PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 31 de janeiro de 2016

BERTOLT BRECHT, O POETA – PARTE I

“Na poesia, Brecht foi um poeta político e social em grande parte de seu trabalho.”

Criador do chamado teatro épico, portanto, bem conhecido como dramaturgo, Bertolt Brecht também foi poeta. Um dos maiores artistas do século XX, viveu em sua arte todo o intenso embate do século passado, sendo um dramaturgo e poeta bem representativo do que foi este século. No teatro, teve como base uma práxis baseada numa síntese entre os experimentos teatrais de Piscator e Meyerhold, tornando-se, neste ínterim, um marxista convicto, o que se refletiu muito fortemente em seu teatro e poesia, sendo então um crítico do capitalismo e do fascismo. Herdou ainda o conceito de estranhamento de Chklovski, do teatro chinês e do experimentalismo soviético.
Na poesia, Brecht foi um poeta político e social em grande parte de seu trabalho. Nos poemas que enumerei nesta primeira parte, isso fica bem evidente. Em “Hino a Deus”, o fenômeno da fome e da pobreza vêm como interpelação pela existência de Deus e de sua justiça, até que ponto é necessário Deus, ou em que lugar mora a redenção de tanta miséria, se o mundo é cruel e injusto? Por sua vez, em “Aqueles perderam a si mesmos de vista”, há uma tendência lírica, mas ainda muito questionadora deste mundo de contradições do fenômeno humano. Pois, de que é feito o desaparecimento destes que vivem? E, se vivem, por qual razão há tanta invisibilidade? Para onde se vai do jovem ao velho e em que resiste os puros de coração, no lirismo brechtiano este poema não nos dá resposta, mas apresenta as “desrazões” do humano, o que aqui se faz por desaparecer, em que “cada qual esqueceu-se de si” e que “muitos esconderam-se desamparados na noite”. Há neste lirismo toda a melancolia da alienação, num sentido profundo de desamparo.
No seguimento, aparece o poema biográfico “O pobre B.B.”, em que Brecht fala de si mesmo, um pouco de sua história, em forma poética, por óbvio. “Eu, Bertolt Brecht, venho da floresta negra”, neste verso e nos seguintes de “O pobre B.B.”, meio que Brecht se apresenta ao mundo, e no poema, também, há ainda um jogo metafórico próprio da poesia, Brecht se mostra mas ainda faz poesia com isso.
Nos últimos três poemas desta série, primeira parte dos poemas que apresentarei aqui de Brecht, temos a veia propriamente política deste poeta e dramaturgo, o que havia de social nos poemas anteriores, agora vêm com toda a carga política, e a marca do século XX cravada em poemas como “Dinheiro”, “Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte” e “Canção do pintor Hitler”. “Dinheiro” como mais uma crítica social do que política, na verdade, e a luta feroz do comunista Brecht contra o fascismo e o nazismo, pois Brecht é sobretudo um fenômeno artístico do entreguerras e do pós-segunda guerra, tendo seu escopo ideológico se voltado pela formação de um marxismo militante, o que na sua arte tomou bastante espaço, pois no poema “Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte” isso está patente, é um marxista lutando contra o fascismo e o nazismo, o que entra como sátira contra Hitler no poema “Canção do pintor Hitler”.

(1913-1926):

HINO A DEUS

1
No fundo dos vales escuros morrem os famintos.
Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer.
Mas você reina eterno e invisível
Radiante e cruel, sobre o plano infinito.

2
Deixou os jovens morrerem, e os que fruíam a vida
Mas os que desejavam morrer, não permitiu ...
Muitos daqueles que agora apodreceram
Acreditavam em você, e morreram confiantes.

3
Deixou os pobres pobres, ano após ano
Porque o desejo deles era mais belo que o seu céu
Infelizmente morreram antes que chegasse com a luz
Morreram bem-aventurados, no entanto – e
              apodreceram imediatamente.

