PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

T.S.ELIOT E SEU EAST COKER, O PRINCÍPIO E O FIM

   Se encerra agora o ciclo de T.S.Eliot, segunda inserção no caderno de poesia e uma resenha, desta vez com o fechamento da obra eliotiana, com uma das partes de seu poema Four Quartets ou Quatro Quartetos de 1943.
   East Coker é uma aldeia no Condado de Somerset, Inglaterra, ficando a 32 quilômetros do litoral da Mancha. E conta com a inversão da máxima de Maria Stuart, rainha da Escócia de 1542 a 1567, isto é: “Em meu fim está meu princípio.” Para a abertura do poema de Eliot com: “Em meu princípio está meu fim.”
   O pensamento de Eclesiastes da Bíblia ecoa no poema, o tempo entra na questão existencial com o peso do mundo, o mundo que é este tempo e o grande segredo da sabedoria desta passagem de princípio e fim, quando se diz que “tudo tem seu tempo determinado, e há um tempo para todo propósito debaixo do céu.” Fechando com chave de ouro na inversão total da abertura do poema com: “Em meu fim está meu princípio.”

EAST COKER (PARTE II DOS QUATRO QUARTETOS)
I
Em meu princípio está meu fim. Umas após outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, uma usina ou um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos para
novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra
semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para construir
E um tempo para viver e conceber
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente
legenda.

Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina
Sobre o campo aberto, abandonado, a recôndita vereda
Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,
Ali, onde te encolhes junto ao barranco enquanto passa um
caminhão,
E a recôndita vereda insiste
Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico
Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada
É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha.
As dálias dormem no silêncio vazio.
Aguarda a coruja prematura.

A este campo aberto
Se não vieres muito perto, se muito perto não vieres,
À meia-noite de verão, poderás ouvir a música
Da tíbia flauta e do tambor pequenino
E vê-los a dançar em derredor do fogo
Homem e mulher ajuntados
Bailando na dança que celebra o matrimônio,
Esse dino e commodo sacramento.
Dous e dous, necessaria comunhãao,
Huus aos outros enleados pollo braço ou polla mãao,
Na dança que anumçia a comcordia. Girando e girando ao
redor do fogo
Saltando por entre as chamas, ou reunidos em círculos,
Rusticamente solenes ou em rústico alvoroço
Erguendo os pesados pés que rudes sapatos calçam
Pés de terra, pés de barro, suspensos em campestre alegria,
Alegria dos que há muito repousam sob a terra
Nutrindo o trigo. Mantendo o ritmo
Mantendo o ritmo em sua dança
Como em suas vidas nas estações da vida
O tempo das estações e das constelações
O tempo da ordenha e o tempo da colheita
O tempo da cópula entre homem e mulher
E o das bestas. Pés para cima, pés para baixo.
Comendo e bebendo. Bosta e morte.

Desponta a aurora, e um novo dia
Para o silêncio e o calor se apresta. O vento da aurora
Desliza e ondula no maralto. Estou aqui,
Ou ali, ou mais além. Em meu princípio.

II

Que anda fazendo novembro tardio
Com tanto frêmito primaveril
E criaturas do inflamado estio
E anêmonas que sob os pés se agitam
E malva-rosas que o infinito miram
Vermelho derramado sobre cinza
E essas rosas tardias que ainda viçam
Cheias da neve dos primeiros dias?
Trovão que os astros pelo espaço arrastam
A simular vanguardas triunfais
Dispostas para embates constelados
O Escorpião combate contra o Sol
Até que o Sol e a Lua se tresmalham
Choram cometas e voam Leônidas
Caçadores de abismos e planuras
Dentro de um vórtice que arrojará
O mundo àquele fogo arrasador
Cujas centelhas se antecipam ao gelo
Que na calota polar ainda flameja.

Este era um meio de expor as coisas, mas não muito
satisfatório:
Um estudo perifrásico sob forma poética exaurida,
Que mesmo assim nos deixa em luta insuportável
Com palavras e significados. A poesia não importa.
Não era (para recomeçar) o que antecipadamente se
aguardava.
Que valor pode ter a calma tão longamente esperada,
Com tanto ardor desejada, a serenidade outonal
E a sabedoria da velhice? Teriam eles nos logrado
Ou lograram-se a si próprios, os mais velhos de fala comedida,
Que nos legaram apenas o recibo de uma fraude?
A serenidade não passa de um embrutecimento voluntário,
A sabedoria encerra apenas o conhecimento de segredos mortos
Inúteis na escuridão a que assomaram
Ou daquela de que seus olhos se esquivaram. Há, nos parece,
Em suma, apenas um limitado valor
No conhecimento que deriva da experiência.
O conhecimento impõe um modelo, e falsifica,
Porque o modelo é vário para cada instante,
E cada instante uma nova e penosa
Avaliação de tudo quanto fomos. Apenas não nos
decepcionaremos
Com tudo o que, decepcionado, já não causa mais dano.
Na metade, não apenas na metade do caminho
Mas ao longo de todo o caminho, numa floresta escura, num
carrascal,
À beira de um abismo, onde o pé jamais logra equilíbrio,
E ameaçados por monstros, luzes fantasmagóricas,
Na perigosa fímbria do encantamento. Que não me falem
Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio,
De seu medo do medo e do frenesi, do medo de serem
possuídos,
De pertencerem a outro, ou a outros, ou a Deus.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.

