PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 30 de março de 2022

ANTISSEMITISMO E A NOITE DOS CRISTAIS

“A Noite dos Cristais foi um marco da violência contra os judeus na Alemanha nazista”

O antissemitismo na Alemanha não surgiu com o Nazismo, pois remonta ao século XIX, por movimentos nacionalistas, e já era presente através de personalidades alemãs da época como Hermann Ahlwardt e Wilhelm Marr. Por sua vez, Hitler e os nazistas levantaram a tese de culpa judaica na derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e propalavam que os judeus tinham um plano de dominação mundial, e faziam críticas ao liberalismo econômico e ao capitalismo financeiro, pois afirmavam que estes eram dominados por judeus.

Esta ideia conspiratória ganhou corpo em um livro de origem russa de autor desconhecido que foi sucesso de vendas na Alemanha de título “Os protocolos dos sábios de Sião”, que foi um dos clichês mais conhecidos desta teoria da conspiração contra os judeus no mundo. Por sua vez, o discurso nazista se alimentou desta ideia dos judeus como bodes expiatórios e fontes da perseguição do governo nazista e também por parte de civis alemães.

O Partido Nazista assumiu o poder na Alemanha em 1933 e tinha no antissemitismo um de seus eixos ideológicos. As medidas contra os judeus tiveram uma evolução contínua neste contexto do poder nazista na Alemanha, começando por uma orientação, inicialmente, mais eugenista do que antissemita.

A eugenia já representava uma ideologia de purificação da raça alemã, em que se buscava promover esta purificação colocando como alvo de discriminação grupos como os de ciganos, doentes mentais, deficientes físicos ou com doenças hereditárias, e homossexuais.

Em 1934, contudo, o Partido Nazista inicia o resgate de sua popularidade, diante de um cenário de desemprego e preços ainda inflacionados, com uma orientação abertamente antissemita, junto com a sociedade alemã, que se voltava cada vez mais contra os judeus, exigindo medidas de segregação por parte do governo. Portanto, em 1935 começa a aumentar a violência contra os judeus na Alemanha nazista.

O Partido Nazista tinha seu programa escrito em 1920 que em seu artigo 4 º dizia que os judeus não deveriam ser considerados membros da raça ariana/alemã. Diante disto, grupos antissemitas exigiram que este programa nazista fosse cumprido, com a aprovação de leis discriminatórias. E uma das exigências foi a proibição de relações sexuais entre alemães (arianos) e judeus.

Cartórios, então, começaram a negar casamentos interraciais e as lojas dos judeus foram boicotadas, ao passo que apareciam dizeres antissemitas espalhados pelas cidades alemãs. E uma lei proibindo casamentos interraciais foi aprovada em maio de 1935.

Até setembro de 1935, Adolf Hitler ainda não pensava em aprovar novas leis antissemitas, mas, diante do VII Congresso da Internacional Comunista que declarou guerra contra o Fascismo no mundo, e um encontro com o dr. Gerhard Wagner, um médico a favor de leis contra os judeus, acabaram por convencer Hitler a aprovar novas leis antissemitas. Durante um dos comícios anuais de Nuremberg, Hitler apresentou estas novas leis.

O que surgiu foram as chamadas Leis de Nuremberg, que formavam um conjunto de leis que tratavam das questões de miscigenação e cidadania alemã. Estas leis foram redigidas por ordem direta de Hitler, aprovadas por ele em 15 de setembro de 1935, e pelo Reichstag (Parlamento Alemão) no dia seguinte.

Este conjunto de leis se agrupavam em três leis que eram a “Lei de Proteção do Sangue e da Honra Alemã”, “Lei de Cidadania do Reich” e “Lei da Bandeira do Reich”. Estas chamadas Leis de Nuremberg foram o passo decisivo para a consolidação da segregação e exclusão dos judeus da sociedade alemã. A violência contra os judeus aumentou e culminou com o evento chamado Noite dos Cristais em 1938. Este evento foi um pogrom contra os judeus organizado pelos nazistas na Alemanha em 9 e 10 de novembro de 1938.

O termo pogrom define um ataque organizado contra um determinado grupo de pessoas, mas se refere sobretudo aos ataques contra judeus. A Noite dos Cristais foi um marco da violência contra os judeus na Alemanha nazista, pois, a partir deste acontecimento que se deu a organização dos campos de concentração de judeus, local em que estes eram aprisionados em massa.

O nome deste pogrom, Noite dos Cristais, por sua vez, se refere à quantidade de cacos de vidros que se espalharam pelas ruas das cidades da Alemanha nos locais em que ocorreram os ataques. A chamada Noite dos Cristais aconteceu devido à uma represália de um atentado feito por um estudante judeu em Paris contra a embaixada alemã na capital francesa em que o diplomata alemão Ernst vom Rath foi alvejado e morreu horas depois.

O estudante realizou o ataque como vingança contra a expulsão de seus pais da Alemanha. Este atentado produziu tanto uma propaganda antissemita na Alemanha como motivou uma série de ataques contra judeus em diversas partes da Alemanha. Adolf Hitler, líder da Alemanha Nazista, e Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, reuniram-se para decidir que ação tomar diante do atentado, e foi orquestrado o pogrom, de forma que não se percebesse o papel do governo alemão nos ataques.

As lideranças regionais do Partido Nazista foram informadas das ordens e as tropas de assalto (SA) foram mobilizadas. As ordens foram repassadas às tropas de assalto no dia em que se comemoravam os 15 anos do Putsch da Cervejaria, um golpe que os nazistas tentaram realizar na Baviera. As gangues fizeram os ataques da Noite dos Cristais à paisana, para que não houvesse a vinculação dos ataques ao Partido Nazista.

Uma das consequências do pogrom da Noite dos Cristais foi o aprisionamento em massa de judeus em campos de concentração, que eram três : Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. O total foram de 30 mil judeus presos pela polícia.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/antissemitismo-e-a-noite-dos-cristais 

 

quarta-feira, 16 de março de 2022

A ERVA DO DIABO EM UMA VIAGEM DE CASTAÑEDA

 “Castañeda usa o auxílio de mescalito, yerba del diablo e humito”


A “Erva do Diabo” é uma obra de Carlos Castañeda que inaugura um tipo de literatura etnográfica, e também alegórica, e que pode ser inovadora no sentido de misturar uma tendência antropológica cultural de interação e experiência direta com o objeto-sujeitos estudados, como por dar a este estudo e vivência um caráter de documento literário e não de uma cátedra de antropólogo como o entendemos academicamente. 

Castañeda proporciona aquela abordagem antropológica que descobre, explora e desvenda novos mundos, metafísicas estranhas ao que herdamos no Ocidente, um desafio que parte da estrutura da língua que também define esta cosmovisão e de como um povo ou etnia articulam suas vivências e as associam com visões metafísicas, cosmovisões, valores compartilhados e costumes arraigados em tribo, clã ou uma aldeia maior.

Esta experiência direta de pesquisa de campo leva o pesquisador a se defrontar com uma estrutura que define a percepção de realidade destas pessoas, colocando em suspenso o juízo de pesquisa, neste desafio da relatividade e alteridade do academicismo da manjada Antropologia Cultural, mas, aqui, no caso de Castañeda, numa chave solta e direta de uma construção literária. O que se sabe imaginariamente da concepção inaugural da horda, por exemplo, traz ao simbólico desta experiência também o caráter em que irá mergulhar Castañeda como escritor que articula um discurso aparentemente impossível e surreal de um psiconauta.

A sua interação com o feiticeiro Dom Juan é um desafio em que Castañeda está disposto e aberto a mergulhar no desconhecido, e lidar com o inaudito da experiência alucinógena. Mesmo sendo auxiliado o tempo todo por um feiticeiro que parece viver cotidianamente neste universo psiconáutico, este que já sabe de toda esta linguagem cifrada da experiência e vivência alucinógena, que parece ser povoada por uma série de métodos e enigmas que Dom Juan apresenta a Castañeda durante as experiências alucinógenas do escritor, parece que Castañeda tem dificuldades de entender, a princípio, tanto a experiência em si, durante a sua alucinação, como as abordagens e sugestões de Dom Juan, que lhe parecem absurdas e extravagantes.

A abordagem literária de Castañeda, ao relatar na escrita esta sua experiência, e que vira a obra A Erva do Diabo, por sua vez, tenta consolidar uma tese em que se torne possível uma nova ordem de realidade. Sua tese metafísica principal é convencer-se de uma ordem de realidade que está ligada ao que Dom Juan, o feiticeiro, já sabe de antemão, e que Castañeda tenta fundamentar, meio que se apropriando de uma linguagem ainda ocidental, isto é, povoada pela razão, para descrever algo que pode ser inteiramente subconsciente e irracional, eis o paradoxo quando se lê este esforço e inflexão conceitual de Castañeda em A Erva do Diabo.

