PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 22 de junho de 2022

FLANELINHA E A RUA DO CAOS

“Zé Antônio começou contando de sua relação com Zé Pelintra”

Estava trabalhando num documentário novo, sobre guardadores de carros em eventos no Rio de Janeiro. Já tinha feito alguns trabalhos online durante a pandemia de pintura virtual, um novo hobby que adquiri por não poder fazer pautas em locais que gostava, como antes da Covid-19. Depois que tomei três doses de vacina, resolvi retomar o meu trabalho de documentarista eventual, e logo me deparei também com uma pauta para o meu jornal.

Um dos guardadores de carro que conheci já tinha uns sessenta e seis anos e tinha caído naquela depois de ter perdido seu emprego em uma empresa prestadora de serviços para a construção civil. Ele era um dos responsáveis pela limpeza e conversava muito com um mestre de obras que, depois de beber muita cachaça, tinha morrido de infarto, e um mês depois, a empresa deste agora guardador de carros o demitiu.

Seu nome era José Antônio Costa Ribeiro dos Reis, era também um ritmista de um grupo de samba, e parecia um homem meio louco, que gostava de cachaça e cigarro, e de ouvir muito Cartola e Nelson do Cavaquinho, este último, como um tipo de mestre dele, tanto na música como nas bebedeiras. Ele também falou que seu pai tinha conhecido Ismael Silva etc.

Os papos sobre Noel Rosa renderam muito também e ele me contou que tinha uma máfia que comandava aqueles guardadores de carros e que ele não podia falar nada. Resolvi que iria ouvir um pouco de sua vida pregressa, e pedi autorização para produzir este material para a minha pauta jornalística, e que ele, Zé Antônio, seria um dos personagens principais deste meu novo documentário, que eu pensava em chamar “Flanelinha e a rua do caos”.

Já tinha gravado alguns takes, tinha algumas dezenas, poderia descartar dois terços deste material e aproveitar um outro terço que já dava um bom bocado. Lá tinha o marmiteiro, e também o chefe daqueles guardadores, que falou, falou, mas não entrou em detalhes das ilegalidades que rolavam por ali, e eu também não me arrisquei a perguntar. Conversei longamente com dois guardadores, um menino novo de nome Jonas, e um senhor de nome Timóteo, este que era muito amigo do Zé Antônio.

Por sua vez, Zé Antônio começou contando de sua relação com Zé Pelintra e de como suas tours pela Lapa tinham a marca da influência desta entidade. Suas idas ao terreiro de Dona Noca, no Morro da Providência, dava um pano bom de histórias, como de seus trabalhos com pólvora e explosões, e que serviam para ele ganhar a proteção da esquerda matreira, que levantava e derrubava gente como eles achavam melhor. 

No caso dele, depois de ter perdido o seu emprego na construção civil, ele ficou seis meses sem trabalho, fazendo um bico de entrega de marmita, e foi quando ele conheceu o Timóteo, que o levou com ele para trabalhar guardando carros em eventos. Ele diz que foi Zé Pelintra que apresentou o Timóteo, só que sua mulher, Ruth, dizia que era coisa da cabeça dele, ela era meio cética e porra louca, e levava tudo na piada.

No caso da Lapa, ele fazia disputas de pif paf e de bilhar, de vez em quando se embrenhava numa roda de Capoeira Angola e conhecia uns malandros que faziam jogos de mesa para enganar incautos, um desses malandros era sobrinho dele, Fabinho, e ele disse que o Fabinho já tinha escapado de duas tocaias, e que seu Zé Pelintra tinha dado conta de três de seus carrascos, dois tinham morrido de acidente automobilístico e um de overdose de cocaína.

A disputa de bilhar tinha o Doca, que uns chamavam na brincadeira de Rui Chapéu, e que ganhava uns bons trocados em apostas, enquanto o Zé Antônio, de vez em quando, dobrava o que tinha ganhado guardando carros, e depois ganhava mais uns agrados no pif paf e recebia almoço de marmita pago pelo Fabinho quando rolava uma bolada tomada dos otários da rua. O Doca conhecia também o Timóteo e não trabalhava, fazia jogos para tomar dinheiro na rua, e era mais esperto até que o Fabinho, que tinha aprendido com ele, mas não tudo.

