PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O CORTE DE LÂMINA DE JOÃO CABRAL

O corte de faca, o corte de uma faca só lâmina, eis o que João Cabral de Melo Neto nos propõe. Sua imagem da faca é despertada no sentimento de ausência que possui um homem. Este homem quer o corte, João Cabral, com sua poética fria e compassada, nos dá em perfeito esquema uma faca como bala, e que se compassa exatamente como relógio.
João Cabral é colocado como o poeta da educação da pedra e da vida severina, com justiça, de todo, pois o que sua poesia nos dá é um modo de letra lúcida, a lírica por estas bandas não dá muito as caras, e no caso de Cabral, ela é dispensada e torna-se desnecessária, pois dificilmente deveremos nele toda esta nossa herança lusitana ou lusófona que se cria com tiques e batimentos ornados de barroquismos e arcaísmos. João Cabral é seco, aprendi um pouco com ele a também fazer a tal poesia “limpa”, e me dei bem por vezes.
A faca é a coluna vertebral deste longo escrito de João Cabral, e sua língua seca nos oferece na ausência a presença do corte, fundo e profundo, abarcando em um relógio que nos dá o tempo desta secura e deste corte, pois de toda a poesia de Cabral, esta faca só lâmina é um dos possíveis resumos do que significou a jornada poética de João Cabral de Melo Neto enquanto viveu aqui no Brasil e na Terra.


UMA FACA SÓ LÂMINA

(ou: serventia das ideias fixas)
(1955)

Para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra os próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta,

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e enérgica,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja a faca mesmo).

C

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se embotam mais no músculo,

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for a faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré-baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira.

Bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais).

OBS: o poema continua, mas não vou colocá-lo na íntegra, pois é muito longo, aconselho a edição de Poesias Completas de João Cabral de Melo Neto da editora José Olympio)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/26349/17/o-corte-de-lamina-de-joao-cabral

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

JOÃO DO RIO, UMA BIOGRAFIA

“João do Rio se inscreve na História das letras brasileiras como um escritor de vivência”

