PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

INTERNET E SISTEMAS COMPLEXOS - PARTE IV

“ a internet também é vulnerável em sua infraestrutura”

Quando se fala da resiliência de uma internet bem distribuída e descentralizada, estamos falando de um conceito herdado da ecologia, em que toda resiliência terá por base a diversidade, ocorrendo algo semelhante no sistema da internet, em que uma rede bem distribuída equivale a um sistema resiliente e uma rede, ao contrário, concentrada em poucas empresas, como no caso presente das big techs, teremos uma vulnerabilidade do sistema.

Para além do colapso no nível de softwares, que são mais comuns e recorrentes, e que tivemos exemplo recente no caso da CrowdStrike (em que criei uma sequência extra de textos nesta coluna), a internet também é vulnerável em sua infraestrutura, nos seus componentes físicos, por exemplo, onde os cabos de fibra ótica, em que atravessam volumes colossais de tráfego de telefone e internet, se encontram mal distribuídos, ou seja, concentrados.

Um exemplo da vulnerabilidade da infraestrutura de comunicação, incluindo aí o sistema de internet, foi o caso do descarrilamento de onze vagões de um trem de carga de 60 vagões no Howard Street Tunnel, em Baltimore. Em meio a este incidente, um carrinho que continha produto químico inflamável foi perfurado, e este produto escapou e pegou fogo, provocando um incêndio que demorou cinco dias para ser debelado. 

O desastre só aumentou, com as paredes do túnel funcionando como um forno e a temperatura chegando até quase 2.000 graus Fahrenheit, com uma adutora acima do túnel que estourou e inundou o túnel, mas esfriou pouco, e ainda houve uma explosão relacionada ao produto químico liberado que foi de tampas de bueiros que ficavam até três quilômetros do túnel. 

Com este incidente, ficou clara que a resiliência propalada pela WorldCom, por exemplo, era apenas algo no papel, pois a alegada distribuição de tráfego por diferentes redes de fibra ótica em função de uma antecipação a eventos como o do túnel, neste caso, não funcionou, e uma grande parte do volume de tráfego telefônico e de internet da empresa foi atingido.

Tal incidente surpreendeu e atingiu a segunda maior empresa de telefonia de longa distância dos Estados Unidos. O fato foi que o tráfego de internet no país desacelerou e as linhas telefônicas da Costa Leste, além das linhas transatlânticas, todas caíram. Portanto, o que parecia uma infraestrutura segura e robusta, caiu por terra, mais uma vez, dada a concentração, desta vez, física e topográfica das redes de fibras óticas. 

Então, quando nos referimos ao Howard Street Tunnel, estamos falando de um túnel que faz parte de uma estreita topografia que acabou por concentrar diferentes redes de fibra ótica num único ponto de estrangulamento, e com o incêndio se revelou uma vulnerabilidade no nível operacional que ainda não estava óbvia, o que foi traduzido pelo fato da WorldCom ter confundido a sua redundância tecnológica com diversidade e, portanto, resiliência, o que foi incinerado, literalmente, com o incidente, nesta região de Baltimore. 

Na internet atual, temos um tráfego que passa por redes privadas das empresas de tecnologia, sendo grande parte composta por cabos submarinos da Meta e do Google, com servidores em redes dominantes de distribuição de conteúdo, que são a Cloudflare e a Akamai, e que possuem suas próprias administrações de redes de servidores proxy e data centers. 

Outro grau de concentração na infraestrutura é o fato do tráfego passar por resolvedores de sistemas de nomes de domínio (DNS) que se tornam cada vez menores e menos diversos. Lembrando que o DNS funciona como uma lista para a internet, em que ocorre a vinculação de sites a seus endereços numéricos.

A ilusão de que havia um sistema que em seu nível operacional era robusto e resiliente, por sua vez, foi dada pela melhora da velocidade e eficiência da rede, contudo, o gargalo, mais uma vez, estava na concentração, desta vez, física e topográfica, tudo no Howard Street Tunnel de Baltimore, em que se tinham provedores centralizados com mais recursos e mais qualificados, mas em pontos únicos de falha do sistema. Uma vulnerabilidade de concentração que não se resume ao mundo dos softwares no sistema de internet, mas que se estende à sua infraestrutura física. 

