PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 30 de maio de 2025

LICENCIAMENTO AMBIENTAL

“Há um conluio de interesses privados”

O Senado Federal aprovou o Projeto de Lei (PL) 2159, no dia 21 de maio, o que desfere um golpe direto nas regras de licenciamento ambiental no Brasil. O projeto ficou ainda mais tendencioso com as emendas à proposta original feitas no Senado, e o PL segue para a Câmara dos Deputados que, caso aprove a nova redação feita no Senado, e caso o governo apresente ou não vetos, parciais ou integrais, poderá haver uma ação do STF para salvaguardar a Constituição Federal. 

Tal avanço da boiada, já propalada pelo ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, Ricardo Salles, agora é iminente, e vem junto ao pacote que já inclui a Lei do Marco Temporal, desmantelando direitos originários dos indígenas à terra. 

Esta orquestração é feita pela mesma turma da balbúrdia que agora também quer anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023 e a conspiração criminosa de Jair Bolsonaro et caterva que, no limite, foi voto vencido entre as três forças armadas, num placar de dois a um. A mentalidade do golpismo, portanto, quando não se dá diretamente, vem como rolo compressor sobre direitos adquiridos pela Constituição Cidadã de 1988. 

Neste caso de abrir a porteira para interesses privados, manietando o licenciamento ambiental, tal se dá na antevéspera da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada no Brasil, mais precisamente em Belém, no Pará, em novembro deste ano. Tal paralelismo nefasto coloca o Brasil em uma contradição diante da comunidade internacional, pois aprova um projeto negacionista do ponto de vista ambiental, ao mesmo tempo que será sede de uma conferência mundial do clima. 

Dentre os retrocessos do PL da Devastação está a chamada Licença Especial, considerada estratégica pelo Conselho de Governo, e que dispensa de licenciamento ambiental atividades econômicas como a agropecuária, e para empreendimentos de médio porte, com potencial poluidor. Temos também a chamada Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que funciona como autolicenciamento direto, sem ressalvas. Há uma chicana no projeto que restringe a definição do que seriam as condicionantes ambientais. 

Por fim, tal PL passa a desconsiderar, por exemplo, impactos ambientais sobre territórios quilombolas e indígenas que ainda não foram regularizados. Se abre um precedente para o avanço tanto do agronegócio como da mineração, acelerando projetos como o da exploração de petróleo na foz do Amazonas, a Ferrogrão, além de liberar a exploração de potássio no rio Madeira, no Estado do Amazonas.

Com a Lei do Marco Temporal, e agora com o avanço do PL da Devastação, se instala a necropolítica de negacionismo ambiental, na atuação de parte de um Congresso Nacional que vai de encontro às garantias previstas na Constituição Federal, atingindo direitos fundamentais e consensos científicos. 

Há um conluio de interesses privados que coloca a máquina pública, via política institucional, a serviço de objetivos capitalistas onívoros, tão sutis como o correntão, diante de um Poder Executivo que vendeu barato diante do fim do presidencialismo de coalizão, neste parlamentarismo branco e fisiológico do Centrão.

Este estamento do Centrão atua como um vírus na administração pública desde prístinas eras, em várias versões, com  antepassados nas sesmarias do período colonial, originários daqueles degredados de moral duvidosa, fugidos de Portugal, cuja genética passou para frente neste estamento atávico do clientelismo e do conchavo. Ou seja, o governo ficou ausente, estabelecendo um diálogo fraco com o Congresso Nacional, e deixou isolados ministérios e autarquias que poderiam salvaguardar os direitos fundamentais que foram atingidos.

Por outro lado, a bancada do agronegócio, uma das mais poderosas, atualmente, no Congresso Nacional, batizou o projeto de “destrava Brasil”, pois reduzirá a burocracia na implementação de atividades econômicas no Brasil, atraindo investimentos, e recebendo apoio do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), que chegou a fazer uma reunião com ruralistas defendendo o projeto. 

