PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A MANTA

A manta, toda estrelada,
veste o poeta como
túnica espiral
e contrafortes
das traves plúmbeas,

logo, como um sonhador
que é terrível,
eu vejo como pronúncia
encriptada os teus
gládios potentes,

a manta, que estrelada
faz noite, da túnica
o dia veste,
e qual fada,
uma dança
nos invade.

02/05/2019 Gustavo Bastos

ILUMINAÇÕES

A pluma me tem
com os átrios que
flutuam.

As marés de luas
soçobram nos
pássaros de sol,

mentem os risos do campo,
e a luta insana
irrompe com os luares
de sóis em estrelas
indômitas,

o caos ferve na máquina
que o templo busca
nos ares de poeta,
e a música soa
nos lares pacíficos
de orquestra,

os poemas, como lumes
que prorrompem
feras iluminadas,
são vozes anímicas
de um fervor santo
que rutila.

02/05/2019 Gustavo Bastos 

O CANTO DOCE

O grito estanca a fome
e passa ao largo da visão.
Eis o templo de sons
que estupenda o caos.
Como no lilás que
irradia entre os montes.

Nas águas que dançam
sobre as estrelas,
o caos da vida e da morte
corre como o ás
de que o poema
nos envolve.

Vetusto o sábio que
se embrenha no mato,
com os vinhos que
têm matizes
de roxo e rosa,

eu, que navego como
brilho na escala
dos césares,
rezo pacato
como um monge
as horas de alvíssaras,
e o canto é doce.

02/05/2019 Gustavo Bastos

segunda-feira, 15 de abril de 2019

TORQUATO NETO É POESIA E CINEMA


“sua poesia, centro de sua obra, é uma matriz que vem toda aberta”

CINEMA E CONTRACULTURA

Torquato vai ao mundo, se torna também cosmopolita, mas as suas raízes no nordeste se mantêm intactas, e sua ligação com Teresina aparece sobretudo na sua experiência marginal com o cinema, que vai produzir pérolas em superoito, como o artesanal Terror da vermelha, que contrabalançava a sua vivência já intensa na metrópole.
No roteiro de Terror da vermelha, temos a ideia-estrofe do poema “vir/ver/ou/vir”, este é o tema ou leitmotiv do filme. Por sua vez, em Navilouca, revista vanguardista e contracultural, que montou com Waly Salomão, já quando morreria logo em seguida, revista esta publicada em 1974, temos este poema novamente em destaque quando Torquato usa o mesmo em uma versão pós-tropicalista, pós-concretista, como mote. Portanto, “vir/ver/ou/vir” é uma estrofe-valise que serve ao poema gráfico e ao filme. Em Terror da vermelha temos Torquato no que se pode chamar de performance, ele que aqui faz o trabalho amplo de ator e diretor.

O POEMA TORQUATIANO

Podemos fazer uma leitura contínua do tema de Torquato, isto é, sua produção poética tem uma linha que pode conduzir a um texto que é como um work in progress, temos um leitmotiv, o poema evolui em poemas diversos, Torquato e sua obsessão, o poeta e sua recondução ininterrupta. Lembrando, por sua vez, que o poema torquatiano tem elemento biográfico, vida e obra se fundem e formam o amálgama aonde irá se misturar o tropicalismo, a ruptura com o tropicalismo, o diálogo com o concretismo e a posterior quebra deste diálogo, já antecipando a poesia marginal, marginalidade esta que virá com força na forma-filme, ele como vampiro-ator, diretor de si mesmo, num gesto artesanal de ousadia.
Torquato se torna um ser híbrido que faz poema e prosa, com texto e intertextualidade, com apropriações, citações, palavras-valise, faz experimento com a palavra, dialoga com um espectro amplo de vanguardas literárias, clímax multifacetado este que se dará, por sua vez, com a Navilouca. Na obra torquatiana, temos a escrita íntima de seus cadernos, e a escrita-limite no seu diário de internação. Torquato, mesmo no fio da navalha, consegue escrever sobre cinema, e faz sucesso em sua coluna geleia geral no jornal Última Hora, com a chamada telegrafia oswaldiana sendo um dos motes em que se dá a produção textual torquatiana já no seu canto do cisne.
Torquato combina diversos elementos, e sua poesia, centro de sua obra, é uma matriz que vem toda aberta, polifônica, com esta herança antropofágica, intertextual, polifônica, que é uma voz em várias, com o leitmotiv do fim que não tem mais fim. Torquato traz a sua originalidade, mas também devora seus semelhantes, e seu texto é o resultado do que sai de sua cabeça e do que ele importa do que vê, lê e ouve.
Temos, nesta apropriação, o “desafinar o coro dos contentes” de Sousândrade, a “alegria como prova dos nove” de Oswald de Andrade, o “minha terra tem palmeiras” de Gonçalves Dias, a brisa do Brasil que “beija e balança” de Castro Alves, o “anjo torto” de Drummond, e com tudo isso sendo remodelado com a assinatura de Torquato Neto.
A apropriação é um gesto poético de Torquato que se dará, sobretudo, em sua fase tropicalista, em que temos os amálgamas dos poemas-canções como “Marginália II” e talvez o opus magnus de Torquato, que é “Geleia Geral”. Músicas estas que são manifestos tropicalistas emblemáticos de todo o movimento. Apropriação aqui que forma o chamado amálgama através da técnica da justaposição.
E temos aqui a chamada polêmica tropicalista, que dividiu o mundo da música, entre puristas da MPB e o outro lado, de tropicalistas, que traziam novidades internacionais, como o uso da guitarra elétrica, e no plano da crítica literária, por sua vez, temos um racha, duas frentes opostas, com Roberto Schwarz lhes acusando um traço conservador, e os adesistas que são os concretistas e a vertente universitária carioca, que incluía aí figuras como Heloísa Buarque de Hollanda e Silviano Santiago, ala crítica esta que tanto apoiou o tropicalismo, como acompanhou o desdobramento setentista disto, que daria, por exemplo, na poesia marginal. Podemos dizer, por fim, que a fase tropicalista de Torquato Neto é um estado vigoroso de bricolagem poética.