Em 2016, por exemplo, tivemos um ataque cibernético em que hackers infectaram dezenas de milhares de dispositivos habilitados para internet com um software malicioso, em que foi criada uma rede de dispositivos sequestrados, ou seja, uma botnet, e que foi usada para bombardear o provedor comercial de serviços DNS, Dyn, com consultas, até que este entrasse em colapso. Dentre os clientes deste provedor estavam empresas como Airbnb, Amazon, The New York Times, CNN e PayPal, e que durante o ataque não tiveram os seus nomes de domínio resolvidos. Por fim, dezenas de grandes sites dos Estados Unidos pararam de funcionar.

Embora se tratasse de um conjunto de empresas em que se incluíam as maiores marcas de internet dos Estados Unidos, todos com um planejamento de resiliência e redundâncias, falharam novamente no fato de haver um único ponto de estrangulamento, que guardava uma camada crucial da infraestrutura, e que falhou. O resultado, por sua vez, foi patético, com tais marcas conhecidas sendo derrubadas por uma rede de babás eletrônicas, webcams de segurança e outros dispositivos de consumo.

A vulnerabilidade no nível operacional, de infraestrutura, do sistema de internet, foi um gargalo revelado pelo seu colapso, em que se separou a redundância do sistema de sua diversidade, reflexo de uma monocultura, de monopólios e duopólios, que víamos predominantemente atingido o mundo de softwares em relação a ataques cibernéticos e falhas de sistema, mas que acaba que se lida com os mesmos problemas no nível de infraestrutura, e com a mesma origem de concentração do sistema de internet, leia-se, o controle deste sistema por algumas poucas empresas norte-americanas, as big techs.

Tal concentração também atinge ferramentas de pesquisa e de navegação, e que envolve a busca, a navegação e as redes sociais, em que se tem um volume imenso de troca de informações, conhecimentos e compartilhamentos que, por sua vez, alimentam big datas que visam controlar e armazenar estas informações sobre os usuários de internet, seus interesses de consumo, sua vida ativa etc, em bancos de dados que formam estes big datas, que se tornam, por fim, meios de domínio e de poder. 

Contudo, sua alta vulnerabilidade, em pontos únicos de estrangulamento, coloca toda falha sistêmica como um risco grande assumido por uma escolha, em que acidentes podem ser a entropia em ação, algo possível, mas em que o caminho foi aberto para isto, uma escolha sistêmica pela concentração. 

(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/internet-e-sistemas-complexos-parte-4/

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND - PARTE XV

“período de auge do True Norwegian Black Metal”


Depois destes incidentes e de sua repercussão, a polícia norueguesa, já em 1998, acabou publicando um relatório intitulado Kirkebranner og satanistik motiverte skavederk (Danos de incêndios em igrejas e de crimes de motivação satânica), o que no livro em Lords Of Chaos encerra um capítulo e que vem com o título de “A História Oficial”, isto é, se tratava das conclusões produzidas pelo esforço de 4 oficiais de polícia e do poder judiciário, incluindo um procurador, envolvendo agências de investigação, em que este relatório detalha como a cena black metal se organizava na época, sua subcultura, dando recomendações para investigações futuras.

Mesmo com a relativa distância temporal, como engenharia de obra pronta, mesmo assim o relatório teve que lidar com um cipoal de contradições de uma cena dominada ainda por adolescentes, numa realidade absurda de inconstâncias internas do chamado “inner circle”, feitas para confundir desavisados. Entretanto, o relatório cai em exageros e extrapola, contudo, quando cai em mistificações em relação à dimensão da presença do satanismo no inner circle, e a relação de um culto satânico ligado diretamente à queima das igrejas na Noruega naquele período de auge do True Norwegian Black Metal, que era a segunda geração desta vertente do metal. 

O material do relatório, quando entra neste mérito, parece se contaminar com uma espécie de fundamentalismo cristão herdado dos Estados Unidos e vira um tipo anódino de manual de como lidar com criminosos satanistas e quetais. Aparece, como dito no livro Lords Of Chaos, “uma farofa de propaganda sensacionalista cristã sobre o satanismo, no estilo que motivaram os surtos satânicos que varreram os EUA no final dos anos 1990 - surtos motivados por histeria que, quase invariavelmente, revelavam-se infundados”.

Quanto ao satanismo, o relatório também peca por desconhecimento e de forma açodada confunde a autoria de O Livro da Lei, de Aleister Crowley, com a de um obscuro líder do Templo de Set de nome Michael Aquino, que era uma pequena dissidência da Igreja de Satã. Existe até um calendário atribuído ao satanismo que é condenado pelas próprias organizações satânicas estabelecidas, envolvendo abusos sexuais de menores. 