   João do Rio tem muitas histórias, ele é uma das testemunhas da cultura e da sociedade brasileira e carioca, também tendo passado temporadas na Europa, abrangendo o período da virada do século XIX para o século XX, tendo então vivido durante grande parte da vigência da República Velha aqui no Brasil.
   João Carlos Rodrigues escreveu uma das melhores biografias do cronista, escritor e jornalista João do Rio, a qual tenho em mãos pela edição da Topbooks. João do Rio só viveu 39 anos, mas sua produção foi fecunda e prolífica, talvez tendo sua verve de romancista sido eclipsada pelas demandas dos jornais em que trabalhou escrevendo e até dirigindo a redação, uma vez que ele realizou grandes feitos, mas além de algumas partes de seus escritos terem sumido no tempo, apesar da pesquisa intensa em arquivos do biógrafo João Carlos Rodrigues, também projetos ficaram por fazer, devido a uma vida atribulada e cercada da boemia reinante principalmente no Rio de Janeiro.
   João do Rio se inscreve na História das letras brasileiras como um escritor de vivência, muito para além de uma figura erudita, pois sua formação não foi formal, mas na vida, mesmo com seu estudo de Letras. Este grande cronista, seara em que mais se destacou, citando-o aqui também como exímio contista, tem o caráter de um pesquisador in loco, quase um antropólogo urbano, um vivente social, curioso, que soube reunir informações em textos que tentavam descobrir por um olhar atento aspectos da cultura, sobretudo da carioca, num retrato da primeira metade do século XX.
   A dimensão de reportagem e crônica se fundem no trabalho de João do Rio, produzindo um jornalismo cultural que ainda podem ser atuais no que consta como sátira política e social, com quadros até então inéditos da vida social carioca. O biógrafo tenta, com justiça, tirar do obscurantismo este trabalho tão importante, documento da sociedade das duas primeiras décadas do século XX. A literatura vertiginosa de João do Rio é resgatada pelo biógrafo numa verdadeira garimpagem nos arquivos de jornais antigos, num esforço para fazer um novo juízo de quem foi e o que produziu João do Rio.
   Aos vinte e poucos anos, João do Rio já era conhecido na sua atividade jornalística, sendo um escritor e cronista da vida da ralé e da feitiçaria, ainda incluindo suas andanças pela Europa, dando algumas bordoadas em figurões da República Velha, tal como Pinheiro Machado, um político destacado neste período. E se pode dizer, também, que o período de João do Rio, em relação ao que escreveu, é uma imagem de tudo o que representou o fascínio tardio da belle-époque que o Brasil experimentou.
   É muito difícil separar autor e obra no caso de João do Rio (Paulo Barreto, seu nome real), pois sua extensa bibliografia está muito na primeira pessoa, isto é, uma grande parte de tudo que João do Rio produziu de escritos está relacionada com sua vivência social, de seu faro jornalístico no sentido de pesquisa in loco de tudo o que viu e traduziu em letras. Portanto, estamos falando de um escritor plural, já que podemos citar, com certeza, que João do Rio (um de seus pseudônimos) tinha ainda mais outros pseudônimos, moda que saiu de cartaz do jornalismo contemporâneo, mas que em sua época era febre e até um método de se fazer jornalismo crítico.
   Paulo Barreto (João do Rio) esteve presente nos acontecimentos mais díspares, tais como: nasceu no fim do Segundo Império, quando menino assistiu a Abolição e a proclamação da República, já rapaz, viu reformas urbanas, tal como a de Pereira Passos, no Rio de Janeiro, e adulto, participou dos intensos debates ideológicos após a Primeira Grande Guerra, tendo também estado presente em elegantes recepções no palácio do Catete, nos bombardeios durante a Intentona Monarquista em Lisboa, nas rodas de samba numa favela do Largo da Carioca, e também, na Cascatinha da Tijuca ao luar com Isadora Duncan.
   O biógrafo lamenta, no entanto, que o trabalho de João do Rio se dispersou, pois apenas 1/3 da sua obra foi publicada em livro, restando um mundaréu de coisas esparsas em jornais e revistas. O biógrafo conseguiu acessar cerca de 2.500 escritos entre contos, crônicas, peças de teatro e reportagens. Sendo que a maior lamentação do biógrafo se refere à perda ou dispersão, quase irreparável, da correspondência de João do Rio, assim como rascunhos e trabalhos inéditos.
   O trajeto da vida de João do Rio é riquíssimo, pois ele se deparou com figuras como João Cândido (o líder da revolta da Chibata), o que resultou numa polêmica biografia do marujo que foi logo destruída ou perdida, o célebre ladrão de casaca Doutor Antônio, a cartomante Madame Zizina, o príncipe Luiz de Orleans e Bragança e a internacional Isadora Duncan.
   Paulo Barreto (João do Rio) nasceu quase pobre e ascendeu socialmente, alcançando fama, e o ódio que desperta nos menos talentosos. Foi então atacado brutalmente, física e moralmente, pelos desafetos, nas páginas dos principais jornais cariocas. Depois de sua morte trágica no meio da rua, foi rapidamente esquecido, mas teve a feliz reabilitação nos últimos anos, tendo trabalhos destacados como A Alma Encantadora das Ruas, que ganhou novas edições.
   Como autor, João do Rio teve como estilo principal, sobretudo, a influência da Art-Noveau na literatura brasileira, reunindo em seus escritos de um modo magistral fontes decadentistas, muito de Oscar Wilde, dentre outros, e por vezes, a morbidez do enredo. E como jornalista, temos o seu já citado misto de reportagem e crônica, num novo gênero de sua lavra e personalidade, então ainda pouco comum. E como cidadão carioca e do mundo, entra no anedotário de seus inimigos da época, pois era o arquétipo incomparável de mulato, gordo e homossexual, típico carioca, com qualidades e defeitos que todos têm, visto com admiração e desdém pelos provincianos da República Velha. João do Rio é então objeto do sucesso e do escárnio de sua época sinistra.