Por sua vez, parte da bancada governista no Senado, liderada pelo PT, além do Ministério do Meio Ambiente, comandado por Marina Silva (Rede), se manifestaram contra o projeto. Por sua vez, existem dúvidas se o governo Lula conseguirá evitar a aprovação da PL, uma vez que tem apoio da bancada ruralista e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil - AP).

O projeto, na sua definição e defesa, tem objetivos como a desburocratização, pois para apoiadores, o PL simplifica e agiliza o processo de licenciamento ambiental, o que pode destravar cerca de cinco mil obras de infraestrutura que se encontram, atualmente, paralisadas por entraves burocráticos. 

A Licença por Adesão e Compromisso (LAC), por sua vez, é um dos mecanismos criados para permitir o licenciamento ambiental automático, bastando uma autodeclaração do empreendedor, sem a necessidade de estudos prévios de impacto por órgãos ambientais. Temos também a chamada Dispensa de licenciamento, isentando deste processo atividades de agricultura tradicional, pecuária de pequeno porte e obras para ampliação de estradas e para a construção de viadutos e pontes. 

Temos ainda a redução do papel do Ibama, em que, por exemplo, áreas da Mata Atlântica, por sua vez, terão apenas a necessidade de autorização para desmatamento pelos estados ou municípios, o que retira a obrigatoriedade de autorização do Ibama. Temos o Licenciamento Ambiental Especial, que acelera a liberação de projetos estratégicos para o governo federal, independentemente de impacto ambiental. Tais medidas representam um retrocesso a realidades como a de Cubatão, nos anos 1980, que tinha altos índices de poluição e contaminação. Seus defensores, por outro lado, destacam o fim das intervenções do Ibama e das secretarias estaduais, que paralisam obras.

Para os críticos da PL, por outro lado, teremos impactos em projetos localizados em áreas sensíveis, como é o caso da pavimentação da BR-319, que liga Rondônia e Amazonas, além da facilitação para a perfuração de poços exploratórios de petróleo, não tendo ainda influência em um projeto encampado pela Petrobras, que é o do Bloco 59 na Foz da Bacia Sedimentar do Rio Amazonas, na Costa do Amapá, mas já podendo ser aplicado aos 47 blocos exploratórios que poderão ir a leilão em julho deste ano.

Neste cenário de aprovação do PL da Devastação ficou evidente a fraqueza da bancada governista diante da tramitação do projeto nas comissões do Meio Ambiente (CMA) e Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado. O projeto foi aprovado nas comissões sem dificuldades e seguiu para a sua aprovação em plenário. O governo está fraco, num momento político em que estoura o escândalo das fraudes no INSS, em que existe a possibilidade de abertura de uma CPI para investigar o caso.

Contudo, a votação no Senado foi rápida, diante de uma proposta que tramitava no Congresso há mais de vinte anos. Marina Silva ainda quer abrir diálogo quando o projeto voltar à Câmara dos Deputados, para discutir um novo relatório para o projeto, pois considera a redação que saiu do Senado uma tragédia ambiental, lembrando episódios como os de Mariana e Brumadinho. 

A ministra também lembrou que o projeto aprovado tira do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) a competência de deliberar sobre projetos de licenciamento ambiental, com a transferência da decisão para estados e municípios, e que pode criar uma espécie de guerra fiscal entre eles, nivelando tudo por baixo, no leilão de quem irá atrair mais investimentos para si, diminuindo os regramentos ambientais. Por fim, Organizações como o Observatório do Clima também se manifestaram contra o PL, afirmando haver riscos ambientais e à saúde pública, além de se omitir nas questões climáticas.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

TERRORISMO DIGITAL - PARTE 2

“Há uma interconexão das subculturas do ódio”


Temos uma incelsfera que passa de meninos frustrados e vulneráveis, indo para meninas recrutadas, gays, em que se juntam pessoas do espectro de celibatários involuntários, e que são cooptados para práticas violentas, como resultado de inadequação afetiva e social, baixa autoestima, bullying e rejeição. É uma junção de fatores de sofrimento mental e, algumas vezes, incluindo a saúde mental, como pessoas depressivas e com ideações suicidas.