Sobre o próprio Zé Antônio, ele disse ter conhecido Ruth numa roda de samba, e o pai dela foi que começou a beber com ele primeiro, gostou dele e a Ruth apareceu e aconteceu a mesma coisa, foi tudo muito rápido, e ele foi estranhar depois é que a Ruth não perdia viagem e nem um chiste, era dá pá virada, e ele agora já tava acostumado com aquela zoeira, pois era toda hora, o Zé Antônio dizia que tinha um erê brincalhão que ficava pendurado nela e falando bobagem o tempo todo. Dele, fiquei sabendo que trabalhou de pescador quando jovem, e que tinha aprendido com Iemanjá o marulho e o ritmo dos cardumes.

Me parecia meio louca a descrição dele sobre Ruth, era uma relação incomum, e seu filho Ricardinho era que nem a mãe, um pândego de mão cheia, e que agora pensava em estudar teatro e ganhar dinheiro com stand-up comedy. De resto, depois que saiu da pesca, tentou a sorte como vendedor, garçom, ajudante de pedreiro, frentista, músico de rua e motorista de madame, já atuou como cambono do Exú Caveira, e foi quando esta sua história com o Zé Pelintra começou. Depois de ficar como motorista de madame, aprendeu um pouquinho de inglês, mas depois perdeu o emprego e foi parar na tal empresa prestadora de serviços para a construção civil.

Hoje em dia, Ruth continua com o seu trabalho de babá, o que fez a vida toda, desde os quinze anos, e acompanha Zé Antônio nas bebedeiras e nos jogos de bilhar. Seu melhor amigo hoje em dia é o Timóteo, e o Jonas, que conhece seu sobrinho Fabinho, não se mete em malandragem, vai para a igreja Assembleia de Deus para orar e ouvir a palavra, e junta tudo o que tem com o seu trabalho de guardador de carros. Não se mete em confusão. Fabinho é brigão, puxa faca e joga capoeira, por isso já foi tocaiado, até agora escapando.

Terminei a minha conversa com Zé Antônio, este take ficou bom, e entraria sem cortes para a fita master do meu documentário. Depois, de noite, fomos eu, ele e o Timóteo, para beber na Lapa, conversar e jogar bilhar, não foi novidade que eu levei uma surra na mesa verde daqueles alunos de Rui Chapéu. Mas, tudo bem, tinha um aipim frito com carne seca e cebola que compensou tudo no fim. 

Guilherme Thompson, cronista e outsider.

 

Guilherme Thompson é um cronista outsider, documentarista eventual, jornalista autodidata, nascido em 01/01/1974 na cidade do Rio de Janeiro, ganha a vida em jornais diversos, trabalha por demanda própria, vive nas ruas caçando pauta, meio como um antropólogo intuitivo, estuda literatura e filosofia por conta própria, gosta de se vestir com camisas de bandas de rock clássico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/flanelinha-e-a-rua-do-caos

quarta-feira, 15 de junho de 2022

ARRAIA

“eu vi a arraia estendida na pista que cobre o píer, já vencida pelo cansaço”


Sentir a maresia nos pulmões, entre os marulhos que dançam nos ouvidos. E depois, com a música batendo e a caminhada vigorosa adiante. Em uma tarde suave na Praia de Camburi, onde estou muitas vezes para ir por todo o calçadão, como num hábito de suar e não parar nunca, à espera da chegada e de um banho confortável, da sensação de bem-estar que vem após o esforço físico. 

A disposição, nesta tarde em que cheguei à Vitória, no Espírito Santo, eu não sabia que poderia ser uma tarde inspiradora. A caminhada se fazia como rotina, um exercício comum, em que as minhas pernas vão adiante, e não paro, não descanso e nem me canso, vou e volto no mesmo fôlego. Me habituei à caminhada longa, que dura em torno de duas horas, sem parada, somente se for, eventualmente, para beber uma água de côco. Na Praia de Camburi agora tem aos montes. As barraquinhas em que você pode pagar tudo no Pix ou no PicPay.

