PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O XERIFE DO MUNDO

 “a China irá passar os Estados Unidos em tamanho de PIB”


A volta de Donald Trump ao poder norte-americano traz uma versão mais perigosa do que se teve em seu primeiro mandato. Após escapar de um atentado por um triz, Trump garantiu todo um desdobramento histórico, pois um atentado daquele seria uma divisão de rumos caso se concluísse tragicamente. 

Um rápido movimento de pescoço definiu, portanto, o que acontece agora e como os Estados Unidos chegaram até 2025. Temos o início do segundo mandato desta figura que, além de ter escapado da morte, é um presidente que sofreu processos diversos, e é mais um desses priápicos clássicos do poder, só não mais patético que Dominique Strauss-Khan.

A ideia dos Estados Unidos como xerife do mundo, consolidada no pós-guerra, no anticomunismo, na guerra fria e no macarthismo, ganha nova configuração com o segundo mandato de Donald Trump, trocando a iminência de consequências atômicas, por controversas batidas do big stick com tarifaços que, a médio prazo, podem fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro.

A moeda política, para Trump, portanto, é mais valiosa que as consequências econômicas de sua guerra comercial. O seu capital político cevado pelo “drill, baby, drill”, da insana exploração do fracking, vem somada a uma retomada de prioridade para a exploração petrolífera, num renovado negacionismo ambiental e climático, com retiradas do Acordo de Paris e quetais, misturando bravatas e medidas efetivas, pois Trump só não peca por falta de clareza, deixando tudo à luz do dia.

A nova investida contra imigrantes ilegais que, até certo ponto, poderiam ser justificadas, acaba sendo distorcida por uma generalização xenófoba que termina com deportações de pessoas que não cometeram crimes, a não ser a ilegalidade da entrada no país, sendo tratadas como gado e até algemadas, chegando aqui no Brasil, por exemplo, com estes relatos de um tratamento violento, como se todos os deportados fossem bandidos e pessoas perigosas.

Ideias tresloucadas como anexações da Groenlândia e do Canadá, por sua vez, inauguram um imperialismo norte-americano movido a alucinações à moda Q-Anon, um dos braços de mistificações, fake news e teorias da conspiração que se associam à alt-right de Steve Bannon e sua tática do que Naomi Klein coloca como um espelho invertido da realidade, como um espantalho, mais bem traduzido por doppelganger.

Contudo, não estamos mais no auge da globalização e do mundo unipolar, nem diante da competência fiscal de um governo como foi o de Bill Clinton, o que ocorre agora é um caminho já traçado em que a China irá passar os Estados Unidos em tamanho de PIB (Produto Interno Bruto) e que vence a guerra tecnológica mundial, ao passo que os Estados Unidos tentam fazer acordos bilionários de investimentos na corrida pela inteligência artificial geral, a AGI, na sigla em inglês.

O imperialismo norte-americano, neste caso, se nutre agora do ego frágil de Donald Trump, numa tentativa de recuperar protagonismos que talvez não tenham volta, e toda a nostalgia do Destino Manifesto, por conseguinte, se tornará o produto cultural de uma nação autocentrada, e que um dia acreditou ser a convergência mundial para todas as coisas, uma espécie de eixo de tudo e colocando os parâmetros para todos os outros países, que é exatamente este tique de xerife do mundo, de que Trump agora padece, numa História que não se repete, mas rima, como dizia o escritor Mark Twain.

Por sua vez, ao lado da figura de Donald Trump, temos a persona histriônica de Elon Musk, que coloca mais um fator de disrupção delirante em campo, pois apesar dos progressos da Space X, um sucesso, contrabalançada com a crise da Tesla, temos esta figura que comprou o Twitter, mudou o nome para X, e se voltou para a extrema direita, com ecos de nazismo e apitos de cachorro, repetidos agora por Steve Bannon, o mentor intelectual da alt-right.

O papel de xerife do mundo, do big stick, parece agora ser uma miríade de medidas tarifárias, e internamente com o governo emitindo medidas para inundar a burocracia do país, tendo como alvos preferenciais a desconstrução das políticas woke e para o aumento das deportações de imigrantes ilegais. 