Além da comunidade de incels, como citado, a de fetichistas de true crime pode incluir a TCC (True Crime Community), que é um fandom de assassinos em série e terroristas. Temos ainda a Gore, com violência extrema, MMC (Maniac Murder Cult), subcultura surgida na Rússia, que glorifica e faz apologia a serial killers, assassinatos em massa e violência extrema, a ED, que faz apologia de transtornos alimentares, a Sh, de automutilação e suicídio, e a Cannibal, de apologia ao canibalismo.

Pode-se incluir, ainda, a machosfera ou manosfera, os MGTOWs, de masculinistas de direitos dos homens, PUA (pick-up artists), estes praticam coaching de sedução, conquista e submissão feminina, culminando com a Terrorgram, que é uma rede internacional de terrorismo neonazista aceleracionista. Por fim, temos a Com-network, que está relacionada à Ordem de Nove Ângulos, rede internacional neonazista e satanista, que está bem presente no Brasil, e é muito influente no Discord, em que se estimulam a produção de vídeos ao vivo de violência contra animais e de sextorção, em que o indivíduo faz automutilação com o nome de seu líder.

Há uma interconexão das subculturas do ódio e, portanto, uma mistura de ideologias, em que o usuário recebe propaganda extremista, podendo virar produtor de conteúdo e de vídeos curtos, chamados edits, recebendo materiais ideológicos como livros, e sendo exposto a banners e memes, numa junção de material de inspiração e de instrução, para realizar a cooptação deste indivíduo para a radicalização online. Nestes fóruns, por sua vez, se aprende manuseio de armas e explosivos, uso de impressora 3D para a fabricação de fuzil, uso de produtos químicos, técnicas de envenenamento, assassinatos etc.

Dentro desses grupos se cria uma sensação de pertencimento de identidade, numa disputa de status interno, que envolve todo tipo de crime e de crueldade, com desafios, pontuações etc. E a identidade individual passa por uma fusão com a do grupo, diluindo-se em extremismos. Estes grupos são pós-organizacionais, pois não possuem hierarquia, com uma horizontalidade formada por uma cadeia contínua de radicalização, passando de um indivíduo ao seguinte.

Tais fóruns não estão mais somente na deep web, pois se encontram à mão, em aplicativos e plataformas ao alcance de adolescentes e crianças. No Brasil, os focos de radicalização estão no Telegram, Discord, Clover Space, que foi o antigo Project Z, que o Google desospedou da Play Store, e que voltou à loja com este novo nome. Outro foco é a mediação feita pelos stories do Instagram e pelo Tik Tok para estas plataformas mais nichadas. 

Casos evidentes de influência são, por exemplo, o Zangi, que funciona de modo semelhante ao WhatsApp, temos o SimpleX, que só tem porcaria, além de neonazis e extremistas islâmicos no X, antigo Twitter. No Tik Tok, por sua vez, há uma cooptação que transporta para o Telegram e o Discord, onde existem edits, que antes se chamavam de Lulz, e que hoje são denominados eventos, que são vídeos de violência ao vivo, com plateia, nos chats,  estimulando os atos, e que pode incluir desafios valendo dinheiro ou para a conquista de status intragrupo. 

E agora temos pagamentos via Pix ou Robux (moeda digital do jogo Roblox). E tudo envolvendo jovens que, nos últimos tempos, tiveram um desenvolvimento diferente de outras gerações, com diminuição do contato social e incremento da vida online, o que dificulta a aprendizagem de limites de convivência, com falta de referências concretas e vivências reais profundas e formadoras, virando alvo de extremistas do radicalismo online.