Todas as casas submergiram no mar.

Todos os bailarinos submergiram na colina.

III

Ó escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários cômites,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos
mergulham no escuro,
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.

Eu disse à minh`alma, fica tranquila, e deixa baixar o escuro
sobre ti,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de
treva sobre treva,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados para longe
__ Ou quando, no metrô, um trem se demora entre duas
estações
E as conversas se animam e lentamente no vazio tombam
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver em que
pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente, mas
consciente de nada __
Eu disse à minh`alma, fica tranquila, e espera sem esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; contudo ainda há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há-de o repouso
se tornar.

Murmúrio de águas velozes e relâmpagos de inverno.
O irrevelado tomilho selvagem e os morangos silvestres.
O riso no jardim, êxtase repetido pelo eco
Jamais perdido, mas que reclama e persegue a agonia
Da morte e do nascimento.
Dirás que estou a repetir
Alguma coisa que antes já dissera. Tornarei a dizê-lo.
Tornarei a dizê-lo? Para chegares até lá,
Para chegares onde estás, para saíres de onde não estás,
Deves seguir por um caminho em que o êxtase não medra.
Para chegares ao que não sabes
Deves seguir por um caminho que é o caminho da ignorância.
Para possuíres o que não possuis
Deves seguir pelo caminho do despojamento.
Para chegares ao que não és
Deves cruzar pelo caminho em que não és.
E o que não sabes é apenas o que sabes
E o que possuis é o que não possuis
E onde estás é onde não estás.

IV

Encurva a lâmina o cirurgião ferido
E com ela interroga a parte lesionada;
Sob as ensanguentadas mãos, sentimos
A compaixão cortante de seu nobre ofício
Esclarecendo o enigma da equação febril.

Nossa única saúde é a doença
Se obedecemos à enfermeira agonizante
Cujo incansável zelo não visa agradar-nos,
Mas recordar-nos que, como o de Adão,
Nosso mal, para curar, precisa antes piorar.

O mundo inteiro só nos vale de hopsital,
Último bem do milionário arruinado,
E onde, se tudo andar direito, poderemos
Morrer do absoluto e paternal cuidado
Que a cada instante nos ampara e tiraniza.

Faísca perna acima um calafrio.
A febre zumbe nos canais do cérebro.
Para aquecer-me, devo gelar e tremer
Entre os álgidos fogos purgatoriais
Cujas flamas são rosas, e a fumaça sarça.

Nossa bebida é apenas sangue gotejante,
Nosso único alimento carne ensanguentada:
Contudo, alegrar-nos pensar que somos
Sadios, carne e sangue elementares – contudo,
Uma outra vez chamamos santa à Sexta-Feira.

V

Assim, eis-me aqui na metade do caminho, e vinte anos se
passaram
__ Vinte anos a rigor esperdiçados, os anos de l`entre deux
guerres __
Tentando aprender como empregar as palavras, e cada
tentativa
É sempre um novo começar, e uma divisa espécie de fracasso
Pois apenas se aprendeu a escolher o melhor das palavras
Para o que não há mais a dizer, ou o meio pelo qual
É um novo começo, uma rápida incursão ao inarticulado
Com equipamento imprestável e em contínuo aprodecer
Na desordem geral da imprecisão dos sentimentos.
Indisciplinadas esquadrilhas da emoção. E o que há por
conquistar,
Por força e submissão, já foi descoberto
Uma, ou duas, ou várias vezes, por homens com quem não se
pode
Pretender rivalizar __ mas não se trata de competição __
E sim de uma luta para recuperar o que se perdeu __ e agora em
condições
Que não parecem favoráveis. Mas talvez nem ganho nem
perda.
Para nós, há somente tentativa. O resto não é de nossa conta.

Lar é de onde se vem. À medida que envelhecemos
O mundo se torna mais estranho, mais intrincada essa questão
De distinguir mortos e vivos. Não o intenso momento
Isolado, sem antes e depois,
Mas toda uma vida ardendo a cada instante
E não a vida de um homem apenas
Mas a de antigas pedras que não podem ser decifradas.
Há um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas
(Anoitecer com o álbum de fotografias).
O amor apenas a si próprio tangencia
Quando agora e aqui não mais importam.
Os velhos devem ser exploradores,
Aqui ou ali, não interessa
Devemos estar imóveis e contudo mover-nos
Rumo à outra intensidade
A uma união mais ampla, uma comunhão mais profunda
Através da escura frieza e da vazia desolação,
O grito da vaga, o grito do vento, as águas infinitas
Da procelária e do delfim. Em meu fim está meu princípio.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:http://seculodiario.com.br/25146/17/tseliot-e-seu-east-coker-o-principio-e-o-fim 