Normalmente, eu vou até o final da praia, na altura do píer de Iemanjá, mas não entro no píer, só se me der vontade. Nesta tarde, no entanto, me deu vontade de avançar até o píer, entrar e ir até o final do píer, onde fica a grande estátua de Iemanjá, perto da Ilha do Frade, e que tem uns barcos e alguns pescadores. O vento vem suave, e o cheiro da maresia e a sensação da imensidão e de que não sei de nada como uma convicção de fortuna. Conto com o que vem, confio, mesmo sem saber.

Parei, e se não me engano, sentei na beirada final do píer de Iemanjá. A grande estátua tem os braços estendidos, como se recebesse quem ali vinha para pensar, contemplar e olhar o horizonte, entre os navios que saíam do Porto de Tubarão, e a grande praia estendida à esquerda, formando um grande arco, uma parábola de areia comum à toda enseada. O mar é esverdeado, o céu estava claro, tudo em paz, e eu já sentindo o conforto que advém do esforço da caminhada, que é a energia ligada, a disposição ativada e a respiração conduzindo tudo entre os batimentos do coração. 

Depois de ter ter feito a minha contemplação, pensado na vida, ou apenas respirado calmamente, relaxando da primeira parte da caminhada, pois ainda teria a volta até o bairro de Jardim Camburi, eu não tinha ideia de que algo me surpreenderia, algo que é comum aos pescadores, um evento banal, mas que me chamou a atenção, e me fez tirar até uma foto : era um pescador que tinha pescado uma arraia.

A cena que vi foi de quando levantei do final do píer e fazia o meu retorno para a caminhada, mas parei ao ver, nas pedras de baixo que também cobrem o píer de Iemanjá, no lado voltado à Praia de Camburi e diante do mar, um pescador que lutava com uma arraia. Ele fazia a doma desta arraia, e esta se debatia ferozmente nas pedras, com o anzol que já a tinha capturado, e neste caso não vi arpão, se não me engano. A luta do pescador com a arraia se debatendo, ele tentando domá-la, tudo formando uma grande coreografia de pesca.

A coreografia foi intensa, até que o pescador, que também se equilibrava entre as pedras irregulares e protuberantes que formavam o píer, conseguiu domar a sua fera, ou melhor, a arraia. A luta pela vida deste parente próximo do tubarão tinha sido em vão. Eu acompanhei esta luta feroz entre pescador e pesca, e que sendo tão comum a um pescador, era algo digno de uma foto para um transeunte que não pesca. Se fosse um peixe, não teria sido tão curioso. Mas, esta cena de arraia era já um evento diferente no meu primeiro dia em Vitória, depois de ter vindo de avião do Rio de Janeiro.

Ao final, eu vi a arraia estendida na pista que cobre o píer, já vencida pelo cansaço, respirando nada mais, pois era um peixe cartilaginoso, do filo dos chordata, da subclasse dos Elasmobranchii, que possui fendas branquiais, que agora procuravam o H²O, e não havia mais, estava fora do mar, estendida no chão do píer. 

Foi quando eu bati a minha foto, como se fosse algo de um rolê aleatório, de algo que passa como irrelevante nas redes sociais, mas que me faz postar mesmo assim. Pois o que me chama atenção, muitas vezes, pode ser interessante para uma crônica, mas passa batido para muitos outros temperamentos, também nas redes sociais. Postei esta foto no Instagram, e pareceu mesmo um rolê aleatório, pois tinha mais de um ano que não usava o Instagram. Só fiz isso do nada.