Quando falamos das experiências religiosas do êxtase, por exemplo, na biografia de Santa Teresa D`Ávila e de outros santos extáticos, não temos ainda uma perspectiva filosófica, e muito menos científica, e nem mesmo a abordagem proto-antropológica de Castañeda, ao fazer literatura com isso, temos somente a crença religiosa, em sua maioria de cepa católica, sem citar o nirvana búdico ou satori, e tudo o que se fala do êxtase se restringe a esta vivência ascética e religiosa, sem grandes consequências de uma metafísica filosófica sobre o tema ou de uma abordagem de ciência que possa estudar isto como algo de um epifenômeno neuronal. 

Castañeda usa o auxílio de mescalito, yerba del diablo e humito, que são peiote, datura e cogumelos. O aprendizado de feiticeiro também é uma das interpretações em que se tece este relato de Castañeda. A simples alucinação passa ainda longe da construção de sentido aqui exposta. 

Quando falo de uma escrita psiconáutica, a sua sofisticação tanto se atém à experiência alucinógena em si, como nesta interação cultural com um feiticeiro que vive em outro mundo, partindo daí a principal ansiedade de Castañeda, o seu esforço de fundamentar esta nova ordem de realidade, que é uma tentativa metafísica ocidental de amarrar algo que lhe escapa. O paradoxo, mais uma vez, se bate com o relativismo da própria experiência antropológica e de seu limite natural de ser barrado num discurso sobre a própria ignorância, restando ao pesquisador criar o seu conceito, e não a descrição própria de uma realidade. 

Citando o prefácio do livro A Erva do Diabo, podemos ler : “Os antropólogos nos ensinam que o mundo tem definições diversas em diversos lugares. Não é só que os povos tenham costumes diferentes : não é só que os povos acreditem em deuses diferentes e esperem diferentes destinos após a morte. É, antes, que os mundos de povos diferentes têm formas diferentes. Os próprios pressupostos metafísicos variam : o espaço não se conforma com a geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam com a lógica aristotélica, o homem não se diferencia do não-homem nem a vida da morte, como no nosso mundo. Conhecemos alguma coisa da forma desses outros mundos pela lógica dos idiomas nativos e pelos mitos e cerimônias, conforme registrado pelos antropólogos.”

A vivência de Dom Juan é a de um feiticeiro yaqui. A nova ordem de realidade de Castañeda, a sua teoria metafísica, também vem do que ele ouviu de Dom Juan, temos então a versão de Castañeda da compreensão natural de um feiticeiro yaqui ao descrever e explicar do que se tratam estas experiências alucinógenas, tudo num mistifório em que se juntam não somente a alucinação, como toda uma vivência de conhecimento natural e tradições arraigadas que também podem influenciar o que é dito por Dom Juan sobre alucinógenos e experiências alucinógenas. Portanto, esta descrição fiel do fenômeno não existe, o que temos é o que Dom Juan sabe e aprendeu, e o que Castañeda entendeu desta fala de um feiticeiro yaqui.

A experiência pessoal e interior de Castañeda com os alucinógenos, nesta obra A Erva do Diabo, tem, mais uma vez, o esforço bem ocidental de tentar incutir uma lógica interna, o que poderá produzir uma visão metafísica, conceitual, o que amarra o fenômeno ou experiência em uma linguagem ainda exangue para lidar com os enigmas e perturbações do que se pode entender de uma alucinação produzida por ervas ou cogumelos. 

A fala alegórica, por sua vez, interage bem melhor do que um discurso etnográfico com pretensões filosóficas. Viver alguns dias com um feiticeiro yaqui tomando alucinógenos, para entender agora literariamente tudo isso, a abertura alegórica pode criar esta metonímia da alucinação e lidar bem melhor com o inaudito, irracional, subconsciente, alucinatório, saber falar do fantástico, esta vivência do desejo psiconáutico, que é uma tentativa de alegoria da realidade, o verniz que cria o que Castañeda tenta chamar de nova ordem de realidade, mas que pode ser uma evanescência, um fantasma que se esvai numa alegoria feita de fumaça. 

Encerro aqui com o último parágrafo do prefácio, escrito por Walter Goldschmidt : “As entrevistas de Carlos Castañeda com Dom Juan tiveram início quando ele era estudante de antropologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Temos uma dívida para com ele por sua paciência, sua coragem e perspicácia ao procurar e enfrentar o desafio de seu duplo aprendizado e por nos relatar os detalhes de suas experiências. Nesta obra ele demonstra a habilidade essencial da boa etnografia - a capacidade de ingressar num mundo estranho. Acredito que ele encontrou um caminho com o coração.”


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-erva-do-diabo-em-viagem-de-castaneda

 


quinta-feira, 3 de março de 2022

A POLÍTICA MÁGICA

“Mais Maquiavel faria bem na hora de decidir o voto”


Jair Bolsonaro foi eleito com a promessa da nova política. É um filme que se repete na História do Brasil, quando não se tem um pretenso bastião da ética ou um maluco caçador de marajás, temos a sempre renovada promessa de uma política nova, imaculada, nascida de uma lótus imaginária. E o que vemos, no mundo da política real, com suas inúmeras demandas, é a tibieza de um governo que, ao menor sinal de enfraquecimento e possíveis chantagens para um impeachment, se alia ao que há de mais atávico na política fisiológica do compadrio e da dança de cadeiras de uma patota que mama em instituições e órgãos aparelhados e viciados.

A entrega das chaves do cofre do Orçamento feita em janeiro ao todo-poderoso ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, representante de um centrão entranhado no sistema, é sem precedentes, inédita na nossa Nova República, colocando mais uma vez o ministro da Economia, Paulo Guedes, que já se encontrava em uma posição patética e subserviente, agora ficando em uma posição inútil, se tornando uma nulidade que se agarra a um cargo que já não serve mais para nada.

Isso para vermos que a promessa da nova política não chega nem a ser um sonho numa noite de verão, mas um estelionato eleitoral de um ex-integrante do baixo clero oriundo, pasmem, deste mesmo Centrão, em uma série de rachadinhas em que a sua família se encontra agora entranhada até a medula, no que se seguram com o poder que ainda têm no Executivo, Senado e Câmara, mas com promessas de tempestades caso Bolsonaro perca a sua imunidade, o que na visão autoritária que se conhece deste DNA, logo eles podem ficar acuados por um novo governo e uma virada democrática. 

O governo foi às favas com os falsos escrúpulos, nunca o tiveram, a aliança com o Centrão é obra e ação de uma mesma laia de apaniguados que têm na profissão da política um meio de vida e um projeto de dinastia, de um Carluxo que começou a carreira já como vereador, sendo emancipado. Nada é surpreendente nesta história, a não ser para os arrependidos da direita que se iludiram com uma promessa liberal e venderam a alma ao Diabo e levaram uma ferroada do escorpião, pois esta é a sua natureza.

O fundo eleitoral virou uma festa, a responsabilidade fiscal ganhou contorcionismos que fariam do governo Dilma um exemplo de sensatez orçamentária. Por fim, a festa completa se dá com a troca de moeda da governabilidade com as chamadas emendas de relator, nada mais que uma reedição matreira do que foi a esbórnia dos anões do orçamento. Repito, nada é surpreendente, a surpresa cabe aos inocentes que ainda acreditam em lorotas e lendas urbanas como nova política, numa visão idealizada de ingenuidade que só caberia a um Platão e seu Rei-filósofo, antes da pancada de realidade de Maquiavel.

Falta conhecimento da política real e da História como eixos em que se podem analisar e saber o que é possível ou não nas ações políticas. Falta realismo no fenômeno eleitoral brasileiro, uma Macondo de pensamento mágico que sempre se insinua quando não sobra alternativas a não ser colocar um espantalho ou um estrupício para dar as cartas e virar chacota internacional. O Brasil virou um país exótico em que as repúblicas bananeiras podem se espelhar e se aliar, piada é pouco, o ridículo do negacionismo nos levou a uma condição pré-iluminista de crendices e unguentos. 

O sistema está contaminado há muito tempo por uma ocupação fisiológica, um cancro difícil de ser extirpado. Eis a nova política, ao menor sinal de dar água, mostra a sua verdadeira natureza, acovardada e que tenta se equilibrar bambeando numa coluna chamada Centrão e todo o pacote que isto envolve. O mais patético, por fim, se torna a que papéis se prestam estas excelências, como no caso citado de Paulo Guedes, uma biografia à deriva, politicamente, mais um nesta série amalucada de ministérios estrambóticos comandados por uma súcia ideológica de costumes de uma Dona Candoca, digo, Damares. 

Temos o capachão da TV Colosso que levou esporro do chefinho ao abusar de suas prerrogativas e assim la nave va. Eis o governo do escorpião, que é de sua natureza fazer de idiota uma direita que se iludiu com um sonho numa noite de verão, ou melhor, que foram tapeados pela espirituosidade da realidade política como ela é. Mais Maquiavel faria bem na hora de decidir o voto, para que a Macondo do mundo das fadas não dê as cartas na próxima vez.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-politica-magica

 


A CIDADE DOS POETAS

Estávamos na cidade de Green Stone. Em 1919 havia um clima de renascimento do pós-guerra, não tínhamos mais a tensão ocorrida até a derrota alemã. Os movimentos de vanguarda começavam a se expandir. Um destes movimentos abarcava a poesia e as artes plásticas, o chamado Movimento do Chamado, outra frente que se abria, e que também tomava conta dos saraus de Green Stone, era o movimento de vanguarda Violeta Sonora, que tinha uma ligação maior com expressões mais líricas, ao passo que o Movimento do Chamado era uma vanguarda que buscava a ruptura com todas as tradições literárias e artísticas anteriores. 