4
Muitos dizem que você não existe e que é melhor assim.
Mas como pode não existir o que pode assim enganar?
Se tantos vivem de você, e de outro modo não poderiam
               morrer __
Diga-me, que importância pode ter então que você
             não exista?

AQUELES PERDERAM A SI MESMOS DE VISTA

1
Aqueles perderam a si mesmos de vista.
Cada qual esqueceu-se de si. O mar carregou seu cadáver
Para algum recife, onde pássaros dele se alegraram
E dele viveram mais umas semanas.
Muitos esconderam-se desamparados na noite, crendo
Serem invisíveis, quando nada viam. A noite
Deu-lhes proteção, e displicente
Tocando maternalmente seu rosto
Tomou-lhes em silêncio a visão. Entre sons de vento
               e água
Tornaram-se vozes de lamento, espantalhos para pássaros
Fantasmas de crianças, camisas esvoaçando na passagem
Tremendo de medo da risada ...

2
E logo se ergue
Rindo no vento, outra estirpe:
Homens que dormem no escuro, comedores de pássaros
Em casa no corpo
E senhores de indizível prazer.

3
E dos suspiros daqueles
De risos e queda
Alimenta-se o sol, e a noite bebe.
Portanto, a cada hora se renova de queda e voragem
A sensação interminável
Destinada aos humildes e aos de coração puro:
Ser jovem com exuberância e envelhecer com satisfação.

(POEMAS DO “MANUAL DE DEVOÇÃO DE BERTOLT BRECHT):

DO POBRE B.B.

1
Eu, Bertolt Brecht, venho da floresta negra.
Para a cidade minha mãe me carregou
Quando ainda vivia no seu ventre. O frio da floresta
Estará em mim até o dia em que eu me for.

2
Na cidade de asfalto estou em casa. Recebi
Desde o início todos os sacramentos finais:
Jornais, muito fumo e aguardente. Desconfiado
Preguiçoso e contente – não posso querer mais!

3
Sou amável com as pessoas. Uso
Um chapéu cartola segundo seu costume.
Digo: São animais de cheiro bem peculiar
E digo: Não faz mal, também tenho esse perfume>

4
Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
De vez em quando uma mulher faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você tem alguém em que não pode confiar.

5
À noite, alguns homens se reúnem à minha volta
E entre nós, “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre a minha mesa
Dizem: As coisas vão melhorar. E eu não
             pergunto: Realmente?

6
Na luz cinzenta da aurora os pinheiros urinam
E seus parasitas, os pássaros, começam o gorjeio.
Por essa hora eu na cidade entorno a bebida
Jogo fora o charuto e vou dormir com receio.

7
Habitamos, uma geração fácil
Em casas que acreditávamos eternas
(Assim construímos aquelas imensas caixas na
                  ilha de Manhattan
E as antenas cujos sinais cruzam o mar como
              invisíveis lanternas).

8
Destas cidades ficará: o vento que por elas passa!
A casa faz alegre o conviva: ele a esvazia.
Sabemos que somos fugazes
E depois nada virá, somente poesia.

9
Nos terremotos que virão tenho esperança
De não deixar meu “Virginia” apagar com amargura
Eu, Bertolt Brecht, chegado há tempo na selva de asfalto
No ventre de minha mãe, vinda da floresta escura.

(1926-1933) :

O DINHEIRO

                     Diante do florim, criança, não tenha medo
                    Pelo florim, criança, você deve ansiar.
                                                                 (Wedekind)

Ao trabalho não o quero seduzir.
Para o trabalho o homem não foi feito.
Mas do dinheiro não se pode prescindir!
Pelo dinheiro é preciso ter respeito!

O homem para o homem é uma caça.
Grande é a maldade no mundo inteiro.
Por isso junte bastante, mesmo com trapaça
Pois ainda maior é o amor ao dinheiro.

Com dinheiro, a você todos se apegam.
É tão benvindo como a luz do sol.
Sem dinheiro, os próprios filhos o renegam:
Você não vale mais que um caracol.

