PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 19 de junho de 2024

CANTO AGÔNICO

Criatura, em sua senda pálida,

sem poesia, ignara.

Peste que foste,

nada resta, sua 

existência de

inseto,

insossa.


Vértebra, abulia

de uma carne flácida.

Agonia, os sete ritos

desta elegia.


19/06/2024 Gustavo Bastos - Monster

CANTO ESCALAR

 Plêiade, da mais viva chama,

este esteta estrela, dá mais 

este vermelho, na carne 

que vive, no corpo

que baila.


Veste teu crepúsculo,

e a vida feliz basta,

na cor do som,

na hora vívida

dos mares.


Ah, este frescor, este sopro!

Este livro escrito com letras 

sonhadas, em papel fosco,

um belo dia canto melodia,

o doce, a dança, e que tudo

fosse, sim, assim, neste dia

em que estes rios correm,

com a lagoa virada

em mar, e o denodo

da montanha em sua

escala altíssima.


19/06/2024 Gustavo Bastos - Vibe

TROCAÇÃO ABSURDA

Se vi tal dor fantasma, o membro rijo,

este era uma gangrena, espasmódico

poema do pensar sobre a morte.


As algas sujas, e o plâncton rosa,

junto ao ferro, ao microplástico,

e a vida em um lodo plácido,

eis o mar mais poético daquele

poeta triste que se matou.


Voltagem, na cara do ladrão,

nas pústulas e nas chagas,

e cicatriz, vinda de um surto

em carne viva, fez deste 

polímata, poliglota,

troglodita, parâmetro

destas exéquias.


19/06/2024 Gustavo Bastos - Monster

domingo, 16 de junho de 2024

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND - PARTE XIV

"foi testemunhada a transformação de uma retórica violenta em acontecimentos trágicos reais”


A cena black metal norueguesa, durante a década de 1990, embora tenha havido algumas mortes, os membros deste círculo parecia indiferente ao destino fatal desses outros que também pertenciam à mesma cena. 

Por exemplo, quando Dead se matou, Aarseth viu uma oportunidade de alavancar o hype do Mayhem, pois colheu os ossos de seu crânio e distribuiu entre os músicos da cena e tirou uma foto do cadáver do vocalista com a cabeça estourada por uma espingarda, que estava ainda junto de Dead, foto esta que virou a capa do álbum “De Mysteriis Dom Sathanas” do Mayhem. 

E quando o próprio Aarseth morreu assassinado, dois anos depois, os próprios membros do Mayhem falaram sobre o assunto de forma indiferente, segundo o autor de “Lords of Chaos” : “que mais se adequaria a um estenógrafo de tribunal.”

Depois de um tempo de discursos sobre a morte e sobre o mal, a cena passou a ser levada mais a sério a partir dos eventos com igrejas e os assassinatos. Por exemplo, Vikernes declarou, já na cadeia, durante seu julgamento : “Basicamente eu sou um adorador de Odin, o deus da guerra e da morte. O Burzum existe exclusivamente para Odin, o inimigo de um olho só do Deus cristão.” Esta obsessão com a guerra e com a morte era partilhada por grande parte dos membros da cena black metal da época, pois isso era proclamado em encartes de CD e também em fanzines. 

Portanto, foi testemunhada a transformação de uma retórica violenta em acontecimentos trágicos reais, e foi quando a cena toda viu o gênio sair da lâmpada, no sentido de que os assassinatos cometidos por Bard Eithun e Varg Vikernes mudaram toda uma configuração retórica de jovens rebeldes para uma realidade de ocorrências policiais e problemas com a justiça. Oystein, por sua vez, conseguiu se firmar como Euronymous, um dos expoentes da cena, traduzido por “o príncipe da morte”.

A maioria das bandas, durante este período, estavam com membros integrantes enfrentando problemas na justiça, incluindo os assassinatos, violações de sepulturas, incêndios de igrejas etc. Esses processos judiciais desestabilizaram a cena, e houve uma cisão dentro dela, com um lado pró-Vikernes e o outro lado pró-Euronymous. As bandas de black metal norueguês, por sua vez, em sua maioria, enfrentavam um hiato, com exceção, dentre as mais conhecidas, da banda Darkthrone. 

Varg Vikernes, por sua vez, estava se dissociando de amizades antigas, declarando não ter mais relação com a cena, pois seus interesses agora se voltavam para o nacionalismo e a adoração de Odin. Ele mantinha uma atitude impassível nas interações com a polícia e a justiça, mais do que seus colegas, embora tenha sido o responsável por chamar atenção da polícia para a cena, isto na famigerada entrevista feita ao Bergens Tidende. Contudo, Varg Vikernes se recusava a colaborar com as autoridades, defendendo que era inocente das acusações. Dentre os outros infratores da cena, a maioria confessou seus crimes.

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “Samoth explica suas próprias experiências com a polícia, e seus motivos para confessar, que provavelmente são semelhantes aos de alguns dos outros : Eu fui detido em setembro de 93 e fui preso. Eu fui levado para ser interrogado várias vezes. A primeira vez foi logo depois do Vikernes, por algum motivo, ter declarado abertamente para um grande jornal de Bergen que o “Círculo Negro” estava por detrás das queimas de igrejas, e também que ele sabia de algo a respeito do “assassinato do Parque Olímpico”. 

Eu não falei merda nenhuma pra polícia nessa vez. A vez seguinte foi em agosto de 93, logo depois do assassinato do Euronymous, em conexão com o assassinato cometido pelo Bard Eithun, assim como com os vários incêndios em igrejas. Eu não falei nada de relevante pra polícia a essa altura. Quando eu fui preso, todo mundo já tinha sido preso e o Eithun já tinha confessado.”

Na entrevista dada em Lords Of Chaos, Bard Eithun, por sua vez, descreve a sequência de eventos de sua captura e prisão. Ele começa dizendo que tudo se deu quando Oystein foi morto. A semelhança da morte de Oystein com a morte do homossexual, com várias facadas, ocorreu quase na mesma época. A polícia foi investigar e algumas pessoas citaram o nome de Bard Eithun. Ele não acredita que tenha sido gente da cena, mas um pessoal que desejava entrar na cena, que tiveram acesso a informações que não tinham sido escritas nos jornais.