O nível do movimento, ou seja, um grupo de adolescentes, descambava, contudo, em poses histriônicas de um Varg Vikerknes, por exemplo, ironizando o julgamento que levava pelo poder judiciário na Noruega, uma certa empáfia, misturada a uma fleuma orgulhosa, mas que não dobravam os experientes investigadores da Kripos, no entanto. Por sua vez, tais enfrentamentos denotavam um contraste com a seriedade caricata do relatório quando se referia histericamente a tudo que se relacionava ao satanismo.

Mesmo diante da ironia de Varg, a Kripos o encurralou ao refazer o traçado feito pelo Conde e seus asseclas, cerco que se fechou com o envio do Grupo de Incêndios de Igrejas pela polícia de Oslo para Bergen para realizar as tratativas. Vikernes, finalmente acuado, declarou que “estava farto de ser assediado pelas autoridades, e que a investigação policial sobre a cena black metal deveria ser encerrada”. Por fim, no livro Lords Of Chaos temos : “Quando o líder de operações respondeu que Vikernes não parecia ter a autoridade judicial para dar ordens à polícia, Vikernes deu um passo atrás e levantou seu braço em uma saudação romana, ao estilo nazista”.

E ainda, segundo Lords Of Chaos : “Ainda que ambas as histórias tenham vindo da polícia e possam ter sido floreadas pela sua fonte, elas não são difíceis de se acreditar. Afinal, foi provavelmente a propensão de Vikernes a demonstrações teatrais que o levou a transformar seu processo judicial em um circo midiático, armando então o palco onde ele faria o papel do seu cartunesco personagem “O Conde” - um papel que posteriormente se voltou contra ele, quando tribunais levaram seus rompantes ameaçadores a sério ao lhe darem a sentença mais severa permitida pela lei norueguesa”.

Seguindo Lords Of Chaos : “Portanto, quando Vikernes alega que de certa forma ele é um preso político, ele tem uma certa razão. Seria quase impossível para alguém da idade de Vikernes sem antecedentes criminais receber uma sentença de vinte e um anos de prisão. Bard Eithun, em comparação, recebeu uma sentença de dois terços do tamanho, por um assassinato de brutalidade semelhante. As diferenças entre as sentenças podem muito bem ser políticas, pois Eithun, apesar de nunca ter expressado muito remorso, não fez questão de provocar o tribunal da forma que Vikernes fez ao usar a oportunidade para declarar sua adesão ao nacional-socialismo”.

Para saber das relações estabelecidas dentro do inner circle, por exemplo, temos o de uma sistemática frieza entre os próprios integrantes da cena, tendo um retrato disto quando membros do Mayhem atual se referem a Euronymous ou Dead, como se falassem de algo que eles leram ou ouviram falar, sem vivenciar ou sofrer com isso, sendo sempre a nota fria de um relatório de fatos. Ao mesmo tempo, Varg pouco se importava com Euronymous e Bard Eithun era completamente oblíquo em relação ao que tinha feito também. Tudo o que aconteceu naqueles anos do auge da cena era obra de uma adolescência que parecia ter produzido adultos herdeiros de histórias nada comoventes para si próprios, num modus operandi que era, como dito já em Lords Of Chaos, de um estenógrafo.

A posição patética do relatório intitulado Kirkebranner og satanistik motiverte skavederk (Danos de incêndios em igrejas e de crimes de motivação satânica), por sua vez, parecia a obra de caipiras impressionáveis, que mistificaram a relação da cena do inner circle com o satanismo, exagerando nas tintas e pintando um anedotário involuntário que faria rir até um leitor juvenil de revistas de ocultismo que anelava brincar de alquimista do mal etc. O desconhecimento tanto do tema do ocultismo, como uma visão unidimensional sobre o inner circle, também reflexo de uma histeria anti-satanista, contribuíram para uma piada pronta quando a polícia norueguesa teve que lidar com a empáfia e a fleuma de um jovem que se auto intitulava Conde.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico/

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

ELON MUSK E O TWITTER - PARTE 2

“estavam ocorrendo demissões sem o aviso prévio de 60 dias”


Por fim, Elon Musk completa seu acordo de U$44 bilhões para a compra do Twitter e dissipa os ares de incerteza que estavam no ar. Contudo, a seguir vem a demissão do então CEO da plataforma, Parag Agrawal e de dois executivos, levantando novas questões sobre o futuro da plataforma. Um dos sinais dados por Musk, por sua vez, foi a de estabelecer uma nova política de moderação de conteúdo para o Twitter, segundo um conceito mais extremo de liberdade de expressão.