POEMAS E CANÇÕES :

TRÊS DA MADRUGADA : Canção que ficou conhecida na voz de Gal Costa, temos um canto perdido na madrugada, aqui a voz de Gal canta a voz de Torquato, ou melhor, seu eu lírico, no que vem : “Três da madrugada/Quase nada, a cidade abandonada/E essa rua que não tem mais fim”. Aqui, como sempre, a palavra-valise da obra torquatiana, fim, esta que, também, vem com sem fim, não tem mais fim, o fim torquatiano insiste em ser paradoxo, teima por não ter fim, e a madrugada é este portal do infinito do pensamento em que a cidade está abandonada, e continua o périplo do letrista-poeta, no que temos, em seguida: “Nada, noite alta madrugada/Essa cidade que me guarda/Que me mata de saudade/É sempre assim/Triste madrugada”. A sutil melancolia, uma certa tristeza elegante, harmônica, compõe a triste madrugada torquatiana, e temos : “Pelas três da madrugada/Toda palavra calada/Dessa rua da cidade que não tem mais fim.”. Sem fim aqui só tem um ponto no tempo, três da madrugada.

MARGINÁLIA II : Canção assinada por Gilberto Gil e Torquato Neto, a letra canta um tempo duro, é o regime militar, a ditadura, o mundo marginal se esgueira, neste contexto denso e tenso, e produz arte, o tropicalismo nos aparece aqui em sua magnitude, e uma de suas pérolas é o segundo álbum de estúdio de Gilberto Gil, pela Philips, que tem esta canção, no que vem : “Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa meu pecado/Meu sonho desesperado”. O brasileiro tem o pecado, a culpa, o desespero, e Torquato confessa esta tensão social, política, existencial, que cobre o país num momento exasperante, no que vem : “Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa meu degredo”. O degredado, a ideia de exílio, que logo levarão Caetano e Gil, e Torquato antevê, é o fim do mundo, pois : “Aqui é o fim do mundo/Aqui é o fim do mundo/Ou lá/Aqui o Terceiro Mundo/Pede a bênção e vai dormir/Entre cascatas palmeiras/Araçás e bananeiras/Ao canto da juriti”. Dor de terceiro mundo, a culpa toda dorida, entre fábulas e espetáculos naturais, uma terra já cantada por Gonçalves Dias, que aqui tem palmeiras, bananeiras e araçás ao canto da juriti, no que segue : “Conheço bem minha história/Começa na lua cheia/E termina antes do fim”. Agora Torquato é biográfico, veja bem, e não profético, ele conta a sua história, a consequência natural não é mística, ele não é o vidente rimbaudiano, sua desordem dos sentidos termina antes do fim, aqui é a expressão poética, um produto da obsessão do fim, palavra-valise, estribilho em toda a obra torquatiana, no que temos, aqui com a metáfora de Gonçalves Dias, ao fim : “Minha terra tem palmeiras/Onde sopra o vento forte/Da fome do medo e muito/Principalmente/Da morte/O-lelê, lalá/A bomba explode lá fora/E agora, o que vou temer?/Yes : nós temos banana/Até pra dar,/E vender”. A ditadura e o desbunde, ao mesmo tempo, são esta coda, o festivo se depara com a bomba, a repressão, o medo da morte, esta verdade universal, só negada através de bravatas, e que vem como um olêlê, olálá, e se vende o melhor do melhor, yes, bananas.