Bard Eithun foi preso enquanto bebia com um pessoal em Kvikne, do lado de fora de um motel. Os policiais tinham um mandado de captura e queriam ir no apartamento de Bard Eithun para revirar as suas coisas. Por fim, Bard Eithun foi parar na delegacia em Oslo, preso pelo assassinato deste homossexual que tinha sido esfaqueado. Ele foi interrogado e acabou confessando o crime depois de ser convencido pelo seu advogado.

Varg Vikernes ficou enojado com a onda de confissões de crimes enquanto ele mantinha o silêncio, pois os considerava como delatores dos crimes, e com acusações e confissões, por sua vez, foram mobilizadas diversas personalidades da cena black metal, e testemunhos saíram em todas as direções, implicando diversas pessoas e até as próprias testemunhas. 

No julgamento de Varg Vikernes, por sua vez, a mobilização também foi grande, e diversos documentos foram apresentados à justiça, como o contrato de gravação levado por Vikernes até Oslo, cartas escritas por ele e por outros, mapas e relatórios forenses, além da famigerada matéria do Bergens Tidende.

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “As declarações e os interrogatórios policiais foram o bastante para condenar Vikernes por assassinato, incêndio criminoso e posse ilegal de armas. Como ele próprio resume : “Eu fui condenado a vinte e um anos na prisão por três incêndios em igrejas, em que eles tinham uma testemunha como a única “evidência” em cada um dos incêndios; uma tentativa de queima de uma torre de sino em que duas das mesmas testemunhas eram a única “evidência”; roubo a armazenagem de 100 quilogramas de dinamite e 50 quilogramas de gelignita (explosivos de ignição lenta) - isso eu confessei -, e alguns arrombamentos em algumas cabanas onde dois livros foram roubados.’”

Varg Vikernes tinha 21 anos e foi condenado a 21 anos de prisão em segurança máxima, que era a pena máxima possível na Noruega. Nesse mesmo dia da sentença de Varg, por sua vez, foram queimadas duas igrejas na Noruega. Bard Eithun pegou 14 anos de pena pelo seu assassinato. 

Snorre, que fora cúmplice de Vikernes no assassinato de Oystein Aarseth, levou 8 anos de prisão. E caras como Samoth e Jorn Inge Tunsberg, que tinham queimado igrejas, receberam sentenças de 2 a 3 anos, também para serem cumpridas em instituições de segurança máxima. Outros envolvidos nos incêndios em igrejas pagaram multas gigantescas para pagar pelos danos e custos de reconstruções.

Durante todo o tempo dos processos, que ocorreram em 1994, por fim, a figura de Varg Vikernes virou um pária na Noruega, contudo, fazendo a alegria dos jornalistas de tabloides, capitalizando todo o escândalo que passou a cercar o inner circle do black metal norueguês.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : ​Lords of Chaos: a sangrenta história do metal Satânico underground - parte 14 - Século Diário (seculodiario.com.br) 




quinta-feira, 13 de junho de 2024

NOVO PARLAMENTO EUROPEU

“Macron convocou eleições parlamentares antecipadas”


As eleições de 09/06, último domingo, para o Parlamento Europeu, renovam uma tendência de guinada à direita na Europa. Embora a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen ainda acredite que o centro permaneça firme, temos uma clara vitória do Partido Popular Europeu, um partido conservador, se somando a isso resultados favoráveis à extrema direita, como o avanço da AfD na Alemanha, superando a coalizão do chanceler Olaf Scholz, o que provocou um pedido de antecipação de eleições na Alemanha, embora sendo improvável que ocorra.

Esta impressão maior de avanço da direita mais radical se deu sobretudo na França e na Alemanha, e isto é preocupante, pois os dois países são os principais na fundação da União Europeia no Velho Continente, além de serem os dois países com mais assentos no Parlamento Europeu. A França é a primeira força e a Alemanha é a segunda e nos dois países tivemos um alargamento da direita anti-europeia.

Na França, o presidente Emmanuel Macron convocou eleições parlamentares antecipadas para o final deste mês, uma vez que o partido de direita radical de sua rival Marine Le Pen alcançou vultosa vitória, isto é, a Agrupação Nacional teve o dobro dos votos do partido centrista Renascimento do presidente Macron. Esta convocação de Macron é uma manobra arriscada para ele próprio, mas uma tradição no parlamentarismo europeu. Portanto, isto significa a dissolução da Assembleia Nacional eleita em 2022 de perfil mais à esquerda.  

O euroceticismo volta a vencer, e isso contra uma representação política dada na supercoalizão em que historicamente dominam social-democratas  e a democracia cristã. Temos então um centro que se desloca para a direita com o ultraconservadorismo, o que se traduz na perda de votos da direita liberal, que chamam de centro, para uma  extrema direita, que é na verdade o ultraconservadorismo deixando o liberalismo democrático cosmopolita e aderindo a nacionalismos anti-imigração, ao passo que ainda há uma força considerável de um conservadorismo europeísta, chamado de centro pró-europeu.

Quanto ao crescimento da direita radical na Europa, temos a Itália que é governada desde 2019 por uma coalizão liderada por Giorgia Meloni e seu partido ultranacionalista Irmãos da Itália. Na Holanda temos o Partido da Liberdade (PVV) de Geert Wilders, que venceu as últimas eleições nacionais, e que defende a saída do país da União Europeia e dificulta a vida de imigrantes. Contudo, em países nórdicos, em que houve um recente avanço de partidos da extrema direita, tivemos resultados positivos para partidos de esquerda e ecologistas nestas eleições de domingo, com um enfraquecimento dos partidos de extrema direita nestes países.

Tivemos como destaques a ecossocialista Aliança de Esquerda, da Finlândia, o Partido Popular Socialista da Dinamarca e o Partido de Esquerda da Suécia. Estes resultados vão na contramão do triunfo ultranacionalista da direita radical, pois, citando por alto o jornal francês Le Monde, estes setores extremistas foram “varridos pela esquerda” no norte da Europa. 