Com dinheiro não precisa baixar a cabeça!
Sem dinheiro é mais difícil a fama.
Dinheiro faz com que o melhor aconteça.
Dinheiro é verdade. Dinheiro é flama.

O que seu bem disser, pode acreditar.
Mas sem dinheiro não busque seu mel.
Sem dinheiro ela lhe será roubada.
Somente um cão lhe será fiel.

Os homens colocam o dinheiro em grande altura
Acima do filho de Deus, o Herdeiro.
Querendo roubar a paz de um inimigo já na sepultura
Escreva em sua laje: Aqui Jaz Dinheiro.

QUANDO O FASCISMO SE TORNAVA CADA VEZ MAIS FORTE

Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte na
                  Alemanha
E mesmo trabalhadores o apoiavam em massa
Dissemos a nós mesmos: Nossa luta não foi correta.
Pela nossa Berlim vermelha andavam em pequenos
              grupos
Nazistas em novos uniformes, abatendo
Nossos camaradas.
Mas caiu gente nossa e gente da bandeira do Reich.
Então dissemos aos camaradas do SPD:
Devemos aceitar que matem nossos camaradas?
Recebemos como resposta:
Poderíamos talvez lutar ao seu lado, mas nossos líderes
Nos advertem para não usar terror vermelho contra
                o branco.
Diariamente, dissemos, nosso jornal combateu os
                 atos de terror
Mas diariamente também escreveu que só venceremos
Através de uma Frente Unida vermelha.
Camaradas, reconheçam agora que esse “mal menor”
Que ano após ano foi usado para afastá-los de
             qualquer luta
Logo significará ter que aceitar os nazistas.
Mas nas fábricas e nas filas de desempregados
Vimos a vontade de lutar dos proletários.
Também na zona leste de Berlim os social-democratas
Saudaram-nos com as palavras “Frente Vermelha!” e já
                usavam o emblema
Do movimento anti-fascista. Os bares
Ficavam cheios nas noites de debates.
E então nenhum nazista mais ousou
Andar sozinho por nossas ruas
Pois as ruas pelo menos são nossas
Depois que eles nos roubaram as casas.

CANÇÃO DO PINTOR HITLER

1
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Caros amigos, deixem eu dar uma mão!
E com um balde de tinta fresca
Pintou como nova a casa alemã
Nova a casa alemã.

2
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Fica pronta num instante!
E os buracos, as falhas e as fendas
Ele simplesmente tapou
A merda inteira tapou.

3
Ó Hitler pintor
Por que não tentou ser pedreiro?
Quando a chuva molha sua tinta
Toda a imundície vem abaixo
Sua casa de merda vem abaixo.

4
Hitler, o pintor de paredes
Nada estudou senão pintura
E quando lhe deixaram dar uma mão
Tudo o que fez foi um malogro
E a Alemanha inteira ele logrou.

(DO LIVRO : BRECHT – POEMAS – 1913-1956) – BERTOLT BRECHT – EDITORA BRASILIENSE – SELEÇÃO E TRADUÇÃO DE PAULO CESAR SOUZA

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/27089/17/bertolt-brecht-o-poeta-parte-1




   

     


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

JOÃO CABRAL, O MESTRE TALHADO NA PEDRA

João Cabral de Melo Neto, este seu nome, de uma poética ou poesia talhada na pedra. Sua rotina é descrita neste poema emblemático de toda a sua obra, as lições de que ele retira o sumo são duras, duras como pedra. Já a sua conhecida letra fria, concisa, neste poema, tem na metáfora da pedra exatamente a dicção própria e a linguagem definida neste ser mineral duro e impassível, a pedra.