Ainda tínhamos o movimento mais regional chamado de Pedra Branca, liderado por uma tríade de poetas, que eram Antônio Vieira, Silva Alencar e Daniel Sanzio. A poetisa Margarida Soares liderava a Violeta Sonora, e tinha um fetiche com a poesia de Safo de Lesbos. Por sua vez, a liderança do Movimento do Chamado era composta por quatro poetas e uma poetisa, ela era Domitila Guerra, e os poetas eram João Gomes, Paulo Henrique Campos, Leopoldo Figueira e Dionísio Oliveira. Tinha ainda o artista plástico Zezinho como o mentor e criador do Movimento do Chamado. A poetisa líder do Violeta Sonora só admitia mulheres em seu grupo. Por sua vez, Margarida Soares tinha acabado de publicar o seu “Tratado de Lírica”, no qual falava sobre a história literária, sendo este livro, também, uma homenagem à Safo de Lesbos, considerada por Margarida como a mãe de todas as poetisas.

No Tratado de Lírica ela enumera muitos escritores, deste país chamado Lantânia, e de sua cidade, Green Stone. Os principais centros literários de Lantânia, além da cidade de Green Stone, que sempre foi o centro cultural oficial do país, ainda contava com duas periferias, que eram as cidades de Yellow Stone e de Blue Stone. Na citada história literária, ela lembra do parnasiano Castelo Salgado, que ficara datado, mas, que ainda era considerado uma espécie de patriarca recente da poesia tradicional. E o livro acaba indo mais para longe, na análise histórica, antes do movimento árcade, nos primórdios, em que aparece o poeta que moldou a língua lusitana falada em Lantânia, o grande poeta do mar e do degredo, José Alves Martins, este que escreveu a bíblia dos poetas de Lantânia, a poesia épica chamada Os Navegantes de Saturno. Outra obra, esta mais polêmica, foi citada por Margarida como o primeiro exemplo de vanguarda, já no fim do século XIX, que foi o livro de poesia satírica Um Gole de Vinho, do poeta Alfredo Villas Boas, que também escreveu uma peça de comédia aniquiladora, digna da pena de um Aristófanes, destruindo a República que surgia. Alfredo Villas Boas era leitor de Bakunin e Kropotkin, contra a existência do Estado, e sua peça levou o título de “Loteria do Infortúnio”.  O tom jocoso, em que eram destruídos simultaneamente a herança monárquica e as promessas republicanas, incomodou a Guarda Republicana, e o então presidente Marechal Pontes mandou censurar a peça, depois de dois meses em cartaz, quando um grupo policial chegou a invadir uma das montagens e agredir os atores e atrizes, prendendo alguns deles e o diretor da peça, amigo de Alfredo, o diretor consagrado de comédia de nome José Carlos Costa. Alfredo Villas Boas chegou a ficar detido semanas depois por incitação de desordem e por vadiagem, pois fora visto bêbado numa Travessa do centro de Green Stone, andando pelas calçadas com uma prostituta, e a polícia local encontrara o pretexto para punir o poeta e comediógrafo, e tentar sujar o seu nome publicamente. 

Na Pedra Branca as atividades panfletárias se intensificavam e o movimento tinha uma pretensão ingênua para os olhos de hoje de alcançar uma espécie de síntese cultural de toda a Lantânia. O poeta ativista e agitador cultural Antônio Vieira se confrontava com a ala conservadora da classe média de uma Lantânia média e conformada, e que fazia parte da geleia geral de Green Stone. A incompreensão por parte desta classe usualmente alienada fazia com que Antônio Vieira e todos os sonhos de grandeza da Pedra Branca parecessem um sonho numa noite de verão, e não se iludam, todas as vanguardas e movimentos literários e artísticos desta época não faziam eco neste setor da sociedade, e pareciam ser uma miríade de movimentos de sonhadores ingênuos, pois a dominância cultural ainda ecoava com vivas e louros os poemas mofados do grande parnasiano Castelo Salgado que, até ali, parecia uma espécie de cânon intransponível e insuperável. 

Os temas populares dominariam as atividades da Pedra Branca, e as revoltas populares do século XIX virariam tema destes poetas que se pretendiam populares. A Revolta das Serpentes, na então província do Ducado Fontes, era uma das ideias-valise que fizeram a cabeça do primeiro sarau do grupo em Green Stone, e o Movimento do Cajueiro, que foi dizimado pelo Exército Monarquista, em 1862, na província do Castelo, seguiria também como motivo temático da Pedra Branca, e um tipo de folclore artificial começava a se tecer, apesar das pesquisas do intelectual e acadêmico Prado Rocha, e do interesse autodidata de Antônio Vieira pelo folclore e pela cultura popular de Lantânia. O Movimento do Cajueiro englobava uma seita redentora e apocalíptica, na Lantânia profunda, de um líder religioso de nome padre Anastácio Ferreira, e um agrupamento de famintos e depauperados que viam no padre um tipo de santo, messias e sua última esperança. A província do Castelo sempre foi a província mais miserável e abandonada de toda Lantânia, e o problema persistia até aqueles dias em que se configuravam as vanguardas da Pedra Branca, do Movimento do Chamado e da Violeta Sonora. 

No caso do Violeta Sonora, desde o início de suas atividades, capitaneadas por Margarida Soares, e que cooptou as discípulas Daniela Saraiva, e uma poeta menor, mas, bem engajada como agitadora cultural, Paula Campos Siqueira, foi criada uma resistência de um grupo de mulheres cristãs e conservadoras, em Green Stone, comandada por uma suposta Ordem Católica do Sagrado Coração, que tinha como líder uma exaltada madame de nome Luzia Tenente, filha de um general do Exército, e neta de um general que lutou na Guerra contra Tenochtitlán, de 1862 a 1869. Luzia Tenente era casada com um delegado de nome João Tenente, este que tinha duas amantes e era afeito ao lupanar, mas tudo conservado na aparência da hipocrisia familiar, de uma Luzia que tapava os olhos até se as coisas passassem bem na sua frente, como era o caso de uma das amantes de João Tenente, que frequentava as festas organizadas, eventualmente, na casa do casal Tenente.

Entre o Movimento do Chamado e o Violeta Sonora o diálogo era amplo, mas somente quanto às vivências artísticas, pois se tratavam de projetos bem diversos. O Movimento do Chamado tentava criar uma poesia efetivamente original e própria para Lantânia, era um projeto estético. A Pedra Branca, por sua vez, tinha um projeto nacional, mas não no sentido formal, mas como temática. Ao passo que o Violeta Sonora, como dito, era um projeto de poesia lírica e melíflua, mais afeita aos temas sentimentais e eróticos. Portanto, pensar sobre Lantânia não passava pelo projeto do Violeta Sonora, o que era encarado por alguns membros da Pedra Branca e do Movimento do Chamado como uma postura artística alienada, e o engajamento político para o Movimento do Chamado era algo até mais forte do que acontecia na Pedra Branca, que parecia mais um centro aglutinador de cultura popular no sentido de documento e de fortuna crítica, sem passar por um crivo de engajamento político, como era comum no Movimento do Chamado. 

Uma ordem conservadora de idiotas rematados também se decidiu a perseguir os novos poetas do Movimento do Chamado. Podemos chamá-los de egressos da Idade da Pedra Lascada, que escreviam artigos medíocres, em edições anacrônicas, como o Diário Matutino e o jornal conservador de Green Stone, Gazeta Green, este que tinha um jornalista janota como redator chefe, que tinha o nome de Plínio Scarpa, este que era um cultor do poeta maior, Castelo Salgado, e se dedicava a colocar um time de articulistas também janotas, cheirando à talco, para escrever bobagens do quilate de “Domitila Guerra parece uma matraca e escreve trêmula um arremedo de cultura popularesca de Guignol, ao passo que João Gomes e Dionísio Oliveira praticam uma espécie de sortilégio de mágico de esquina que ousam chamar de poesia, parecendo mais a ladainha insuportável de um ébrio perdido numa travessa pela madrugada”, este que era texto do articulista Benício Loureiro, um chato de galochas, que vivia de encomendas editoriais e pré-fabricadas. 