Elon Musk, após o anúncio de compra do Twitter, postou na plataforma um vídeo de si mesmo entrando na sede da mesma carregando uma pia de cozinha e a legenda: "Let that sink in!". Pia em inglês é "sink", e a expressão "sink in" quer dizer algo como "cair a ficha", então, a legenda dizia algo como "Vamos fazer cair a ficha". Elon Musk também mudou a descrição do seu perfil no Twitter para "Chief Twit" ("Chefe Twit").

Após a dissolução do conselho de administração do Twitter, Elon Musk se tornou o único diretor da plataforma. A decisão, segundo Musk, foi a de reduzir a força de trabalho da plataforma, uma vez que esta estaria perdendo mais de U$4 milhões por dia. Nesses dias começaram diversos relatos de funcionários do Twitter que tinham sido demitidos, com perguntas como sobre o futuro da moderação e retirada de conteúdo nocivo na rede social.

Em meio às demissões em massa feitas, funcionários relataram terem sido desligados dos laptops de trabalho, do Slack, um sistema de mensagens, e com o quadro de cortes abrangendo, por fim, departamentos que iam do marketing à engenharia, incluindo funcionários de comunicação, desenvolvimento de produtos e curadoria de conteúdo. Por sua vez, funcionários demitidos da plataforma por Musk entraram com uma ação coletiva nos Estados Unidos em que argumentavam que estavam ocorrendo demissões sem o aviso prévio de 60 dias, violando tanto a lei federal como a do Estado da Califórnia.

Em meio à confusão de Musk, com demissão da metade de sua força de trabalho no Twitter, impacto entre anunciantes poderosos, lançamento e descontinuação de recursos de modo inconstante, causou, por fim, uma fuga de executivos sêniores, com a plataforma entrando no limite de sua operação, com Musk admitindo que era possível até a falência do Twitter.

O caso do selo azul “Oficial”, o chamado Twitter Blue, por exemplo, foi uma ideia de estabelecer contas verificadas não mais por notoriedade, mas com o pagamento de U$8, o que causou a presença de contas falsas estando como verificadas, o que levou a plataforma a retirar o selo azul para depois reintroduzi-lo, para que contas verificadas pudessem confirmar a sua identidade, ou seja, uma confusão e um domínio da imprevisibilidade, segundo uma perspectiva acionária.

Dentre as demissões e dissoluções, houve a da equipe de combate à desinformação na plataforma, grupo responsável pelo monitoramento de conteúdo da rede social, no qual se cumpria funções como a de destaque de fontes de notícias com checagem, postagens confiáveis que apareciam em sequência, sendo acessada na maior parte dos idiomas mais falados do mundo. Portanto, foram dissolvidas equipes nos Estados Unidos, em Sydney, Londres, Accra em Gana, Tóquio, São Paulo, Cidade do México e Singapura, unidades que acompanhavam postagens em inglês, espanhol, árabe, hindi, japonês e português.

Embora o Twitter não seja a rede social mais usada nesses países, ela é de rápido compartilhamento e disseminação, com desinformação que sai de lá para outras redes. Por sua vez, diferentes locais de diferentes idiomas possuem problemas diferentes também. Isto é, em lugares em que se fala o árabe o problema é a presença de spam nos trending topics. Na África, por sua vez, o escritório em Gana era o único no continente, com um desleixo enorme em relação à África Subsaariana, tendo a empresa como foco o hemisfério norte, portanto, com usuários manipulando as redes destes locais sem moderação há tempos, com muita violência e desinformação.

Em meio às demissões, também houve funcionários que pediram demissão, sobretudo depois do tal ultimato feito por Musk, via e-mail, para que a equipe se comprometesse a “longas jornadas de alta intensidade” ou deixar a empresa. Musk dizia que os funcionários teriam que trabalhar por longas horas e ser “extremamente hardcore” ou se demitirem. Por fim, os que recusassem a proposta receberiam uma indenização de três meses. 