João Cabral não tem fraco por lírica, mas sua beleza vem da dura lição que ele encarna ou petrifica. João Cabral enumera o Sertão como origem de seu discurso, o mestre talhado na pedra sabe de si neste que é o ser duro de ser pedra, e poema de pedra, educação pela pedra. O poeta aqui não finge dor, não se lamenta, apenas descreve a mecânica de seu trabalho bruto, de poema bruto, puramente mineral, inanimado na imagem da pedra, mas se movimentando nesta descrição de um ser estático.

O movimento do poema é definido por poucas linhas, e já são suficientes, João Cabral marca na concisão deste poema o contrário de uma retórica enfadonha de poemas longos, não que ele não os faça, e não por razão de poemas longos serem melhores ou piores do que este, mas a demanda da educação da pedra é muito esta marca concisa, curta e certeira, do que ele quis apresentar como pedra, como a lição fundamental, a educação pela pedra.

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições:
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la,

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, estranha a alma.

(João Cabral de Melo Neto, do livro A Educação Pela Pedra, da edição Poesias Completas da José Olympio Editora)

Obs: Caros leitores, estou saindo de férias, o espaço de poesia e as resenhas no caderno de cultura voltam no fim de janeiro com novidades, abraços e boas festas!)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/26569/17/joao-cabral-o-mestre-talhado-na-pedra


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS

“o Bardo Thödol é um livro sumamente budista.”

INTRODUÇÃO

O Bardo Thödol, intitulado mais apropriadamente por seu organizador, W.Y.Evans-Wentz, O livro tibetano dos mortos, pertence a uma categoria de escritos que não se resumem a um estudo específico do Budismo Mahayana, mas contém elementos que respondem com eficiência a questionamentos que perpassam o próprio fenômeno humano e seu possível sentido, com um conteúdo humanista e que carrega uma compreensão profunda dos segredos da psique humana, proporcionando ao leitor comum um meio de ampliar seus conhecimentos da vida.
Ao contrário de O livro egípcio dos mortos, por exemplo, que nos induz a sempre falar demais ou muito pouco, o Bardo Thödol nos oferece uma filosofia inteligível, direcionada aos seres humanos, mais do que a deuses, contendo uma filosofia que é, por outro lado, para além de um guia espiritual do pós-morte, a quintessência da crítica psicológica budista. Pois este livro não é um cerimonial fúnebre, mas um conjunto de instruções para os mortos, um guia através dos cambiantes fenômenos do reino do Bardo, esse estado de existência que continua por 49 dias após a morte até a próxima reencarnação.
Segundo observação do Dr.Evans-Wentz, o Bardo Thödol é um processo de iniciação cujo propósito é o de restaurar na alma a divindade que ela perdeu ao nascer, pois o livro descreve um caminho de iniciação em sentido inverso, a qual, diversamente das expectativas escatológicas do Cristianismo, prepara a alma para uma descida à existência física. Esse tratado é, então, um guia tão detalhado sobre as aparentes modificações na condição do morto, que o leitor poderá, ao fim de sua jornada de leitura, se perguntar se esses lamas tibetanos não teriam, por fim, apreendido algo da quarta dimensão e levantado o véu de um dos maiores segredos da vida.