Dionísio Oliveira, de língua ferina, não fez por menos, e no folheto do Movimento do Chamado, distribuído gratuitamente pelo centro de Green Stone, e crescendo em popularidade, chamou este tal de Benício Loureiro, em um artigo,  de “peralvilho mau caráter, cavalgadura com o tom beócio que pensa que é jocoso”. Benício Loureiro partiu, então, para uma tréplica em que acusava o poeta Dionísio Oliveira de ter feito um poema-piada ou paródia em que ridicularizava o poeta maior Castelo Salgado, num poema chamado “marcha das fadinhas de mármore”. De fato, Dionísio tinha publicado a tal paródia no folheto do Movimento do Chamado, e concordou com a acusação, pois este seu poema-piada era motivo de orgulho e um dos produtos acabados de toda  a vanguarda, que era destruir ícones e baluartes ultrapassados, e um dos alvos preferenciais do Movimento do Chamado era Castelo Salgado, ao passo que o grande épico José Alves Martins ainda era preservado, pois possuía uma forma menos afetada, segundo os poetas da vanguarda, se comparada à bijuteria enfadonha do digníssimo Castelo Salgado, que ainda fazia a cabeça das madames e da classe enfatuada da elite de Green Stone, e sustentada por estes periódicos odiosos com articulistas medonhos como Benício Loureiro. 

Estava sendo organizada uma intervenção do grupo Movimento do Chamado na Praça da República, em Green Stone. Os jovens do que viria a ser a entrada dos anos 20 do século XX estavam antenados com estes novos poetas, e a declamação de poemas inéditos do grupo seriam feitos pelos próprios poetas. Toda uma turma das artes plásticas também já se agitava, no influxo do inquieto Zezinho, que era o mais engajado de todos para impor o nome do Movimento do Chamado como um movimento cultural e histórico para a literatura e as artes de Green Stone e de toda Lantânia. Suas pinturas abrigavam um mistifório de influências folclóricas e de arte degenerada herdada de Van Gogh, nas cores quentes como um amarelo vivo, e um tom mais de linhas e formas que eram uma espécie de evolução natural sob a influência de Cézanne. Zezinho foi conferir, com a guarda local, a forma em que poderia ser feita a intervenção na praça. Ele conseguiu uma autorização da prefeitura para um evento de dois dias, que seriam em um sábado e em um domingo, desde que fosse durante o dia, e que tudo fosse encerrado até as cinco da tarde. Leopoldo Figueira estava empolgado para apresentar um panegírico em homenagem ao poeta satírico Alfredo Villas Boas, e Dionísio Oliveira tinha preparado um poema-piada sobre o jornalista Benício Loureiro, o poema “o janota parlapatão”, que agora era o seu saco de pancadas preferido. O poeta Silva Alencar, da Pedra Branca, iria como ouvinte, pois, mesmo sendo de outro movimento, tinha uma interlocução muito estreita com Leopoldo Figueira. Do Movimento do Chamado, Domitila Guerra combinou, com duas atrizes, a declamação de uns poemas teatrais de sua autoria. Zezinho era cunhado de Domitila, casado com a sua irmã mais velha, Beatriz Guerra, esta que exercia a profissão de médica, e era uma apreciadora da cultura. Beatriz Guerra tinha lido de tudo em literatura, e curiosamente, contudo, sua vocação era a medicina, e isso desde criança, pois já falava disso desde os cinco anos, enquanto Domitila, que não era uma leitora onívora como sua irmã mais velha, tinha uma tendência a se expressar com poemas escritos desde os dezesseis anos, primeiro imitando Castelo Salgado, e depois que conheceu Dionísio Oliveira e Leopoldo Figueira, ainda antes da criação do Movimento do Chamado, mudou radicalmente de estilo, renegando as suas primeiras produções literárias, que pareciam elegias religiosas de um tempo sombrio e perdido numa cela de clausura. Seu desbunde, por conseguinte, floresceu mesmo já durante as atividades do Movimento do Chamado. No primeiro dia do evento, eis que aparece um velho e alquebrado Alfredo Villas Boas, que depois de um período de ostracismo, muito devido às ações repressoras do presidente Marechal Pontes, desde a sua peça Loteria do Infortúnio, fazendo o poeta cair em desgraça e sumir do mapa cultural por vários anos, agora recebia um tipo de culto do Movimento do Chamado, e tinha aparecido em um capítulo exclusivo e longo no livro Tratado de Lírica da poetisa do Violeta Sonora, Margarida Soares, e então, num destes acontecimentos inexplicáveis, ele aparece quase anônimo, no início das declamações de sábado, se não tivesse sido reconhecido na hora pelo poeta Leopoldo Figueira que, enlouquecido de alegria, convocou o velho poeta para o palco dos declamadores. Alfredo Villas Boas foi ovacionado na Praça da República, e ficou aos prantos, agradeceu tudo, e declamou um poema seu conhecido de seu livro principal de poesia, o famigerado Um Gole de Vinho. Em seguida, no evento do Movimento do Chamado, teve o pequeno esquete poético escrito pela poetisa Domitila Guerra, com duas atrizes que ela conhecia, e aí Dionísio Oliveira declama o poema “burrinho de presépio” em que o poeta detona o jornalista Benício Loureiro, e o seu “o janota parlapatão”, também sobre o jornalista, ao passo que Leopoldo Figueira faz o seu panegírico em homenagem ao poeta Alfredo Villas Boas, que se senta a seu lado e acompanha tudo. O admirável é que a aparição do velho poeta satírico não estava nos planos do evento, pois não se sabia do paradeiro de Alfredo Villas Boas, o que tornou a leitura do panegírico emocionante. Contudo, a verdade é que o poeta satírico já estava meio alheio à realidade, vindo de internações em hospícios, e com sequelas severas de um alcoolismo de muitos anos, desde os tempos de glória em Um Gole de Vinho, e depois do golpe duro que levou do poder, pelas mãos do Marechal Pontes, que queria que seu nome desaparecesse da cultura, e que conseguiu, enquanto as tendências mórbidas do poeta ganhavam os ares e a aura dos poetas malditos, um satírico que se entristeceu, e que afundou num submundo de travessas e cachaça. Leopoldo Figueira, depois do encontro com seu ídolo literário, vai à sua casa, e vê um estado de penúria. Alfredo Villas Boas vivia de uma aposentadoria por invalidez de um trabalho que ele fez como arquivologista na Biblioteca Histórica de Lantânia, que ficava no centro de Green Stone. Ele foi aposentado depois de uma crise de delirium tremens devido ao seu intenso alcoolismo. A tentativa de aproximação e resgate do velho escritor por parte de Leopoldo Figueira e do Movimento do Chamado, por fim, não surtiu muito efeito, o que eles viram foi um Alfredo Villas Boas distante, ao contrário do que indicava as suas obras de juventude. Talvez, seu brilho tenha se perdido para sempre desde o golpe duríssimo de ostracismo que recebeu do então presidente da Lantânia, o Marechal Pontes. O desinteresse de Villas Boas diante daqueles jovens que o idolatravam não vinha de uma atitude desdenhosa, mas de uma compleição completamente destruída, física e espiritualmente, por muitos anos seguidos, compleição trágica e maldita esta que só se aprofundava com o tempo.. O fato é que o Movimento do Chamado, depois de um mês de tentativas de aproximação e resgate da fama de Alfredo Villas Boas, desistiu do empreendimento, e depois de seis meses, o poeta e dramaturgo Alfredo Villas Boas, satírico e polemista do passado, agora dominado pelo alcoolismo, morreu em sua casa de um infarto fulminante, e também de uma tristeza profunda e irreversível. 

As atividades do Violeta Sonora também se intensificaram naqueles últimos meses. O Tratado de Lírica, de Margarida Soares, estava ganhando relevância acadêmica, embora a poetisa fosse uma outsider, sem formação universitária, e que tinha como trabalho formal a propriedade e administração de uma padaria e de um açougue, de uma herança do pai, que morreu cinco anos antes. A atuação da Ordem do Sagrado Coração agora ia contra o erotismo lesbianista dos poemas divulgados nos chamados Cadernos Eróticos, edição do Violeta Sonora, que agora ganhava seu terceiro número, com tiragem de uma gráfica que tinha o pai do artista plástico Zezinho, do Movimento do Chamado, como dono. Pois, daqueles grupos todos, Zezinho podia fazer o que quiser, sua família tinha uma longa tradição em propriedade de jornais e de imóveis, e a gráfica tinha sido fundada há dez anos. O jornal de sua família circulava em Green Stone como concorrente do Diário Matutino e do Gazeta Green, e agora começava a dar espaço para os novos poetas publicarem colunas, tentando romper a casca dura do culto à Castelo Salgado, que já irritava todos aqueles que tentavam renovar a mentalidade literária e artística de Lantânia e da capital Green Stone. Os poetas da Pedra Branca, por exemplo, ganharam um caderno semanal especial, em que poderiam escrever sobre folclore e regionalismos no jornal da família do Zezinho, que tinha o nome de Tribuna Atual. Dionísio Oliveira começou a fazer textos sinuosos no Tribuna Atual, em um ele faz uma paródia sobre Benício Loureiro, em que diz : “O parlapatão faz o culto do mármore, lambe um verso de marfim, ele diz ao redator chefe que tem edulcorado seu palavreado com rosas e o perfume orvalhado de mimosos lumes, a sua plêiade antiquíssima ganhou o nosso dom literato e levou às favas com todo jovem que tem a ideia ou a cuca fresca, tudo o que é novo vira artigo malcriado de um doutor Felício Monteiro, que não é jornalista, é arteiro, mas, dos prestidigitadores que refinam suas alucinações com o apego a um passado mítico que se esboroa”. Leopoldo Figueira, por sua vez, falando de Margarida Soares : “A coincidência de ter encontrado um Alfredo Villas Boas em frangalhos e o contraste com seu renascimento para o mundo pelas mãos doces de Margarida, em seu Tratado de Lírica, é uma das coisas mais chocantes de minha vida literária e de boêmio, de como a tragédia pode ser o ato final de um ostracismo que insistiu em morrer e entregar os pontos. Foi a lástima da censura de Loteria do Infortúnio como uma espécie de profecia macabra da ruína de um poeta que foi assassinado em vida”. 