Na Finlândia a centro-direita teve a dianteira, com o Partido da Coalizão Nacional, mas a esquerda veio em seguida com o Aliança de Esquerda. Na Dinamarca, o Partido Popular Socialista triunfou em primeiro lugar e na Suécia o Partido Verde ficou em terceiro lugar, crescendo de tamanho, o Partido de Esquerda avançou e a queda veio do partido anti-imigração Democratas Suecos, que sustenta o governo de Ulf Kristersson, cuja expectativa era ultrapassar o conservador Partido Moderado, ficando como segundo maior partido do país, mas isto não ocorreu, e depois de uma ascensão medonha, pois este partido surgiu de um grupo neonazista, criado em 1988, e que ficou durante anos à margem da política sueca.

O resultado fraco dos partidos da coalizão de Olaf Scholz, por sua vez, se deve sobretudo à dificuldade do governo alemão de exercer uma liderança na Europa, liderança que foi exercida brilhantemente no período de Angela Merkel. Por sua vez, a AfD continua influente nos estados da Turíngia, Saxônia e Brandemburgo, onde a questão da imigração é mais problemática do que no oeste alemão, pois as regiões da ex-Alemanha Oriental foram mais fechadas politicamente no período de domínio socialista e herdaram limitações socioeconômicas mais graves que as regiões que pertenceram à Alemanha Ocidental. A questão da perda de memória de um segmento da população em relação ao passado histórico da Alemanha explica, portanto, apenas uma parte da ascensão da extrema direita no leste do país, embora o alerta fique ligado justamente por este passado terrível. 

Por sua vez, estas eleições realizadas no último domingo definem tanto a nova composição do Parlamento Europeu como terão influência na escolha de líderes para os principais cargos da União Europeia, tais como os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu. Por sua vez, mesmo com o crescimento da direita radical no Parlamento Europeu, temos a expectativa de que os partidos centristas de esquerda e de direita mantenham maioria, dando continuidade em políticas importantes neste período de incerteza geopolítica que atravessa o continente europeu, como a guerra da Ucrânia e o crescente avanço chinês. A União Europeia, por fim, enfrentará desafios como o equilíbrio fiscal, a competitividade industrial e investimentos na defesa e em tecnologias verdes.

Com os casos da França e da Alemanha, que são os países com mais assentos no Parlamento Europeu, a representação da extrema direita na Câmara de Estrasburgo será favorecida, e no caso alemão, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou em segundo lugar, superando a coalizão do chanceler Olaf Scholz. Apesar dos escândalos de extremismos, corrupção e espionagem do AfD, o resultado do partido é considerável. 

No caso alemão, os social-democratas e os verdes sofreram uma derrota importante, incluindo o terceiro membro desta coalizão, os liberais de livre mercado. Junto à Guerra da Ucrânia, que despertou o populismo de direita e de esquerda, temos na Europa um forte sentimento anti-imigração contra muçulmanos. 

Sendo um assunto mais espinhoso para partidos majoritários como os social-democratas ou a democracia cristã, esta pauta avançou a ganhou vulto com partidos radicais de direita como o AfD na Alemanha, o Vox na Espanha e o Agrupação Nacional na França. Portanto, aqui temos a mudança do eixo econômico para o cultural nas eleições europeias e nacionais do continente europeu. 

Por fim, há um contraste entre a tradição predominantemente cristã da Europa com a tradição muçulmana da maioria dos imigrantes vindos da África e do Oriente Médio, gerando uma guerra cultural e de valores, também refletidos nos avanços de pautas progressistas como os direitos da comunidade LGBTQIA+, a igualdade de gênero, e que é um desafio perante valores tradicionais arraigados representados simbolicamente e concretamente por homens brancos adultos. 

A questão da imigração, por sua vez, tem mais impacto em países escandinavos, em que parte da população realmente sente sua cultura e tradição ameaçadas. Na Espanha, por sua vez, o perfil latino do imigrante da América Latina é menos distante e a politização da questão, portanto, é menor. Embora o centro político europeu ainda resista bem, temos que estas eleições refletem mais questões nacionais que europeias, funciona como um preâmbulo para as eleições nacionais nos países europeus. Contudo, esta virada para a direita no Parlamento Europeu definirá a política continental pelos próximos cinco anos.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/novo-parlamemento-europeu

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O VEREDITO DE TRUMP

primeiro ex-presidente dos Estados Unidos considerado culpado de acusações criminais”


Após Trump não retornar ao Twitter, atual X, depois de convites de Elon Musk, o ex-presidente norte-americano postou um vídeo em que se perguntava : “O que vem a seguir para a América?”, e depois passou umas notícias e uma mensagem dizendo “Creation Of Unified Reich”, que seria a criação de um reich unificado. E disse para os Proud Boys, grupo extremista dos Estados Unidos, que participou da tentativa de golpe no Capitólio em 6 de janeiro de 2021, com a frase : “Proud Boys, stand by …”.

Agora, com a condenação de Donald Trump pela Justiça dos Estados Unidos, tal veredito de culpado é considerado uma declaração de guerra pelo Exército MAGA online. Uma retórica incendiária surgiu logo após a decisão da Corte, e isso através dos apoiadores de Trump, incluindo políticos reacionários, extremistas marginais, especialistas de direita, grupos e milícias como os Proud Boys, dentre outros, tudo neste apelo a uma guerra.

Donald Trump foi considerado culpado de todas as 34 acusações de fraude em registros comerciais em conexão com um pagamento em dinheiro à atriz pornô Stormy Daniels. A alegação de jogo sujo por parte de Trump e de seus apoiadores, por sua vez, já estava pronta, pois o ecossistema online do MAGA, por exemplo, já tinha sido preparado, e a interpretação é reflexo do método da alt-right, que se espalhou pelo mundo com Steve Bannon, e que inverte as relações de veracidade e falsidade através da distorção dos fatos.

Neste caso, por sua vez, esta retórica da alt-right, que se reflete no discurso geral do trumpismo, resultou na declaração de guerra ao chamado Estado Profundo nos Estados Unidos, representado pelos democratas. A condenação de Trump, segundo seus apoiadores, é um sinal do colapso dos Estados Unidos, a caminho de uma guerra civil. Os maiores defensores do “Stop the Steal”, que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, por sua vez, afirmaram que o veredito foi reflexo de um sistema de justiça manipulado.