Esta ideação tipicamente norte-americana de xerife do mundo, um dos produtos do Destino Manifesto, só que ao nível global, que se configurou sobretudo no pós-guerra, por fim, nos dá a impressão de que agora se está ouvindo as últimas batidas de um big stick que pode, a qualquer momento, ser roído pelos chineses.

A China, por sua vez, com a disciplina confuciana e uma sutileza taoísta, já coloca o capitalismo liberal e a democracia representativa ocidental cambaleando diante de um capitalismo de Estado comandado por uma burocracia partidária comunista, uma cabeça de Jano que devora o sonho americano e que desafia paradigmas iluministas consagrados.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-xerife-do-mundo/

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

CANÇÃO DO CASTELO

A sorte ao chão se curvou,

no traçado, no rastro da serpente, 

toda enroscada em meu labor,

frutífera, lacônica espada do sol,

luciferiana chama que não se apaga.


Eis o poema, este febril canto,

na sétima centúria o plasma

se modifica, e os versos entremeiam

rios, e este sangue de rio, que é 

um mar castanho claro e escuro, 

que sangra no estuário 

de meu literário sono, 

eis o tempo.


Na ordem templária, 

descortinada toda alquimia, 

nascia a vinha de enxofre,

de cada castelo se tinha

a areia do fim.


Eu vi o rito esfarelado antigo,

bebendo vinho na noite astuta, 

na bem vivida litania.


Querem matar os asnos,

matar os camelos,

atirar nos pássaros.


As leoas pariram

Cérbero, e a tigresa,

mordendo os molares,

cruzou o gelo da Sibéria,

em busca de uma arraia

no Baikal.


Pois, não me surpreendo, estou chapado.

Lá no limo das estepes da Mongólia,

com a cara enfiada no ópio,

estava o novo escritor

destas fábulas azinhavres,

o tradutor fiel e profundo

deste tempo vil da vileza.


Gustavo Bastos, 26/02/2025 - SUBLIME

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A CONVERSA FIADA VESTE TOGA

“a turminha do funcionalismo gourmet que vive em Downton Abbey”

Saiu agora uma reportagem de O Globo meio que sublinhando o que já sabíamos, que é o espírito corporativo e de casta do Poder Judiciário no Brasil. E isto se dá em todas as suas instâncias, incluindo até o Ministério Público, em um caso clássico, no qual a legalidade, por meio de normas infralegais, tais como portarias etc, serve a uma imoralidade disfarçada, normalizada, em que o teto constitucional de remuneração dos servidores públicos no país é subvertido sistematicamente.

Através de fundamentações casuísticas, para favorecer magistrados que atuam em causa própria, vemos um poder blindado até das reformas administrativas propostas, pois esta casta privilegiada não faz parte da Administração Direta do Executivo. Eles podem emitir suas próprias regras, para si mesmos, por decisões administrativas interna corporis. Ou seja, ali ninguém irá se prejudicar, muito pelo contrário, e ainda contam com a contribuição de um CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que atua de maneira tíbia e hipócrita diante destes arbítrios perante o orçamento público.

Usa-se de uma miríade de medidas infralegais para dar um verniz de fundamentação jurídica para o que, na realidade concreta, é imoral. O positivismo de Kelsen no Brasil virou algo manobrável ao paroxismo, produzindo jabuticabas ao serviço de nababos de uma casta à parte. Este espírito de corpo de nossa Downton Abbey está repleta de penduricalhos, cevada de indenizações, pagamentos retroativos e licenças compensatórias, sendo fundamentadas por sofismas alimentados pelo despautério, pela desfaçatez e pelo cinismo.

Tais penduricalhos, muitas vezes, aparecem como rubricas que recebem o beneplácito de não serem descontados no Imposto de Renda, este leão feroz para os comuns dos mortais e um tigre de papel diante da muralha brâmane das damas de companhia, mordomos, copeiras, motoristas, cozinheira, métrie, babás, auxiliares de serviços gerais, piscineiros, toda a gama de benefícios para a turminha do funcionalismo gourmet que vive em Downton Abbey. O reino mágico de Alice.