Na distribuição da terceira edição dos Cadernos Eróticos, feita pelo Violeta Sonora, com o comando de Margarida Soares, e a ajuda de Zezinho, a Ordem do Sagrado Coração, que era um grupo religioso feminino muito forte e influente em Green Stone, se organizou com uma frente de madames carolas, liderada por Luzia Tenente, e uma freira carmelita de nome Maria das Dores, em que foram compradas quase todas as edições dos tais Cadernos Eróticos, e então, o grupo religioso fez um monturo numa das praças centrais de Green Stone, perto de onde teve o evento do Movimento do Chamado, recentemente, e estas carolas atearam fogo no monte de folhetos do Violeta Sonora. Aquilo virou uma grande fogueira, com as carolas pregando ferozmente contra a prostituição e a literatura indecente. Foi uma histeria e um fanatismo sem precedentes. Logo após o tal evento extravagante de ignorância, a poetisa e agitadora cultural do Violeta Sonora, Paula Campos Siqueira, foi avisada por um conhecido do evento o que se passava com as carolas da Ordem do Sagrado Coração, e logo se dirigiu a Margarida Soares, que matutou bem rápido e disse que aquilo merecia uma retaliação à altura. Margarida redige, em uma semana, uma tríade de poemas que seriam uma das referências de sua obra e de seu espólio literário. Parecia que aquela afronta da Ordem do Sagrado Coração lhe despertara uma fúria, que foi direcionada para esta criação literária, e que resultou nos três poemas : A Vida Insana, Poema de Afrodite, e o que seria seu poema mais lembrado, Sensação. E, para atacar a Ordem do Sagrado Coração, Margarida Soares fez mais dois poemas com os títulos de Furor e Fogueira, e A Madame Carola, este sobre Luzia Tenente, em que Margarida Soares inclui insinuações sobre seu marido e sua hipocrisia arraigada. Enquanto isso, no Movimento do Chamado, agora na entrada para os anos 1920, Dionísio Oliveira produzia três grandes poemas, que eram o Machadada, Patíbulo dos Idiotas e Poema do Levante. Leopoldo Figueira fazia seu poema político de nome Semente do Futuro e outro poema que exaltava a literatura nova, Os Sabiás. A peça agora escrita por Dionísio Oliveira fazia uma paródia do então prefeito de Green Stone, José Ferreira, que fazia obras em toda cidade, derrubando cortiços e expulsando os pobres do centro da cidade, que era a peça teatral de nome O Prefeito Papudo. Também havia uma homenagem do poeta Paulo Henrique Campos, com o poema “O Herói de Verdade”, ao maior líder de quilombo da História de Lantânia, no século XVIII, o Negro André, que foi chefe do Quilombo do Sal, e fez uma insurreição contra a Galícia do Norte, à época em que Lantânia era uma colônia de exploração de cana de açúcar, comandada por estes chamados galegos, tudo em nome da Coroa Real de Galícia do Norte, ainda antes da entrada do café e da mineração para modernizar um pouco o sistema dependente da plantation continental. Negro André foi morto numa emboscada pela Guarda Colonial da Galícia do Norte, e depois virou um tipo de mito para a Identidade Negra em Lantânia. Na Pedra Branca, um poema sobre a Revolta das Serpentes, feito por Antônio Vieira, vinha à lume, de nome “Grande Revolução”, e uma peça e um grande poema sobre o Movimento do Cajueiro, feitos por Silva Alencar, também vinham à lume, a peça de nome Messianismo do Sol e o poema A Luta Camponesa. Ao passo que Domitila Guerra, por parte do Movimento do Chamado, produzia três de seus poemas mais importantes, O Vaticínio dos Incautos, Plêiade Nova, e o poema A Vida dos Beberrões. Portanto, os três grupos, o Movimento do Chamado, o Pedra Branca e o Violeta Sonora, entravam no seu auge criativo, e o culto à Castelo Salgado parecia uma impostura cada vez maior e cada vez mais deslocada, dentro de um universo paralelo de uma elite que se encontrava cada vez mais alheia à realidade circundante dos novos movimentos literários. 

O ano de 1921 avançou com muitos eventos literários e encontros culturais, os planos do Movimento do Chamado ficavam cada vez mais organizados, o Pedra Branca aprofundava a pesquisa histórica e cultural, o Violeta Sonora continuava publicando os tais Cadernos Eróticos, que agora, com a ajuda do Tribuna Atual, e pela intervenção do artista plástico Zezinho, ganhava destaque e relevância artística e cultural. Margarida Soares, então, ganha uma reedição de seu Tratado de Lírica, e passa a dar palestras periódicas no Salão da Cultura, um grande anfiteatro em que aconteciam eventos de ópera, peças teatrais e números de dança, e que agora também abria o seu espaço para os novos artistas de Green Stone, seja para saraus e palestras ou demais atividades fomentadas por agitadores culturais.  Margarida Soares, como palestrante, tinha o seu trunfo intelectual com o Tratado de Lírica, e agora redigia Os Novos Poetas, sobre o Violeta Sonora, o Pedra Branca e o Movimento do Chamado. Tivemos, por sua vez, mais cinco edições dos Cadernos Eróticos, com o trabalho incansável da agitadora cultural do Violeta Sonora, a poetisa menor de nome Paula Campos Siqueira, e isso, com a ajuda de Daniela Saraiva, que agora produzia também seus melhores poemas, dentre os quais podemos destacar Vinho e o Violeta Sensual, um poema lésbico e erótico. Paula Campos Siqueira agora se via com os ataques ideológicos da Ordem do Sagrado Coração, que se aprofundava, mas, a percepção geral, até por parte da elite que ainda cultuava a literatura parnasiana de Castelo Salgado, era a de que tais investidas carolas do grupo liderado por Luzia Tenente caía cada vez mais na caricatura, pois, do apoio inicial às investidas contra o Violeta Sonora, com o avanço e a rápida transformação do cenário cultural de Green Stone, até esta elite resistente já percebia os ventos da mudança. Portanto, a coisa toda agora se voltava para o pastiche e a autoparódia em que se transformaram as atividades estrambóticas e cada vez mais sem critério das carolas da Ordem do Sagrado Coração. A piada geral era a de que o Violeta Sonora, a cada nova edição que saía dos Cadernos Eróticos, já separava uns exemplares, especialmente para serem queimados em praça pública pelas carolas desocupadas, enquanto distribuía o resto nos eventos culturais e nos saraus. E agora, depois das bem sucedidas palestras de Margarida Soares no Salão da Cultura, havia a organização para a apresentação da peça O Prefeito Papudo, de Dionísio Oliveira. A peça seria dirigida por um novo diretor teatral, que despontava no cenário cultural de Green Stone, de nome Elias Herrera, e que estava em contato estreito com o Movimento do Chamado já há um ano. A peça seria apresentada no Teatro de Lona, um teatro popular de Green Stone, em que os preços populares para os ingressos favoreciam a ideia de Dionísio Oliveira de tornar a sua peça acessível para toda a população, para que não fosse um evento restrito para a elite. Portanto, Dionísio Oliveira optou pelo Teatro de Lona, ao invés de usar o Salão de Cultura ou o teatro de elite de Green Stone, o Teatro Belvedere, onde se montavam peças antigas, como reedições do dramaturgo francês Racine, grandes produções de peças de Shakespeare, e pouquíssimas peças de autores e diretores nacionais. A ideia de remontar Loteria do Infortúnio, de Alfredo Villas Boas, também passava pela cabeça de Dionísio Oliveira, que falou com seu colega de Movimento do Chamado, Leopoldo Figueira, que se animou, e que poderia ser uma homenagem ao poeta que morreu recentemente. Dionísio Oliveira, enquanto começavam as primeiras apresentações de O Prefeito Papudo, no Teatro de Lona, agora adaptava o texto original de Alfredo Villas Boas, com pequenas intervenções, mas, com o texto original do poeta satírico quase todo intacto, enquanto o diretor teatral Elias Herrera, que agora dirigia os ensaios e montagens de O Prefeito Papudo, já preparava o plano de ensaios e montagens desta reedição da polêmica peça do fim do século XIX, Loteria do Infortúnio. O prefeito de Green Stone, José Ferreira, sabendo das apresentações de O Prefeito Papudo, no Teatro de Lona, foi ver a peça numa apresentação lotada num domingo. O prefeito não tomou nenhuma medida de censura, pelo contrário, após ver a peça, ele foi conversar com o diretor teatral Elias Ferreira e o poeta Dionísio Oliveira, e também com o ator que fazia o prefeito, personagem este que na peça se chamava Lomé Tonteira. José Ferreira ria muito, e disse que teria que arrumar um comediante para se vingar e fazer troça de Dionísio Oliveira, que ele chamou de o grande aniquilador do periódico Gazeta Green e de Benício Loureiro, que apoiava o prefeito, com Benício fazendo panegíricos constrangedores ao “prefeito moderno”, atuando, de fato, como uma marionete e um lambe-botas, sabujo e lacaio, ao passo que o Tribuna Atual detonava todos os dias a administração de José Ferreira, tendo o Diário Matutino, por sua vez, se tornado cada vez mais irrelevante, e ficando endividado. Dionísio Oliveira, contudo, não ia com a cara do prefeito José Ferreira, e disse que não queria a sua simpatia, fez um corte seco na conversa e saiu andando, enquanto o diretor Elias Herrera tentou encerrar a conversa e se despedir do prefeito, que estava acompanhado de três assessores que foram ver a peça com o patrão. 