domingo, 27 de setembro de 2015

POÉTICA DE T.S.ELIOT DEU NOVA FORMA À POESIA INGLESA

T.S.ELIOT E SUA POÉTICA INOVADORA

O INÍCIO DA JORNADA ELIOTIANA

   Thomas Stearns Eliot é um artista de três frentes: poeta, crítico e dramaturgo. T.S.Eliot, nome abreviado com que este grande poeta ficou conhecido na História, deu uma nova forma à poesia inglesa. Eliot possui uma formação que se reflete em sua poesia, tal repertório pode ser contado por influências diversas como emanações de um passado oriental sânscrito, pulsações de antiguidade grega e latina e até hebraicas, passando pela floração francesa da Provença a Mallarmé, pela Itália até Dante, e com toda a amplitude da poesia inglesa, e com sua realização artística como um empreendimento que nasce, dentre um universo multifacetado, pelo método tradicional que consiste na prática de mimese estilística, forma na qual Eliot atuou com esmero, numa verdadeira colagem de poesia universal. Tal forma de mimese foi o caminho principal que forneceu a Eliot a sua técnica de fragmentação que seria a marca de todo o seu trabalho poético.
   A impressão primeira de românticos ingleses sobre a percepção de Eliot se deu sobretudo com Byron e Wordsworth, além do pré-rafaelita Swinburne. Mas, a grande influência e admiração de Eliot foi despertada pelo simbolista Jules Laforgue, este que, por sua vez, tinha débito criativo com vultos da segunda metade do século XIX que vão de Baudelaire a Mallarmé. Um dos pontos de partida da poesia de Eliot, se pode afirmar, foi a poesia de Laforgue.

MIMÉTICA E FRAGMENTAÇÃO

   Este trabalho mimético de Eliot não pode ser entendido como simples influência de estilo ou escrita no sentido usual de uma imitação pura, pois um termo muito utilizado nesta mistura da poesia de Eliot entre mimese e fragmentação é o de “eliotização”, pois com este neologismo fica claro que T.S.Eliot é bastante original, num paradoxo de subsunção de estilos de outras matrizes criando seu universo-matriz de hibridismo que resulta num todo composto e novo, que é a poesia de Eliot, digamos, “eliotizada”.
   A poética do fragmento reúne as múltiplas fontes e raízes de Eliot, tal apropriação que é a eliotização, um empréstimo histórico que vira propriedade de T.S.Eliot com a sua poesia. E o termo “eliotização” pode ser entendido, com justa medida, na compreensão do próprio T.S.Eliot da poesia como um fenômeno de cultura. A herança cultural é revivida, e os estratos literários de épocas históricas anteriores ganham o matiz eliotiano de expressão condensada e nova, a poesia do fragmento de Eliot.
   Do ponto de vista estrutural, a poesia de Eliot caracteriza-se pela experiência da fragmentação, da multiplicidade descontínua de matrizes composicionais, pois a influência histórica na poesia de Eliot não é só uma questão de estilo, ela está presente concretamente no corpo do poema, e é neste sentido, mais do que o de estilo, que o termo fragmento ou fragmentação ganha evidência na poesia de Eliot. O fragmento como peça histórica, pedaço de poema, é concreto na experiência poética de T.S.Eliot.
   Partes isoladas ganham nexo causal numa espécie de todo, criando um organismo poemático maior que resultou em mosaicos estupendos como The Waste Land, The Hollow Man e Ash-Wednesday, e em formas inacabadas como Unfinished Poems. E essa composição física de colagem de pedaços também pode ser vista em trabalhos como os Ariel Poems e os Minor Poems.

ISOLAMENTO E INCOMUNICABILIDADE DO SER

   Um dos sentidos depreendidos da poesia de Eliot pode estar na ideia de isolamento e incomunicabilidade do ser, do ser que “está aqui”, diante do tempo e da história, sempre “em face”, citando Rilke, e então atormentado pela consciência crítica do mundo, da vida e de si próprio, na lacerante noção de queda e do extravio. A ambivalência psicológica da composição e toda uma caótica organização gestáltica nos dá um princípio de tensão antitética entre a parcela-fragmento e a soma-poema no trabalho de Eliot que resulta, por sua vez, no supracitado isolamento e incomunicabilidade do ser. O reflexo de queda e extravio é o próprio sentido da forma assumida da poesia de Eliot como fragmento.
   No sentido de estilo e tema, se podemos dar a inflexão precisa da evolução poética de Eliot, esta se dá na virada de forma e de temática, que vai da predominância do imagismo poundiano e das referências de realidade cotidiana das décadas de 1910 e de 1920, e que, depois da conversão do autor ao cristianismo anglo-católico, resulta em uma poesia transformada na direção de problemas de ordem filosófica e religiosa, numa vertente metafísica de tema, e que se processa em paralelo à maturação estilística e formal do poeta, daí que podemos chamar tal inflexão como de estilo e de tema. E a culminância desta metamorfose será então sua realização com o Four Quartets, em que se dá a plenitude absoluta de temas medulares que são o significado do tempo e as perspectivas transcendentais do destino humano.