Diante deste Mundo de Alice, em que se toma o chá mágico das cinco, o funcionalismo raiz, por exemplo, de professores, em alguns Estados da Federação, aguardam reajustes que, ao menos, atualizem valores da inflação, com alguns eternamente alimentando, ainda, esperanças vãs de verbas extraordinárias vindas do Fundeb, e que são efêmeras, passando a carreira inteira num rame-rame, até se aposentar, sem ver nada pingar na moringa.

O corporativismo sonso do Poder Judiciário, com efeito, é reverberado pela instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal, com ministros que exalam vaidade, e que ainda justificam uma distorção que, nas contas de O Globo, somam R$ 7 bilhões, e que “considerando todos os valores de indenizações e direitos eventuais, o total chegaria a R$12 bilhões” (fonte : O Globo). 

Estes valores são equivalentes a verbas de gestão de um Ministério robusto da esfera federal, por exemplo, tal como o Ministério do Meio Ambiente, só que multiplicado por três, é um assalto. E as justificativas são enviesadas, em que magistrados se protegem mutuamente, fechados em copas. Este é o corporativismo sonso da Justiça brasileira.

Para agravar a crise moral, temos agora um sistema jurídico sob suspeitas de corrupção, com casos se multiplicando, sobretudo, neste último ano de 2024, envolvendo vendas de sentenças, que pune (quando pune) apenas com aposentadorias túrgidas, sem descontos, revelando um Poder Judiciário disfuncional e onívoro.

Tais magistrados suspeitos estão incrustados no sistema de tal forma, que o colapso destes rábulas assanhados travestidos de jurisconsultos, sendo protegidos por respostas protocolares de seus colegas, mesmo diante de escândalos em sete Estados da Federação e na segunda Corte mais importante do país, só pode advir de uma punição exemplar, e que demandará uma resposta sistêmica à altura do contorcionismo linguístico e da ginástica hermenêutica dos preclaros magistrados. 

Este jogo de poder, que não é limitado pelo CNJ, cria pequenos magistrados autoritários, tais como um desses descendentes de famílias tradicionais com sobrenome composto, vindos das capitanias hereditárias que, por sua vez, eram descendentes dos degredados de Portugal.

Tais degredados se tratavam de uma malta de ladrões e punguistas expulsos do Império, um sangue ruim, amargo, e que um de seus tataranetos deu uma carteirada, num fiscal, durante a pandemia, arrotando um francês macarrônico, para “humilhar” o fiscal que lhe estava notificando, em que o desembargador mimado rasgou a notificação, sendo gravado, no entanto.

Diante dos problemas fiscais do país, que não pode alavancar a sua dívida pública impunemente, pois não tem moeda conversível, as justificativas e fundamentações para tantos penduricalhos, que sustentam o Judiciário mais caro do mundo, é a hipocrisia a serviço do escárnio.

É uma casta privilegiada sambando na cara da sociedade civil assalariada, sobretudo do funcionalismo raiz, que é sempre o primeiro e talvez único a ser objeto destas propaladas reformas administrativas, diante de um Legislativo intacto, de cargos de poder e miríades de DAS (Cargo de Direção e Assessoramento Superior) e cargos comissionados se multiplicando. Diante de assessorias numerosas, a serviço, muitas vezes, de rachadinhas. 

E, por seu turno, no topo do sistema, temos um Judiciário intacto, incólume, com uma carapaça intransponível pela burocracia administrativa, e com a vista grossa de um CNJ que faz parte desta mesma estrutura de casta.

Contudo, a opinião pública começa a perceber o escárnio, pois a sanha é tanta, que agora o rei está nu, o rabo está para fora do tapete, e existe uma jamanta sendo cevada indefinidamente com verbas vindas do Tesouro, dinheiro do contribuinte, para sustentar a casta nababesca de Downton Abbey, com justificações bizarras de um corporativismo cínico, vaidoso e, eventualmente, com desembargadores arrotando na cara de fiscais e ameaçando jornalistas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-conversa-fiada-veste-toga/ 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

AMERICAN IDIOT

“O sonho americano é para os americanos”


Com a volta de Donald Trump ao poder, está também de volta o suprassumo do que conhecemos como o idiota americano. Este é uma mistura de MAGA (Make American Great Again), WASP (White Anglo-Saxon Protestant), Red Neck (Nuca Vermelha) e Jerk (Caipira). 