Então, dentre os funcionários que pediram demissão, alguns tuitaram usando a hashtag #LoveWhereYouWorked (que pode ser traduzida como "ame onde você trabalhou") e um emoji de saudação para mostrar que estavam saindo da empresa. Sem considerar os funcionários que ficaram, aqueles que pediram demissão demonstraram uma relutância em permanecer em uma empresa onde Elon Musk demitiu metade de sua força de trabalho com rapidez, incluindo a alta administração, em um processo de mudança radical da cultura da empresa para enfatizar longas horas de trabalho de alta intensidade.

Quanto à publicidade, com as polêmicas das demissões, da falta de moderação de conteúdo e, por fim, da restauração de contas de usuários que estavam banidos da plataforma, como Donald Trump, por exemplo, a plataforma está com menos anunciantes de grande marcas, com queda da receita de publicidade. Elon Musk, contudo, não se importa, e já manifestou o desejo de que a plataforma se sustente através das assinaturas de seus usuários, e não mais através da publicidade.

O Twitter, até antes da sua aquisição por Elon Musk, foi uma plataforma que se esforçava em transformar a sua influência cultural, política e na mídia, em receitas de publicidade. Agora, com a  atuação disruptiva de Musk, parece que não depender de anunciantes abre caminho para que o novo CEO utilize a plataforma como um veículo da liberdade de expressão segundo critérios absolutistas, de queda de qualquer controle ou moderação de conteúdo, se tornando o Twitter uma rede social de desinformação e de extremismos. 

Antes de Elon Musk comprar o Twitter, a plataforma já tinha um negócio de publicidade menor que o do Facebook, por exemplo, pois não oferecia o mesmo nível de segmentação de usuários. Se Elon Musk consegue efetivar o serviço de assinaturas, seria algo que outras mídias não conseguiram, ou seja, tal objetivo se trata de um modelo improvável de sustentação de uma plataforma, de uma rede social. 

A amplitude dessas assinaturas no X, ex-Twitter, por seu turno, também é questionada, pois é uma rede social de nicho, utilizada sobretudo por membros da mídia, políticos e acadêmicos, e que agora está sendo povoada por haters, negacionistas, extremistas e agentes de desinformação. 

Por exemplo, mesmo que todos os 217 milhões de usuários diários do X, ex-Twitter, assinassem por U$8 dólares por mês na plataforma de Elon Musk, isto geraria uma receita anual ainda bastante inferior a de uma Meta, por exemplo. Musk pode até contornar estas limitações, mas terá de reverter uma receita publicitária que ele mesmo destruiu, manter seus sistemas funcionando, e algo que está em questão, que seria evitar a violação de leis sobre direitos autorais e discursos de ódio. 

E, para que o X, ex-Twitter, continue operando, a plataforma terá que manter uma boa relação com a Apple e Google, pois estas empresas controlam as lojas de aplicativos em que o X, ex-Twitter, está disponível para download e instalação em smartphones, portanto, com a plataforma dependendo bastante de tais lojas para se sustentar como negócio.

(continua)  


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/elon-musk-e-o-twitter-parte-ii/

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

ELON MUSK E O TWITTER - PARTE 1

“Musk comprou o Twitter por US$ 44 bilhões”


Elon Musk progrediu como empresário com um volume de trabalho imenso, incansável, típica de um workaholic. Depois de sair da África do Sul e estudar no Canadá, abandonou os estudos, já nos Estados Unidos, para empreender, primeiro com uma plataforma online de jornais, vendida para a Compaq por R$300 milhões. 

A saga de Elon Musk foi rápida e eficiente. Com o dinheiro da venda feita à Compaq, Musk criou um banco online, batizado de X.com, que depois virou o PayPal, e que foi vendido para o eBay em 2002. Por sua vez, aos 31 anos, Elon Musk já acumulava uma fortuna de US$165 milhões. 

Musk, quando fundou a plataforma Zip2, por exemplo, dormia em seu escritório, trabalhando de 80 a 100 horas por semana, num ritmo alucinante, e que ele diz ter acelerado o seu avanço com suas empresas. Após a venda da PayPal, por sua vez, em 2002, Musk usou o dinheiro ganho para fundar três empresas, que seriam a Tesla, Space X e a Solar City. 

Depois de um começo difícil com a Tesla, num mercado ainda dominado por petróleo, com a empresa sendo produtora de carros elétricos, o jogo virou, e a empresa Tesla se tornou pioneira e referência na produção de carros elétricos, que ganharam as suas melhores versões. Em meio aos problemas iniciais da Tesla, por exemplo, Elon Musk obteve um empréstimo de US$456 milhões do governo dos Estados Unidos em 2008. Em 2010, por sua vez, a empresa se tornou a primeira montadora americana a negociar ações na bolsa desde a Ford, em 1956.