O SENTIDO DA MÚSICA NA POESIA

   Falando do estilo no seu sentido específico de musicalidade na poesia, podemos colocar Eliot distante de intenções como as de um Verlaine e de diversos poetas românticos e simbolistas, que fizeram, por sua vez, processos rímico-aliterativos, ao promoverem sensualisticamente a melodização do significante verbal, que antes comprometeram do que revitalizaram as potencialidades semântico-conteudísticas do significado poético. Eliot, portanto, se aproxima de Valéry, já numa advertência contra o perigo representado pela música relativamente à autonomia da expressão poética, e que tem a ressalva, na crítica literária de Eliot, quando a música serve na poesia como “o sentido do ritmo e da estrutura”.
   Portanto, a música na poesia, para Eliot, tem a virtude de compor com a estrutura e a noção importantíssima, e a qual eu considerado a mais importante para todo poeta, o ritmo, e um vício quando a música vira um cacoete ou até uma presepada de virtuosismo metafórico rica em forma e pobre em conteúdo, ou como a força expressiva e substrato que cai num vácuo onde o som puro não dá significado além de um exercício de virtuose poético, sendo a sonoridade de esteta predominante, neste caso, em relação ao compasso ritmado que dá consistência ao trabalho poético. Então, a música, na poesia de Eliot, e na sua orientação como crítico literário, é colocada como um serviço ao ritmo e a estrutura do poema, evitando armadilhas como a melodização ou musicalização do verso.
   Eliot buscava, numa definição precisa, o correlato objetivo da emoção, evitando, em seu estilo, a formação de halos impressionísticos, com o sentido esclarecido de um trabalho poético autoconsciente com a emoção definida na exigência de significado verbal. Assim, na poesia de Eliot, a palavra jamais é trabalhada como puro som ou retórico ornamento fônico, e sim em atendimento às exigências de um princípio que a define, acima de tudo, como veículo transmissor de pensamentos e conceitos universais e como enunciado gramatical de um discurso cujas linhas-de-força residem na referência simbológica e no linearismo sintático.
   A linguagem para Eliot move conceitos, ideias, e o esforço poético do símbolo para Eliot tem tudo a ver com carga histórica de significado, e nada a ver com sonoridade pura, daí que sua simbologia é completamente diversa das virtuosidades metafóricas comuns a simbolistas e românticos.

O POEMA LONGO DE ELIOT
   E a poética de Eliot, nesta senda da fragmentação, nos coloca diante de um aspecto crucial de seu trabalho, e também para toda a poesia e os poetas, que é a problemática do poema longo,  se tratando de sua viabilidade no sentido de que o poeta tenta uma tarefa impossível de sustentar o mesmo tom e as mesmas qualidades líricas, épicas ou dramáticas durante todo o trajeto do poema, questão que em Eliot é bem resolvida pela própria fragmentação, o que lhe permite uma liberdade de colagem que não necessita da sustentação de um tom universal ou de uma mesma respiração por todo o trajeto da escrita.
   Neste caso, para Eliot, o poema longo tem uma facilidade maior do que uma épica gigantesca de estilo único. E, na fragmentação, Eliot resolve isto através da conjugação, dentro de um mesmo poema, de momentos de alta tensão lírica e de passagens intencionalmente prosaicas, como ocorre em The Waste Land e nos Four Quartets, culminâncias da poética de Eliot. E é como operador de fragmentos que Eliot se coloca, na poesia, como um dos maiores realizadores do poema longo moderno do século XX, e um caso-limite de poeta consciente, de poeta de poetas, também como crítico literário de poetas.

T.S.ELIOT, POETA DO SÉCULO XX

   Eliot representa a expressão da poesia moderna do século XX, isto é: a norma eliotiana ratifica a supressão de tudo que parece liricamente supérfluo, ou apenas discursivo, nos poemas maiores, e segue o caminho moderno com a ostensiva oposição aos enunciados do pensamento lógico, às estratificações parnasianas de esquemas rímico-rítmicos, do divórcio entre forma e fundo, ou o caráter estritamente descritivo-pictural de que tanto padeceu a poesia dos séculos XVIII e XIX.

FOUR QUARTETS

   Por sua vez, Four Quartets, de 1943, constituem não só o momento mais alto de toda a criação poética eliotiana, mas a conjunção perfeita do plano estilístico, formal, ideológico, político e filosófico-religioso, e a consolidação da experiência de Eliot com a técnica da fragmentação. Four Quartets é o supremo retábulo da poética eliotiana, como a síntese estrutural, estilística e temática de toda a sua obra anterior, é um todo de sua obra, que também é, contudo, operado pelo fragmento, fragmentação que é o ponto nodal da poesia eliotiana.
   Eliot, em seu Four Quartets, faz jus ao temperamento inglês de poesia moderna, devedor de Coleridge, que é uma atitude visceralmente reflexiva, produto da tensão antitética entre os impulsos contraditórios da alma do poeta, e os Four Quartets aparecem então como a “mais pura meditação sobre o sentido da vida”, uma longa e dolorosa elegia sobre a condição humana, o mal da civilização, discurso de alta voltagem lírica, puro drama, às voltas com o significado do tempo, composição final da obra eliotiana, como documento em poema-partitura de profundas implicações filosófico-religiosas que resulta na fundamentação histórica da fé de T.S.Eliot no Absoluto.
   Four Quartets é nada mais que a súmula de todo o pensamento poético de T.S.Eliot, e tal visão deste poeta, levando em conta toda a sua obra, e a síntese que representa Four Quartets para todo o conjunto do trabalho de T.S.Eliot, é mais uma vez o reflexo da crença-marca da obra eliotiana de que em seu princípio estava seu fim e em seu fim o seu princípio.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/25026/17/a-poetica-de-ts-eliot-deu-nova-forma-a-poesia-inglesa 
   
  
  
     