As arraias típicas possuem barbatanas, têm o corpo achatado, com uma diferença apenas morfológica dos tubarões. As arraias são peixes batoides, pois suas fendas branquiais estão debaixo da cabeça, diferente dos tubarões. As arraias podem viver no fundo do mar como as arraias demersais, e tem o caso das arraias jamantas que são pelágicas (isto é, vivem próximas a ilhas). Temos as arraias verdadeiras que possuem barbatanas dorsais na extremidade da cauda, além dos uges ou ratões, estes que possuem na cauda um espinho venenoso que podem causar náuseas, vômitos, etc. As toxinas na cauda de algumas arraias também podem ser fatais para um ser humano.

Uma tarde calma na Praia de Camburi me trouxe este cenário inusitado. Passaram alguns meses e acho que a descrição tão prosaica tem uma riqueza de coreografia. Nada substitui a sensação de ver este embate do pescador com a arraia. Este texto não cobre a intensidade de ver e ouvir aquelas barbatanas batendo nas pedras, e o anzol puxando e repuxando, e o pescador fazendo seu trabalho de musculação e resistência para domar este peixe batoide, primitivo, com cartilagem, e que lutava para não morrer. 

Outra coisa curiosa, por fim, foi eu ter ido até o final do píer ao invés de dar meia volta em sua entrada, como faço muitas vezes nas minhas caminhadas quando estou nesta praia, e a razão insondável de eu ter presenciado esta agitação toda no momento exato em que saio de minha contemplação e faço o meu movimento para sair do píer, parar, ver isto acontecendo, e tirar uma foto.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/arraia




quarta-feira, 8 de junho de 2022

O ANTISSEMITISMO E O HOLOCAUSTO NAZISTA - PARTE 2

judeus foram encaminhados para os campos de extermínio para serem assassinados”

Quanto aos fuzilamentos em massa cometidos no período nazista temos os que ocorreram nos campos de extermínio em áreas ocupadas na Europa Oriental. Existiam campos localizados juntos a grandes cidades, incluindo o Forte IX em Kovno (Kaunas), as Florestas Rumbula e Bikernieki em Riga, na Letônia, e Maly Trostenets, perto de Minsk, na Bielorússia. Nestes campos foram assassinados dezenas de milhares de judeus dos guetos de Kovno, Riga e Minsk.

Nos fuzilamentos em massa feitos na Europa Oriental, por sua vez, se incluíam como executores os Einsatzgruppen, que eram as forças especiais das SS e da polícia, ainda tínhamos os batalhões da Polícia da Ordem e as unidades das Waffen-SS. A Wehrmacht (Exército Alemão) fornecia mão de obra e logística para tais execuções, e a própria Wehrmacht efetuava massacres. Os fuzilamentos também tinham a participação de unidades locais. Um total de 2 milhões de judeus foram assassinados nos caminhões de gás e por fuzilamento em massa em territórios tomados da União Soviética.

Os campos de extermínio fixos começaram a surgir em 1941. O que ocorreu na Polônia, ocupada pelos alemães, em que surgiram cinco campos de extermínio, que eram Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Chelmno, Belzec e Sobibor. A morte em massa na forma de uma escala macabra então se inicia. O gás venenoso liberado em câmaras se tornou o método de extermínio nestes campos, também incluindo caminhões de gás. Tais ações de extermínio, contudo, eram disfarçadas como ações de reassentamento ou transportes de evacuação.

Os judeus que chegavam aos campos de extermínio vinham de toda a Europa por vias férreas. A maioria era assassinada quando chegava aos campos de extermínio. Os judeus considerados saudáveis iam para o trabalho escravo. Os judeus assassinados nestes campos de extermínio, por sua vez, eram objeto de enterros em massa, queimados em piras ou em crematórios. Cerca de 2,7 milhões de judeus foram assassinados nestes campos de extermínio.

Os guetos, por sua vez, foram organizados em áreas de cidades ou aldeias em locais dominados pelos alemães em que judeus forma lotados em condições insalubres e com excesso de gente. Eram erguidas muralhas e barreiras para isolar estes guetos. Tais guetos começaram a surgir na Polônia entre 1939 e 1940. Os maiores guetos foram os de Lodz e o de Varsóvia. Os guetos, logo depois, se espalharam por outras partes da Europa.