A INTERPRETAÇÃO JUNGUIANA

Primeiro, cabe destacar a divisão do livro: O Bardo Thödol ou O livro tibetano dos mortos pretende ser um guia para os mortos durante o seu período de existência no Bardo, descrita simbolicamente como um estado intermediário, de 49 dias de duração, entre a morte e o renascimento. Por conseguinte, o texto está dividido em três partes.
 A primeira, chamada Chikhai Bardo, que descreve acontecimentos psíquicos no momento da morte, a segunda parte, por sua vez, que é o Chönyid Bardo, que trata dos estados de sonho que começam imediatamente após a morte, o que também pode ser compreendido como a fase a que chamamos de “ilusões kármicas”, e a terceira parte que, por fim, é o Sidpa Bardo, que se refere ao surgimento do impulso de nascimento e aos acontecimentos pré-natais.
Tudo passa, portanto, na visão budista mahayana, como um grande processo que envolve, de um lado, a suprema compreensão e a iluminação, podendo proporcionar a libertação, e de outro lado, o começo das “ilusões”, tais que são os caminhos que conduzem finalmente à reencarnação, com as luzes iluminadoras ficando opacas e as visões do Bardo mais aterradoras.
Essa descida, para o Budismo Mahayana, é a tradução do afastamento da consciência do morto da verdade libertadora, numa aproximação, portanto, do renascimento físico. Logo, o propósito principal de O livro tibetano dos mortos é uma instrução para fixar a atenção do homem morto no sentido de distanciá-lo das etapas sucessivas de engano e confusão do Bardo, para levá-lo à libertação, assim como o livro também é um conjunto de explicações da natureza das visões do Bardo.
Neste livro, por sua vez, não só as chamadas divindades “iradas”, mas também as “pacíficas”, são concebidas como projeções do mundo ilusório de sangsara, que é também o conjunto de ilusões da psique humana. Por conseguinte, quando o Budismo Mahayana (assim como outras denominações budistas) insistem no ponto de que a mente humana é vazio ou vacuidade, no seu estado original e iluminado, temos que o chamado estado de autorrealização ou libertação, também conhecido como Nirvana, é, para o Mahayana, o estado de Dharmakaya de iluminação perfeita.
Para Jung, isto significa que, numa expressão de linguagem ocidental, que o fundamento criativo de toda postulação metafísica é a consciência, isto enquanto manifestação invisível, intangível, da alma. A Vacuidade ou Vazio seria, portanto, o estado transcendente que suplanta toda asserção e toda predicação.

COMPREENDENDO O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS

O Bardo Thödoltrata, de um modo único, o ciclo completo da existência sangsárica (isto é, fenomenal) que intervém entre o nascimento e a morte, sendo também a antiga doutrina do karma e do renascimento aceita como as mais essenciais leis que afetam a vida humana.
Por outro lado, há um cisma entre os Budismo do Norte e do Sul que, por sua vez, se refere ao fato de que o Budismo do Norte (donde provém o Budismo Mahayana, intérprete do Bardo Thödol) tem no simbolismo um conteúdo vital, o que é condenado pelos budistas da escola do Sul (donde provém , por exemplo, o Budismo Theravada) por haver reivindicado a custódia de uma doutrina esotérica, transmitida, em grande parte, oralmente por reconhecidos iniciados, geração após geração e na linhagem direta de Buda, assim como pelos ensinamentos, que estão no, por exemplo, Saddharma-Pandarika, que registram doutrinas que não estão de acordo com os Tripitaka, que é nada mais que o Cânone Páli seguido pelos budistas do Sul.
Os lamas afirmam que o Tripitaka (“Três Pitakas ou Cestos da Lei”) são, segundo postula o Budismo do Sul, a palavra (Doutrina) registrada pelos Antigos, isto é, pelos Theravadas, e que os lamas do Norte dizem ser incompletos, pois não fornecem muito dos ensinamentos iogues de Buda, e que estes saberes foram, por sua vez, transmitidos esotericamente até os dias atuais. O que o Cânone Páli recusa, pois afirma que Buda não conservou nenhuma doutrina secretamente.
Por outro lado, se seguirmos a orientação do Budismo do Norte, não há problemas em referendar que um Budismo esotérico não deve necessariamente discordar ou conflitar com o Budismo exotérico, mas ser antes uma complementação deste. Porém, ao contrário do Budismo do Sul, os lamas do Norte reafirmam a evidência inegável de que há, como o Bardo Thödol parece sugerir, um corpo não-registrado das escrituras, de ensinamentos budistas transmitidos oralmente, que são realmente um complemento do Budismo canônico.