Este colapso do sistema, segundo trumpistas, se deve ao Estado Profundo e aos globalistas, e a manipulação do sistema judiciário seria o que se chama de “lawfare”. Trump postou no Truth Social, alegando ser vítima de perseguição política, na intenção de lhe roubar as eleições de 2024, através um julgamento manipulado feito por um sistema corrupto. Sua postagem no Truth Social dizia o seguinte : “Isso foi uma vergonha, um julgamento manipulado por um juiz conflituoso que é corrupto. Lutaremos pela nossa Constituição, isso está longe de acabar!”.

Os canais Proud Boys, por sua vez, declararam guerra após o veredito. Também no Patriots.win, antigo subreddit The Donald, que foi um dos focos de preparação da invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, a retórica de guerra se proliferou, com um usuário dizendo : “Há apenas duas opções em novembro, Trump ou guerra civil, vou esperar pela primeira, mas me preparar para a segunda.” 

O bate-papo bem ativo do Telegram, dedicado à Sala de Guerra de Bannon, por exemplo, também explodiu em retórica belicista, e isso se generalizou no discurso de extrema direita dos Estados Unidos. Embora a sensação geral seja de que Trump se beneficiará eleitoralmente do veredito, como foi afirmado em postagens do New Jersey Proud Boys no Telegram, por exemplo.

Trump, que agora é o primeiro ex-presidente dos Estados Unidos considerado culpado de acusações criminais, terá a sua sentença em 11 de julho. Trump deve recorrer da condenação. Cada crime tem uma pena máxima de quatro anos, mas o juiz pode optar pela condenação à liberdade condicional ou prisão domiciliar. 

Por fim, teremos a Convenção Nacional Republicana, para a escolha do candidato do partido pelos delegados, que já considera a opção por Trump como líquida e certa, pois ele domina há muito o Partido Republicano. Tal escolha do partido se dará nesta convenção na data de 15 de julho deste ano.

Trump ainda tem mais três processos criminais, e que envolvem as suas tentativas de anular as eleições presidenciais de 2020, além do tratamento ilegal dado a documentos confidenciais da Casa Branca após deixar o cargo. Estes processos foram adiados indefinidamente, contudo, e o veredito atual é o único certo para este ano. 

Dependendo do que ocorrer em novembro, teremos um registro histórico de que, caso Trump perca as eleições, este veredito terá peso grande sobre a sua derrota eleitoral, caso ganhe, por sua vez, tal veredito entrará como uma nota de rodapé na carreira política de Donald Trump.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-veredito-de-trump

quinta-feira, 6 de junho de 2024

ALLAN`S PSYCHEDELIC BREAKFAST

   Ferve na panela a sopa de letrinhas, ela está socada no meio do fogão seis bocas. O menino Paul imagina um povoado em sua cabeça. O barulho do ovo fritando etc. O Capitão Ovo, ele é o herói da história do menino Paul, seu parquinho está logo ali. Tem torradas. Tudo é muito gostoso e fresquinho. Ele já teve a festa dele. Agora, o Capitão Ovo quer um exército de torradas, passa manteiga na torrada Bela, uma torradinha maluca, bem tostada. Vem o guardanapo, o suco de laranja Tommy, um grande doido, ele era uma laranja sacana, foi espremido e ficou todo saidinho, num copão grandão. Olha em volta o menino Paul, seu apetite cresce. Allan é o dono do café da manhã, seu irmão mais velho. Ele mostra o muque e diz que aquele era o café da manhã dos campeões. A mãe Lucy, riponga antiga, está em seu céu de diamantes, os meninos são da pá virada, felizes e gostam do sol e do jardim da casa, também arejada e ensolarada. Toca na sala um som, Surrealistic Pillow, estamos em São Francisco, na Bay Area, tudo flui, tudo vira realidade. Paul imagina uma batalha em que o Capitão Ovo ganha das formigas do pátio, dos insetos do jardim etc. 

   As torradas gostam de manteiga e de geleia de morango, tem briga por geleia de morango e por manteiga. Allan dá ordens para as torradas, psiu! É o que Paul ouve-vê. Lucy também viu-ouviu, e as torradas obedeceram. O cheiro da geleia de morango era doce, o sabor era muito bom, Paul provou e Allan mandou uma torrada com geleia de morango para dentro, era a melhor marca de geleia, muito cara, e a manteiga também era boa, uma das melhores, e foram duas torradas que o Allan comeu com muita manteiga. Tinha um ovo frito, e claro que não era o Capitão Ovo, e as torradas que eles, os meninos tinham comido, eram torradas normais. A batalha contra os insetos era travada, e no meio do jardim tinha bonecos novos do Paul e aqueles que ele tinha herdado do Allan, que agora só queria saber de basquete, jogar basquete, falar de basquete, tudo de basquete, basquete, o tempo inteiro, ah, você viu o Jordan, o Pippen etc. 

   Acabou Surrealistic Pillow, e tomou a sala, como uma coberta sonora, a Day In The Life, zoeira, Lucy dançava no meio da sala, em cima do tapete, Paul imaginava flores, imaginava borboletas. Allan estava na cozinha, e botou sua camisa do Chicago Bulls, e ligou para um amigo, ia jogar basquete, basquete, e falar de basquete, de cesta, de garrafão, de bolas Spalding, de tudo, da NBA, de quem era o fodão, e ele achava que ia ser o Jordan e o tri, os play-offs eram nada, ia dar Bulls no final. A Day In The Life faz seu fade out, Lucy liga a televisão e passa o jornal. O Capitão Ovo, segundo Paul, também jogava, e tinha a casca dura, jogou com um garfo contra uma sardinha, um atum que tinha saído da lata, e ganhou, e ainda tinha muita torrada guardada, do café da manhã dos campeões, tinha na cozinha até um brasão do Bulls na parede, para lembrar que ali morava só campeão, que nem o Bulls, que nem o Michael Jordan. 