GELEIA GERAL : Uma das canções mais bem acabadas do tropicalismo, funde antropofagia oswaldiana com uma paródia do beletrismo bacharelesco de uma tradição poética ufanista, afetada e rebuscada de rimas bem urdidas, pois, quando se trata da chave de prata e da primeira estrofe, canção-poema aqui é um canto sutil de versos que lidam com o arcaico em uma chave moderna de interpretação, pois já teremos, logo a seguir, referência ao folclore nordestino, no estribilho-refrão do bumba-meu-boi, e a própria antropofagia aparecendo como esta fonte que também funda o tropicalismo, em seu nacional-internacional de linguagem sugestiva, não-evidente, já com Caetano e Gil, e aqui também Torquato, canção geleia geral que estará no icônico esforço coletivo do movimento, o álbum tropicalia ou panis et circencis, antropofagia que é aqui o devoramento de Oswald de Andrade na prova dos nove e, para variar, também de um dos poetas brasileiros mais devorados da História, Gonçalves Dias, no que segue : “Um poeta desfolha a bandeira/E a manhã tropical se inicia” (...) “Na geleia geral brasileira/Que o jornal do brasil anuncia/É bumba iê, iê boi/Ano que vem mês que foi/Ê bumba iê, iê iê/É a mesma dança, meu boi/“A alegria é a prova dos nove”/E a tristeza é teu porto seguro/Minha terra onde o sol é mais limpo/E Mangueira onde o samba é mais puro/Tumbadora na selva-selvagem/Pindorama, país do futuro”. Temos a dupla face de uma letra-poema que lida com a natureza e o caráter de indústria da civilização, temos a terra, o sol, a cultura popular com a escola de samba Mangueira, e o fato industrial na citação do Jornal do Brasil, o nome indígena do Brasil, Pindorama, nos fazendo mais uma vez esta viagem de retorno, no que segue :  “Doce mulata malvada/Um elepê de Sinatra/Maracujá mês de abril/Santo barroco baiano” (...) “Carne-seca na janela/Alguém que chora por mim/Um carnaval de verdade/Hospitaleira amizade/Brutalidade jardim” (...) “Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/Pego um jato viajo arrebento/Com o roteiro do sexto sentido/Voz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento”. Eis o manifesto- letra, está posto o lema, palavra de ordem, slogan, sugestão, direção, mais uma vez, emblema, e que vira clichê torquatiano, tropicalista, na perspectiva histórica, esta grande visão que nos diz, Tropicália, bananas ao vento. Coda-referência, definitiva. Chave de ouro.

DEUS VOS SALVE A CASA SANTA : Canção que junta Torquato Neto, Caetano Veloso e Nara Leão, tem uma letra simples e direta, e que é narrativa, à primeira vista, mas que também se trata de uma alegoria tropicalista, no que temos : “Um bom menino perdeu-se um dia/Entre a cozinha e o corredor/O pai deu ordem a toda família/Que o procurasse e ninguém achou”. E a canção tem versos que suscitam a ternura, uma certa paz mortiça, no entanto, que nos diz : “Ó deus vos salve esta casa santa/Onde a gente janta com nossos pais/Ó deus vos salve esta mesa farta/Feijão verdura ternura e paz” (...) “A luz mortiça ilumina a mesa/E a brasa acesa queima o porão”. Luz exangue, paz amolecida, na casa santa, em que deus é invocado, inaugurando a refeição.

SEM TÍTULO : O poema aqui tem a descrição de que o poeta nasce feito, e como diz Gilberto Gil, e uma música sua, o poeta fala do incontível, isto é, o poeta é aquele afobado que sempre se transborda, e, voilá, está pronto o poema, no que temos : “o poeta nasce feito/assim como dois mais dois;/se por aqui me deleito/é por questão de depois/a glória canta na cama/faz poemas, enche a cara/mas é com quem mais se ama/que a gente mais se depara”. O poeta transbordante enche a cara e ama, sem contradição, ele é tudo, o poeta é justamente o que diz e desdiz, o único artista que pode ter todas as opiniões ao mesmo tempo, e segue : “saiba, Ronaldo, acontece/uma vez em qualquer vida :/as teias que a gente tece/abrem sempre uma ferida”. O caminho tece, e se fere, inevitável, a aritmética da vida e do coração nos saúda e nos aperta, como em altos e baixos, e que segue : “nem sei se eu sou o caso/que mais mereço entender –/de qualquer forma, o A-caso/me deixa tonto, e querer/não é sentar, ter na mesa/uma questão de depois :/é, melhor, ver com certeza/quem imagina um mais dois./paris, europa, o brasil lá no brasil,/seis de setembro de 1969.”. O acaso que o poeta deslinda aqui vira viagem, jornada, exílio do poeta.

LITERATO CANTABILE : O poema vem como a palavra guardada, bem cuidada, para não ser exibida para abelhudos de plantão, o poema diz e desdiz, não precisa falar tudo o tempo todo, cada gesto é importante, e os silêncios fundamentais, no que segue : “Agora não se fala mais/toda palavra guarda uma cilada/e qualquer gesto é o fim/do seu início;/agora não se fala nada/e tudo é transparente em cada forma/qualquer palavra é um gesto”. A transparência não vem da sinceridade irrestrita, ela vem de uma alma resoluta, pronta, que sabe o que faz, e o poema faz sua guerra, a quem vence que ganhe as congratulações, pois vencer tem que ser mérito, ao menos no poema, neste mundo empírico repleto de injustiças, mas vem : “a guerra acabou/quem perdeu agradeça/a quem ganhou.”. E aqui temos, recapitulando o início do poema, as razões do lusco-fusco dos dizeres, eles guardam abismos, precipícios, é um terreno escorregadio, em que o gesto mostra e guarda, estratégia e não ardil, prudência e não covardia, função de sabedoria fundamentada na experiência, senão os literatos vão ao hospício, aonde se diz qualquer coisa à qualquer hora, só que lá ninguém é ouvido, é o grito dos malditos, gritando para surdos, no que vem : “toda palavra envolve o precipício/e os literatos foram todos para o hospício./e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca./agora não se fala nada, sim. fim, a guerra/acabou/e quem perdeu agradeça a quem ganhou.”. Não se fala nada na loucura, pois se fala o tempo todo na loucura. A quem ganhou, este vence, está são, e os que caíram no precipício, tanto perderam como enlouqueceram. Na sua interpretação política, por sua vez, o poema fala do silêncio que também é a censura, calar à força o que explode faz a loucura dos que perdem e não podem mais falar, a tortura ganha pela força, pois não sabe falar, por isso mesmo ela quer fazer calar.

