sua fase de negação é reflexo desta perspectiva irreal que cresceu a absorveu estas pessoas nestes últimos anos via Telegram e WhatsApp. Internacionalmente, a piada já tinha sido contada e entendida desde 2019, e aqui temos esta relativização de um país polarizado. Lá fora, mais uma vez, a piada foi a de pessoas cantando o hino nacional para um pneu, e parece que aqui dentro a ficha não cai. 

O contraste está justamente no alívio de líderes estrangeiros quando  souberam que Lula será o próximo presidente, e isto não pelo Lula, mas em relação a qualquer candidato que não fosse o Bolsonaro. Pois seja qual fosse o novo presidente, sem ser o Bolsonaro, causaria a mesma impressão de terem se livrado de algo exótico, intratável, de uma figura de vaudeville, contudo, de comédia ruim, com piadas de caserna, previsíveis. 

O coro do imbrochável, nos duzentos anos da Independência do Brasil, é uma caricatura penosa, constrangedora, parecendo um tiozão que ria da própria piada sozinho, só que tinha uma claque rindo junto, e que é esta legião de sabujos, fanáticos, lacaios, que acompanha Bolsonaro desde a sua ascensão. 

O Brasil que rejeitou o bolsonarismo conseguiu o amortecer com a eleição de Lula, em uma frente ampla que terá que planejar e realizar tudo com acuidade para que não se abra este precedente novamente na Nova República. Em uma redemocratização que já teve caçador de marajás e mito, e não precisa mais reviver este tipo de factoide, de mentira, que é de um país que compra ilusões disruptivas disfarçadas de nova política, e é somente a vanguarda do atraso, do retrocesso, assediando o futuro do país novamente. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 



quarta-feira, 9 de novembro de 2022

A QUEDA DE DORIA E A CRISE DO PSDB

“o PSDB sofreu um revés enorme”

João Doria Jr. teve uma trajetória política breve, marcada por contradições e excessos que tiveram como resultado o fim de sua inserção na política brasileira. De uma ascensão meteórica como prefeito da cidade de São Paulo, abandonando o cargo para se eleger e tomar posse como governador do Estado de São Paulo, Doria se viu encurralado e teve que capitular de suas ambições de ser candidato a presidente pelo PSDB.

Em tese, João Doria poderia ter condições competitivas na disputa presidencial, uma vez que foi quem primeiro trouxe a vacina contra a Covid-19 para o Brasil, num discurso oposto ao negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que contribuiu para o atraso de vacinas.

Houve a negligência em relação às tratativas com a vinda da Pfizer, e a ideia estapafúrdia de negociar somente com uma fonte, num primeiro momento, que foi a AstraZeneca. Enquanto  que a CoronaVac foi viabilizada pelo então governador de São Paulo, João Doria, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan.

Contudo, a condução política do que deveria ser um bônus para João Doria, ao fim, não se demonstrou eficaz. João Doria tanto ganhou a desconfiança de parte do eleitorado como foi boicotado dentro do próprio PSDB. 

E as pesquisas eleitorais começaram a dar péssimos sinais, com a estagnação e redução das possibilidades de João Doria enfrentar a polarização política entre Jair Bolsonaro e Lula, sendo questionado como figura de proa para uma terceira via política, que se via fragmentada e atrasada em suas tratativas. 

Seu índice de rejeição, por sua vez, também não ajudava Doria como uma candidatura viável. Havia uma certa antipatia, e um excesso evidente no marketing político. O exagero de Doria para ter um protagonismo na vacinação contra a Covid-19 no Brasil foi entendido como oportunismo por parte do eleitorado. Portanto, ocorreu uma jogada de marketing que perdeu a mão e não teve o efeito esperado de sua ascensão como opção à polarização política e candidato legítimo da terceira via.

As hostes bolsonaristas, na internet, também foram fortemente responsáveis pelo sepultamento político de Doria. A marca de sua gestão, que foi o enfrentamento da pandemia, como contraponto ao discurso bolsonarista, não se desenvolveu de maneira eficaz entre o eleitorado como exemplo de realização. 

José Aníbal, ex-senador e ex-presidente do PSDB, chegou a afirmar que o ex-governador é “muito over”. Segundo ele : “A vacina foi uma iniciativa importante, mas ele politizou a tal ponto que a população acabou não reconhecendo tanto esse resultado”.

Segundo levantamento do Datafolha de abril deste ano, Doria deixou o governo de São Paulo com apenas 23% de aprovação dos paulistas, sendo que 36% avaliaram sua gestão como ruim ou péssima. 

A percepção política dos eleitores é a de que Doria não é uma figura leal, uma vez que ele rompe com Bolsonaro, depois de ter se alçado como governador de São Paulo ao associar a sua candidatura à imagem de Jair Bolsonaro, deixando seu padrinho político Geraldo Alckmin de lado, que também era candidato à presidente em 2018. 

Portanto, Doria passou a ser odiado pelo bolsonarismo e muito mal visto por parte do PSDB. Doria foi ganhando um caráter autocentrado e individualista, uma figura antipática que não se vinculava a compromissos com seus colegas de partido. 

Na chamada terceira via, o União Brasil abandonou o barco, sendo que era o partido com mais recursos dos fundos eleitoral e partidário, anunciando a candidatura de Luciano Bivar, que depois mudou para o lançamento de Soraya Thronicke como candidata. 

Foi tentada uma parceria entre Simone Tebet (MDB-RS) e Doria, mas, continuou o impasse para a terceira via, e logo em seguida dentro do PSDB, pois a candidatura de Doria, embora legitimamente escolhida em prévia partidária, passou a ser questionada por parte do PSDB.