Musk, com a sua Space X, agora planeja viagens espaciais tripuladas rumo a Marte. As dificuldades ainda são enormes, o que inclui a distância e questões como radiação e de conservação física dos astronautas. A Nasa, por exemplo, tem planos para este tipo de empreendimento apenas para os anos 2030, pois ainda existem muitas limitações que devem ser superadas. 

Contudo, a Space X avança bem em seus estudos e experimentos, sendo pioneira no lançamento de foguetes reutilizáveis, ultrapassando rivais como a Nasa e a norte-americana Boeing, com oferta de voos espaciais mais baratos. Na esfera dos voos espaciais privados, a Tesla tem como concorrente a Blue Origin, do empresário Jeff Bezos, dono e fundador da Amazon. 

Elon Musk ainda teve uma outra empresa que se dedica a explorar o subsolo. Alguns anos atrás, a sua empresa Boring Company obteve a permissão do governo dos Estados Unidos de escavar um túnel de cerca de 12 quilômetros sob o Estado de Maryland. Musk tentou que este túnel servisse para a passar o seu futuro trem-bala eletromagnético, que ele batizou de Hyperloop, e que seria projetado para transportar passageiros a uma velocidade de até 1.233 km/h. O resultado foi nulo, e a startup Hyperloop One fechou.

Levantamento deste mês de setembro da revista Forbes avaliou a fortuna de Elon Musk em US$243,7 bilhões, sendo considerado, no momento, o homem mais rico do mundo, liderando o ranking da revista. Por sua vez, Elon Musk segue, então, em seu caminho de transformar a forma que se entende as indústrias do voo espacial privado, e também avança em áreas de inteligência artificial e de energia solar.

O Twitter, por sua vez, foi fundado em 21 de março de 2006 por Jack Dorsey, Christopher Isaac Stone, Noah E. Glass, Jeremy LaTrasse e Evan Williams, com sede em San Francisco, na Califórnia. O primeiro tweet foi feito pelo co-fundador do Twitter, Jack Dorsey, e que fazia parte de um sistema interno de mensagens para a Odeo, uma empresa de podcasting em que Dorsey, Stone e Williams trabalhavam na época, e que dizia o seguinte : “Estou apenas configurando meu twttr”.

A versão completa para o público do Twitter foi lançada em 15 de julho de 2006, se tornando uma empresa própria em 2007, sendo que, em outubro de 2006, Dorsey, Stone e Williams compraram a Odeo, criando a Obvious Corp, em que foi mais desenvolvida a versão final do Twitter. Em março de 2007, a empresa começou a ganhar popularidade graças a um festival interativo de nome South by Southwest (SXSW) em Austin, no Texas. O Twitter colocou grandes telas nos salões da conferência mostrando tweets ao vivo sobre o evento SXSW. 

O interesse pelo Twitter cresceu com esta estratégia de marketing e no final desta semana o seu uso diário triplicou. Após o sucesso no SXSW, foi criado o Twitter Inc., que era uma entidade corporativa e Dorsey virou o primeiro CEO do Twitter. Dorsey foi demitido da empresa em 2008 e retornou ao cargo de CEO em 2015, ocupando este cargo até novembro de 2021. 

Elon Musk, tuiteiro prolífico, anunciou em 4 de abril de 2022 a compra de 9,2 % das ações da empresa, tornando-se o maior acionista individual da empresa. A seguir o Twitter anunciou em abril do mesmo ano a entrada de Elon Musk para o Conselho de Administração da empresa. 

Esta era uma tentativa de impedir Musk de adquirir mais ações da empresa, pois sua nomeação como conselheiro da empresa seria um entrave para isto. A Comissão de Valores Mobiliários (Security Exchange Commission) dos Estados Unidos, segundo documentos oficiais apresentados, dizia que Musk não poderia, como conselheiro da empresa, ultrapassar a sua participação em mais de 14,9 % das ações até a reunião anual dos acionistas em 2024.

O então CEO do Twitter, Parag Agrawal chegou a anunciar em um tweet a entrada de Musk no Conselho. Contudo, na semana seguinte Musk declinou da proposta. Com este movimento, Musk ficou livre para adquirir mais ações da empresa. Em 4 de abril de 2022 ele compra mais 9,2 % das ações do Twitter e se torna o maior acionista da empresa. 