POEMAS E CANÇÕES :

TRÊS DA MADRUGADA

Três da madrugada
Quase nada, a cidade abandonada
E essa rua que não tem mais fim
Três da madrugada
Tudo em nada
A cidade abandonada
E essa rua não tem mais nada de mim
Nada, noite alta madrugada
Essa cidade que me guarda
Que me mata de saudade
É sempre assim
Triste madrugada
Tudo e nada, a mão fria mão gelada toca bem de leve em mim
Saiba, meu pobre coração não vale nada
Pelas três da madrugada
Toda palavra calada
Dessa rua da cidade que não tem mais fim.
(CANÇÃO)

MARGINÁLIA II

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão :

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá

Aqui o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti
Aqui meu pânico e glória
Aqui meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte

Da fome do medo e muito
Principalmente
Da morte
O-lelê, lalá
A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Yes : nós temos banana
Até pra dar,
E vender

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá.
(CANÇÃO)

GELEIA GERAL

Um poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplandente cadente fagueira
Num calor girassol com alegria
Na geleia geral brasileira
Que o jornal do brasil anuncia

É bumba iê, iê boi
Ano que vem mês que foi
Ê bumba iê, iê iê
É a mesma dança, meu boi

“A alegria é a prova dos nove”
E a tristeza é teu porto seguro
Minha terra onde o sol é mais limpo
E Mangueira onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem
Pindorama, país do futuro

Ê bumba iê, iê boi
Ano que vem mês que foi
Ê bumba iê, iê iê
É a mesma dança, meu boi

É a mesma dança na sala
No Canecão na TV
E quem não dança não fala
Assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala
As relíquias do Brasil :

Doce mulata malvada
Um elepê de Sinatra
Maracujá mês de abril
Santo barroco baiano
Superpoder de paisano
Formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela
Carne-seca na janela
Alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade
Hospitaleira amizade
Brutalidade jardim

Ê bumba iê, iê boi
Ano que vem mês que foi
Ê bumba iê, iê iê
É a mesma dança, meu boi

Plurialva contente e brejeira
Miss Linda Brasil diz bom dia
E outra moça também Carolina
Da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos
E a saúde que o olhar irradia

Ê bumba iê, iê boi
Ano que vem mês que foi
Ê bumba iê, iê iê
É a mesma dança, meu boi

Um poeta desfolha a bandeira
E eu me sinto melhor colorido
Pego um jato viajo arrebento
Com o roteiro do sexto sentido

Voz do morro, pilão de concreto
Tropicália, bananas ao vento

Ê bumba iê, iê boi
Ano que vem mês que foi
Ê bumba iê, iê iê
É a mesma dança, meu boi.
(CANÇÃO)

DEUS VOS SALVE A CASA SANTA

Um bom menino perdeu-se um dia
Entre a cozinha e o corredor
O pai deu ordem a toda família
Que o procurasse e ninguém achou
A mãe deu ordem a toda polícia
Que o perseguisse e ninguém achou

Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve esta mesa farta
Feijão verdura ternura e paz

No apartamento vizinho ao meu
Que fica em frente ao elevador
Mora uma gente que não se entende
Que não entende o que se passou
Maria Amélia, filha da casa,
Passou da idade e não se casou

Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve esta mesa farta
Feijão verdura ternura e paz

Um trem de ferro sobre o colchão
A porta aberta pra escuridão
A luz mortiça ilumina a mesa
E a brasa acesa queima o porão
Os pais conversam na sala e a moça
Olha em silencia pro seu irmão

Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve esta mesa farta
Feijão verdura ternura e paz.
(CANÇÃO)

SEM TÍTULO

o poeta nasce feito
assim como dois mais dois;
se por aqui me deleito
é por questão de depois

a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara

ou seja :

quarenta e sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites
calmas, desperdiçadas.

saiba, Ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida :
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida

no canto esquerdo do riso?
No lado torto da gente?
talvez.
o que mais for preciso
não sei sequer se é urgente.

nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender –
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto, e querer

não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois :
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.

                             paris, europa, o brasil lá no brasil,
                                            seis de setembro de 1969.

LITERATO CANTABILE

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício :

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.