Os Estados Unidos é dividido entre regiões mais cosmopolitas, tais como Nova York, Chicago, Los Angeles, em que estes jerks são objeto de piada e de bullying, e as regiões onde estes chamados caipiras estão, que é predominantemente o Meio-Oeste (Mid West) e estes jerks representam a figura clássica do norte-americano alienado e idiota. 

Tal alienação pode se misturar a tendências conservadoras, e mais adiante, adquirindo tons reacionários, xenofóbicos e racistas. A Klu Klux Klan, por exemplo, é um movimento de supremacia branca que surgiu nos anos 1860, no sul dos Estados Unidos, acabando uma década depois, por ato de uma lei federal, e ressurgindo com o sucesso do lançamento do filme O Nascimento de Uma Nação, em 1915, de D. W. Griffith, neste mesmo ano, agora mais no Meio-Oeste e no Oeste.

Donald Trump é este norte-americano astuto, um populista que cai como uma luva para o norte-americano médio, sem falar nos abaixo da média, e que reverbera este ranço racista, xenófobo, da anti-diáspora, que coloca todo latino-americano, por exemplo, em uma condição de banditismo, merecendo nada mais que as humilhações da La Migra e um retorno para o seu país de mãos abanando e maldizendo o “sonho americano”.

Donald Trump, com o MAGA, quer resgatar este desejo de um Grande Estados Unidos, este cacoete meio que tese histórica ou ego narcisista de um “Destino Manifesto”, desde a Doutrina Monroe, que é este sonho de grandeza de nação, dos maiores e melhores do mundo, e que foi uma grande realidade no pós-guerra, mesmo com a ameaça da União Soviética, contudo, com a maestria de se tornar a maior indústria cultural do mundo, com o seu clímax sendo Hollywood. 

Donald Trump, depois de um período de globalização, e que foi uma espécie de Pax Americana, de ascensão de um mundo unipolar, em que o sonho do imperialismo nunca foi tão real, agora enfrenta uma máquina de copiar, piratear e de potência comercial insana que é a China. A China, que no mundo diplomático, alguns costumam dizer que “enquanto alguns não sabem o que querem, os chineses sempre sabem”.

O jerk é este americano médio, que almoça McDonalds, o MAGA que passou do sobrepeso e flerta com a obesidade, o idiota que tem fetiche pela bandeira dos Estados Unidos, o grande símbolo norte-americano, de um país que se beneficiou como nenhum outro país dos acordos de Breton Woods e depois, com a mudança para uma economia neoliberal, aproveitou o fim do padrão ouro e tornou o dólar a moeda conversível de troca de todo câmbio, o que autoriza aos Estados Unidos produzir uma dívida pública que pode ser alavancada como nenhuma outra, e que tem como um dos principais credores a … China.

O sonho americano é para os americanos, e não para os imigrantes, assim como é de César o que é de César e não de um plebeu que busca uma vaga numa empresa de limpeza e faz uma faculdade para, quem sabe, ser uma das exceções que deram certo no país que é feito para os norte-americanos brancos. O fato é que latinos ocupam empregos baixos, e o movimento negro, por sua vez, depois da superação da segregação literal que durou até meados dos anos 1960, lida agora com a violência policial com atos impulsionados pelo “I can`t breathe”.

O idiota astuto de pele laranja representa o americano médio, que é o americano idiota. E mais idiota que o jerk, que ao menos tem bens materiais, uma casa e um negócio, e pode ter tempo para bizarrices do quilate de uma “máfia dos tigres”, de um Joe Exotic et caterva, temos os idiotas brasileiros, em comitiva, que deram com a cara na porta na posse de Donald Trump.

Eduardo Bananinha et caterva, contando, claro, com a incansável Carla Zambelli, na sua eterna mendicância pela aprovação do chefinho magnânimo Jair Bolsonaro, fizeram papel de palhaço na corte de Donald Trump, e pior, saíram em fase de negação, continuando o périplo de rematados sabujos de um presidente de outro país que, last but not least, não está nem aí para o Brasil, que para os Estados Unidos é tão irrelevante quanto a caricata e pretensa diplomacia de guerra de Lula na Ucrânia, que virou mais uma piada contada por Zelensky.