   A história que Paul escrevia em seu caderno se chamava “Allan`s Psychedelic Breakfast”, e o menino já imaginava tudo e também desenhava, ilustrava a história. Paul desenhava uma mesa posta, tinha fruta, suco, pães, ovo, leite, café, guardanapo, toalha de mesa, tinha Allan mostrando o muque e dizendo : “Este é o café da manhã dos campeões!”. Depois tem o desenho de uma tabela com cesta e de uma bola de basquete em que estava escrito Spalding. Começa a escrita, muito infantil : “O Allan era um cara muito legal, ele gostava de joga basquete porque ele acha que era um jogo que ele jogava bem. Ele gosta de mostrar seu muque, ele faz muque e faz queda de braço também. Ele gosta de comer ovo frito de manhã, com pão, torrada com geleia de morango. E ele joga basquete de manhã com seus amigos etc.” 

   Paul também imagina, no parque de sua cabeça, o que Capitão Ovo estava aprontando, e as torradas estavam serelepes, dando urras, e eram torradas com manteiga e muitas com geleia de morango, cheirosas, e que batiam nos insetos do jardim, um açucareiro servia de armadilha para as formigas, e Paul, quando queria dar uma de criança má, gostava de chutar formigueiros, para deixar as formigas desorientadas saindo do formigueiro recém-destruído, saíam várias delas, em ondas aleatórias, um caos, um desespero, o desastre das formigas, causadas por um chute idiota. 

   Paul gostava de beber leite e Lucy gostava muito de café, e fumava um cigarro que Paul achava cheiroso, e ela acendia um incenso, acho que ela não explicava nada porque Paul era novinho, quem sabia daquele cigarro era o Allan, e ele dizia que mamãe gostava de ouvir música fumando o cigarro. Era sempre assim, ela botava música e vinha aquele cheiro. Ela ficava na sala e dançava, e dançava, e gostava de música alta e música maluca. Paul sabia que Lucy, sua mãe, trabalhava em casa, pintando quadro, usava cavalete. De vez em quando fumava também quando pintava. Mamãe gosta de desenhar, de pintar, ela conversa com Allan sobre esportes, mas não entende nada, e ele pergunta o que ela pinta, mamãe fala que é coisa da sua cabeça, e eu não sei o que ela tem dentro da cabeça dela não, eu gosto do parque da minha cabeça, e agora gosto de desenhar e de inventar histórias, estou escrevendo a história nova, é “Allan`s Psychedelic Breakfast”, e quero começar e escrever estas histórias, e tenho um caderno. Paul imagina muito e começa a escrever a tal história do café da manhã, e tem uma boa criatividade para isso. Lucy, que ele chama de mamãe, era a Lucy dos tempos do Verão do Amor, uma jovem idealista, que tinha morado em comunidade por 10 anos antes de ter os dois meninos. 

   Tommy tirava a sua onda, num copão, este copão quase do tamanho de uma jarra, um Tommy espremido, tinha sido um laranjão doido, agora queria ser um super suco, o Tommy suco de laranja, o Tommy que agitava o café da manhã. A torrada Bela, que estava cheia de manteiga, preferia geleia de morango, e tava puta. Tinha umas três torradas rindo dela, cheias de geleia de morango em cima, cheirosas, e os pães, quentinhos, zoavam, riam, um dizia que ele tinha fundado o mundo, que o pão de cada dia é uma religião, e que ele era um pão importante, e vivia para cada dia, e que gostava mais de manteiga que de margarina, e que gostava mais de presunto e queijo do que de blanche de peru e que de manteiga de amendoim e que de café molhado em cima. 

   Ovídio, o primo do Capitão Ovo, agora gemia que nem um velhinho, tinha virado uma omelete, e tava perto de um croissant, que se deliciava com seu francês : “Pardon! Je ne suis pas un pain, je parle à vous, mes petits enfants, que j`habite avec des fromages dans une boulangerie, e je suis un grand croissant, pas un pain, e je parle aussi bien pour vous, monsieur, mademoiselle etc”. Ovídio ouve aquele negócio arrotado, de um croissant metido à besta, e maldiz seu destino, virar recheio de um francês afetado, terrible. 

   Ele era uma omelete, dentro dele tinha salsinha, presunto, bacon e queijo, e ele lembrava quando vivia em paz na granja, antes de ir para a panela de Lucy, antes de se afogar em queijo e começar a sua metamorfose em uma omelete de queijo. Ora, cantavam as torradas : “Lá vem a torradeira, ai ai ai! Lá vem a misteira, ai ai ui! E gostam de torrada com geleia, e gostam de torrada com manteiga, e gostam de misto quente, eita!”. E o Capitão Ovo que já tinha dado conta das formigas, pois o açucareiro ficou cheio d`água da mangueira e um monte de formiga morreu afogada. 

   Que doido, o Capitão Ovo comemorava, e Ovídio, agora um omelete de queijo, queria chorar. Tinha cheiro de queijo e de salsinha, e era chamado de apetitoso e que logo viraria lanche da Lucy, ele era zoado pelos pães, e o croissant, mesmo fazendo pose, e falando “merde” e “je suis malade”, também estava na mira. O bacon ainda tava quente, encalacrado no queijo, e Ovídio, em sua porção ovo, tava deprimido, não se reconhecia mais, sua vida curta de omelete de queijo era uma tortura. E Paul via isso tudo, e ele via e ouvia, via-ouvia, como uma música, e seu parque de diversões da cabeça não parava nunca. E assim Lucy também tomou numa talagada o super suco de laranja Tommy e devorou a torrada Bela. 

   E Paul tava começando os primeiros parágrafos da sua história, do “Allan`s Psychedelic Breakfast”, e também, na cozinha, acontecia isso tudo, e no jardim acontecia mais, e o Capitão Ovo gritava urra, e comemorava, e ele era um herói meio bobo, pois era um ovo. Fica pronta a sopa de letrinhas, Lucy grita o nome de Paul, que estava brincando com os bonecos no jardim. E ele vai comer a sopa, e brinca de alfabeto, A verde, E amarelo, I azul, O vermelho, U roxo, inventei a cor das vogais! Olha, sem as mãos, eu brinco com este macarrão que ele é uma minhoca, blé! 