Link recomendado :  Gilberto Gil & Torquato Neto - Geleia Geral: https://www.youtube.com/watch?v=dg594OQENew

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE V

“voltando à descrição do ectoplasma, temos que este foi batizado por Charles Richet”

O fenômeno da medicina dos espíritos, tematizado no texto anterior, quando falamos das diversas manifestações do Dr.Fritz, segue aqui, desta vez, com o caso de Frederick Von Stein, e que nos remete aos documentos sobre materialização que existem na História do Espiritismo, mas que, em sua maioria, encerram um tempo de muitas décadas atrás, pois, lembrando deste processo histórico, tivemos um clímax na Europa da cultura dos salões, o que começou com os fenômenos físicos das mesas girantes e que evoluiu com a codificação intelectual de Allan Kardec, num salto qualitativo que deu condições ao Espiritismo de se estruturar e se fundamentar como doutrina e não mais como uma diversão de salão, o que era quase como uma mistificação de circo, na sua eclosão primeva.
Por outro lado, no Brasil, a expansão do Espiritismo, na sua vertente principal kardecista, em digressões variadas como em Ramatis, e no espectro africano que envolve o Candomblé e o sincretismo da Umbanda, temos uma nova primavera do Espiritismo já no século XX e que perdura agora no século XXI. Por sua vez, quando falamos dos fenômenos de materialização (e lembrando aqui que já falamos de Sai Baba e seus vibhutis e amuletos), é prudente nos situarmos no fato de que são fenômenos tão raros quanto a levitação, ou seja, a documentação é controversa e escassa, e são objeto de polêmica dentro do próprio meio espírita, repleto de fraudes comprovadas.
Bem, agora falando do Dr. Frederick Von Stein, este espírito possui uma história de manifestações, junto com suas falanges, que se deram no Lar de Frei Luiz. E um dos documentos que se referem à atuação destes médicos espirituais é a série de livros em formato de documentário do jornalista Ronie Lima, Médicos do Espaço, com a capa com a foto do doutor Frederick Von Stein materializado, e A Vida Além do Véu, em que temos a conversão do jornalista cético depois de alguns testemunhos dos fenômenos espíritas.
Na fundação do Lar de Frei Luiz, por sua vez, que fica na Taquara, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, temos a história emocionante do Dr. Luís da Rocha Lima, primeiro presidente do Lar em 1947. Uma das polêmicas é que quando se conta a história do doutor Frederick, ele é intitulado médico e ex-nazista do primeiro reich, ou seja, há um erro crasso de conhecimento histórico nesta versão, pois o Primeiro Reich seria o Sacro Império Romano-Germânico, surgido com o monarca Oto I, em 962. Tal reich acabou em 1806, com as invasões napoleônicas, ou seja, a léguas de distância do nazismo do Terceiro Reich. Aqui, portanto, fica a impressão de que, se não houve uma mistificação nesta comunicação, foi um caso de desatenção primária, pois o cuidado e rigor das comunicações espíritas eram recomendados pelo próprio codificador Kardec, não ao acaso, devido à sucessão ininterrupta de casos de espíritos zombeteiros, pseudo-sábios, e os mais nocivos, que são os ardilosos.
Bem, guardando esta gafe histórica, Frederick ganha o auxílio e orientação do espírito Frei Luís, mentor de Rocha Lima e patrono da casa espírita, e passa a atuar em tratamentos in loco e à distância, seja em cirurgias ou em anti-goécia, e sendo a materialização um dos meios de sua manifestação através de um desses raros médiuns que liberam ectoplasma para o concurso do fenômeno, o médium Gilberto Arruda, assassinado dentro do próprio Lar, de noite, sorrateiramente.
Falando propriamente da materialização dos espíritos, temos a fonte principal em Kardec, muito bem documentada, e foi no Espiritismo que tal fenômeno se tornou mais evidente, mesmo não sendo algo de propriedade espírita, uma vez que tal fenômeno vem desde os tempos bíblicos, com relatos, segundo certas interpretações, no próprio livro sagrado.