Por fim, existe este idiota americano, e agora temos seus imitadores no Brasil, com bonezinho do MAGA, detonando um dos episódios mais ridículos da política brasileira, a guerra dos bonés, que se o doente em coma que Jô Soares fazia em Viva O Gordo acordasse, gritaria na hora : “Tira o tubo!”.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O GOLPE BOLSONARISTA - FINAL

 “o ex-presidente não pode se candidatar a nenhum cargo eletivo até outubro de 2030”


Além da tentativa de golpe no final de 2022, Jair Bolsonaro esteve envolvido em outros esquemas que foram noticiados nos últimos tempos, tais como o caso das joias e o da fraude dos cartões de vacinação. O esquema de negociação ilegal de joias por delegações estrangeiras à Presidência da República, por exemplo, teve Bolsonaro e outras onze pessoas sendo indiciadas em julho do ano passado.

Neste caso das joias, Bolsonaro foi indiciado pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e peculato. No caso das fraudes dos cartões de vacinas, Bolsonaro, Mauro Cid e mais 14 aliados foram indiciados pelos crimes de associação criminosa e inserção de dados falsos em sistemas de informações. Este inquérito é o que envolve a suposta fraude de cartões de vacinação da Covid-19.

A investigação do caso dos cartões de vacinação, por sua vez, começou a partir da suspeita, por parte da Polícia Federal, de que Mauro Cid, além de outros assessores, teriam ajudado na emissão de cartões falsos de vacina contra a Covid-19 do então presidente Jair Bolsonaro e de sua filha. Tal falsificação, por fim, era a garantia da entrada de ambos nos Estados Unidos no final de 2022, antes da posse de Lula como novo presidente.

Mesmo com Jair Bolsonaro negando seu conhecimento sobre a falsificação, a Polícia Federal detectou registros do acesso da conta associada ao ex-presidente no aplicativo ConecteSus, o sistema do Ministério da Saúde que emite o certificado de vacinação, de dentro do Palácio do Planalto, por Mauro Cid, para a emissão de comprovantes falsos de vacinação contra a Covid-19.

Por tal acesso ter sido feito no próprio Palácio do Planalto, a Polícia Federal levanta a hipótese de que Jair Bolsonaro estava ciente de tudo. Além disso, tal fraude se estendeu à emissão de cartões para Mauro Cid, sua mulher e as três filhas do casal, e mais dois assessores do então presidente. Todo este movimento estava ligado à entrada dessas pessoas nos Estados Unidos.

Além desses indiciamentos, Jair Bolsonaro foi condenado a oito anos de inelegibilidade. Tal condenação, por sua vez, se fundamentou em dois processos separados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O primeiro foi em junho de 2023, que envolveu a condenação do ex-presidente por abuso do poder político no famigerado convescote que ridicularizou a diplomacia, o que se traduziu numa reunião de embaixadores estrangeiros, em Brasília, meses antes das eleições presidenciais, usando meios de comunicação do governo para persuadir das suspeitas e dúvidas levantadas contra a integridade do sistema eleitoral brasileiro. 

O segundo processo no TSE, por sua vez, se deu em outubro de 2023, desta vez tanto por abuso do poder político como agora também do econômico, uma vez que Bolsonaro usou recursos públicos nas comemorações do Dia da Independência do Brasil, em seu bicentenário, em 2022, para fazer campanha eleitoral.

Toda esta movimentação de contestação das urnas e depois a tentativa de golpe fracassada dos kids pretos, além da série de prisões efetuadas contra fanáticos bolsonaristas que depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, numa tresloucada, porém orquestrada, tentativa de golpe, levou a uma radicalização cada vez maior de parte da população que aderiu às ideias extremistas  e reacionárias de uma direita anti-democrática e intervencionista, que muitas vezes pode se associar a um tipo de neo-fascismo, e nos bas-fonds mais obscuros, até ao neo-nazismo.