   O Rio de Janeiro da bela época, por sua vez, é ainda o provincianismo tipicamente brasileiro que ainda reina por estas bandas, uma babel imitadora do que vem de fora, ainda que a semana de 22 tenha dado um sopro de folclore brasileiro nas letras, temos, com toda a riqueza brasileira, uma súcia mais que provinciana, cabeça dura, que na República Velha beirava a caricatura. Portanto, a bela época carioca é nada mais que uma invenção, e João do Rio mergulha nela não como deslumbrado, mas como observador arguto e pronto para tecer sua visão de pesquisa e entusiasmo, pois transcendeu os salões do Catete, indo parar nas favelas e na feitiçaria no que será denominado como resquícios de falso espiritismo, um cético dado a falar com cartomantes, o paradoxal João do Rio.
   Podemos dizer que o Rio de Janeiro da bela época é também uma das invenções de João do Rio, sendo repetida por falastrões e imitadores de menor estirpe que sucederam ao caudaloso rio de João do Rio. E como autor de ficção João do Rio deve tributo e influência a figuras estrangeiras do filão “malditos” como Wilde, Lorrain e Huysmans, e como cronista é fanático por e tem descendência no grande e onipresente Artur Azevedo, antecedendo Lima Barreto, que nem citara em suas crônicas, não gostava dele, os dois não se bicaram, e o lendário Nelson Rodrigues, já na partida para a segunda metade do século XX, isso se falarmos da famosa crônica carioca, que tem como uma das concorrentes a geração dos mineiros como Otto Lara Resende.
   A primeira colaboração regular de Paulo Barreto (João do Rio) foi no jornal A Cidade do Rio, jornal que tinha como dono José do Patrocínio, e era, portanto, um dos órgãos principais da gloriosa campanha abolicionista, com a cara de Patrocínio: “virulento, generoso e desorganizado”, segundo o jovem colaborador, Patrocínio era “irreprimível, impetuoso, como certos fenômenos da natureza que os poetas corporificam em deuses, preto, musculoso, bocarra aberta e pulso grosso, só teve na vida uma atitude: a de portador de raios, e de fulminante (...) ora chamando-nos de gênio, ora achando-nos piores que a poeira.” Na virada do século, empobrecido por combater o presidente Campos Salles, Patrocínio perdeu alguns colaboradores como Bilac, Coelho Neto, Guimarães Passos, Emílio de Menezes, lançando então novos nomes como o próprio Paulo Barreto (João do Rio), Vivaldo Coaracy e Joaquim de Salles. Neste jornal, Paulo Barreto (João do Rio) ficou até 1900.
   Entre janeiro de 1901 e março de 1902 João do Rio escreveu consecutivamente em O PaizO Dia de Dunshee de Abranches, e O Correio Mercantil de Virgílio Brígido – os dois últimos de curta duração. Neste período Paulo Barreto (João do Rio) traçou um de seus caminhos: surgiu como um paladino do Realismo e do Naturalismo e crítico contundente dos românticos, mas a sua mira principal estava dirigida contra os simbolistas. Estes “usavam coisas esquisitas, embebedavam-se, andavam sujos e cantavam numa apoteose nevrótica, de palavras azuis e brancas, todos os vícios proibidos” e por causa deles “os métodos científicos vão por terra, todo o trabalho de gerações para a obra da Verdade, que começa no século XVI, termina aqui bruscamente diante da vara de um mágico ou da gritaria cavernosa do Simbolismo.”
   Segundo ele, o Naturalismo é a “arte sã” e só o Realismo “fará a liberdade plena do escritor”.  É bem crítico e rigoroso com os literatos nacionais: Casimiro de Abreu, “baboseiras em maus poemas e em mau português”, José da Alencar, “finge ser original”, Manuel de Macedo, “literatura de boudoir”, Coelho Neto, “a cada romance mimetiza nova escola”, só elogiando Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha. Citando a biografia, João do Rio queria “plantar convincentemente o Naturalismo, o realismo d`arte no torrão mole e indolente do Brasil com toda a nossa alma moça de 20 anos, nem que para isso precisasse aparecer de chicote na mão.”
   Como crítico, adotando primeiro o pseudônimo Claude (usado por Zola na mesma atividade), sua contribuição vai mais para as Artes Plásticas, em cinco anos de trabalho, com a cobertura que fez do Salão de Belas Artes. E as críticas ao Salão de 1900, além do pseudônimo Claude, apresenta a sua característica de estilo em formação: diálogos com personagens fictícios, de fundo satírico. E, desde a falência do efêmero Correio Mercantil em março de 1902 e do velho A Cidade do Rio no mesmo ano, pela primeira vez em 3 anos Paulo sentiu faltar-se espaço na imprensa, fechada, segundo ele, “às minhas revoluções literárias de adolescente, o jornal dava-me a impressão de turbilhão, onde fosse preciso bracejar incessantemente. E eu via a inveja, a calúnia sórdida, sentia a peçonha dos literatos emasculados, a ignorância recalcitrante dos políticos, a trama de ambição e do negócio.”
   Ainda na biografia, e as palavras de João do Rio: “o jornal, na alvorada do século, é ainda anêmica, clorótica, e inexpressiva gazeta da velha monarquia (...) poucas páginas de texto, quatro ou oito (...) Paginação sem movimento ou graça. Colunas frias, monotonamente alinhadas, jamais abertas. Títulos curtos (...) Desconhecimento das manchetes e outros processos jornalísticos (...) Tempo do soneto na primeira página, dedicado ao diretor ou ao redator principal (...) Começa, geralmente, pelo artigo de fundo, (...) de ar impotente e austero, mas rigorosamente vazio de opinião”. Continua: “O grosso dos diretores é fisiológico, sempre disposto a apoiar o governo em troca de algum, e combatê-lo pela melhor oferta. Nas colunas “a pedidos” saíam denúncias anônimas, facilitando a chantagem. No entanto, desde os tempos de Pedro II reinava a mais absoluta liberdade de imprensa (interrompida apenas no governo Floriano). Dezenas de folhas de todas as tendências, do anarquismo ao jacobinismo, passando pela restauração da monarquia, formava a imprensa nanica de então.”
   A grande imprensa compunha-se dos jornais matutinos, quase todos com sede na Rua do Ouvidor, O Jornal do Commércio é o mais antigo, dirigido por José Carlos Rodrigues, com orientação conservadora, o Jornal do Brasil é o mais popular, igualmente conservador, alinhado pelos diretores Fernando e Cândido Mendes à política católica. O Paiz, tido como o mais fisiológico dos grandes, é dirigido por João Lage, e conta com a colaboração diária de Artur Azevedo, A Gazeta de Notícias favorita da elite cultural, tem uma tendência liberal, comandada por Ferreira de Araújo (depois por Henrique Chaves), seus colaboradores literários são Coelho Neto, Olavo Bilac, Emílio de Menezes, e em 1901 surge O Correio da Manhã, fundado pelo advogado Edmundo Bittencourt, cuja independência marcou época.