No caso de Luzia Tenente e as atividades da Ordem do Sagrado Coração, cada vez mais ridículas e decadentes, ela entra em sua casa e encontra o seu marido, o delegado João Tenente, com duas prostitutas, ela tem uma privação dos sentidos, vai até uma sala anexa em que havia um revólver que pertencia a seu marido, expulsa as duas prostitutas de sua casa e atira contra o marido na cabeça e no peito, que cai morto na hora, e por fim, Luzia Tenente se mata com um tiro na cabeça. A notícia é um escândalo em toda Green Stone, que tomou tal proporção, que a Ordem do Sagrado Coração teve que encerrar as suas atividades depois desta tragédia. Margarida Soares publica uma nota de pesar no Tribuna Atual, lamentando o fato, mas, contudo, demonstrando os efeitos nocivos da hipocrisia, e lembrando as perseguições que o Violeta Sonora sofreu pelas atividades fanáticas da Ordem do Sagrado Coração. Agora se aproximava 1922, e o Movimento do Chamado, já nos preparativos para a montagem de Loteria do Infortúnio, já com o trabalho intenso de ensaios pelo diretor Elias Herrera com seus atores e atrizes, e depois do sucesso estrondoso de O Prefeito Papudo no Teatro de Lona, planejava uma Semana Cultural para maio de 1922, junto com o Pedra Branca e o Violeta Sonora (este grupo agora livre da empulhação da Ordem do Sagrado Coração e com as suas atividades de vento em popa). Tal semana seria a Semana de Arte Nova, e que seria a ruptura oficial do cenário cultural de Green Stone com tradições superadas, como a do culto em relação ao poeta Castelo Salgado, que se demonstrava cada vez mais postiço e que se enfraquecia, muito devido ao agito cultural intenso e ininterrupto do Movimento do Chamado, do Pedra Branca e do Violeta Sonora, em Green Stone. Tais movimentos culturais, a esta altura, já tinha quebrado grande parte da resistência da elite cultural da cidade, e ganhavam  adesão de um establishment que se encontrava no início contrário ao que era produzido por estes novos autores literários, tirando o ranço do Gazeta Green, em que Plínio Scarpa e Benício Loureiro se encontravam em guerra verbal e textual com Dionísio Oliveira, este que escrevia, ininterruptamente, no Tribuna Atual, detonando os janotas e peralvilhos do que ele chamava de culto do mármore e do talco. Havia este ranço, pois, tanto Plínio Scarpa como Benício Loureiro eram alvos constantes da pena ferina de Dionísio Oliveira.  No começo de 1922 houve um sarau cultural organizado pelo Pedra Branca, e foi montada uma peça de Silva Alencar, Messianismo, em que ele recapitulava eventos do Movimento do Cajueiro, tudo feito no anfiteatro do Salão de Cultura, uma peça enorme, com vários atores, atrizes e figurantes, que durava seis horas, dividida em três partes de duas horas. Silva Alencar e Antônio Vieira tomaram a frente em vários pontos em que se divulgava a cultura popular, e nesta atividade toda ainda se vendiam livros do folclorista Prado Rocha. Enquanto isso, Benício Loureiro e Dionísio Oliveira se processavam mutuamente. Dionísio derruba um dos vários processos de Benício e o desanca, para variar, no suplemento cultural do Tribuna Atual. Plínio Scarpa começava a se incomodar com tudo aquilo e manda prender Dionísio Oliveira. A ordem é expedida, mas, Dionísio consegue comutar a prisão em multa rescisória por danos morais e materiais ao Gazeta Green ao acionar um advogado. Desta vez, ele teria que pagar uma pequena fortuna ao dono deste jornal. Era a primeira vitória do grupo de janotas contra o incômodo poeta Dionísio Oliveira. Zezinho entra no jogo e quita a multa, e começa a articular com a sua família meios de minar os recursos do Gazeta Green, que até então eram vultosos, pois o jornal se encarregava de fazer praticamente marketing político com a imagem do prefeito José Ferreira. A oposição política ao prefeito, que começava a gestar uma candidatura que pudesse concorrer com aquela máquina pública, que fez de Green Stone um canteiro de obras públicas superfaturadas, teria um longo trabalho pela frente, o dinheiro da família de Zezinho e a atuação cada vez mais brilhante do Tribuna Atual, poderiam contribuir para apear o prefeito José Ferreira do poder e evitar a sua reeleição no fim do ano de 1922. Por sua vez, a montagem de Messianismo vira um grande acontecimento e a peça entra para a História como um dos grandes standards da cultura nacional, a grande peça de Silva Alencar seria o maior feito do grupo de vanguarda Pedra Branca e o opus de toda a obra do poeta Silva Alencar, que agora se destacava como o dramaturgo que se debruçou numa pesquisa mastodôntica sobre o Movimento do Cajueiro, na qual reuniu todos os documentos, livros históricos, e mergulhou em arquivos públicos para montar este épico de seis horas. As atividades do Violeta Sonora, por sua vez, agora vinham com a publicação de Os Novos Poetas, que era um volume de crítica literária autodidata, que colocava toda a nova literatura na ribalta, depois de Margarida ter feito um volume histórico com a literatura pretérita de Lantânia. O fim da Ordem do Sagrado Coração, por conseguinte, deixava o ar do Violeta Sonora puro e respirável, parecia que toda aquela macaquice carola agora iria virar um pesadelo cada vez mais distante e apagado da memória. Daniela Saraiva cuidava agora de mais um sarau do Violeta Sonora, e a agitadora cultural do grupo, Paula Campos Siqueira, agora estava em contato com Zezinho, do Movimento do Chamado, que junto com Antônio Vieira, do Pedra Branca, começavam os preparativos da Semana de Arte Nova, que seria realizado em maio de 1922, no Salão de Cultura. Em março de 1922 é montada, também, no Teatro de Lona, a reedição de Loteria do Infortúnio, de Alfredo Villas Boas, pelas mãos de Dionísio Oliveira, peça que, desta vez, teria uma introdução declamatória de alguns poemas de Um Gole de Vinho, também de Alfredo Villas Boas, por parte de Leopoldo Figueira, este que se tornara, àquela altura, um dos maiores fiadores da fortuna crítica de Alfredo Villas Boas, depois de seu renascimento no livro de Margarida Soares, o Tratado de Lírica. A peça é montada, a preços populares, assim como tinha sido na peça original de Dionísio Oliveira, O Prefeito Papudo, e a direção da peça também coube a Elias Herrera. A reedição de Loteria do Infortúnio obedecia quase que integralmente à montagem original do fim do século XIX, feita pelo então diretor teatral José Carlos Costa,  e ao texto autoral, do poeta e dramaturgo Alfredo Villas Boas, com a diferença de que trechos importantes do livro de poesia de Alfredo Villas Boas, Um Gole de Vinho, ganharia a declamação feita pelo poeta Leopoldo Figueira, como uma introdução antes do primeiro ato de Loteria do Infortúnio, e que funcionaria como uma grande homenagem à obra de Alfredo Villas Boas. Depois do sucesso de Messianismo, no Salão de Cultura, e da boa recebida da remontagem de Loteria do Infortúnio, no Teatro de Lona, o cenário cultural de Green Stone já tinha a nova literatura do século XX como a dominância oficial em que agora o jogo era jogado. A elite, que até pouco tempo ainda se apegava ao culto de Castelo Salgado, e a todos aqueles rapapés parnasianos, enfraquecia este elo, pois já havia uma reforma do gosto pessoal, não somente na juventude literária, mas agora também, depois de todos os esforços e atividades do Movimento do Chamado, do Pedra Branca e do Violeta Sonora, formando uma nova conjuntura favorável para estas vanguardas, dentro de uma elite originariamente tradicionalista no gosto e nos costumes. Portanto, acontecia o que, em meados de 1918 ou 1919, ainda era algo impensável. Enquanto isso, uma guerra continuava a acontecer entre articulistas do Gazeta Green e do Tribuna Atual, ao passo que, em abril de 1922, o Diário Matutino decreta falência e encerra as suas atividades. Despontava, finalmente, a candidatura de oposição ao prefeito José Ferreira, que era a do intelectual Afrânio Rodrigues, que odiava a afetação gabarola do preclaro prefeito, e que este intelectual sabia que era um astuto que usava sua imagem como um culto da personalidade. Tudo o que se passava em Green Stone, naquela época, teria que ter alguma assinatura de José Ferreira. Portanto, a sua presença jocosa e bem humorada na montagem de O Prefeito Papudo, no Teatro de Lona, não tinha sido uma bondade dele, e nem obra do acaso, ele também queria faturar em cima até de uma paródia de sua imagem, daí a recepção azeda de um Dionísio Oliveira que deu de ombros e saiu andando ao ver a aproximação do prefeito e de seus assessores. Nesta guerra verbal e textual, e recheada de processos entre Dionísio Oliveira e Benício Loureiro ou Plínio Scarpa, o resultado eram tentativas recíprocas dos jornais Gazeta Green e do Tribuna Atual de minarem as respectivas fontes de renda dos empreendimentos. Contudo, como a família do artista plástico Zezinho era muito rica, a ideia agora era comprar o Gazeta Green, e deixar este grupo de jornalistas à míngua. Porém, houve recusa da oferta feita pelo dono do jornal, o pai de Plínio Scarpa, Rodolfo Scarpa, e a guerra recomeçou e iria esquentar de vez nas eleições para prefeito, em que as duas forças políticas seriam a do prefeito José Ferreira, com o apoio do Gazeta Green, e a do opositor, o intelectual Afrânio Rodrigues, com o apoio do Tribuna Atual. Os trabalhos de organização da Semana de Arte Nova, que seria em maio, avançavam, e Zezinho era o principal organizador que, junto com Paula Campos Siqueira e Antônio Vieira, formavam a comissão organizadora oficial do evento cultural que eles queriam que entrasse para a História da Literatura de Lantânia. A Semana de Arte Nova seria um evento de literatura, artes plásticas, música e escultura, apresentando os novos escritores e demais artistas novos do cenário cultural de Green Stone, e que agora já tinham quebrado muitas resistências e formado um novo gosto estético que superava o apego agora irracional a um culto enfadonho e anacrônico em torno da imagem quase hagiográfica de um suposto poeta maior que se chamava Castelo Salgado. Os poetas Dionísio Oliveira, Domitila Guerra e Silva Alencar, com a direção de Leopoldo Figueira, ficaram no encargo de organizar a parte de saraus, em que formaram uma subcomissão, da parte artística, e a parte financeira ou executiva cabendo à Zezinho. Paula Campos Siqueira, também da comissão organizadora principal, fez os convites, contatou os buffets, cadeiras, mesas, papéis de parede, detalhes de palco, ao passo que Antônio Vieira, que seria o paraninfo, organizou a apresentação, que seria feita por um crooner de nome Flávio Santos, mas, o texto de script teria que ser feito por Antônio Vieira. Ainda havia o concurso de uma força de trabalho do próprio Salão de Cultura, que atuava de forma auxiliar à comissão, com equipes responsáveis pelo evento, e estas equipes tinham o comando do diretor geral do Salão de Cultura, Henrique Sousa, este que dirigia este grande anfiteatro há duas décadas, e nunca tinha visto um período tão efervescente de cultura em Green Stone em toda a sua vida, parecia que toda aquela lenga-lenga de poeta maior, Castelo Salgado, etc, tinha definitivamente caído por terra, e por nocaute. O evento de maio de 1922 seria feito em três noites seguidas, e alguns membros conservadores do grupo comandado por Benício Loureiro já planejavam fazer barulho na apresentação dos novos escritores. O ódio que o jornalista janota nutria do poeta Dionísio Oliveira era cada vez maior, ele queria levar pessoas para fazer apupos e tentar sabotar as apresentações e declamações, e um informante inusitado, que conhecia Dionísio, fez a delação ao poeta que, rindo, disse que seria divertido ver aqueles idiotas tentando fazer algo impossível, pois todos os convites já tinham sido vendidos, e uma pequena turba matreira não seria capaz de apagar o brilho daquela geração, a qual Dionísio agora chamava de geração de 22, termo que pegou rapidamente e já era utilizado na antevéspera da Semana de Arte Nova.  