Foi neste contexto de radicalização que podemos inserir mais um caso exótico, tragicômico, em que um senhor, em surto delirante, morreu na Praça dos Três Poderes, deitado sobre um artefato que explodiu, isso depois de ter lançado explosivos na direção do STF. Este senhor vinha de uma saga de postagens nas redes sociais, nas quais atacava o STF e pedia urnas eleitorais auditáveis. 

Era um senhor em sofrimento psíquico, que ao fim deixou um recado de tom messiânico e se vendo como um tipo de mártir, no que escreveu : “Não chores por mim! Sorria! Entrego minha vida para que as crianças cresçam com liberdade (…) Aqui de cima posso ver claramente as cores do nosso lindo e amado Brasil, verde, amarelo, azul e branco. SOMOS UMA NAÇÃO ABENÇOADA!”. Este senhor se chamava Francisco Wanderley Luiz e já tinha sido candidato pelo PL.

N antevéspera do que seria a invasão dos Três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, Jair Bolsonaro, após a decretação do resultado eleitoral com a vitória de Lula, não reconheceu, de imediato, a sua derrota, rompendo a tradição política de manifestação pública dos candidatos após a divulgação do resultado das eleições.

Bolsonaro só se pronunciou 40 horas depois, com declarações ambíguas, dizendo : "Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As movimentações pacíficas sempre serão bem vindas, mas os nossos métodos não podem ser o da esquerda, que sempre prejudicaram a população".

No caso da depredação das sedes dos Três Poderes, o episódio levou à detenção de mais de 2 mil pessoas nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023, com 1,4 mil pessoas permanecendo presas nas primeiras semanas de 2023. A condução dos inquéritos foi conduzida pela PGR (Procuradoria Geral da República), realizando investigações em parceria com a PF (Polícia Federal), oferecendo denúncias contra manifestantes ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Os casos aceitos pelo STF, por sua vez, fizeram que investigados passassem a ser réus em ações penais na Corte, com pelo menos 1.524 denúncias da PGR aceitas pelo STF e que viraram ações penais. Por sua vez, familiares e defensores destes réus contestaram que os julgamentos sejam feitos na Corte ao invés de serem feitos em instâncias inferiores.

Além destas contestações, tivemos iniciativas de parlamentares de direita que, por sua vez, atuam para o avanço de projeto de lei para a concessão de anistia a crimes políticos e eleitorais cometidos no contexto das eleições de 2022 e dos ataques de 8 de janeiro de 2023.

Sobre a PL da Anistia, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, criou no fim de outubro uma comissão especial para discutir o assunto. Com isso, ele retirou a PL da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Com isso, ele tira o tema do debate envolvendo a sucessão na presidência da Câmara, pois se trata de uma moeda para negociação do apoio das duas maiores bancadas da casa, PT e PL.

A comissão especial deverá ter 34 membros. Caso uma proposta seja aprovada ali, esta seria encaminhada, em seguida, para votação no Plenário. Não há, por enquanto, cronograma definindo a data de início do trabalho da comissão. Mesmo com a sensação de vitória para apoiadores de Jair Bolsonaro, com esta comissão especial, Lira também retirou a tramitação de outro projeto de lei de anistia, este de autoria do Major Vitor Hugo (PL-GO), da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

A questão da anistia virou moeda de troca no apoio a candidaturas à presidência da Câmara, com o PL condicionando seu apoio ao avanço da ideia, e o PT, o contrário. Agora tivemos as eleições dos presidentes das duas casas do Congresso para a nova legislatura, com Hugo Motta (Republicanos-PB) sendo eleito presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) sendo eleito presidente do Senado.

No Senado, por sua vez, existe outro projeto de lei de anistia, este de autoria de Hamilton Morão (Republicanos-RS), que foi vice-presidente de Jair Bolsonaro. O projeto de lei está em consulta pública, com reclamações de parlamentares de oposição sobre a demora na tramitação no Senado. Para saber, a Constituição prevê que o Congresso Nacional possa conceder anistias. Contudo, também temos projetos que buscam uma anistia a Jair Bolsonaro no sentido de reverter a sua inelegibilidade,, pela qual o ex-presidente não pode se candidatar a nenhum cargo eletivo até outubro de 2030.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-golpe-bolsonarista-final/

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

PARDON, MY FRENCH

Como é a palavra esta porra deglutida, que sai para fora,

depois do engulho, numa lufada, baforada, golfada.