   Os jornais vespertinos, por sua vez, são menos informativos e mais dominados pela personalidade dos seus proprietários, como o exemplo de A Cidade do Rio, e o mais vendido, A Notícia, que tinha como principais atrativos os literatos Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Coelho Neto e Artur Azevedo. A renovação da imprensa brasileira, por sua vez, começou no Jornal do Brasil e na Gazeta de Notícias. E a ida de Paulo Barreto (João do Rio) para este jornal em novembro de 1903, por indicação do deputado fluminense Nilo Peçanha, é uma prova inequívoca de prestígio e vai coloca-lo mais que nunca no turbilhão do jornalismo, desta vez para sempre.
   No início do século XX, a capital da República passa por mudanças, além de que a imprensa, concomitantemente, se moderniza, é a sucessão da austeridade fiscal impopular de Campos Salles dando lugar a Rodrigues Alves no governo da República, e o novo presidente reuniu uma equipe de notáveis, com Rio Branco na pasta do Exterior, Lauro Muller na Viação e Obras Públicas, Leopoldo de Bulhões na Fazenda, Oswaldo Cruz na Saúde Pública, e Pereira Passos na Prefeitura do Rio, este velho funcionário sexagenário da Estrada de Ferro, que então recebe plenos poderes para fazer a reforma urbana e o saneamento da cidade, inspirado diretamente na reforma de Paris por Haussmans cinquenta anos antes.
   A reforma era ambiciosa e de longo prazo. Em menos de uma década somem todas as praias e prainhas entre o Arsenal da Marinha e o Caju. A Prefeitura e a Saúde Pública proíbem hortas e chiqueiros no perímetro urbano, dentre outras intervenções sanitárias. A construção da Avenida Central (atual Rio Branco) foi conseguida às custas do despejo sumário de 20 mil pessoas e a derrubada de quase dois mil imóveis. Foi o famoso “Bota-abaixo” que enlouqueceu a cidade durante 1903 e 1904, exato período em que Paulo Barreto (João do Rio) entrou na Gazeta, na coluna A Cidade, onde comentava fatos cotidianos, utilizando vez por outra diálogos irônicos herdados do estilo de Artur de Azevedo. A Cidade durou cerca de um ano, sendo fonte fidedigna das mentalidades cariocas de então, numa heterogênea mistura de estilo rebuscado com preocupação social. Tal coluna deixou de sair em março de 1904, não sendo possível abarcar as revoltas populares de novembro sob o pretexto da vacina obrigatória, na verdade a reação do lumpen despejado pelo Bota-abaixo.
   Já em outra etapa de seu trabalho, aos 22 anos, Paulo Barreto inventa seu pseudônimo mais famoso, João do Rio. As primeiras matérias com o novo nome são de entrevistas com diplomatas portugueses, italianos e japoneses sobre o tema da imigração, desviada para a Argentina por causa do famoso relatório Rossi, que denunciava maus tratos aos agricultores europeus em São Paulo, por parte de fazendeiros até ontem donos de escravos. E de fevereiro a março de 1904 João do Rio realiza um de seus trabalhos mais importantes e conhecidos, publica na Gazeta as famosas reportagens intituladas As religiões no Rio.
   Neste novo trabalho, João do Rio reúne escritos que beiram a ficção decadentista, como A missa negra, outros revelam confusão (Os fisiólatras) ou falta de densidade como O culto do mar, um tanto ralo. Mas, a maior parte destes escritos é histórico-informativa. Maronitas, presbiterianos, metodistas, batistas, adventistas, israelitas, espíritas, cartomantes e até um frei exorcista do Morro dos Castelo são catalogados, descritos e observados com atenção e curiosidade.
   Por sua vez, ainda em As religiões no Rio, o que mais chama a atenção são as cinco matérias sobre os cultos de origem africana, que atestam uma pesquisa pioneira num assunto ainda muito mal abordado, pois os estudos do professor Nina Rodrigues, feitos na Bahia, tinham circulação restrita e só foram publicados em livro na década de 1930. João do Rio, nestes escritos, é guiado pelo negro Antônio, e com ele, o narrador percorre a Cidade Nova, a Gamboa, o Santo Cristo e as cercanias da praça Tiradentes, à procura dos africanos remanescentes e seus cultos.
   De formação positivista, João do Rio observou os cultos com distanciamento preciso, quando não estupefato pela possessão das iaô e a matança de animais. Mas, contudo, João do Rio consegue descrever com pormenores a hierarquia sacerdotal do candomblé, assim como o panteon dos orixás e o culto dos eguns na Casa das Almas. E a repercussão de As religiões no Rio alçou seu jovem autor à condição de grande jornalista, rapidamente transformou-se num best-seller.
   Logo após o sucesso de As religiões no Rio, João do rio prosseguiu na observação da cidade e de seus habitantes. São dezenas de reportagens, e não apenas  na Gazeta, como na Kosmos, lançada em fevereiro de 1904, uma revista artística, científica e literária, que é um acontecimento na imprensa brasileira. João do Rio agora está no seleto grupo de colaboradores que inclui: Olavo Bilac, Artur Azevedo, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, José Veríssimo, Coelho Neto, dentre outros. E em 1908, sai outro de seus livros conhecidos: A alma encantadora das ruas, que poderia ser uma aparentemente descuidada coletânea de artigos, mas que é uma das melhores obras de João do Rio. E como contista, João do Rio nos dá um de seus contos mais conhecidos O bebê de tarlatana rosa, e que é um clássico da nossa literatura.
   E, por sua vez, aos poucos, o materialismo positivista do jovem Paulo Barreto vai sendo substituído por um vago panteísmo que não exclui consultas do adulto João do Rio a videntes, cartomantes e outras superstições. E fica conhecida a sua relação diante de Madame Zizina, a mais festejada das paranormais da nossa belle-époque. Imitada e invejada, Madame Zizina é mais uma das inusitadas amizades de Paulo Barreto, como o doutor Antônio, Magnus Sondhal e outros por vir. Esses e outros fatos fizeram a vida e a obra de João do Rio.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/26235/17/joao-do-rio-uma-biografia