  

domingo, 20 de setembro de 2015

T.S. ELIOT E A TERRA DESOLADA EM POESIA MODERNA


   T.S.Eliot, o poeta, o crítico, o ensaísta, o dramaturgo, encarna uma das mais estranhas e poderosas influências da poesia do século XX. Ele é a estranha junção da tradição cultural do passado, na edificação de um sentido do tempo presente, e em poesia T.S.Eliot aponta para o futuro, pois este poeta foi influência duradoura sobre todas as gerações que se formaram a partir de 1930.
   Eliot era poeta de poetas, crítico literário de poetas, um grande engenho de poesia e ensaio que juntou fortuna crítica e criativa, seu trabalho abrangente reunido no sentido de verdadeira colagem poética, uma forma de fragmentação que junta pontos num mosaico histórico e civilizatório em forma de poesia. Eliot resume bem os complexos e heterodoxos estratos intertextuais, o que faz com mestria ímpar, e que nos coloca em contato com uma atividade criadora de forma poética que abarca toda uma herança de tradição que, contudo, nos dá a sensação de uma poesia do futuro, ou melhor, olhando hoje, de todo o trajeto de uma parte dos poetas que surgiram durante o século XX. E, na sua técnica, esta intensa e inumerável mimética de assimilação literária com uma expressão própria que foi denominada de “eliotização” pela crítica literária.
   Em A Terra Desolada o poema se estende em cinco partes, e aqui a parte um de “O enterro dos mortos” nos coloca na devastação do verão caindo como um aguaceiro, e nós temos as previsões do Tarô com o jogo simbólico das cartas, e os jacintos como metáfora ou imagem recorrente da poética de Eliot, a fragmentação e o jogo intertextual como fulcro em que se dá todo o conteúdo riquíssimo de poesia com a forma de uma grande máquina que cintila no que se chama de arte e de poesia.

A TERRA DESOLADA
(T.S.Eliot)
1. O enterro dos mortos

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.
Frisch weht er Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
''Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos jacintos."
- Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.
Oed' und leer das Meer.
Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.
Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: "Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable -, mon frère

Trecho de ''Terra Desolada'', publicado pela Editora Nova Fronteira em ''T.S. Eliot - Poesia''.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/24889/17/ts-eliot-e-a-terra-desolada-em-poesia-moderna 

domingo, 13 de setembro de 2015

LUZ DEL FUEGO, A BAILARINA DO POVO

“Luz Del Fuego buscou a sua própria verdade, e incitou a fantasia e a curiosidade de toda uma geração de brasileiros.”

PERFIL DE UMA LIBERTÁRIA
   Dora Vivacqua se afirmava pela diferença, nunca obedeceu a nenhum padrão, sua luta libertária fez dela Luz Del Fuego, nome artístico que foi a sua marca no mundo. Figura extemporânea, Luz Del Fuego buscou a sua própria verdade, e incitou a fantasia e a curiosidade de toda uma geração de brasileiros.
   Mexendo com preconceitos, sacudia convicções. E sua imagem verdadeira vai muito além da vendida como a prostituta megalomaníaca, da mulher das cobras, que se utilizava de um símbolo fálico para dar vazão a sua sexualidade desenfreada. Sua imagem, contudo, de perto, demonstrava a mulher à frente de seu tempo, pois não era uma vedete qualquer, que seduzia os homens com gestos lascivos, afrontando a sociedade, Luz Del Fuego tinha ideias, muitas ideias.
   E se pudermos dar um horizonte intelectual a ela, aqui está um pensamento que envolvia o teatro de revista, escândalos, nudismo e cobras. Ela era, também, a vermos sua biografia, a famosa ovelha negra da família, assunto tabu dentro de certas caretices. Precursora do feminismo e do naturalismo, ela assumiu uma inquestionável posição de vanguarda em relação a sua época, até se retirar em busca de uma vida solitária no seu paraíso particular, a ilha do Sol. Seu nome: Dora Vivacqua, ou melhor, Luz Del Fuego.

PRIMEIROS ANOS
   Na adolescência, Dora já não aguentava o cotidiano provinciano de Cachoeiro de Itapemirim, e tampouco Vitória lhe atraía, sua vista se voltava para o Rio de Janeiro, aonde lhe parecia haver mulheres mais livres, na praia. Ali, em Cachoeiro, ser alegre e desenvolta escandalizava as pessoas. Dora dizia que o mal das moças de Cachoeiro era acreditar em príncipes encantados. Elas não deviam ler romances de Madame Delly e não bancar as santinhas.
   Dora era audaciosa nos namoros e no modo de se vestir, abominava o uso do sutiã. E, numa época em que o biquíni ainda era desconhecido de muitos, ela desfilava pela praia de Marataízes de calcinha e bustiê improvisado com lenços. No carnaval, suas fantasias, feitas por ela mesma, eram sumárias e transparentes, fosse de havaiana ou odalisca, sempre estava com o umbigo de fora. E, além da fantasia, organizava blocos de carnaval.
   Dora começava a sua busca por algo extraordinário que transformaria a sua vida, e já estava em choque com inúmeras convenções sociais. Estando em Belo Horizonte, achava a cidade tão tediosa quanto Cachoeiro. Recrudesciam as desavenças com a mãe, e Dora já herdava os gestos da vamp Pola Negri, sua atriz favorita.