Na dança dos corpos, semi-glote, palato, língua.


Semaglutida, na linfa, amígdala, impulsiva,

palavra várzea, motora, psíquica.

A poesia, esta matéria urdida, costura

da vida, tece o tecido e faz a pele de 

poeta, na poeira da areia do mar.


Faz essa messe, estourada, e tem 

viço, xinga, maldiz, atordoa.

Tem de tudo na palavra livro,

na palavra livre, do Deus me

livre, do me livre que eu sou

liberdade, pardon, my french,

coma esta bosta, tua quizila,

tua bazófia, morra na masmorra.


Este poema não é teu,

este poema é meu.

Toda esta palavra,

assim dada para mim,

tece minha messe,

meu caminho,

por todo o rito,

sem peia, dando

na moleira,

não cala,

não tem 

meneio.


Este meu castelo que fiz,

minha porta, minha janela.

Esta, minha casa, meu estro.


Pois, de cada fome, está cheio

o poema brio, repleto, pleno.

Um poema de sol, de lua,

assim assim, toda a sinistra,

a destra, na ambidestra

escansão.


Gustavo Bastos, 31/01/2025 - MONSTER



sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O GOLPE BOLSONARISTA - PARTE 3

“o país sofreu uma série de assédios em sua História recente”

Walter Braga Netto foi preso no sábado dia 14/12 pela Polícia Federal (PF). O general da reserva, ex-Ministro da Casa Civil e da Defesa, e que foi candidato à vice-presidência na chapa derrotada com Jair Bolsonaro acabou preso por obstruir a Justiça. Braga Netto fazia parte da organização que planejou o golpe no final de 2022.

Tal organização se dividia em seis núcleos e teve, segundo a PF, participação efetiva de Braga Netto, sendo que no relatório de 884 páginas da Operação Contragolpe ele é citado 98 vezes. O chamado gabinete de crise, que seria instaurado após o golpe, por exemplo, com o fito de realizar novas eleições, seria chefiado por ele e pelo general Augusto Heleno. Braga Netto participou na elaboração dos planos golpistas, e em sua casa, no dia 12 de novembro de 2022, se realizou a reunião em que se aprovou o planejamento operacional do golpe.

O decreto golpista, por sua vez, seria implementado após a realização do golpe, por Jair Bolsonaro, com o apoio deste gabinete de crise chefiado por Braga Netto e por Augusto Heleno, ligado diretamente à Presidência da República. Uma das tarefas do gabinete, também, seria a de traçar estratégias de comunicação em busca de apoio nacional e internacional e a articulação de redes de inteligência. 

Tal intento era ambicioso, mas tanto, que não entrava no cálculo o risco de o Brasil virar um pária diplomático, tomado por um golpe à moda antiga, com o país virando mais uma versão de republiqueta bananeira do que qualquer outra coisa. Por sua vez, a rede de inteligência, quando muito, teria um apoio nacional bem relativo, repleto daqueles mesmos idiotas guiados por mentores da ação bandoleira e vândala nos Três Poderes, em Brasília, do dia 8 de janeiro de 2023, um capítulo de demência política inaudita na História do Brasil.

Braga Netto também participou da famigerada e mal sucedida ofensiva para pressionar os então comandantes da Aeronáutica e do Exército para que aderissem ao golpe, quando ocorre o fato determinante nesta história toda, pois eles foram voto vencido, tendo apenas a adesão do então comandante da Marinha, o almirante Almir Garnier. Os golpistas foram derrotados como num placar de futebol por dois a um. 

A prisão preventiva do general Braga Netto foi determinada por decisão do ministro Alexandre de Moraes do STF, pois o ex-ministro teria tentado obter dados sigilosos dos depoimentos prestados à Polícia Federal, na tentativa de obstruir as investigações.

A divisão em seis núcleos do grupo golpista, por sua vez, servia como forma de distribuição de tarefas, na individualização das condutas. O grupo foi indiciado por três crimes, que foram a abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa. A divisão relatada é baseada na Operação Tempus Veritatis, realizada em fevereiro deste ano.