ENSINAMENTOS DE SABEDORIA

Na tradução do Bardo Thödol, envolto em linguagem simbólica, encontramos doutrinas ocultas fundamentais que aqui traduzidos podem ser denominados Ensinamentos de Sabedoria, os quais, essencialmente doutrinas Mahayana, podem ser vislumbradas pelo seguinte esquema:
O Vazio – Em todos os sistemas tibetanos de yoga, a realização do Vazio (em sânscrito: Shunyata) é a grande meta: realizá-lo é alcançar o não-condicionadoDharmakaya ou “Divino Corpo da Verdade”, que é o estado primordial da não-criação, a celestial Consciência Total bódhica – o estado de Buda. A realização do Vazio também é a meta dos theravadistas.
Os Três Corpos – O Dharmakaya é o mais alto dos Três Corpos (em sânscrito: Trikaya) de Buda e de todos os Budas e seres que possuem Iluminação Perfeita. Os outros dois corpos são o Sambhogakaya ou "Divino Corpo do Dom Perfeito” e o Nirmanakaya ou “Divino Corpo de Encarnação”. E, uma vez que todos os conceitos humanos são inadequados para descrever o Sem-qualidade, temos que usar metáforas que podem ser tais como: o Dharmakaya pode ser simbolizado como um oceano infinito, calmo e sem uma onda, de onde surgem nuvens brumosas e arco-íris, que simbolizam o Sambhogakaya, e as nuvens aureoladas na glória do arco-íris condensam-se e caem como chuva, simbolizando o Nirmanakaya.
O Dharmakaya é o Bodhi primordial, a verdadeira experiência, livre do erro. E, por sua vez, nele residem tanto o Sangsara como o Nirvana. Em outras palavras, o Dharmakaya é literalmente o “Corpo da Lei”, Sabedoria Essencial (Bodhi) não-modificada, o Sambhogakaya é o “Corpo da Compensação” ou “Corpo Adornado”, que encarna, como nos Cinco Dhyani Budas, a Sabedoria Refletida ou Modificada. Já o Nirmanakaya, “Corpo Mutável” ou “Corpo Transformado”, encarna, como nos Budas Humanos, a Sabedoria Prática ou Encarnada.
Ainda na doutrina dos Três Corpos, temos que o Budismo Tântrico associa o Dharmakaya ao Buda Primordial Samanta-Bhadra, Aquele Que Não Tem Princípio Nem Fim, a Fonte de Toda Verdade, o Pai Todo-bondoso da Fé Lamaísta. E nesse reino superior de Buda ainda temos, segundo o Lamaísmo, Vajra-Dhara (que em tibetano é Rdorje-Chang), o “Detentor do Dorje (ou Raio), o “Expositor Divino da Doutrina Mística Chamada VajraYana ou Mantra-Yana, e também o Buda Amitabha, o Buda da Luz Ilimitada, Aquele Que é a Fonte da Vida Eterna. No Sambhogakaya estão colocados os Cinco Dhyani Budas (ou Budas de Meditação), os Herukas do Loto e as Divindades Pacíficas e Iradas, todos os quais aparecerão nas visões do Bardo. Com o Nirmanakaya está associado Padma-Sambhava que, sendo o primeiro mestre no Tibete a expor o Bardo Thödol, é o Grande Guru de todos os devotos que seguem os ensinamentos Bardo. Assim sendo, o Trikaya simboliza a Trindade Esotérica do Budismo superior da Escola do Norte, sendo a Trindade Exotérica, como na Escola do Sul, o Buda, o Dharma (ou Escrituras) e o Sangha (ou Clero).