Se inicia uma fase de negação por parte de Doria quando a sua candidatura a presidente começa, de fato, a dar água. Doria já tinha criado fissuras nas suas relações com o PSDB desde a tentativa fracassada de se apropriar do partido e de expulsar Aécio Neves do mesmo. 

Tais fissuras retornaram com mais força na sua relação conflituosa com o presidente do partido, Bruno Araújo, que começou o movimento final de boicote à candidatura de Doria, com uma pesquisa encomendada em acerto com o MDB para medir o potencial de votos de Doria e de Simone Tebet.

A partir do resultado desta pesquisa seria apresentado o argumento para a escolha do nome da terceira via. Doria então ameaçou judicializar caso uma eventual chapa da terceira via não tivesse ele como o cabeça de chapa. Ou seja, Doria tinha ligado o modo desespero, que era o de ser trocado por Simone Tebet como candidatura da terceira via. 

Doria tanto estava isolado dentro do PSDB como com intenções de voto pífias para presidente, enquanto acusava Bruno Araújo de uma tentativa de golpe contra a sua candidatura. O argumento era o de que o estatuto do PSDB não transferia o poder de decisão de candidatura após prévias internas para uma reunião de cúpula, portanto, caberia à convenção partidária referendar a candidatura entre 20 de julho e 5 de agosto passados. 

Caso não houvesse o reconhecimento pela esfera administrativa da candidatura, o pedido de reconhecimento se daria pela esfera judicial. Doria estava obstinado, até então, e a tensão no PSDB atingia o seu ápice.  No fim, Doria desistiu da candidatura e o PSDB sacramentou o apoio à candidatura de Simone Tebet (MDB) para presidente. Depois das eleições, o desfecho aconteceu, João Doria anunciou a saída do PSDB e a retomada de sua vida profissional na iniciativa privada, portanto, estava ceifada a sua curta carreira política. 

Por sua vez, o PSDB sofreu um revés enorme. Um partido que teve seu auge nos dois mandatos presidenciais de Fernando Henrique Cardoso, com a estabilização da moeda e o fim da hiperinflação, sofreu quatro derrotas sucessivas para o PT em eleições presidenciais, e em 2018 começou a sua decadência com o resultado pífio da candidatura de Geraldo Alckmin à presidência. 

Em 2022 foi a primeira vez que o partido não lançou candidato ao Planalto, mesmo após prévias, e o partido viu a sua bancada minguar, pois não elegeu senador, e virou um nanico na Câmara ao eleger apenas 13 deputados, que é a menor bancada de sua história. José Serra, que já foi candidato a presidente, desistiu de se candidatar a senador, para ser puxador de votos para deputado federal, contudo, não foi eleito à Câmara. Por fim, o partido deixará o Palácio dos Bandeirantes em 2023, após governar São Paulo por 27 anos.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-queda-de-doria-e-a-crise-do-psdb


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

SISTEMA

Os dias do mundo

têm sido duros,

mesmo com o vento

que farfalha o trigo

e acaricia os cereais,

no entanto, solavancos

ceifam o descanso,

atacam a vida em

tempos de cão,

matadouros de sonhos,

desvãos de derrotas,

poços sem fundo.


Projetos são deglutidos

por um Pantagruel

mimado e gordo,

e que, em um rompante

de tédio, em toada

anódina e abúlica,

arrota e peida, e dá

um muxoxo depois

de deixar suas

carcaças para trás.


07/11/2022 Gustavo Bastos        


A META

As coisas ditas são os veios

em que se escala o desejo,

o anseio e o anelo não 

são nada, vã ilusão,

sem uma vontade forte,

fundamentada,

que estabelece

a sua condição

existencial,


ou seja,

nunca vender

por pouco

o que lhe custou

muito para atingir,

não abrir precedente,

não fazer concessões,

até a meta ter sido

atingida, tal um dardo

no alvo, que atinge

seu desiderato 

com uma fúria

inclemente.


07/11/2022 Gustavo Bastos 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

MIRAGEM

Pela câmara de eco

o som ganha corpo

e tem na sinestesia

um senso de ar,


veloz o vento

cadencia seu sopro

pelo canto que ondula.


O mar rebate, seu marulho

encanta a sereia,

que rouba o navio

com Ulisses preso

ao mastro.


Desta vez,

a ilha do tesouro

estava longe,

um oásis brilhava

com suas cores

no deserto de Kilimanjaro.


Sem água, o beduíno

viu este oceano

em volta de seus 

camelos, e o som

da sereia soprava

este oásis,

miragem,

ficção,

que a poesia

tentou decifrar

em vão. 


04/11/2022 Gustavo Bastos 


DA VITÓRIA CONTRA O VAZIO

Não sinto pelos pretensos déspotas

que agora choram na chuva,

não lamento a queda

do pau de arara

e de todos os seus vicários.


A poesia, que se ilumina

na noite dos uivos 

e rangidos,

tem na fina flor

de sua dicção,

um antídoto

contra

o ódio.


Vai-te ao inferno

o mesmo que do

mal hauriu em seu 

peito o coração vil 

das maldições.


Os poderes de luz

batem e contorcem

de dor a hipocrisia

de falsos lumes,

profetas do nada,

do vazio e do sepulcro.


Eu matei a sevícia

no nascedouro,

seu choque

não me matou,

eu venci seu 

calendário

de lodo

e de morte.


04/11/2022 Gustavo Bastos