Os guetos foram projetados para isolar os judeus. O trabalho escravo se tornou uma prática dominante em tais guetos. Devido à insalubridade e miséria em tais guetos, eram comuns mortes por fome, doenças contagiosas, hipotermia, além de exaustão pelo trabalho escravo. Os judeus dos guetos também eram assassinados por espancamentos brutais, fuzilamentos, torturas e outras formas de assassinatos.

Nos guetos, apesar das condições adversas impostas pelos alemães, havia tentativas de se organizar comunidades, o que poderia incluir escolas, bibliotecas, instituições religiosas, serviços sociais comunitários, tudo dentro de limites extremos e condições precárias, e ainda tivemos movimentos de resistência destes guetos, sendo o mais conhecido a “Revolta do Gueto de Varsóvia”, em 1943.

Houve uma inflexão entre 1941 e 1942, quando os alemães e seus aliados assassinaram em massa populações destes guetos, dissolvendo suas estruturas administrativas. Isto já fazia parte do que foi chamado processo de liquidação, o que incluía um plano maior, que viria a ser a “Solução Final da Questão Judaica”.  Estes judeus foram encaminhados para os campos de extermínio para serem assassinados.

Dos responsáveis pela organização da Solução Final temos Adolf Hitler no nível mais alto, que inspirou e apoiou o genocídio dos judeus na Europa. O plano em si, por sua vez, foi traçado diretamente por outros líderes nazistas como Hermann Göring, Heinrich Himmler, Reinhard Heydrich e Adolf Eichmann. Houve também a participação de milhões de alemães e outros europeus no Holocausto. Os líderes nazistas também se apoiaram em instituições e organizações alemãs, de outras potências do Eixo, além de indivíduos e na burocracia.

O nazismo se apoiou no Partido Nazista, nas SA (Stormtroopers ou Brownshirts), as SS (Schutzstaffel, o Esquadrão de Proteção). Também tiveram um desempenho ativo membros dos Sicherheitsdienst (SD), da Gestapo, da Kripo (Polícia Criminal) e da Polícia da Ordem. Outras instituições também se envolveram na Solução Final como o sistema militar alemão, os sistemas ferroviários, justiça criminal alemão, sistemas de serviço público e de saúde, bancos alemães, além de companhias de seguro e empresas alemãs.

Entre aliados e colaboradores do nazismo alemão estão as potências do Eixo, regimes colaboracionistas como a França de Vichy, casos como o da Holanda, deportando judeus, e forças policiais, civis e militares locais apoiadas pela Alemanha para massacrar judeus. Também houve diversas delações de judeus às autoridades pela população comum e aparentes “amigos”, denunciando esconderijos ou desmascarando judeus que poderiam se passar por cristãos. As motivações poderiam ser várias, incluindo interesse próprio, ganância, vingança, antissemitismo, etc. Muitos também lucraram invadindo e roubando o patrimônio de judeus, realizando saques, além de tomarem o controle de seus negócios.

Além dos judeus, outros grupos também foram perseguidos pelos nazistas, começando por opositores políticos, no início do regime, Testemunhas de Jeová, que resistiam a jurar lealdade ao governo ou servir o exército alemão. Pessoas consideradas prejudiciais à sociedade alemã também foram perseguidas, como os acusados de serem homossexuais, criminosos profissionais, vagabundos, mendigos, prostitutas, cafetões, alcoólatras, afro-alemães e pessoas com deficiências físicas ou mentais.

No começo do regime já acontecia a esterilização de pessoas consideradas com condições hereditárias insalubres. Na eclosão da guerra mundial, por sua vez, tais pessoas consideradas deficientes foram encaminhadas para serem assassinadas no chamado “Programa de Eutanásia”. Ainda foram exterminados os romani (ciganos), além dos poloneses, alguns fazendo parte das elites polonesas ou intelectuais do país. Por fim, também foram assassinados oficiais e prisioneiros soviéticos.