Tais fóruns radicais, portanto, viram os lugares em que tais jovens podem encontrar a sensação de pertencimento, com a fusão de suas identidades a tais grupos da internet. Faltando ao Brasil, por sua vez, um embasamento acadêmico amadurecido de prevenção e combate ao extremismo online, também refletindo uma falta de aparato jurídico, como um projeto de lei objetivo e fundamentado. E na esfera da segurança pública faltam investimentos em inteligência e pessoal, além da falta de um direcionamento específico.

Projetos de desradicalização, como o Prevent, do Reino Unido, estão bem distantes da realidade brasileira. Pois é no Prevent que se faz avaliação de risco, a partir de relatos de pais preocupados ou desconfiados de um filho ou filha, em que pode ser mobilizada, caso necessário, uma equipe com psicólogos e assistentes sociais para desligar este indivíduo de ideologias radicais nas quais ele estiver envolvido. 

Em geral, quando tais problemas acontecem, já é tarde, e a polícia já está à porta, e os pais só percebem depois, embora este caminho para uma ação violenta seja para alguns, pois outros ficarão na idealização. E os sinais de radicalização, por exemplo, podem estar em uma comunicação violenta, isolamento social, roupas que cobrem o corpo, podendo ocultar cortes de automutilação, além de muito tempo passado dentro do quarto. 

A vigilância, por sua vez, se dá presencialmente, vendo com quem o adolescente está se relacionando na internet, pois o acesso a estes fóruns não dependem mais da deep web, pois estão nos smartphones, dentro de aplicativos e plataformas. E para menores de 15 anos, o melhor é que se evite o acesso deles ao celular. 


Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. 

Mapa da Saúde Mental

O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 


domingo, 18 de maio de 2025

MADELEINE

No caminho de Swann, eu tive a minha Macondo.

Vasto o campo, no passeio das uvas, em que

corria o vinho infante, da poesia ainda crisálida,

mormente, na lúdica brincadeira de rua.


E que, de súbito, a vida se expandia,

nos rios e nos mares, na terra fértil,

na imaginação atenta, e os dias da

manhã e da tarde, e os sinos da noite.


Tempo este reino da vida, com os ares

das vindimas, das colheitas de uma

boa infância, com a abertura de um

horizonte pleno, como se faz arte

em dia de guerra, e arte em dia

de paz, como se faz abundância

como deve ser a vida.


Não nascido acabado, qual o mito

de Palas Athena, já com a cornucópia

diante da visão, o romance de formação

teve este tempo de maturar os frutos,

viver as flores, haurir das raízes

e suas fontes, como uma Macondo,

mágica, evocada na memória

de Swann, olhando para o chá

de tília, de sua sensação fugaz,

evanescente, um dia vivida.


18/05/2025 Gustavo Bastos - Sublime

quinta-feira, 15 de maio de 2025

TERRORISMO DIGITAL - PARTE 1

“está acontecendo uma expansão e aceleração do extremismo na internet”


Houve uma mudança no perfil dos ataques terroristas nos últimos 10 a 15 anos, sobretudo no que se refere a filiações, se destacando um caráter preponderante de lobos solitários, em fenômenos aleatórios, antes de sua apuração, e sempre imprevisíveis, pois os mecanismos de controle e vigilância nunca são os ideais e, por sinal, nem existem, efetivamente, para estes casos, que são fomentados e eclodem cada vez mais rápido, sob a influência, agora, da internet. E agora pessoas cada vez mais jovens são cooptadas e recrutadas para tais ataques.

O terrorismo de organizações, de execuções coordenadas continua, mas foi ultrapassado por um tipo de ataque difuso ideologicamente, normalmente obedecendo a uma nova dinâmica de internet chamada de “salad bar”. Esta dinâmica é nada mais que a mistura de diferentes ideologias, que estão nos grupos e fóruns da internet, em sites como Discord, Telegram, Roblox etc, que formam o caldeirão em que, geralmente, e ultimamente, alguém muito jovem, vai se alimentando, por diversos motivos, e explode, logo em seguida, ao realizar um ataque, ou de tiroteio, ou de terrorismo.