NO RIO DE JANEIRO, A LIBERDADE
   Dora, já no Rio de Janeiro, conhece o locutor César Ladeira, celebridade do rádio, numa leitura de crônica na Rádio Mayrink Veiga. Morar na então capital federal era tudo o que Dora queria, a cidade fervilhava nos primeiros anos da década de 1930. Na esperança de vencer a resistência sexual da pequena capixaba e sabendo de suas ambições, César Ladeira prontificou-se a introduzi-la no meio artístico, e na época o ponto de encontro ficava no Largo da Lapa. Considerada a Montmartre carioca, ali vivia o Rio boêmio.
   É então que numa abordagem audaciosa, José Mariano, filho do famoso arquiteto José Mariano Filho, conhece aquela que ele logo chamou de “Mignon”, Dora. Quando conheceu Dora, José Mariano era um bon vivant que usufruía as benesses do berço de ouro. Bem-educado, rico, bonitão, vivia à caça de novas conquistas. O que o atraiu na então “Mignon” não foi a beleza, pois havia muito a observava, pois Dora circulava pelos salões com desenvoltura, sem se preocupar com narizes torcidos ou comentários maldosos, não era uma jovem comum, e apesar das aparências, nada vulgar.
   Por detrás do sorriso doce, da voz aveludada, era toda feita de ação impetuosa. Tinha o perfume do escândalo, e José Mariano atiçou o faro para isto. Quanto a Dora, a constante busca de emoções a fizera se aproximar de Mariano, e logo estava apaixonada. Os dois, em comum, tinham a voracidade pela vida. E, para Dora, havia a vantagem de ele não ser uma celebridade como César Ladeira ou Manoel de Teffé, o que dava a ela a chance de sobressair-se.

FASES DE INTERNAÇÃO, A HIPOCRISIA FAMILIAR
   Ao encontrar o marido bolinando a própria irmã (Dora) em sua própria casa, Angélica tivera uma crise histérica, havia muito sabia das infidelidades dele, um mulherengo incorrigível, com amantes espalhadas por toda a cidade, só que a posição social e financeira de Carlos, um dos maiores empreiteiros do Brasil na época, convinha aos seus interesses de mulher ambiciosa, a despeito do desencanto que era seu casamento.
   Pois então, mesmo ciente da culpa do marido, Angélica achara melhor abafar o escândalo, internando Dora num manicômio. E, nos dois meses que passou no Hospital Psiquiátrico Raul Soares, em Belo Horizonte, Dora conheceu o inferno de que sua mãe tanto falava. Na internação, Dora grita todo o seu ódio, e bate furiosamente na porta de ferro com as mãos e os pés, “Me tirem daqui!” gritava, horas depois, sem forças para continuar gritando, fica de cócoras no cimento frio, a posição é dolorosa, e, para ela, aquilo não passava de um pesadelo. Primeiro foi o pânico, quando a fizeram trocar o vestido pelo uniforme áspero de brim, tentando fugir. Saiu correndo pelos corredores, tropeçando nos médicos e enfermeiros, até que conseguiram agarrá-la com brutalidade. E depois a arrastaram até o quarto-forte, uma espécie de solitária para as internas desobedientes, e, depois que saiu dali, percebeu que a realidade é mais absurda do que podia imaginar.
   O desrespeito ali era a rotina, pois Dora se revoltava com a arbitrariedade das pessoas que supostamente estão ali para cuidar das doentes. Se não controla o desespero, tratam-na como louca e lhe aplicam uma injeção para “descansar”. Entorpecida pela droga, Dora perde o limite entre loucura e razão.
   E, em janeiro de 1936, Dora regressava para Belo Horizonte. Mas, o episódio da internação não amansara Dora, ela estava num constante conflito com a própria família, e Dora os acusavam de hipocrisia. E, depois de seu irmão Archiles ter a ideia de mandá-la à fazenda de seu outro irmão Archilau, lá Dora desfrutou de uma liberdade bem maior do que em Belo Horizonte.
   Porém, aquilo durou pouco, pois Archilau ficou transtornado com o relato de Beg, filho do administrador da fazenda, de que Dora pediu que tirasse uma foto dela seminua com duas cobras-cipó, o que causou uma briga entre o irmão e Dora, que resultou em Dora arremessar um vaso de cristal que deu a Archimedes cinco pontos na testa e uma cicatriz para o resto da vida. Este entrevero só aumentou o fosso entre Dora e sua família, e lhe rendeu uma segunda internação.
   Desta vez, na Casa de Saúde Dr.Eiras, famosa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro. Esta internação não passou, para Dora, de uma pausa letárgica, pois era tal seu estado de agitação e revolta que, ao chegar à clínica, lhe aplicaram uma dose maciça de sedativo. Aí foi um círculo vicioso de terminar o efeito do remédio e Dora voltar mais agressiva do que antes, quando lhe aplicavam outra dose.
   Archiles então saiu em sua defesa e deu um jeito de tirarem Dora do manicômio. Attilio considerou a atitude do cunhado uma intromissão e ameaçou responsabilizá-lo legalmente por qualquer desatino que Dora cometesse dali para a frente. “Desatinados são vocês!” Izimbardo reagiu, cheio de indignação, “Se essa menina precisa de algum tratamento, não é em um hospício que vai encontrá-lo.”