O BARDO OU ESTADO PÓS-MORTE

A partir do momento da morte e por mais três ou quatro dias, o Conhecedor, como é chamado o princípio de consciência, no caso do falecido ser um homem comum (não-iniciado), acredita-se estar num estado de sono ou de transe, e inconsciente, via de regra, de fato de ter-se separado do corpo no plano humano. Esse período é o do Primeiro Bardo que é chamado de Chikhai Bardo ou “Estado de Transição do Momento da Morte”, e aí surge a Clara Luz, e então, o percipiente, não a reconhecendo e não conseguindo se manter no estado transcendental da mente não-modificada, percebe-a karmicamente obscurecida.
No Segundo Bardo, o Conhecedor toma consciência de que morreu, este é o Chonyid Bardo ou “Estado de Transição da Vivência ou Vislumbre da Realidade”, que se funde, então, ao Terceiro Bardo, o Sidpa Bardo ou “Estado de Transição ou da busca do Renascimento” que termina quando o princípio de consciência adquire o renascimento no mundo humano ou em algum outro ou ainda num dos reinos do paraíso.
Como o Bardo Thödol postula, prudentemente, que as visões do Bardo provêm do próprio conteúdo mental do sujeito ou Conhecedor, sempre karmicamente produzidas, temos que o Bardo Thödol parece estar baseado em dados verificáveis das experiências humanas, fisiológicas e psicológicas, e então este livro vê o problema do estado de pós-morte como um problema puramente psicofísico. Portanto, as visões de deuses ou demônios, céus ou infernos, não são nada mais que originárias de formas-pensamento kármicas e que são peças alucinatórias que constituem a personalidade do percipiente, sendo, por conseguinte, um produto impermanente nascido da sede de existência e da vontade de viver e crer.
O Bardo Thödol, então, é tão contundente em seus postulados que deixa o leitor com a exata impressão de que toda visão, sem qualquer exceção, em que aparecem entes espirituais, deuses ou demônios, paraísos ou lugares de tormento e purgação, no Bardo ou em qualquer outro plano semelhante de sonho ou êxtase, é puramente ilusória, pois se fundamenta exatamente nos fenômenos sangsáricos.
O objetivo precípuo, portanto, do Bardo Thödol, é provocar o despertar do Sonhador para a Realidade, livre da obscuridade das ilusões kármicas ou sangsáricas, num estado celestial ou nirvânico, para além de todos os paraísos fenomenais, céus, infernos, purgatórios ou mundos de encarnação. Neste sentido, o Bardo Thödolé um livro sumamente budista.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/26476/17/o-livro-tibetano-dos-mortos

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O CORTE DE LÂMINA DE JOÃO CABRAL

O corte de faca, o corte de uma faca só lâmina, eis o que João Cabral de Melo Neto nos propõe. Sua imagem da faca é despertada no sentimento de ausência que possui um homem. Este homem quer o corte, João Cabral, com sua poética fria e compassada, nos dá em perfeito esquema uma faca como bala, e que se compassa exatamente como relógio.
João Cabral é colocado como o poeta da educação da pedra e da vida severina, com justiça, de todo, pois o que sua poesia nos dá é um modo de letra lúcida, a lírica por estas bandas não dá muito as caras, e no caso de Cabral, ela é dispensada e torna-se desnecessária, pois dificilmente deveremos nele toda esta nossa herança lusitana ou lusófona que se cria com tiques e batimentos ornados de barroquismos e arcaísmos. João Cabral é seco, aprendi um pouco com ele a também fazer a tal poesia “limpa”, e me dei bem por vezes.
A faca é a coluna vertebral deste longo escrito de João Cabral, e sua língua seca nos oferece na ausência a presença do corte, fundo e profundo, abarcando em um relógio que nos dá o tempo desta secura e deste corte, pois de toda a poesia de Cabral, esta faca só lâmina é um dos possíveis resumos do que significou a jornada poética de João Cabral de Melo Neto enquanto viveu aqui no Brasil e na Terra.


UMA FACA SÓ LÂMINA

(ou: serventia das ideias fixas)
(1955)

Para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra os próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta,

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e enérgica,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja a faca mesmo).

C

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se embotam mais no músculo,

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for a faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré-baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira.

Bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais).

OBS: o poema continua, mas não vou colocá-lo na íntegra, pois é muito longo, aconselho a edição de Poesias Completas de João Cabral de Melo Neto da editora José Olympio)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/26349/17/o-corte-de-lamina-de-joao-cabral