   A sopa parece uma piscina, essas letrinhas estão nadando na piscina, que tem cheiro de caldo de galinha, que parece uma canja, ah, é uma sopa de letrinha, e tem cenoura, e tem chuchu, e tem tomate, e mamãe fala para eu comer que é nutritivo, pois depois posso lanchar e depois posso comer cachorro quente se eu quiser, quando a gente sair para a pracinha do bairro. B verde, C vermelho, D amarelo, R laranja, W marrom, inventei a cor das consoantes, estou aprendendo a ler! Paul, meu nome. Ca-fé, Lei-te, Ca-chor-ro, Ga-to, Ra-to, ah, Man-tei-ga, manteiga! Já sei separar as sílabas! 

   Eu escrevo agora a história, essa da sopa de letrinha, na verdade, foi ano passado, quando eu aprendi a ler, agora já sei fazer parágrafo e contar uma história. E conto : “Allan era levado, e não gostava de fracote, ele jogava basquete bem, e fazia muita cesta, e dibrava os moleque amigo dele. E ele gostava muito do café da manhã da mamãe, era o melhor do mundo, que nem o basquete que ele torcia, o da NBA. A bola era laranja, Spalding, e quicava, e Allan dava passe, e depois fazia a cesta de três, e pulava, e ia para o garrafão. Ele dibrava de novo seu amigo, ele gostava tanto de jogar que ficava suado, pingava muito. Mamãe lavava aquela roupa pois ficava em casa, trabalhava pintando, ela tem dinheiro e fala com vovô de vez em quando, que mora longe.” 

   Havia ainda um corn flakes que tinha um leão na caixa, o Jack, e no café da manhã dos campeões não podia faltar o mamão, e era George, que tinha mais inteligência que o Capitão Ovo, que era um herói bobo, e o Mamão George zoava o Capitão Ovo, que tinha a cabeça grande, mas era tonto, só tinha gema dentro, e ria da cara do Capitão Ovo. Eu sacudia aquela caixa de corn flakes, enchi uma tigela de leite, era um leite bom de caixa, um litro, muito bom. Jack saiu da caixa, e ele era o leão da marca Jack, que era o nome dele também. Um leão forte, e que falava muito, e que tirava onda de forte. Capitão Ovo, que tinha combatido insetos no jardim, agora tava olhando de lado, e tinha baixado a bola. 

   Mamão George e o Leão Jack estavam tomando o pedaço, e a cozinha e a casa toda estavam mais divertidas. Allan volta todo suado, e agora corria para o chuveiro, pois iria para a escola, e teria que levar também Paul, na garupa da bicicleta. Os dois vão estudar, de noite voltam e jantam, e no outro dia era sábado, com um grande café da manhã, e Allan exultante que sempre era ali “o café da manhã dos campeões etc”, e que ele ia tomar o corn flakes Jack do Paul, e ele deixa, pois achava que assim Allan fazia mais cesta no basquete etc. A tigela de leite e todo aquele corn flakes flutuando no leite, e Allan e Paul se deliciando com a marca Jack, a melhor marca de corn flakes do mundo. 

   O leão era interessante, dizia Allan, quando pegava a caixa, e perguntava se Paul não tentava copiar em desenho o desenho da caixa de corn flakes e Paul disse que ia tentar. E Allan fez uma aposta para Paul desenhar o Jack igual ao da caixa e que ele ia dar alguma coisa para Paul se ele conseguisse. Paul então depois pega papel e pilot e desenha um Jack idêntico ao da caixa de corn flakes e ganha uma camisa do Boston Celtics de Allan que parecia uma camisola nele, e que ficou engraçado, pois agora ele queria usar aquela camisa grande e verde toda hora. Lucy pergunta o que Paul tava fazendo com a camisa de Allan, e ele explicou a aposta, Lucy ri e fala que Paul parecia usar uma camisola, um anão com roupa de adulto. 

   Paul acha engraçado, e passa a gostar de usar aquela camisa do Boston que era bem maior que ele, isso no quintal, no jardim, e que tinha uma cesta, sobrava uma Spalding no jardim e ele resolve arriscar uns lances na tabela que também ficava no quintal. Jack era divertido, ele começou a bater bola comigo, quicava a Spalding e acertava a cesta de chuá. O Mamão George, que era um fanfarrão, desafiou o Capitão Ovo, que não sabia nada de basquete, e foi zoado, eu já sabia um pouco, conseguia fazer umas cestas, pois ficava no quintal quando não tava na escola e treinava sozinho, arremessando na tabela até acertar. A Spalding era a melhor bola que tinha, muito boa, e o Leão Jack só acertava, e acertou umas de três, numa linha que tinha sido feita no quintal com giz, e ele também dava enterrada e tudo. Capitão Ovo pagou um micão e nem parecia o Capitão Ovo que tinha voltado do jardim, que tinha matado inseto etc. O Mamão George era um fanfarrão porque era um garganta, ele também não jogava nada, mas não se arriscava, só falava besteira. E ficava fazendo bullying com o Capitão Ovo, e também piorou, pois mamãe comeu Ovídio no croissant francês, o omelete chorão agora já era e o croissant “oui, allez etc”, também tinha rodado. 

   Eu tive só aula de francês básico, não sei nada, falo também, “oui, maison, je suis etc”, faço o primeiro ano depois que aprendi a ler, o que sei é desenhar e agora tenho ideia para umas histórias, e escrevo redação na escola. Meu conto “Allan`s Psychedelic Breakfast” já tava quase pronto, só não tava todo pronto porque eu tava treinando basquete toda hora no quintal, achava que depois eu poderia jogar na quadra que nem o Allan, e eu usava a camisa do Boston, que era grandona, mas me dava vontade de só jogar quando eu botava a camisa, me sentia um jogador de verdade, num ginásio, imaginando o barulho da torcida, o narrador, tudo. Eu ficava com vários arremessos batendo na tabela e voltando, e acertava de vez em quando. E quando entrava de chuá eu tentava repetir e batia na tabela e voltava, eu ficava ali arremessando a manhã toda até a hora de ir para a escola. 