Por fim, em 25 de abril de 2022, o Twitter aceita a proposta de compra da empresa por Elon Musk. Depois de uma pílula de veneno, o conselho do Twitter achou por bem recuar e aceitar a oferta chamada de “cavaleiro branco”, pois tal possibilidade para uma empresa que nestes anos de atividade nunca foi rentável como outras redes sociais poderia não se repetir. Musk investiu U$33,5 bilhões para financiar a transação. 

Elon Musk se autointitula um absolutista da liberdade de expressão (uma versão controversa deste conceito, mais parecida com a prática legal norte-americana). Por fim, Musk comprou o Twitter por US$ 44 bilhões em 25/04/2022. Musk, ao comprar a empresa, prometeu mudar a característica da rede social como algo de nicho e ampliar os usuários dos Estados Unidos, por exemplo. 

Depois de suspender a sua oferta para a compra do Twitter, com alegações como a de que ao menos 5% das contas era de perfis fake e que havia muitos spams na rede social, Musk então traça a prioridade de remover os bots de spam da plataforma. Por sua vez, diante da polêmica, o então CEO do Twitter, Parag Agrawal, afirmava que as contas de spam na rede social estavam “bem abaixo de 5%, numa estimativa que permanecia a mesma desde 2013.

Parag Agrawal disse que não se podia reproduzir tais dados externamente, pois teria que se usar informações públicas e privadas para determinar se uma conta é spam, ao que Musk deu como resposta para a defesa de Agrawal desta metodologia um emoji de cocô.

(continua) 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/elon-musk-e-o-twitter-parte-i

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

HISTORICIDADE

Versos que campeiam o gráfico, puro malte esteta,

na verve mordida dos haustos metafísicos.

A parte um, um cabedal dos horrores,

os fantasmas e seus contistas.


Na babel, em roto canto de um rapsodo louco,

sapientia se maravilha em hexâmetro espondeu.

Lota de elfos, fadas, uns marfins, fumo,

fuzis e cartuchos. O poeta é um que faz

fantasia com o cano fumegante e a bala.


Na parte dois, este mesmeriza a astúcia

em sua própria garra, faz do veneno

que prova de seu veneno um antídoto.

O mundo mau é apenas uma súcia

de idiotas indo à pique.


Nas festas de sangue, o patíbulo estalava.

Um parque de cabeças mortas,

pelas espadas e pelos canhões,

os ossos decorando a tomada

do poder, um demagogo

derruba um déspota,

o mundo mau feito piche

envenena o solo, é o montante

famigerado da História

e de seus tiranos que morrem

de surra ou de bala.


Capítulo final,

a bomba.


29/08/2024 Monster - Gustavo Bastos  

O ELO DA VIDA

Ir à forra é uma desforra,

ir embora é uma revolta.


Partir é partir um coração.

Esvair-se é morrer.


Cair em si é voltar

à realidade.

Doer é crescer.

Sofrer é sucumbir.

Alegria prova dos nove.


Feliz é quem canta,

que tristezas viveu,

e valoriza o elã

quando o sol brilha.


29/08/2024 Gustavo Bastos - Vibe

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Crowdstrike - Final

“o erro decorreu de um software que serve para defender redes e não prejudicá-las”


Ainda persistindo esta utopia do impossível, de um mundo fora do regime de informação, o que se restringe a comunidades de subsistência originárias ou neo-hippies, temos a realidade inextricável, da qual não se pode escapar, que é ter a vida ligada de modo indelével a este regime de informação.

Falando em regime de informação, podemos seguir indicações da obra Infocracia, de Byung-Chul Han, que diz : “chamamos regime de informação a forma de dominação na qual informações e seu processamento por algoritmos e inteligência artificial determinam decisivamente processos sociais, econômicos e políticos. Em oposição ao regime disciplinar, não são corpos e energias que são explorados, mas informações e dados”, em que Byung-Chul Han diagnostica que a digitalização situa-se atualmente como um dos pilares da crise da democracia.

O exemplo dos aeroportos, no caso da CrowdStrike, é emblemático sobre este caráter de dominação, pois todos os envolvidos tiveram que esperar, paralisados, a “volta do sistema”. Ou seja, é uma “evolução” do que veio a ser tematizado por Foucault em Vigiar e Punir, sobre as técnicas de isolamento espacial e de adestramento do corpo, que era o sistema de domínio do panóptico, um observatório de vigilância permanente e, guardadas as proporções, onisciente no que se propôs. 