O Salão de Cultura já ficou com todos os preparativos prontos no começo de maio de 1922, a empolgação tomava conta do grupo Movimento do Chamado que era o destaque principal da renovação cultural de Green Stone, mesmo com os destaques do Violeta Sonora, lembrando aqui a fortuna crítica importantíssima de Margarida Soares, e do Pedra Branca, com Silva Alencar e seu épico mastodôntico Messianismo em que ele faz um retrato quase definitivo do Movimento do Cajueiro. Tal influência crescia e já despontavam vanguardas em Yellow Stone e Blue Stone, e até em províncias mais pobres, como Quermesse e até na miserabilíssima Província do Castelo, com repentistas fazendo o que se poderia chamar de uma versão autêntica do que o Pedra Branca tentava fazer em meios urbanos com o seu folclore artificial. Chega a véspera do evento, que seria realizado em três dias, em 17, 18 e 19 de maio de 1922. O primeiro dia tem a série de declamações dos poetas, que começa com o panegírico já famoso do poeta Leopoldo Figueira sobre Alfredo Villas Boas e um panegírico novo homenageando as vanguardas do Movimento do Chamado, o Violeta Sonora e o Pedra Branca. Leopoldo Figueira depois declama seus poemas, Semente do Futuro, Os Sabiás, e um inédito, que ele apresentou naquele dia, Areia e Fuligem. Dionísio Oliveira, em seguida, declamou a “marcha das fadinhas de mármore” e fez um discurso inflamado de improviso, em que ataca o jornal Gazeta Green, Plínio Scarpa e Benício Loureiro, em que recebe apupos de um setor lateral de arquibancada no setor C do Salão de Cultura, que era um grupo plantado pelo jornalista Benício Loureiro, desafeto e alvo dileto da críticas ácida e sistemática do incendiário poeta Dionísio Oliveira, que era a figura que mais incomodava a equipe do Gazeta Green, em que seus redatores e jornalistas eram massacrados quase diariamente pelos textos de Dionísio no Tribuna Atual. Os poemas declamados, depois do improviso, começou com um poema obscuro de Alfredo Villas Boas, chamado Fósforo, e os poemas de sua pena, Machadada, Patíbulo dos Idiotas e Poema do Levante, finalizando com dois inéditos, para serem revelados no evento, os poemas Comédia Bufa dos Cães, e um poema crítico chamado A Morte dos Canalhas. Margarida Soares, por sua vez, entra depois que Dionísio no palco e tece comentários sobre a sua obra Os Novos Poetas, e faz um panorama brilhante de sua geração literária. Declama Os Rouxinóis, seu poema inédito, o Poema de Afrodite, e seu hit chamado Sensação. O evento tem mais declamadores, tanto das três vanguardas, como de poetas ainda mais novos, que tinham surgido já no cenário a partir de 1921, e que eram muito bem recebidos pelos nomes principais do dia, dos quais destaco Silva Alencar, Dionísio Oliveira, Leopoldo Figueira e Margarida Soares. O primeiro dia é intenso, muito aplaudido, mas com o momento de tensão feito pelo discurso violento entre apupos feito por Dionísio Oliveira na sua obsessão de destruir o Gazeta Green, o culto de Castelo Salgado, e fazer troça do janota do Benício Loureiro. O segundo dia temos exposições de pinturas, com diversos artistas, também escultores, e o dia é comandado pelo pintor e agitador cultural Zezinho, num dia mais tranquilo que a barulheira que fora provocada por Dionísio Oliveira no primeiro dia. O último dia, para encerrar a Semana de Arte Nova, tem a música de vanguarda como destaque, em que temos dois músicos e maestros principais, Marcos Deodoro e o pianista Jairo Messias. O evento se encerra bem e a partir daquele momento já se podia dizer que o culto de Castelo Salgado agora era algo pálido diante da adesão oficial do gosto geral aos poetas destas vanguardas. Os nomes todos destes poetas á soavam familiares, e agora a leitura poderia sair de um isolamento parnasiano de décadas e respirar novos ares. 