O fim do Holocausto se deu com a derrota da Alemanha nazista, que aconteceu oficialmente em maio de 1945. As potências Aliadas, que a esta altura incluíam Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética, obtiveram a vitória e, então, nos campos de extermínio, foram libertados prisioneiros, incluindo os que se encontravam na chamada “marcha da morte”, que eram marchas forçadas de grupos de prisioneiros evacuados dos campos de extermínio sob a guarda da SS para andarem até morrer de exaustão e frio.

Ao contrário dos delatores de esconderijos judeus, também tivemos pessoas que ajudaram e protegeram judeus perseguidos pelo nazismo. Eles forneceram abrigo, identidade nova (sobretudo cristã), alimentos e suprimentos, por exemplo. Movimentos de resistência como o do partisans foram formados por judeus sobreviventes. Por fim, tivemos os sobreviventes dos guetos e dos campos de extermínio e de concentração. Os judeus chamaram o Holocausto, genocídio cometido pelos nazistas, de Shoah, que significa “catástrofe” em hebraico.

As câmaras de gás foram uma ideia trazida do Programa de Eutanásia, que era conhecido como Aktion T4, em que eram assassinados pessoas com deficiência física ou mental. Em Belzec, o primeiro campo de extermínio que foi erguido, havia uma câmara de gás em que se usava monóxido de carbono, matando as pessoas por asfixia. Depois, em outros campos de extermínio, os nazistas passaram a usar Zyklon-B para realizar os assassinatos.

Os números de mortos foram de 1,2 milhão, aproximadamente, em Auschwitz-Birrkenau, 900 mil em Treblinka, 400 mil em Belzec, 170 mil em Sobibor, 150 mil em Chelmno e 80 mil em Majdanek. Foram também registrados testes realizados em cobaias humanas por médicos nazistas nos campos de concentração. Ao final, depois da derrota nazista, começou os Julgamentos de Nuremberg, em que os líderes nazistas foram julgados e condenados.

O chamado Tribunal Militar Internacional de Nuremberg realizou julgamentos que se estenderam durante nove meses e condenaram nazistas à morte por enforcamento, prisão perpétua ou prisão por um período de tempo. Foram condenados à morte por enforcamento Hermann Göring, chefe da Luftwaffe (força aérea) e Joachim von Ribbentrop. Dentre os condenados à prisão perpétua estavam Rudolf Hess, vice-líder do partido nazista, e Erich Raeder, comandante da Kriegsmarine (marinha alemã).

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-antissemitismo-e-o-holocausto-parte-2 

sábado, 4 de junho de 2022

O SOM E A FÚRIA : A DURA VIDA NO SUL DOS ESTADOS UNIDOS

“aqui temos uma união simbiótica de tema literário e estilo ou forma, ambos são sobre o caos” 

William Faulkner nasceu em 1897, na cidade de New Albany, Mississippi. Fez a sua estreia em ficção em 1926, com o seu romance “Soldier`s Pay”. O escritor, a partir deste ponto, passou a ter uma produção prolífica, e sua literatura partiu para o impacto que foi seu romance “O Som e a Fúria”, de 1929. Sua consagração internacional, por sua vez, veio com Palmeiras Selvagens, de 1939. Faulkner, então, em 1949, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. 

Durante os anos 1940 e 1950, William Faulkner, além de publicar contos, novelas e romances, passou a escrever roteiros para Hollywood, também colaborando para o Departamento de Estado na difusão da cultura americana, tendo visitado muitos países como palestrante. Faulkner veio a falecer em 1962, já como um escritor consagrado e premiado. 

William Faulkner escreveu 17 livros que se ambientavam no mítico condado de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos, e que viria a ser o lar da família Compson no romance “O Som e a Fúria”.  O condado nos parece um lugar bem real dos Estados Unidos sulista, e todos os costumes e ações estão lá bem retratados e fiéis, num período que abrange as primeiras décadas do século XX. 