A parte pretensamente científica do Espiritismo, muito bem estabelecida no Livro dos Médiuns de Allan Kardec, se consolida com as descrições dos fenômenos de materialização dos espíritos, ocorrências estas que podem ser muitas vezes realizadas através do ectoplasma dos médiuns, e os cientistas oficiais do século XIX, com destaque para Camille Flamarion, consideraram estes fenômenos como o caminho próprio para uma nova linha de investigação da ciência.
O ectoplasma, por sua vez, é uma substância que se trata de um fluido viscoso que sai do corpo do próprio médium, e isto por meio de todos os orifícios do corpo do médium. E, na época de Kardec, tais fenômenos eram analisados e comprovados sob um rigor em que, muitas vezes, para evitar fraudes, os médiuns eram isolados e acorrentados, ficando até nus, tudo para comprovar a veracidade de tais fenômenos.
Temos que, por outro lado, em condições bem especiais, a manifestação visível de um espírito aos encarnados pode se dar, também, sem o concurso de um médium, e o processo envolve uma modificação na vibração do corpo espiritual, na verdade uma baixa nesta vibração, e que pode ser comparada a um disco de cores newtoniano, em que diminuindo a sua rotação temos como divisar as cores que até então estavam ocultas.
E, voltando à descrição do ectoplasma, temos que este foi batizado por Charles Richet, um médico fisiologista francês, e que é uma palavra que junta o grego ektós, fora, exterior, e Plasma. Substância viscosa, branca, quase transparente, com aspecto leitoso, evanescente sob a luz, que provém do citoplasma celular, do sistema nervoso central, ou seja, de um corpo material, isto é, do corpo do médium, ectoplasma que pode ser moldado pela energia do próprio pensamento e vontade do médium que o expele pelos orifícios, ou ainda também moldável pelos espíritos desencarnados, massa esta que, por sua vez, é sensível à luz, eletricidade e magnetismo, e neste fenômeno, por fim, tais espíritos podem atuar sobre a matéria, em sessões em cabines escuras, devido à questão da sensibilidade extrema da materialização em relação à luz.
Em 1870, temos a pesquisa do físico e químico inglês William Crookes, o descobridor do elemento "Talio" (TI), ele que se volta ao fenômeno da materialização dos espíritos, inicialmente, com a intenção de revelar as fraudes e ilusões que ele esperava descobrir, mas, no entanto, depois de três anos de estudos e investigações, ele se depara com a jovem médium de 17 anos, Florence Cook, que era considerada um fenômeno em sua época, e que já havia sofrido denúncia de fraude. E depois de uma análise rigorosa seu veredicto era espantoso, a médium era capaz de liberar uma quantidade colossal de ectoplasma, em transe mediúnico, e em meio disso se materializava o espírito feminino de Kate King, que ficava andando e falando por mais de duas horas seguidas, e Crookes, por fim, anexou à sua pesquisa 48 fotografias.
Como nos relata Gabriel Delanne, um dos continuadores da codificação de Allan Kardec, junto com Léon Denis, temos : "William Crookes foi, na Europa, o primeiro cientista que teve o valor de comprovar, escrupulosamente, as afirmações dos espíritas. Muito cético, a princípio, suas investigações o conduziram progressivamente à convicção de que esses fenômenos são verdadeiros e não titubeou um único momento em proclamar, em alto e bom som, a certeza em que resultou o seu trabalho.” Se seguiu a esta pesquisa pioneira, várias outras pesquisas de cientistas renomados, tais como César Lombroso, este na Itália, Richet, que cunhou o termo ectoplasma, como dito acima, que, junto com Camille Flamarion, Gibier e De Rochas, na França, comprovam a mediunidade de Eusápia Paladino.
Por sua vez, temos o testemunho de Camille Flamarion, um dos mais importantes astrônomos do século XIX, francês, que nos diz : “"Porque, senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o ABC. O tempo dos dogmas terminou. A Natureza abarca o Universo. O próprio Deus, que outrora foi feito à imagem do homem, não pode ser considerado pela Metafísica moderna senão como um espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas através dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma Ciência desconhecida."