  
  

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O ANEL

   Ricardo era um cara irascível, não tinha muitos limites quando se tratava de mulher e de ciúmes, desde os 15 anos se envolveu de corpo e alma com o álcool e a cocaína. Certo de que poderia fazer tudo o que quisesse, de pai rico, ganhou uma Harley-Davidson ao fazer 18 anos, já com a soberba de um verdadeiro campeão de infâmias.
   Ele não teve paradeiro por um ano inteiro durante os seus 18 anos, pois decidiu que adiaria a faculdade de Economia (ideia do pai, que o queria ver ganhando dinheiro, e muito) para cair na estrada, e levou consigo uma namoradinha de um relacionamento aberto e bem recente, pois fidelidade não era seu forte, e até aí nenhum problema, se ele não fosse um cara intratável, muitas vezes, e então foi à estrada.
   Portanto, sua ideia era fazer Economia no ano seguinte, e convenceu o pai de que ele merecia um ano sabático depois de ter passado numa boa faculdade. Então, já com a sua sonhada Harley e uma mochila que tinha, dentre outras coisas, ácido, cocaína e duas garrafas blue label de uísque, coisa que ele certamente compraria mais, depois, na estrada, e sua namoradinha, patética, que não entendia o que ele faria depois da viagem toda, pois Ricardo era dissimulado e não dava sinais evidentes de tudo o que dizia, sendo um cara até paradoxal, pois poderia ser muito calmo quando queria, mas em grande parte se achava o máximo.
   A viagem seria pelo Nordeste do Brasil, ele até pensou na transamericana, mas preferiu as praias do Brasil. Sua namoradinha se chamava Antônia, e tinha só 17 anos, bem burrinha, mas bem bonita. E foram os dois pela estrada, sem pensar no amanhã, Ricardo acelerando sua Harley perigosamente pela BR-101. Já na Bahia, perto de Prado, Ricardo decidiu que iria levar Antônia, com ele, a um puteiro, pois queria fazer uma ménage à trois, e Antônia, como dependia dele para tudo, materialmente e emocionalmente, não teve escapatória, a aventura começava já de maneira bizarra, Ricardo bebeu uma garrafa de blue label inteira, e deixou a cocaína para depois do sexo para não broxar.
   Ele se portou como um animal, falando impropérios para a puta e para Antônia. A cena era um pouco ridícula, duas mulheres assistindo àquele espetáculo de ego inflado que elas não entendiam muito bem. O sexo foi bom para Ricardo, mas extenuante para a puta e para Antônia. Logo depois, Ricardo levou suas duas mulheres para o bar do lado do puteiro e pediu cervejas, o que durou até a tarde do dia seguinte, com Ricardo indo ao banheiro para renovar o seu delírio do pó. Depois disso, ele se despediu da puta respeitosamente, o que era algo surpreendente para alguém como ele, e disse para Antônia se arrumar que a viagem para Porto Seguro tinha que ser rápida, ele queria correr ao máximo, sua adrenalina era passar na contramão na dupla faixa dando risadas bizarras.
   Em Porto Seguro, Antônia e Ricardo passaram dois dias inteiros, muita praia, até Ricardo decidir que eles iriam para Trancoso tomar os ácidos que ele levara. Lá, passaram uma noite numa rave, Antônia passou mal com o ácido, e Ricardo não deu a menor bola, a deixou num canto e pegou outras duas mulheres, aonde tudo foi regado a muito uísque e cocaína.
   Um cara local ficou um pouco bravo com Ricardo, pois ele se exibia muito, parecia um pavão, e este local chamou outros dois locais para conversar “calmamente” com ele (isto é, com aquela abordagem sutil de quem diz vou te porrar, mas com elegância), no que Ricardo os dissuadiu com ácido a rodo para os locais, o que foi o bastante para ele ficar livre para seu ego inflado. Na rave, lá pelas oito da manhã, foi quando Ricardo se lembrou de Antônia, que dormia com uma baba pendurada na boca num canto escuro, ele a acordou aos gritos e disse para ela se arrumar e “tomar vergonha na cara”, que eles tinham que partir para Sergipe imediatamente, e que preguiça não dava dinheiro.
   Ricardo queria ir para Japaratuba, para tomar o tal Banho de Prata, ou melhor, onde era uma nascente de águas cristalinas, e ele decidiu que a viagem teria que ser cada vez mais rápida, pois seu dinheiro era muito, mas não infinito, enquanto Antônia não tinha um puto. Logo foram para Aracaju, e passaram voando pelo Parque da Sementeira e o Parque dos Cajueiros, lá dançaram, foi um dos poucos momentos de romance entre Ricardo e Antônia durante toda a road trip, pois Ricardo estava sempre preocupado em chifrar Antônia, e isso gratuitamente, o tempo todo.
   Ricardo ficou admirado com o Banho de Prata, pensava em voltar lá, mas sem Antônia, que, por sua vez, também sabia ser muito desagradável quando queria, pois vivia paranoica de que Ricardo a abandonaria na estrada (o que poderia acontecer a qualquer momento). Ricardo, numa correria maníaca e doentia, do tamanho de seu ego, queria tirar onda com a Harley, quanto mais rápido na estrada, poderia se satisfazer de sua sede de aventura, de forma desordenada e imatura, e Antônia não era nada mais que uma vítima, que estava refém de um amor tóxico. Ricardo tinha o plano de margear o Nordeste até o Ceará e depois voltar pelo mesmo caminho.   