Por fim, o intelectual Afrânio Rodrigues consegue ser eleito prefeito de Green Stone no final de 1922, depois de uma campanha massiva encampada pelos poetas Dionísio Oliveira e Leopoldo Figueira e o jornal Tribuna Atual. Afrânio Rodrigues venceu José Ferreira por uma margem pequena em relação ao staff monstruoso que ainda cercava o então prefeito. José Ferreira recorreu ao tribunal eleitoral por uma recontagem de votos, e enquanto seu pedido era indeferido, o mesmo era destruído por um artigo de Dionísio Oliveira chamado “Aritmética da lambança”. Os tais movimentos literários amadureceram nos anos subsequentes, surgindo novos movimentos, tanto em Green Stone, como em Yellow Stone e Blue Stone, além de outras localidades, como as províncias pobres de Quermesse e Castelo, e uma aproximação dos poetas do Pedra Branca com os repentistas destes rincões, num verdadeiro intercâmbio cultural. Com exceção da morte de Leopoldo Figueira, afogado no mar depois da queda de sua embarcação em 1926, todos estes poetas citados envelheceram e continuaram produzindo. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Contos Psicodélicos

Pronto em 03/03/2022

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

COMPRA DE IMÓVEIS NO METAVERSO

Estes metaversos individuais feitos por diferentes plataformas logo se fundirão num metaverso maior e interconectado”


Neste início de discussão e desenvolvimento sobre o metaverso temos também investimentos já sendo feitos em terrenos virtuais. A consultoria PwC, por exemplo, foi uma das empresas que recentemente comprou imóveis no The Sandbox, que é um mundo de jogos virtuais. 

Ainda temos o caso de uma compra feita por uma pessoa de terreno no Snoopverse, que é um mundo virtual que está sendo desenvolvido pelo rapper Snoop Dogg dentro do The Sandbox.

Temos ainda uma plataforma chamada Decentraland, em que a empresa imobiliária focada na economia do metaverso, o Metaverse Group, comprou um terreno dentro desta plataforma.

O Facebook tem encampado esta ideia do metaverso e começado um trabalho ainda incipiente sobre a sua construção, e também já temos a Nike e a Microsoft anunciando que vão entrar neste espaço. Dos metaversos existentes, podemos citar as plataformas de jogos virtuais. 

Pois, neste mundo virtual do metaverso, muitas de suas ferramentas se devem ao desenvolvimento de games de imersão. Estes jogos virtuais são a fonte primária do metaverso, e agora empresas fora do universo dos games querem uma aplicação literal do conceito e torná-lo cotidiano, citando aqui a obsessão do Facebook que até mudou o seu nome empresarial para Meta.

Muito do que se sabe hoje de comunicação entre avatares virtuais também se deve ao desenvolvimento prévio de jogos virtuais e isto agora se estende a um conceito mais ambicioso que é a construção de um metaverso. 

Falando no metaverso, os já citados Decentraland e The Sandbox são as plataformas conhecidas em que se aplica o metaverso e em que já ocorrem compra de imóveis virtuais. 

Estas plataformas são originalmente de jogos virtuais e possuem os recursos para a construção do metaverso. Estes metaversos individuais feitos por diferentes plataformas logo se fundirão num metaverso maior e interconectado. 

No metaverso as transações financeiras são feitas, em geral, através de criptomoedas, também sendo utilizados os NFTs, que são os tokens não fungíveis. Na plataforma OpenSea, por exemplo, em que se negociam NFTs, já são feitas compras de lotes de terrenos virtuais e até de casas virtuais. 

O princípio de valor de escassez também é aplicado nestas plataformas virtuais para a venda de terrenos virtuais, isto é, temos ofertas limitadas de imóveis digitais para que estes se mantenham valorizados financeiramente. O Decentraland, por exemplo, possui 90 mil peças ou parcelas de terreno e que têm cerca de 15 metros quadrados cada. 

E temos casos de grandes compras de terrenos virtuais feitas no Decentraland feitas pela República Realm e pelo Grupo Metaverso, por exemplo, dando uma ideia de como estes terrenos estão sendo valorizados. 

Valores aumentam, e não apenas no Decentraland, mas também em plataformas como a Axie Infinity, também de jogos virtuais. Por sua vez, ainda estamos num campo bastante especulativo de ofertas e vendas de terrenos virtuais e não se pode chamar a isto de bolha, por enquanto.

Os terrenos comprados pelo Grupo Metaverso na Decentraland, por exemplo, estão em um lugar estratégico da plataforma, em que se poderão fazer futuros eventos virtuais onde se poderão usar avatares em espaços compartilhados. Por fim, a familiaridade do metaverso é uma questão de avanço de seus recursos para que esta realidade virtual e aumentada se torne tão funcional e cotidiana quanto são hoje o uso de e-mails e das redes sociais.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/compra-de-imoveis-no-metaverso

 


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A WEB3 COMO O ANÚNCIO DE UMA INTERNET LIVRE

podemos passar para uma terceira versão de internet com trânsito direto de dados entre usuários”

 

Na evolução tecnológica, falando dos avanços da internet, temos agora a possibilidade da expansão do uso da tecnologia do blockchain para redefinir a internet mais uma vez, e que está sendo chamada de Web3. 

Seria um passo necessário e importante para descentralizar a internet, que em sua versão da Web2 se centralizou em big techs e redes sociais de internet fechada. A Web3 poderá ser um passo para recuperar uma certa liberdade que havia na Web1 de hiperlinks, da versão original de Tim Berners-Lee, na sua criação do protocolo HTTP e da World Wide Web, o domínio www.

A necessidade de redefinir ou remodelar a internet se torna imperiosa. Contudo, o ceticismo ainda é grande e o processo pode ser bem longo, uma vez que estes céticos duvidam muito das reais possibilidades de QUE uma versão nova da internet fundada em blockchain possa realmente debelar a interferência de grandes empresas de tecnologia neste mercado e negócio.

Dada à onipresença da internet, profissionais de tecnologia têm se debruçado sobre esta questão da liberdade e descentralização da mesma, isto é, encontrar meios técnicos para produzir um novo modelo de internet, e esta chave de abertura está no uso do blockchain como novo protocolo para o uso da internet. 

O usuário poderia ter total controle sobre os seus dados e ainda poderia navegar numa internet mais inteligente, e que os profissionais de tecnologia chamam de “web semântica”. Esta Web 3.0, contra os céticos, poderia ser a grande revolução da internet.

Nesta Web 3.0 um volume muito maior de dados poderia ser interpretado pelas máquinas, numa interação mais profunda entre seus usuários, partindo de qualquer plataforma, dentre outras formas de interação. 

Acabaria a necessidade de sistemas operacionais complexos e de uso de grandes hard disks (HDs), pois o armazenamento de dados se concentraria na nuvem, e tudo ainda poderia ser mais facilmente personalizado e com mais rapidez. 

Haverá uma colaboração das máquinas com seus usuários de uma forma mais eficaz, mas, o objetivo maior disso tudo passa pela descentralização da internet, uma superação do poder das big techs da Web 2.0.

Esta é uma mudança que já tem alguns anos de desenvolvimento, embora o ceticismo duvide de sua factibilidade e ainda tenha um certo ar de utopia nesta discussão toda. 

O termo Web 3 foi cunhado em 2014 pelo britânico Gavin Wood, cofundador da criptomoeda ethereum. E este protocolo do blockchain é a base da tecnologia da Web3. Wood também foi o criador do código de projeto aberto Polkadot, e partiu da necessidade de remodelar a internet quando vislumbrou uma possível Web 3.0. 

Este engenheiro de computação britânico criou a Web3 Foundation, que serve de base para financiamento de iniciativas, investigações, pesquisas e desenvolvimento para construir as bases do que virá a ser a Web3. Wood também criou a Parity Technologies, uma empresa de infraestrutura blockchain, com sede em Berlim, na Alemanha, para a web descentralizada.

A Web, em sua primeira versão, possuía um protocolo aberto e descentralizado. Tal centralização se iniciou nos anos 1990, em que as grandes empresas de tecnologia expandiram o seu poder econômico e de manipulação de dados. 

O objetivo da Web3 é retomar esta independência do usuário com os seus próprios dados, retirando o protocolo HTTP, que sempre possui uma central em que os dados podem ser manipuláveis, e colocando o blockchain, com o uso da tecnologia "peer-to-peer" (P2P), que permite ao usuário o livre intercâmbio de seus dados de forma direta, sem intermediários, entre outros usuários, criando uma independência impossível no desenho centralizado do protocolo HTTP. 

Da internet de hiperlinks de sua primeira versão, passando pela sua segunda versão, em que se pode ler e escrever de modo interativo, contudo, com o poder de manipulação de dados das big techs, sobretudo com o armazenamento em nuvem, que tem um oligopólio destas big techs, podemos passar para uma terceira versão de internet com trânsito direto de dados entre usuários, que poderão escolher livremente onde armazená-los.

O uso do blockchain tem sido até agora muito seguro, sem casos de invasões, e a Web3 poderá conferir esta liberdade no uso de dados pela autonomia do usuário, o que trará uma internet mais livre e igualitária. 

Em 2021 acompanhamos o impulso dos tokens de NFT, com negócios diretos de mercadorias não-fungíveis e o começo de um projeto ainda incipiente e até caricato do metaverso, mas que é o gérmen de uma iniciativa inexorável da evolução da tecnologia em um campo ainda, de certo modo, imprevisível, apenas imaginável como exercício de ficcionista, por enquanto.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-web3-como-o-anuncio-de-uma-internet-livre