William Faulkner usava a sua imaginação criadora para reproduzir modos de vida que existiam, de fato, mas com um retrato enriquecido de sua trama que nos leva aos lugares reais, mas também ao que seus romances conduzem, histórias de famílias sulistas em conflito ou diante de desafios que fazem estes romances evoluírem numa espiral de acontecimentos ásperos ou demonstrando situações em que os limites são testados, como no romance que venho retratar aqui, “O Som e a Fúria”. 

William Faulkner possui um estilo próprio de prosa, com um método quase hipnótico, de orações desconjuntadas e contínuas, o que pode desorientar o leitor que não estiver bem concentrado em sua leitura, pois William Faulkner requer uma familiaridade de leitura que só vem do hábito, pois, num primeiro momento, ler Faulkner é algo chocante do ponto de vista formal, a sua prosa é caótica e bruta. 

Uma característica que pode ser uma das virtudes da prosa de Faulkner é que ele privilegia muito todos os seus personagens, temos sempre uma boa descrição, e muitas vezes estes personagens aparecem falando as suas próprias histórias, aqui não há o método do narrador onisciente, talvez a crueza de sua prosa, portanto, venha tanto da localidade de um condado áspero e sulista fictício, como de uma demanda que ocorre das falas destes personagens que pendem de uma ignorância caipira a um desamparo essencial diante de um deserto existencial, cujo embrutecimento reflete na forma de escrita bruta e caótica de Faulkner. 

Os livros de William Faulkner são repletos de relatos de sofrimento, morte, ganância e depravação. Faulkner, ao abordar a realidade sulista norte-americana, nos proporciona um mergulho numa vida comum do início do século XX e suas perspectivas, ou melhor, a falta destas. A liberdade, aqui, se vê diante de inúmeros obstáculos, e Faulkner acaba constituindo, por outro lado, com a sua prosa endurecida, uma comédia de costumes do sul dos Estados Unidos, e foi este retrato que se tornou um marco na literatura mundial. 

A sua literatura original, por exemplo, em 1949, quando William Faulkner recebeu o Nobel, foi citado pela premiação como um escritor de “poderosa e artística contribuição para o romance moderno norte-americano”. Nos seus últimos livros, O intruso, de 1948, Requiem for a Nun, de 1951, A Fable, de 1954, que foi Prêmio Pulitzer, A cidade, de 1957, A mansão, de 1959 e Os invictos, de 1962, que também foi Prêmio Pulitzer, William Faulkner continuou explorando os conflitos do coração humano diante de cenários ásperos e duros. William Faulkner faleceu em 1962, no dia 6 de julho, de ataque cardíaco. 

No romance “O Som e a Fúria”, que aqui vou tematizar, tem este caráter de vida áspera e sem perspectiva que retratei na introdução ao universo literário de William Faulkner, a família Compson é descrita em detalhes, e inúmeros conflitos emergem de uma convivência difícil entre personagens que vivem histórias caóticas e que se entrechocam na obrigação de estarem juntos diante de desafios que colocam estes personagens todos num mesmo diapasão de embate, dor e demandas inumeráveis, e isto no cenário sulista, que envolve toda a literatura produzida por William Faulkner, aqui, o condado fictício de Yoknapatawpha. 

Os Compson e os Sartoris perderam o controle do condado para os Snopes, e Jason Compson, um dos eixos do romance, está diante da morte da mãe e da fuga de sua sobrinha, e ainda tinha um irmão já adulto, mas idiota, que acaba internado num asilo estadual. Jason se vê, por conseguinte, diante de uma situação em que tem que consumir todo o dinheiro da venda do pasto no casamento de sua irmã e no curso do irmão em Harvard. 

Seu minguado dinheiro vinha de ser empregado do comércio para aprender numa escola em Memphis a avaliar e classificar algodão, abrindo seu próprio negócio, e Jason enfrenta uma vida de sacrifícios, em que tem que cuidar de sua família, e aqui temos um cenário degradado pela dureza, com ações e costumes, muitas vezes, violentos ou dominados por uma insensibilidade desamparada. Não há prazeres para Jason, não existe uma utopia para esta família em putrefação. 