DORA BUSCA SER ÚNICA, CONTRA AS NORMAS SOCIAIS 
   Já com sua irmã Mariquinhas, que passara também por conflitos com a família, esta se virou para Dora e disse: “Escapar do cativeiro das normas sociais traz dor e sofrimento. Você está preparada para isso, minha querida?” Mariquinhas fez esta pergunta já sabendo o futuro, pois Dora jamais se deixaria submergir no mundo das pessoas comuns, para ela, a busca da individualidade representava mais do que mera libertação da tutela familiar, vinha da infância sua vontade de ser única, inconfundível, de brilhar em todas as circunstâncias, a qualquer preço. E ninguém iria detê-la de seu destino.
   Dora, a esta altura, sonha com o Rio de Janeiro. De volta a Cachoeiro, Dora arquitetava a sua fuga, fazendo a estratégia de não provocar problemas familiares. No Rio, Dora vai para o pensionato Colégio Imaculada Conceição. E foi num Rio de Janeiro ainda sobressaltado pelo golpe de Getúlio Vargas, em novembro de 1937, que Dora começaria a viver a sua aventura, já à saída do Ministério da Agricultura com um sorriso dizendo que será inscrita no Aeroclube para tirar o brevê. Dizendo que logo estaria pilotando um avião.
   E, novamente num caso com José Mariano, este se prontificou a dar tudo do bom e do melhor para Dora, sendo esta instalada no sofisticado Edifício Netuno, em Copacabana, o apartamento era um luxo, e Dora ainda era cumulada de presentes e mimos. Sem preocupações com dinheiro, Dora dava asas à sua imaginação e ambições.  

A DANÇA DO FOGO
   E as desavenças entre ela e José Mariano começariam quando Dora decidiu fazer um curso de dança na academia de Eros Volúsia, pois Dora se fascinara com os bailados afro-brasileiros da conhecida bailarina, pois a dramaticidade de A Dança do Fogo numa temporada que ela acabara de fazer no Teatro Carlos Gomes deixou Dora impressionada, atraída por bailados exóticos, que estavam revolucionando os palcos cariocas com coreografias estilizadas. O fim de seu caso com José Mariano se deu, por conseguinte, quando Dora flagrou o encontro dele com uma louraça platinum-blonde, ali cada um seguiu seu caminho.
   A ideia da dança para Dora virou algo concreto, mais do que mera fantasia, pois começou a sua vida artística como Luz Divina, dançarina com suas incríveis serpentes. Com movimentos nem sempre graciosos, sua expressão corporal compensa tudo com uma carga erótica que conquista o público. E, até Dora se entender com as jiboias, foi uma luta. Mas, no fim, seu corpo estava em paz com o bailado entre as serpentes. E, para alegria de Dora, os jornais noticiaram o fato, as cobras começavam a lhe dar a notoriedade sonhada.
   E, enquanto isso, Dora também escrevia um romance, no seu constante conflito com a hipocrisia social, o que resultou num primeiro livro, a história de uma prostituta que busca senda da regeneração, livro literariamente fraco, mas que tinha toda uma crueza de linguagem, com descrições de cenas sexuais, fantasias eróticas e lesbianismo, e quando Trágico Black-Out foi publicado, em 1947, Luz Del Fuego começava a aparecer nas crônicas mundanas.
   A fama da exótica bailarina chegara aos teatros da cidade. E a mudança de Luz Divina para Luz Del Fuego veio da marca de um batom argentino, e para Dora, a imagem do fogo representava sua nova opção de vida, ela que antes era “água viva”, de Vivacqua.      
   E, mais adiante, a primeira metade da década de 1950 foram os anos de Luz Del Fuego. Todos conheciam a vedete que enlouquecia o Brasil, ela era o demônio vivo que desafiava as autoridades, a Igreja e a família, ocupando as manchetes de jornais e revistas, o nome de Luz Del Fuego deixava sua marca na cultura brasileira naqueles tempos.
   O grande salto na carreira artística de Dora foi, portanto, no seu encontro com Walter Pinto, no Teatro Recreio, o arrojado empresário que vinha inovando no teatro brasileiro. Ao contratar Luz Del Fuego, Walter sabia que seus espetáculos deveriam abranger todos os gostos, então Dora estava ali com ele, além de outras vedetes como Virgínia Lane, a maliciosa, Mara Rúbia, a brejeira, e Dercy Gonçalves, a escrachada. E a exótica Luz Del Fuego era garantia certa de bilheteria, em meio disto.
   E, com Walter Pinto tentando capitalizar a rivalidade entre as vedetes, se instaurou a briga entre Luz Del Fuego e Elvira Pagã. Walter deliciava-se com essa disputa e jogava mais lenha na fogueira. As manchetes dos jornais e revistas estampavam o palavrório entre as duas, enquanto a venda de ingressos triplicava. No rastro do sucesso, também vinha muita censura, com multas e interrogatórios com a delegacia de costumes, sendo até detida por desacato à autoridade em altercações públicas. Amada pelo povo e odiada pelos moralistas, Luz descobria na legenda do escândalo o caminho mais curto para a fama.