   Ricardo morava no Rio de Janeiro, e ganhou um apartamento ao passar no vestibular de Economia, em plena Ipanema, na Visconde de Pirajá, tinha três quartos e uma suíte, seu pai até pensou em não lhe dar nada, mas viu que ele tinha se esforçado no ano do vestibular, coisa que ele nunca fizera na vida, sempre passou na recuperação final até o segundo ano do ensino médio, e lhe deu não só um apartamento, como uma BMW e a sua sonhada Harley-Davidson. Ricardo não pedira nada, mas sempre dava indiretas ao pai de que faria uma viagem de um ano, e convenceu o pai disso depois de ir na maciota, pois seu pai era rico, mas era durão, não dava nada de primeira. Na verdade, o pai de Ricardo pensava que finalmente seu filho levaria os estudos a sério, o que não passava de uma doce ou amarga ilusão, o que os fatos comprovariam.
   Agora Ricardo e Antônia estavam em Maceió, lugar em que as discussões do casal ficaram bem duras, e Ricardo ameaçou de a deixar para trás, mas Antônia se agarrou em suas pernas e pediu pelo amor de Deus para ela seguir com ele, no que ele, com um ardil, aquiesceu, mas estava crescendo em sua mente algo sinistro, digno de uma novela ou filme. Ricardo, de súbito, ficou doce com Antônia, e ela caiu na rede meio que sabendo que seria deixada para trás, que aquilo tudo era ceninha de Ricardo para depois ela levar uma bordoada daquelas. Os dois decidiram que ficariam em Maceió por uma semana inteira para descansar, e depois tomariam a estrada na velocidade da luz. A semana foi calma para os dois, mas sem romance, a doçura dissimulada de Ricardo não convencia Antônia, que se enganava de propósito para não ter problemas futuros.
   Ricardo, no último dia de estadia em Maceió, levou duas putas para o hotel em que estava com Antônia, depois de uma calmaria rara, lá estava ele com os olhos esbugalhados e delirando que queria matar alguém. Resultado: no meio da tarde, depois de quebrar o quarto, ele, Antônia e as duas putas foram expulsos do hotel, e Ricardo só não foi preso, pois subornou o dono do hotel para ele ficar de bico calado. Naquele dia acabara a doçura pré-fabricada de Ricardo e ele estava que nem um monstro indócil, pronto para morder o primeiro que aparecesse. Sua cocaína estava acabando, ele saiu por Maceió para encontrar uma boca de fumo imediatamente, pois morria de medo de faltar o seu pó, abstinência, que ele sabia, o fazia cagar sem parar.
   Ricardo conseguiu uma cocaína boliviana, depois de conversar com uns malandros que encontrara na rua, foi ao melhor traficante da região, e dentro da boca experimentou o pó, quase tendo uma síncope de tanto prazer. Voltou para falar com Antônia transtornado pelo pó boliviano, ela não se assustou, pois já sabia como era aquilo. Ele então foi a um banheiro de um bar, onde cheirou cinco carreiras, e saiu urrando e com os dentes trincados. Suas narinas estavam com o gosto de sabão do pó, sua garganta exalava aquele cheiro de ego que possui a cocaína. Ali se finalizava o descanso do casal em Maceió, com Antônia resignada e certa de que seria abandonada na estrada. Os miasmas, a esta altura, eram febris e perigosos.
   E Ricardo agora só pensava em se esbaldar em Pernambuco, sua Harley foi voando como um cometa em direção de Olinda. Antônia tinha medo de que tudo acabasse em Pernambuco, pois Ricardo era obcecado por aquela região, e uma das poucas coisas que lembrava das aulas de História, era de Maurício de Nassau. Portanto, a coisa começaria a degringolar exatamente no paraíso de Ricardo, Olinda, aonde ele já estivera duas vezes no carnaval, e sempre em meio de muita loucura. Já em Olinda, nas ruas antigas, Ricardo começou a cheirar sua cocaína boliviana na rua mesmo, quando foi abordado por um policial à paisana, no que, como sempre fez, Ricardo subornou o policial, este que até deu umas dicas de onde encontrar mais pó para Ricardo, quando ele arrumou uma cocaína poderosa da Colômbia.
   A droga colombiana descontrolou Ricardo, que apanhou numa briga de bar, e decidiu arrumar um revólver para matar o primeiro que o desafiasse, pois ele era fodão e valentão, mas na verdade era um títere de seu próprio ego, não tinha muita base de reflexão no que fazia, era impulsivo, sabia que sua faculdade de Economia seria uma constante enganação, que seu pai estava realmente iludido de que ele tomara jeito, de que deixaria de ser o playboy que sempre foi, desde que despirocou aos 15 anos. Logo, a droga colombiana resultara em um nariz quebrado e um revólver Magnum. Seu tesão pelo álcool, sobretudo o uísque, agravara a situação, ele estava a ponto de agredir Antônia fisicamente, depois de tanto fazer isto verbalmente e com ardis e ironias de uma malícia covarde.
   Antônia estava a ponto de se revoltar e ela mesma ficar na estrada por vontade própria, mas sabia que teria de voltar de carona ao Rio de Janeiro, no que declinou da ideia. Ricardo realmente ficara num estado de fascinação com a droga colombiana, só não tinha um piripaque porque a adrenalina não permitia. Sua viagem por Olinda o deixara muito feliz, mas ele já estava, àquela altura, com gestos corporais rígidos, alternando com súbitas ondas de expressionismo afetado. Parecia um ator de circo numa chanchada que viraria uma tragédia.