O primeiro núcleo é o de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral, cuja função era produzir, divulgar e amplificar notícias falsas relacionadas à lisura das eleições presidenciais de 2022, estimulando bolsonaristas a ficarem em frente a quartéis e instalações militares para criar uma atmosfera para o Golpe de Estado. Dentre os integrantes deste núcleo estavam o tenente-coronel do Exército, e então ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, Mauro Cid, além do então Ministro da Justiça Anderson Torres.

O Núcleo de Incitação Militar, por sua vez, tinha a função de eleger alvos para amplificação de ataques contra militares em posição de comando que estavam resistentes e contra os planos golpistas. Neste núcleo estavam, por exemplo, Braga Netto, o jornalista Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente militar João Figueiredo, e Mauro Cid.

O Núcleo Jurídico, por sua vez, elaborava minutas de decretos com fundamentação pseudo-legal para atender os interesses do grupo golpista. Foi deste núcleo que saiu a famigerada “minuta do golpe”, documento cujo rascunho foi encontrado na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que previa a decretação de medidas de exceção como o Estado de Sítio, para evitar a transferência de poder para o então presidente eleito Lula. 

Anderson Torres, por sua vez, passou um breve período preso, em que se revelou um moleirão, com ideações suicidas na cela. Ao passo que Lula passou mais de um ano em regime fechado, no auge do lavajatismo, com galhardia. Dentre os integrantes deste núcleo temos o ex-assessor para assuntos internacionais de Jair Bolsonaro, o racista Filipe Martins, além do choramingão do Anderson Torres e de Mauro Cid. 

O Núcleo Operacional de Apoio às Ações Golpistas, por sua vez, realizava reuniões para planejamento e execução de ações para manter as manifestações bolsonaristas em frente aos quartéis engajadas e ativas, com mobilização, organização logística e financiamento de militares das forças especiais em Brasília.

O Núcleo de Inteligência Paralela, por sua vez, era responsável por auxiliar a tomada de decisões do então presidente Jair Bolsonaro em relação ao plano de golpe de Estado. Uma das tarefas deste núcleo era monitorar o ministro do STF Alexandre de Moraes, então presidente do TSE, em seus deslocamentos, itinerários e localização, além de outras autoridades.

Este núcleo do grupo visava a captura de Alexandre de Moraes e de outras figuras políticas contrárias à ruptura democrática, tudo a partir do momento em que Jair Bolsonaro assinasse um decreto viabilizando o golpe de Estado. Os integrantes deste núcleo eram Augusto Heleno, Marcelo Câmara e Mauro Cid. Este núcleo desenvolveu diversas ações clandestinas, se utilizando de forma ilegal da estrutura de órgãos do Estado brasileiro, tudo no fito tanto de consumação do golpe de Estado como de manutenção de Jair Bolsonaro no poder após o golpe. 

Por fim, o Núcleo de Oficiais de Alta Patente e Apoio teria o objetivo incitar apoio aos outros núcleos ao endossar as ações para a consumação do golpe de Estado. Dentre os integrantes deste núcleo temos Braga Netto, o ex-comandante adesista da Marinha Almir Garnier, o general da reserva Mário Fernandes, o general Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira, além do general da reserva Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Caberia a este núcleo o sequestro do ministro Alexandre de Moraes, tarefa que seria executada por militares das Forças Especiais do Exército, os chamados “kids pretos”, que estavam então subordinados ao general Theophilo.

Tanto na derrota aritmética nos Altos Comandos das três Forças Armadas como, mais uma vez, com um capítulo mambembe de execução canhestra em que sobrou ambição e faltou o mínimo de inteligência, como a dependência de itinerários de táxis com sinalização manual à moda antiga, e na falta deste, cria-se um cenário de comédia pastelão, com todo um desdobramento patético, o Brasil teve sorte no azar. Em toda esta saga bolsonarista, o país sofreu uma série de assédios em sua História recente, contudo, misturando a tragédia iminente das intenções e ambições com a comédia indelével dos resultados e da descrição de cenas risíveis e ridículas destes convescotes e conspiratas.


(obs : Prezados (as) leitores (as), estarei de férias nos próximos dias, retornarei em fevereiro. Até a volta e boas festas!)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-golpe-bolsonarista-parte-3/