O CAMINHO NATURAL DE LUZ DEL FUEGO
   Luz Del Fuego, já depois de famosa, começou a difundir a sua nova filosofia naturalista, que tinha a culminância com o nudismo, o hábito de ficar nu nas praias. Mas, não foi fácil para Luz conseguir adeptos desta nova filosofia e prática, apesar de estar fascinada com o que lia nas publicações, especialmente nas revistas alemãs.
   Começou reunindo um pequeno grupo de amigas na praia da Joatinga, e para convencê-las a ficarem nuas, Luz discorria sobre os benefícios dos raios solares no corpo nu, tomando como exemplo famosas praias da Europa como Biarritz. E como pioneira do naturalismo na América Latina, havia a chance de seu nome ficar conhecido internacionalmente. Para isto, passou a pensar em empreender o que ela viria a chamar Movimento Naturalista Brasileiro e fundar um clube de nudismo nos moldes europeus.
   E, então, publicou A Verdade Nua, livro autobiográfico onde lançava as bases de sua filosofia naturista. Resultado: a publicação foi apreendida, considerada pornográfica. Luz então fez uma segunda edição vendida por reembolso postal, e com o dinheiro arrecadado pretendia arrendar uma ilha do governo para nela fundar a sua sonhada sede do seu clube naturalista.
   Depois de um estardalhaço em sua tentativa de fundar o Partido Naturalista Brasileiro, Luz ainda enfrentaria intensa luta para obter a cessão de uma ilha para sede de sua colônia. Ela conseguiu, e seu novo endereço era a ilha do Sol, em plena Baía da Guanabara. O lugar era inóspito, mas Luz estava decidida em transformar aquilo num paraíso nudista.
   Luz então passou a praticar o naturalismo como uma religião, não comia carne, não tomava bebidas alcoólicas e evitava refrigerantes, e para manter o bronzeado indígena que tanto perseguia, tomava longos banhos de sol, e gostava de pescar e nadar, e agora dedicava a sua vida a fundar o Clube Naturalista Brasileiro. O clube, já fundado, tinha registro na Federação Internacional Naturalista da Alemanha, e alcançou, no seu ápice, entre 1955 e 1961, a marca de duzentos e quarenta sócios, e a organização era exemplar, e a divulgação do clube era feita por uma revista publicada todo mês de nome Naturalismo.

DECADÊNCIA E TRAGÉDIA
   No fito de aperfeiçoar as instalações da ilha, após o ápice de seu sucesso, Luz foi ficando no limite de suas reservas financeiras, e o Ministério da Marinha passou a ameaçar cassar a cessão da ilha. Porém, seus esforços não deram muito certo, e Luz, com o fechamento do clube, os sócios sumiram, e o ostracismo e a decadência física eram a negação de tudo que Luz sonhara para si na vida. Cada vez mais isolada na ilha, suas aparições públicas também rareavam. E a ilha já não era um lugar seguro, pois com o clube fechado, sua vulnerabilidade aumentara, e a visita de sócios foi substituída por indesejáveis ladrões e arruaceiros que invadiam a ilha com a intenção de violentar Luz, ao que ela comprou uma arma para rechaçar as investidas a bala.
   Foi neste período que Luz entrou em confusão com lambaceiros pescando com bombas, briga que resultou na ameaça destes de dinamitar a ilha do Sol, e Luz pediu socorro na ilha do Braço Forte que era dos guardas portuários. Luz Del Fuego, depois disso, já estava há uma semana desaparecida, foi quando Mauro Dias recebeu na redação do jornal O Dia um misterioso telefonema, este era de um coveiro que deu a notícia: “Foi o Gaguinho. Ontem de madrugada ele, bêbado, olhos esbugalhados, gritava que nem doido pelas ruas do bairro: Meu diabo deu força e eu matei a mulher das cobras.”
   Luz tinha sido morta a pauladas e com um corte no peito, seu corpo deixado atrás de uma pedra na beira da praia da ilha. Segundo o relato: “Metade das coisas que falam por aí é pura lenda. Que eu sei, ele matou com uma peixeira, o Dodô, (...) depois foi um tal de Zé Trinta-e-um, (...) e um mendigo que perambulava por São Gonçalo, de nome Zé Aprígio etc.” O relato foi prontamente confirmado pela maioria dos moradores dos mangues do fundo da baía de Guanabara.
   E ainda corriam histórias fantásticas sobre Gaguinho, o “homem-diabo”, de que ele tinha o corpo fechado, que nos tiroteios um patuá em seu pescoço evitava que este tomasse tiros, com metralhadoras da polícia engasgando etc. Na sua casa, no Pontal, tinha um altar com uma estátua do Satanás ao centro e, ao fundo, um letreiro: “Vocês vão com Deus que eu fico com o Diabo.” Diziam ainda que ele tinha um urubu e um cachorro e uma cadela com os nomes de Lúcifer e Desgraça.
   Tudo isso não passaria de lendas, à primeira vista. Mas Mozart Teixeira Dias tinha uma ficha policial de condenação por dois homicídios e uma passagem pelo manicômio judiciário. E, na manhã seguinte ao relato, eis que a cidade do Rio de Janeiro era despertada com os gritos de: “Extra! Extra! Luz Del Fuego assassinada! Gaguinho mata a nudista da ilha do Sol!” O jornal O Dia dava, em primeira mão, o furo jornalístico.
   E, no reino paradisíaco da ilha do Sol, resta o desenho de duas serpentes no terraço da casa em ruínas, nada lembrando a presença de Luz Del Fuego, aonde apenas as gaivotas e o marulho do mar evocam a sua memória, a bailarina do povo e sua dança e militância naturalista estão em todo ímpeto de libertação, e quando se falar em liberdade, se fale também em Luz Del Fuego.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/24778/17/luz-del-fuego-perfil-de-uma-libertaria