Temos episódios que vão do cômico ao odiento, dependendo do ponto de vista literário, como o fato de Jason ter sido roubado pela sobrinha que fugiu, ou do seu irmão idiota que tentou desajeitadamente agarrar uma menina sem o consentimento dela. No caso, como dito, o pasto vendido por Jason era para financiar o casamento de Candace e os estudos de Quentin em Harvard. Por sua vez, seu irmão idiota é castrado em 1913, e internado no Asilo Estadual, Jackson, em 1933.  

Diante dos personagens do romance, podemos ver situações que flertam com limites de vivência que colocam o caráter de alguns deles num pântano em que o viés utilitário e de tirar vantagens advém, sobretudo, de condições duras e desesperadas. Jason é traído pela sobrinha, e tem que lidar com uma família disfuncional, estando ele mesmo em condições profissionais pavorosas, em que a ideia de um caminho claro e coerente de ações e vida se esboroa diante das demandas inumeráveis que surgem, como ter que lidar com as contingências intermináveis, mais do que obedecendo a um plano em que tudo poderia ficar límpido para a visão de Jason que, diante dos Compson e sua confusão, não passa de uma visão turva e perturbada. 

Lidar com uma realidade embrutecida coloca o caráter de todos estes personagens num limbo em que reina um naturalismo utilitário e cruel, não há um ambiente de confiança e clareza, os conflitos se armam aqui justamente pela falta de norte e perspectivas, um mundo nebuloso e que se encontra turvado o tempo todo por tempestades de traições, brigas e indas e vindas caóticas que se refletem no estilo de prosa caótico e desorientador de William Faulkner, aqui temos uma união simbiótica de tema literário e estilo ou forma, ambos são sobre o caos. 

“O Som e a Fúria”, designando o título deste romance emblemático de William Faulkner, é isto mesmo, um cenário desolador, que tem a sua primeira parte sendo narrada por Benjy, um idiota, evocando Shakespeare, isto é, um título que evoca a citação clássica da peça teatral elisabetana Macbeth, de William Shakespeare, em que temos a frase proferida pelo protagonista, que nos diz : “A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco - faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado.” 

Link da Querido Clássico : https://www.queridoclassico.com/2021/04/o-som-e-furia-william-faulkner.html  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/o-som-e-a-furia-a-dura-vida-no-sul-dos-estados-unidos 


quarta-feira, 1 de junho de 2022

FRISOS JÔNICOS

Silente, vem do poema

certos esgares, o corpo

verbo escreve vive,

brota, flor e topázio,

da água mar e terra.


Quem disse

isto, nos 

tempos antigos,

era que do

oráculo

de Delfos,

Apolo delfim

mergulhava,


na tertúlia

ecoava

o Templo

de Ártemis,

e um fragmento

de Heráclito

era bruto

que nem 

estalactite.


01/06/2022 Gustavo Bastos 


ANEL DE PRATA

O anel de prata

é o sorriso da vida

quando o campo

se abre e dá praia

com um sol da tarde,


venta, a passada

é rápida,

o olhar concentrado,


o mal passa,

o bem chega,


depois de tudo,

de um novo

vento solar,

o mar marulha,

o sal canta

a arraia

no anzol,


um atol,

um píer,

do anel

de prata

uma 

maresia.


01/06/2022 Gustavo Bastos 


O DESTINO DO NÉSCIO

Zurra o burro

com seu cavalete

em riste, uma bruma

o pega desprevenido,

o burro zurra

e tenta dar coices,

é um mequetrefe

que bambeia,

aparvalhado

em seu canto

de néscio,


ele tenta

ensaiar

um poema,

em vão,

sequer 

nasce

um conto,


é dá pá virada

seu dito,

um pseudo-sábio

lhe dá um sabão,

banca o maioral,

sem massas

ou público,


o burro zurra

a sua falta

de astúcia,

e borra 

as suas botas

na lama.



01/06/2022 Gustavo Bastos