   “Allan tomava seu café da manhã, ele dizia que Lucy chamava de café da manhã psicodélico, que tocava música durante a refeição. Allan dançava no ar, ele levitava na música, gostava de pães, gostava de girar as torradas, fazia brincadeiras com a geleia de morango. Eu vi a geleia flutuar também no ar, Allan tinha virado um astronauta, e via o pote de manteiga flutuar no ar, e tinha suco de laranja e suco de melão, e tinha leite e tinha café, e a jarra de suco de laranja estava quase no teto, flutuava, e entrava fumaça na sala, Lucy fumava aquele cigarro com cheiro, e tinha incenso, e se jogava basquete na quadra, na praça, e tinha cachorro na rua, e tinha as meninas que iam ver o basquete, e elas jogavam vôlei. Allan tomava seu leite, e ele lia uma revista de esportes, e ele estava sentado numa cadeira que flutuava, a música era boa, e Lucy trocava de música de hora em hora.” 

   O Capitão Ovo agora tava com medo de virar omelete que nem seu primo Ovídio. O Mamão George ficava botando o terror em cima dele, o Mamão George era idiota, e o Capitão Ovo tava todo com medo agora, ele tinha gema na cabeça e ficava agora com medo de mamãe fazer dele outra omelete de queijo que nem fez com Ovídio, o Capitão Ovo agora era um cagão, e o Mamão George botava pilha nele porque gostava de ser idiota. Jack, o leão da caixa de corn flakes, falava para mim que eu tinha que treinar mais, que eu era muito ruim ainda, que só acertava de chuá quando tinha sorte. Que ele, Jack, é que sabia das coisas, aliás, ele sabia tudo, e ele achava que sabia de tudo que nem sabichão. Falava besteira também, que nem o Mamão George, só que o Mamão George era mau, ele era idiota de ficar botando o terror, e o Capitão Ovo agora era um nada, tava todo cagão.

   Lucy sonhava também, e fazia exposições de suas pinturas, e também trabalhava com materiais para esculturas, fora da casa, depois do jardim, ficava o seu ateliê, que era um anexo no terreno, aquilo ela tinha ganhado do pai, que era empresário e permitiu que Lucy investisse em artes plásticas. Eu via vovô de vez em quando, ele tava sempre viajando, trabalhando, ele morava em outra cidade, ele era legal, mas eu via ele pouco. Uma vez eu e Allan viajamos com ele de férias, mas só foi dessa vez, acho que dez dias, e a gente se divertiu. Mamãe estudou na belas artes, acho que era sobre pintura e escultura, e tinha um monte de livro, pois ela falou pra gente, pra mim e pro Allan, que ela fez na época do Verão do Amor, e agora de vez em quando aparece um pessoal aqui, até um amigo dela, cabeludo, Tio Bob, que gosta de brincar comigo e com o Allan, ele parece criança também, é meio doido. 

   Esse pessoal mamãe fala que é dessa época da belas artes e do festival que ela falou que foi o primeiro festival de música etc. Tem o Tio Bob e uma amiga da mamãe, a Mônica, que faz um negócio doido de ioga, fica na parede de cabeça para baixo, parece uma aranha, e depois o pessoal começa a falar esquisito, mamãe fala que é mantra budista, e eu não sei, é aquela coisa da estátua do japonês gordo que fica rindo, uma coisa maluca. E eles cantam esse negócio, que ela fala que é mantra.

   Chegou um pessoal, outro dia, aqui de noite, era a Mônica, o Tio Bob, e dois malucos que acho que era do teatro, que não sei direito o nome, eles ficavam falando poesia, mamãe gostava, eu acho esquisito porque eu não entendo nada, gosto de desenhar, e a música que mamãe ouve já acostumei, só conheço Beatles e Elvis Presley, e conheço a Marilyn Monroe, pois tem uma foto dela de filme na cozinha, tem coisa de antigamente que só sei porque mamãe conhece e fala. Depois dos malucos do teatro, a Mônica botou todo mundo para fazer ioga, eu e o Allan também, e a gente fazia e ficava um olhando para o outro segurando o riso, pois tinha o tal do mantra, e aquele negócio de respirar com a barriga, ela chamava de diafragma, eu não entendi nada, ficava respirando com a barriga, soltava tudo pela boca, soprava, e a meditação foi doida, eu ficava imaginando desenho de televisão, acho que é para ficar pensando até ficar ouvindo tudo, até coisa que cai na cozinha e no jardim. 

   Depois da meditação eu ficava olhando uma estátua de buda gordo, era dourada, e eu zoava aquilo e mamãe falava que aquilo era para a liberdade, que fazia bem para a cabeça, mas a minha cabeça é normal, eu faço desenho e agora tô escrevendo uma história, acho que esse negócio todo de cabeça boa etc é para adulto, não sei, a gente faz dezoito anos e vai trabalhar e depois casa e tudo, quem fica com a cabeça dodói tem gente que fala é que não quer virar adulto, acho que foi isso que falaram uma vez. Acho que eu e o Allan a gente vai ser normal, virar adulto e tudo, acho que minha cabeça tá boa, e agora também quero jogar basquete. Allan também tava bem, e tava cada vez melhor no basquete, ele me viu jogando algumas vezes no jardim, quando eu treinava arremesso sozinho, e falou que era para eu arremessar mais forte, mesmo que batesse com força na tabela e voltasse, e eu joguei assim depois disso, até com Jack, o leão, que me zoava, mas achou melhor quando eu acertei a tabela e o aro mais vezes do que antes. 

   Tio Bob, naquela noite, depois da ioga da Mônica, foi brincar comigo, ele trouxe umas cartas e fazia umas maluquices, tinha carta que eu não sabia qual era, e ele embaralhava, tirava uma sem ver e descobria qual era. Era uma mágica, e Allan falava que era um truque, só que Tio Bob falou que era segredo, e que sabia um monte, pois ele também tirou uma carteira de dinheiro que pegava fogo, Tio Bob era bem maluco. Tio Bob depois bebeu cerveja com os dois amigos da mamãe, os do teatro, e depois, quando o pessoal tava bêbado, eu acho, voltou aquela história de falar alto sobre coisa que eu não entendia nada, a poesia que eles falavam que nem uns doido de filme, com voz diferente, e eles mexiam os braços, a cabeça, andavam pela sala de casa, e era um teatro e poesia, eles andavam e falavam aqueles negócios que eu não sei o que é. 