Link recomendado : Materialização de Almas, Espíritos, Paranormal - Jornalista Revela em 3 Livros - Ronie Lima : https://www.youtube.com/watch?v=jy6tkndDwPE

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.






sábado, 6 de abril de 2019

GURUS E CURANDEIROS - PARTE IV


“Zé Arigó conseguiu ver um personagem calvo, com avental branco, supervisionando uma equipe de médicos e enfermeiros”

DR FRITZ

Segundo um relato não comprovado, no ano de 1853, em Munique, na Alemanha, nascia Adolf Friedrick Fritz, de família abastada, mas logo perdeu os pais, sendo tutelado pelos avós. Depois de alguns desentendimentos entre os seus avós, Adolf teve dificuldades em desenvolver-se nos estudos, pois teve que trabalhar desde cedo. Mas conseguiu, no entanto, conhecimento sobre medicina. Se dedicou então aos difíceis estudos na Faculdade de Yverdun, na Suíça.
Depois de se especializar em cirurgia, Adolf operou uma filha criança de um general que veio a falecer. Então, Adolf foi considerado culpado pela general, e Adolf foi preso em cela subterrânea, aonde foi torturado na solitária. Dentro da prisão, Adolf só conseguiu superar a sua mágoa com o auxílio da filha desencarnada do general e de seu mentor espiritual, Fabiano de Cristo, e seus sentimentos tiveram que mudar para que Adolf não se desviasse de sua missão. Um dia, com a cela aberta, ele fugiu para a Estônia, aonde se aprofundou no conhecimento sobre cirurgia.
Aos 61 anos, Adolf foi mandado para o front da Primeira Guerra Mundial como médico cirurgião. Com poucos recursos, seus conhecimentos de cirurgia foram então desafiados, até que durante o conflito Adolf foi atingido por estilhaços de uma explosão de granada e faleceu em 1918.
Já no mundo espiritual, passa pelo processo de livramento das mágoas, com o socorro de seu mentor Fabiano de Cristo, e depois de passar pelo umbral, descobre que para alcançar a luz, esta teria que ser gerada dentro de seu espírito, e Adolf então segue à sua missão de caridade, já com os horrores da guerra e os maus sentimentos superados.
E, depois de um tempo, com a orientação do espírito do Dr. Bezerra de Menezes, este que organizava os trabalhos das equipes de socorristas espirituais, na divulgação, também, da realidade da pluralidade das existências, já na edificação da FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo).
Quando começa a missão espiritual de Adolf, este passará a ser mais conhecido, contudo, como o Dr. Fritz. No plano espiritual elevado, no amparo fraterno de Francisco de Assis, é designado o espírito de Francisco de Antônio Francisco Lisboa (conhecido como Aleijadinho), no auxílio e orientação do médium José de Freitas, que ficaria mais conhecido como Zé Arigó. É então que este médium passa a incorporar o espírito que agora seria denominado de Dr. Fritz.
Nos anos 1950, Zé Arigó sofria perturbações que envolviam visões, transes, insônias e dores de cabeça que quase o levaram à loucura. Ainda havia, também, uma voz que lhe acompanhava aonde quer que fosse. Contudo, depois deste período em que a sua mediunidade se encontrava em desarmonia, esta voz que lhe acompanhava o levou a um estado de desdobramento, foi quando Zé Arigó conseguiu ver um personagem calvo, com avental branco, supervisionando uma equipe de médicos e enfermeiros, tudo isso dentro de uma sala de cirurgia.
O espírito, embora falasse outra língua, era compreendido por Zé Arigó, e naquele momento o médium era o escolhido pelo Dr. Fritz para a realização de suas cirurgias e curas espirituais. A partir daí, Congonhas passou a ser o centro em que o trabalho do Dr.Fritz, via Zé Arigó, se desenvolveu. Zé Arigó, por fim, foi processado por prática ilegal de medicina ao menos por duas vezes, e morreu num acidente de carro em 1971, morte violenta que fora prevista pelo próprio médium como um pressentimento inexplicável.
Tragicamente, após a morte de Zé Arigó, o Dr.Fritz passou a se manifestar através de dois médiuns baianos, os dois eram irmãos, e após a morte do primeiro em um acidente automobilístico, o espírito do Dr.Fritz passou a se manifestar no outro irmão, este que também viria a morrer num acidente automobilístico. Dr.Fritz também se manifestou em um médium mato-grossense, o qual foi detido em 1998 acusado de exercício ilegal da medicina, charlatanismo e formação de quadrilha. Atualmente, o médium atua em Uberaba, Minas Gerais.
Ao final da década de 1970, Dr.Fritz também se manifestou em um médium pernambucano, que teve seu registro profissional de médico cassado posteriormente, sendo enfim absolvido em 1985 pelo Conselho Federal de Medicina, o médium acabou sendo assassinado a facadas pelo seu caseiro em 1991. Dr.Fritz continuou se manifestando em alguns médiuns, dentre eles podemos destacar a médium Aylla Harard, que me meados de 2003 começou a trabalhar com a entidade do médico.
Dr.Fritz, já em cinco décadas de atuação espiritual, passa do receituário instantâneo, além das cirurgias sem assepsia com instrumentos perfuro-cortantes aparentemente inadequados, e incrementa seu tratamento, posteriormente, com água fluidificada, passes e desobsessão. Suas cirurgias sui generis sempre tiveram a característica de quase nenhum ou ausência total de sangramento, cicatrizações rápidas sem necessidade de suturas, nada de infecções pós-operatórias, dores ausentes ou reduzidas durante as intervenções, e tudo isso com uma instrumentação de assepsia questionável.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





sábado, 30 de março de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE III


“Jim Jones foi o fundador e líder do culto Templo dos Povos”