Esta “evolução” do conceito dos corpos dóceis da inflexão conceitual foucaltiana vira agora esta dominação através dos dados, a verdadeira localização que importa não é a do corpo, mas a dos dados, aqui podendo ir de Byung-Chul Han até Shoshana Zuboff, que defendeu a tese do capitalismo de informação, em que na obra A Era do capitalismo de vigilância, estabelece a arquitetura em que se dá este regime que impacta o nosso modo de vida.

A tragédia da concentração do sistema é que a entrega total de tudo a poucas empresas expõe este controle, esta dominação, à sua face invertida, que é seu colapso, sua fina camada que ao menor impacto rompe e, por conseguinte, rompe o sistema e testa os limites do tecido social, este que entregou as chaves da própria casa, ou seja, grande parte ou a totalidade de seus dados, a este sistema concentrado e centralizado. 

Por sua vez, empresas que deveriam estar sob vigilância a escrutínio do Estado, das instituições públicas, ganham a forma de uma arquitetura digital onipresente, com bastante poder, em que falhas globais são mais um custo debitado à democracia e à liberdade, com mecanismos frouxos de controle desta concentração das big techs.

A fé inabalável no sistema, na sua mágica, na sua aceleração, contudo, implica nesta alienação da própria autonomia para remeter falhas ao sistema e responsabilidades ao sistema, como uma criança que paralisa se há erro e os dados ficam em stand-by, devido “a uma falha global do sistema”. O aprendizado artificial da Falcon Discovery, por sua vez, é nada mais que para a sua função de monitorar e verificar aplicações não autorizadas.

Temos aqui uma máquina que aprende (machine learning), que agora pode atuar em conjunto com uma inteligência artificial, somente através de banco de dados, ou seja, literalmente, em matéria de habilidade cognitiva, com o passado, mas sem questionamento, sem capacidade de reflexão e de comoção, por exemplo, com o caos humano que a falha da CrowdStrike provocou. Ou seja, isso quer dizer que a Falcon Discovery “não viu” as milhões de vítimas da falha de seu sistema. O limite cognitivo da máquina se dá pelo fato da inteligência artificial fazer correlações a partir de um banco de dados, alimentando-se de seu big data, em que tudo é previsível e calculado, mas incapaz de lidar com fatos novos, com demandas imprevisíveis e ligadas ao imponderável.

O saber da máquina se dá por correlações e não por conceitos, ou seja, a reflexão sobre significado e sentido passa ao largo e além das captações que uma inteligência artificial pode fazer, e qualquer coisa que se assemelhe a um senso crítico e reflexivo, produzido a partir de um prompt bem colocado, não passará de um simulacro de um sistema que é cego para eventos. Ou seja, que nunca entenderá as dimensões da falha da CrowdStrike, ou indo mais longe, do lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki, por exemplo.

A indisponibilidade da CrowdStrike provocou uma interrupção massiva que danificou cerca de 8,5 milhões de computadores Windows no mundo todo, em que apareceu a espiral da Tela Azul da Morte (BSOD). Este fato é notável e se diferencia de ataques cibernéticos maliciosos que já causaram interrupções de plataforma de nuvem e outros problemas de software, pois agora o erro decorreu de um software que serve para defender redes e não prejudicá-las. 

Por fim, a resolução do problema causado teve que ser manual, com profissionais de TI tendo acesso prático a cada máquina afetada, seja fisicamente, ou com orientações de modo remoto. Em todo caso, uma pessoa teve que inicializar manualmente cada computador no Modo de Segurança do Windows e aplicar a correção. Em casos de computadores criptografados com o recurso de segurança Windows BitLocker, por sua vez, uma conhecida conta de análise de malware e notícias de segurança no X, brincou : “Se você estiver usando o BitLocker, pule de uma ponte”.

Neste caso, os usuários não conseguiam inserir as chaves do BitLocker necessárias para desbloquear os dispositivos e aplicar as correções sem recorrer a soluções alternativas mais complicadas, então a Microsoft logo lançou uma ferramenta de recuperação no sábado subsequente ao colapso que incluía uma solução para o problema. Isto também expôs o fato da falta de treinamento de funcionários de diversas empresas para casos de falhas e erros de sistema, dando mais ênfase a produzir sem criar esta resiliência.

(final) 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/crowdstrike-final