   E depois teve o cigarro com cheiro, e acenderam incensos por toda a sala, ficou meio de fumaça a sala, e tinha um ventilador de teto e outro de chão, e aquele cheiro do cigarro que mamãe fumava e que agora todo mundo tava fumando, pois passava de um para outro, o mesmo cigarro que tinha um cheiro que eu já sabia como era. E depois, no outro dia, mamãe botou uma bata no Tio Bob, era roupa de oriental, e tirou umas fotos, e ele também usava um óculos escuro grande e redondo, e fumava o cigarro com cheiro. Depois ele saiu, e mamãe fez o café da manhã, e eu vi de novo a guerra das torradas, umas com manteiga e outras com geleia de morango, e eu comia meu corn flakes com leite numa tigela, e o Jack pulou da caixa de novo e ficava pulando e urrando na cozinha. Enquanto eu ainda tomava o café da manhã, Allan tascou o Mamão George, que foi devorado, e depois Allan bebeu um suco de tangerina e botou sua roupa de basquete e foi para o treino, ele falou. 

   Agora ele jogava com seus amigos e também tinha treino com professores de um clube ali perto de casa. “Era uma vez o Mamão George, ele tirava onda de tudo, mas era um mamão, um mamão suculento, e Allan devorou”, assim cantava Jack, o leão, e ele falava que era um leão do cereal, e que não viraria comida, era um desenho, um personagem de desenho. Dentro da caixa que ele vendia tinha um saco cheio de corn flakes, e ele era o desenho que vendia tudo na caixa e na propaganda da TV. E a gente jogou de novo no quintal o basquete e eu acertei mais cestas do que antes, e o Jack até me zoava menos agora e até falava bem, e falou legal quando eu acertei uma de três pontos de chuá. E ele gostava de dar enterradas, eu não fazia porque eu ainda era pequeno e tinha que arremessar para mais alto para acertar a tabela e o aro e a cesta. 

   Paul então já estava quase terminando a sua história do “Allan`s Psychedelic Breakfast”, e ele estava encadernando, e no meio do texto, com muitas páginas, tinha ilustrações sobre a história, tudo bem organizadinho, e nos seus sete anos aquilo era uma história com figuras, o que para um adulto poderia ser um conto com ambições de HQ etc. Era tudo bem encaminhado, a história tava ficando boa, e quando terminou, Paul leu um trecho para o próprio Allan : 

   “E ele terminou seu suco, ele bebeu tudo de uma vez, e no café da manhã, enquanto no jardim tinha um sol e um céu azul. Allan se divertia com um brilho lilás, e pinturas que surgiam em telas flutuantes, eu desenhava muito sobre a história deste café da manhã, e de repente Allan levitou, ele olhou em volta e aquele café da manhã dos campeões era agora o seu café da manhã psicodélico, e a torradeira começou a cuspir torradas para todos os lados da cozinha e da sala, no meio da mesa em que se servia o café da manhã, enquanto ovos eram fritos e ficavam mexidos na panela por mágica, sem ninguém preparando, só o barulho dos ovos fritando dava para ouvir vindo da cozinha, enquanto um teclado que ficava na sala tocava uma música calma, mas também meio psicodélica, e Allan foi flutuando até o jardim, e nunca tinha visto um café da manhã daqueles, o café da manhã psicodélico do Allan”. Allan bateu palmas no final e falou que achou a história bem doida. 

   Paul entendeu que ele achou legal e tudo. Allan deu outra camisa para ele, desta vez uma do Chicago Bulls que tinha ficado pequena nele, uma do Pippen. Ele tinha a do Jordan, ainda nova, que ele tinha que lavar direto pois usava quase todo dia e gostava de jogar com ela pois falava que dava sorte. E o Paul Pippen foi todo todo para o quintal treinar seus arremessos, e agora revezava a camisa do Pippen com a camisa do Boston, uma camisa oficial do Larry Bird. Parecia um camisolão, assim como a do Pippen, e Allan achou aquilo tão engraçado que tirou umas fotos do Paul com aquelas camisas maior que ele. E depois eles tinham que ir para a escola e tals. 

   No outro dia, pela manhã, a casa vazia, com os meninos no treino do basquete, pois Paul ficou  meses implorando para entrar na escolinha de basquete, e agora tinha sido finalmente matriculado, Lucy tinha tomado um LSD, e Allan e Paul foram para o tal clube em que tinha aulas e competições de basquete, e para depois irem direto de lá para a escola. Lucy tinha prometido que aquele seria o último LSD que ela tomaria, que era um gel que equivalia a dois micropontos, de uma gota bem pura, sem anfetamina, era um Sunshine mais potente que circulava agora em São Francisco. 

   Lucy viu-ouviu começar o efeito daquele Super Sunshine e voou para as galáxias, a sua viagem se deu na sala, com a mesa do café da manhã ainda posta, e ainda tinha bastante comes e bebes na mesa, e ela começou a sua trip e viu um brilho púrpura e outro verde limão em torno da mesa do café da manhã, e pegou um queijo derretido que estava sobre um pão de forma tostado e virou para baixo para ver o tal queijo mussarela mole descendo do pão de forma e viajou naquela metamorfose do queijo, olhou os desenhos da toalha de mesa, olhou e ouviu os ovos mexidos, e ela foi no som e colocou Genesis para tocar, e logo chegou no clássico “I Know What I Like (In Your Wardrobe)”, e a viagem de LSD entrou no seu estágio mais intenso, o Super Sunshine bateu forte e bem, numa boa, numa nice, e Lucy cantarolava, dançando no meio da sala, incensos acesos, uma brisa entrando na sala que vinha do jardim, e ela cantarolava : “I know what I like, and I like what I know/Getting better in your wardrobe/stepping one beyond your show” …


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


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