Seguindo aqui a reflexão sobre o fenômeno social e espiritual dos gurus, não poderia me furtar de citar o caso de João de Deus, este que não representa um guru em termos propriamente orientais, ele pode melhor ser chamado de médium de cura, portanto, um curandeiro. E aqui temos ele como um grande vulto do Espiritismo brasileiro, e que hoje está envolto numa ciranda de escândalos sexuais e até outros crimes que serão aqui tematizados.
João de Deus construiu sua fama e a estrutura de sua atuação espiritual e econômica em Abadiânia, no estado de Goiás. Foi por orientação de Chico Xavier e do dito espírito Bezerra de Menezes que João de Deus fundou em 1976 a casa espírita “Casa de Dom Inácio de Loyola”. Sua atuação atraía diversas pessoas, até celebridades e pessoas ilustres, mas agora o médium se vê em meio a denúncias de abuso sexual que já somam mais de trezentos casos com mulheres, todas estas que foram buscar ajuda em seu centro ou casa espiritual. O pedido de prisão preventiva foi decretado em 14 de dezembro de 2018 e João foi tomado como foragido, mas se entregou no dia 16 de dezembro de 2018.
João de Deus sempre foi denunciado por exercício ilegal da medicina, pois fazia curas e cirurgias sem a higiene ou esterilização dos instrumentos, em operações milagrosas, sem explicação científica. Pode ser que a cura seja produto de sugestão psicológica, ou pode ser que a cura seja real e de origem no desconhecido, os relatos são diversos e contraditórios, não há uma prova cabal a favor ou contra as curas de João de Deus, e o impressionante é que a quantidade de curas e cirurgias dariam para encher um catálogo enorme de casos, mas a prova experimental, científica, não se tem, ou tampouco podemos dizer que se trata de charlatanismo, a não ser para prosélitos do ceticismo radical.
Por sua vez, os outros crimes de João de Deus envolvem atentado ao pudor, contrabando de minério e homicídio. Quanto às denúncia sexuais recentes, elas se multiplicaram rapidamente, e o estopim foi o programa de televisão Conversa com Bial, aí se abriu a caixa de pandora do curandeirismo de Abadiânia, somando cerca de trezentas denúncias. A grande característica do modus operandi de João de Deus, por sua vez, era a de que o médium, durante os atendimentos espirituais, ele dizia para as mulheres que a “entidade” com a qual ele ficaria incorporado dizia para encontrá-lo numa sala anexo, pois ali receberiam a cura de que precisavam. E era nesta sala que todos os abusos aconteciam.
A Federação Espírita Brasileira (FEB), quando as denúncias se tornaram públicas e notórias, divulgou nota de que não há orientação nenhuma de serviços espirituais se darem em isolamento com médiuns e pacientes, os atendimentos espirituais são propriamente realizados em ambientes coletivos, tanto os passes coletivos como as consultas individuais. Por sua vez, o número absurdo de denúncias sexuais acusando João de Deus levou os Ministérios Públicos de São Paulo e Goiás a criar uma força-tarefa para apurar o escândalo. O resultado é que João de Deus encontra-se detido até então.
Jim Jones, por sua vez, é outro caso emblemático de guru e de lavagem cerebral deliberada. Jim Jones foi o fundador e líder do culto Templo dos Povos, este que se iniciou na década de 1950, em Indiana, foi para a Califórnia nos anos 1960 e se tornou um templo famoso com o movimento da sede da igreja em São Francisco, já no início dos anos 1970. Jim Jones passou a sua infância entre leituras de obras políticas e sociais, já imbuído de um misticismo pretensioso que o levaria a se tornar o futuro líder espiritual de seita. Ele que, de sua leitura política, simpatizou com o marxismo e a luta dos negros norte-americanos contra a segregação racial.
Em 1961, já tomado por sua inclinação egotista e mística, ele fez um discurso sobre o apocalipse nuclear e listou Belo Horizonte, em Minas Gerais, em um artigo de 1962, como lugar seguro em uma possível guerra nuclear. Já em 1973, após deserção de oito jovens da seita, a liderança de Jim Jones se fortalece e assim também a sua influência psicológica, e ex-membros já relatavam os planos e simulações de suicídio coletivo.
Em 1974 o Templo dos Povos arrenda uma gleba de terra na Guiana, onde se ergue o “Projeto Agrícola”, e nasce então ali a comunidade denominada Jonestown. Jones, em 1977, é acusado de manter sob custódia o filho de um ex-membro da seita, Timothy Stoen, que apela ao congressista democrata Leo Ryan para apelar pela custódia do filho ao presidente da Guiana naquele tempo, Forbes Burnham. Em 1978, Leo Ryan é autorizado pelo Congresso norte-americano para ir à Guiana, e a viagem tinha o fito de investigar denúncias de sequestro e situações de miséria dentro da comunidade Jonestown.
Ryan, com sua comitiva, tiveram uma ótima impressão da comunidade, já em novembro de 1978, mas logo houve deserções de alguns membros em Jonestown, o que levou a um estado de tensão no local, e Jones denunciou os desertores como traidores, e depois de um ataque de faca contra Ryan, este decidiu acelerar a sua partida do local, mas já na pista de pouso, o avião foi alvejado pela guarda que fazia a segurança de Jim Jones, no que morrem Ryan, três repórteres e um ex-membro da seita. No mesmo dia do assassinato de Ryan, por sua vez, também ocorre o suicídio coletivo mais conhecido e notório da História, o do Templo dos Povos, liderado por Jim Jones. 909 habitantes de Jonestown, incluindo aí 304 crianças, todos morrem envenenados por cianeto.
O FBI conseguiu recuperar uma gravação de áudio do suicídio em andamento, mais tarde, o que foi bastante esclarecedor do contexto e da situação toda que resultou em tal tragédia. É nesta gravação que Jim Jones convence os membros da seita a se suicidarem, pois não haveria mais ajuda de fuga através dos soviéticos, pelo assassinato do congressista norte-americano, e que, portanto, a conspiração contra o templo estava sendo urdida e que haveria o assassinato de seus membros pelas agências de inteligência. Jones então argumenta que todos deveriam cometer um “suicídio revolucionário”, bebendo suco de uva com cianeto e sedativos. Por sua vez, o suicídio coletivo já havia sido ensaiado algumas vezes, eventos simulados chamados de “Noites Brancas”.
Leslie Mootoo, médico que chegou ao local após o evento, disse que havia mais casos de homicídio do que de fato suicídio na tragédia de Jonestown. Ele relatou que 83 dos 100 corpos que examinou tinham perfurações de agulha nas costas, o que pode indicar injeção letal contra a vontade das vítimas. Jim Jones, por sua vez, foi encontrado morto em uma cadeira de praia com um tiro na cabeça, supostamente auto-infligido. O filho de Jones, no entanto, sustenta a versão de que Jim Jones pediu para ser assassinado, e uma autópsia do corpo dele revelou uma dose letal do barbitúrico Pentobarbital, dose que só seria não-letal por quem desenvolveu tolerância fisiológica, no que temos o relato de que Jones fazia uso de drogas, incluindo aí o LSD.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.