   De Olinda, ele partiu com Antônia para o Recife, e Ricardo já se sentia o próprio Maurício de Nassau, o conquistador holandês, com sua rigidez pulando para um expressionismo de cargas kármicas indescritíveis. Ricardo queria pirar por três noites em Recife, e disse para Antônia ficar no hotel, que não a queria perto dele naquelas três noites, e Antônia, num dilema abissal, alimentou novamente a ideia de fugir de Ricardo de carona mesmo até o Rio de Janeiro, no que declinou novamente, meio que abúlica por toda a situação.
   Em Recife, Ricardo sumiu, arrumou mais uma briga num bar, mas desta vez levou a melhor, um nocaute com um único soco, se sentiu o máximo e depois foi contar vantagem com uns malandros que encontrou na esquina, e que não era para ninguém mexer com ele, pois tinha uma Magnum na cintura. Sua mão fervia para usar a arma a qualquer momento, e a droga colombiana o incentivava, como a voz interna de um duende: “Do It! Do It!” Ele delirava sem saber, o estranhíssimo miasma de lucidez aparente da coca tinha o ardil de contra-atacá-lo quando Ricardo menos esperasse. E a Magnum explodiria inesperadamente para Ricardo, eis o ardil.
   Já de saída do Recife, quando ele voltou para o hotel, encontrou Antônia com uma faca, ela dizia que iria cortar os pulsos se ele a abandonasse. Ricardo riu, mas depois pulou em direção de Antônia e atirou a faca pela janela. Antônia começava a entrar num quadro de depressão e paranoia, Ricardo era uma verdadeira dor alucinante para ela, que, apesar de tudo, se via apaixonada e enredada numa história que só Deus sabia onde iria parar, mas ela tinha esperanças bobas de que na volta do Rio de Janeiro, com a faculdade de Economia de Ricardo, e a vigília do pai do mesmo, tudo ficaria, finalmente, no lugar, e os dois se casariam.
   A próxima parada era a Paraíba, onde Ricardo queria fazer que nem na música do Raimundos, uma orgia num puteiro em João Pessoa, ele era rockeiro, ouvia rock nacional, não conhecia muita coisa, mas sempre gostou de Raimundos, da fase do debut e do Lavô tá novo. Ricardo tinha se saciado insanamente no Recife, com a sorte, para ele, de ter convencido Antônia a ficar no hotel. Neste ponto, João Pessoa só agravaria as coisas para Antônia, pois a ideia de orgia de Ricardo parecia uma das ondas de Charlie Sheen ou Dominique Strauss-Khan, numa síndrome de Michael Douglas escravizante.
   Mas, Ricardo queria bater todos os recordes em João Pessoa, e não tinha tempo para ouvir ladainhas de caretas, só não tinha pegado AIDS ainda por pura sorte. Na estrada para João Pessoa ele foi cantando a música dos Raimundos achando que era um ás da estrada e do sexo, como se fosse um infante querendo provar para si mesmo que poderia gozar quatro ou cinco vezes numa noite e dizer que foi dez, o que ele já fizera, mas num esforço patético de puro esfolamento.
   Em João Pessoa a noite no puteiro foi trágica, Ricardo, ainda possuído como um demônio pela droga colombiana, deu uma broxada na terceira rodada e começou a esbravejar, saindo quebrando o puteiro e quando chegou um local, dono de um bar ao lado para tirar satisfações com uma peixeira, Ricardo mostrou sua Magnum prateada na cintura, no que tudo se fez silêncio, e Ricardo e Antônia saíram voando da Paraíba, e no meio da estrada, na alta velocidade, numa noite de neblina, a Harley de Ricardo derrapou na pista e desceu num barranco, arremessando Antônia e Ricardo numa poça de lama, os dois ficaram com escoriações e arranhões, mas nada muito sério, no mesmo momento Ricardo ordenou para Antônia para os dois subirem e voltarem para o acostamento que foi onde a motocicleta fora parar, com um dos retrovisores torto, mas Ricardo cheirou mais uma carreira da droga colombiana e gritou estridentemente um grande “Foda-se!” no meio de uma neblina numa estrada deserta só com ele e Antônia por lá.
   A viagem seguiu para o Rio Grande do Norte, onde Ricardo queria se perder nas dunas, talvez para tomar um ácido e mergulhar no mar, ou certamente ele faria isso, e disse que Antônia também teria que tomar um ácido, para ninguém ficar em desarmonia um com o outro, Ricardo tinha, às vezes, umas ideias místicas bem bobas, sem embasamento e conhecimento nenhum, fruto de sua cabeça alarmada pela cocaína.
   As dunas eram a nova obsessão de Ricardo, depois de seus delírios holandeses em Olinda. Nas dunas, Ricardo e Antônia tomaram um ácido fortíssimo, era o tal do gel, que pirou muita gente por aí, e a viagem de ácido durou da manhã até a noite, com Ricardo e Antônia gritando palavrões e imitando animais por toda a duna, até ficar noite, e os dois transarem em moitas esparsas, com Ricardo depois correndo pelado em direção do mar em plena madrugada, mergulhando e nadando maniacamente por toda a enseada, não se cansou, o estado de surto do ácido lhe tirara a noção de cansaço físico, e ele então voltou esbaforido para a praia, e viu Antônia delirando que havia caranguejos subindo em seu corpo, no que Ricardo riu e jogou água no rosto de Antônia, e ela começou a chorar com um efeito tosco de bebê, e então Ricardo a pegou no colo e os dois voltaram para a Harley, e tomaram a estrada novamente, para chegar ao ponto final da viagem em Fortaleza no Ceará.
   A aventura ficaria quente e pegaria fogo em Fortaleza. Antônia sonhava que dali para o Rio de Janeiro, na volta pela estrada, as coisas ficariam normais, ledo engano. A Magnum fritava na cintura de Ricardo e pedia encarecidamente, como uma voz interior de Ricardo, para cuspir balinhas pelo vento, sua droga colombiana o deixava cada vez mais com esta convicção sinistra.
   Em Fortaleza, Ricardo decidiu esbanjar, ele e Antônia foram para um hotel cinco estrelas, na suíte presidencial, uma fortuna, e foi uma imprudência, pois Ricardo gastara muito dinheiro com o pó boliviano e o colombiano, mas ele tinha feito as contas e disse para Antônia que na volta para o Rio de Janeiro o caminho seria de Fortaleza para o Rio de Janeiro, direto, sem paradas, pois todo o dinheiro acabaria na esbórnia que Ricardo planejara na suíte cinco estrelas.
   No hotel cinco estrelas, Ricardo desta vez não chamou putas nem aventureiras, ficaria só ele e Antônia, e ele tinha uma ideia vaga de fazer uma roleta russa, mas decidiu que ele e Antônia desceriam para o mezanino para comerem até se fartar. Depois foram para rua, na porta de um bar, onde Ricardo se intrometeu numa briga de bar e levou porrada de um terceiro que apareceu do nada dando uma voadora na sua cara. No que Ricardo, irascível incurável, sacou, finalmente, a sua Magnum, deu tiros a esmo, não acertou ninguém e foi fugindo direto para o hotel, levando Antônia a tira-colo. Chegaram na suíte presidencial, Ricardo disse que iria ao banheiro cheirar a droga colombiana, e que depois os dois fugiriam do Ceará e pegariam a estrada novamente.
   O ledo engano de Antônia se concluiria de súbito, Ricardo sai do banheiro transtornado, com os olhos cintilantes de fogo, esbugalhados, ele saca a Magnum, faz que vai atirar pela janela nos passantes da rua, se volta de frente para Antônia e lhe disfere três tiros no peito, ela morre na hora. Ricardo começa a chorar copiosamente, a cocaína acabara de transformá-lo num assassino, ele decide que tinha que ser rápido, em três horas esquarteja o corpo de Antônia e coloca numa mala, vai até a praia, nada com a mala, e deixa a mala afundar no mar, a um quilômetro da costa. Esbaforido a apavorado, Ricardo volta para a praia, pega a Harley, e vai como um foguete, sem parada, em direção ao Rio de Janeiro. Quase bate fatalmente doze vezes na estrada, chega ao Rio de Janeiro, vai ao seu apartamento em Ipanema, e começa a rezar desesperado para não ser descoberto.
   Uma semana depois, um mergulhador encontra a mala, ele estava ali para caçar peixes, mas acha estranho uma mala no fundo do mar, e ainda com o garrafão, abre a mala, saem pedaços de um corpo que sobem à superfície do mar e começam a boiar numa cena trágica. Ao mesmo tempo, um funcionário do hotel vai à suíte presidencial limpar o quarto e encontra um anel. Resolve avisar o gerente de que alguém esquecera um anel na suíte presidencial, o gerente descobre que foram os hóspedes da semana anterior, e nisso o mergulhador leva as partes de um corpo para o IML, chocado. O anel e o corpo tinham o mesmo endereço? Ricardo fica um dia inteiro em seu apartamento cheirando o resto da droga colombiana, com delírios persecutórios de que seria preso, de que tudo iria por água abaixo, apartamento, BMW, Harley, e a faculdade de Economia.
   O anel, o gerente descobre, eram de duas assinaturas, ele liga para o celular, que era o de Ricardo, ele atende, mas gaguega, o que o gerente acha estranhíssimo, Ricardo não fala coisa com coisa, o gerente pergunta se ele esquecera um anel no hotel, se tinha dado falta dele, Ricardo começa a chorar, e desliga o telefone na cara do gerente. O exame do IML descobre que o corpo era de um esquartejamento, a polícia civil entra na investigação, um delegado de Fortaleza manda fazer uma varredura por Fortaleza para achar o assassino. Nisso, outro funcionário do hotel acha um dedo mindinho no banheiro da suíte presidencial, a coisa ficaria feia totalmente para Ricardo.
   O anel, um dedo mindinho, e um delegado de Fortaleza obcecado por encontrar mais um assassino, a somatória era óbvia e ululante, Ricardo rodaria. Descobrem que as duas pessoas que foram ao hotel são, além de Ricardo, uma moça de nome Antônia, começa-se a ligar os pontos, como na matemática, uma geometria que daria no Rio de Janeiro. É tirada a digital do dedo mindinho, na mão do corpo o anel entra perfeitamente, as digitais, zás, são as mesmas, era Antônia, identificada, e com digitais de outra pessoa nos pedaços do corpo, e com três balas de uma Magnum para o exame de balística.
   Ricardo pensa em se matar, mas lembra da Magnum, vai à praia de Ipanema, no posto dez, nada para bem longe, e deixa a Magnum afundar, desta vez nenhum mergulhador encontraria a arma, mas o estrago já estava feito, os pontos se ligariam de súbito, a investigação conclui por A mais B de que o assassino era Ricardo, um mandado vai à sua captura no Rio de Janeiro, o delegado de Fortaleza contata um delegado do Rio de Janeiro para buscá-lo e pegar as suas digitais. Chegam no apartamento de Ipanema, estava vazio, e com vestígios de cocaína por todos os lados. Ricardo, a esta altura, tinha pegado a estrada da Via Dutra em direção a São Paulo, seu objetivo era chegar no Uruguai e comprar uma identidade falsa, mas bate com sua Harley na Dutra a mil por hora, é arremessado, e morre na hora.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.