As comunidades extremistas online influenciam estes jovens que, neste caso, têm acesso a informações sensíveis, dentre elas algo de forja e técnicas de ataque, mas nada que constitua um treinamento formal ou que envolva recursos diretos de uma organização. E o aumento deste terrorismo de lobo solitário ocorreu em conjunto com a expansão do fenômeno de tiroteios com vítimas em massa.

Na virada para o século XXI tivemos o aumento vertiginoso de tiroteios em massa nos Estados Unidos. E de algo de características norte-americanas, tais ocorrências começaram a se espalhar por outros países. Houve um crescimento na Europa Ocidental, por exemplo. A dificuldade de definição ideológica e de motivações coloca uma zona cinzenta na própria classificação do que é somente tiroteio em massa e do que é terrorismo. E na última década tal fronteira se tornou mais tênue. 

O desafio destes ataques contemporâneos se dá sobretudo na cognição de seus rastros, pois possui características como isolamento individual, são pessoas que não estavam em grandes redes de comunicação e nem tinham amplo apoio financeiro, colocando um nível de dificuldade considerável na detecção desses planos, antes que aconteçam. A escala reduzida e seu curto prazo de preparação colocam tais ataques como praticamente imprevisíveis. Os meios de controle e vigilância se dão por infiltrações investigativas, mas são insuficientes para cobrir fóruns de barbárie que se multiplicam ao invés de diminuir.

A cooptação de jovens por tais grupos extremistas se tornou corrente, e isso se deve ao fato de que muitos desses jovens possuem conhecimento de tecnologia e passam um longo tempo online, se tornando alvos vulneráveis de propaganda extremista e manipulação ideológica. A vulnerabilidade pode se dar por gatilhos, via catalisadores como frustrações pessoais, traumas, problemas de saúde mental, imitação, além da exposição simples à propaganda extremista. O limiar, por sua vez, pode ser trabalhado pela estabilidade psicológica, limites morais, pessoais, e resiliência. Tudo passa pela capacidade do indivíduo de conter ou auditar suas motivações e emoções.

Contudo, está acontecendo uma expansão e aceleração do extremismo na internet, com focos cada vez maiores e mais espalhados de radicalização e uma facilidade cada vez maior, também, de acesso a estes materiais criminosos. Somado a isso, plataformas com algoritmos que promovem conteúdos radicais criam bolhas e moldam o caráter vulnerável de indivíduos que são atraídos, expostos e cooptados através do extremismo violento e radical na internet.

O ISKP (Estado Islâmico da Província de Khorasan), por exemplo, dissemina conteúdo multilíngue, através de postagens em pashto, dari, árabe, urdu, farsi, turco, tadjique, uzbeque, russo e inglês, incentivando a formação de grupos baseados no conceito de salad bar, de mistura ideológica, com tutoriais online que ensinam a construção de explosivos caseiros, aquisição de armas de fogo etc. Esta rede está em franca expansão.

Fenômenos geopolíticos diversos também fomentam focos e surtos de radicalização, se juntando aos citados problemas pessoais de tais indivíduos, com gatilhos que podem produzir um ataque violento. O risco de terrorismo de lobos solitários só aumenta devido ao fato de termos, cada vez mais, conjunções sociopolíticas de frustração, juntando às condições pessoais desses indivíduos, fatores também de caráter psicossocial. A alienação cultural e a falta de perspectivas, algumas vezes se ligando a fatores de ordem de saúde mental, são os perpetradores desse terrorismo vindo da internet. 

Tais fenômenos de lobos solitários remetem, historicamente, ao período de virada do século XIX para o XX, em que ocorreu a era do terrorismo anarquista, em que lobos solitários atuavam desta forma, pela rejeição a formas organizadas ou que tivessem lideranças e hierarquias. Um desses ataques foi o do assassinato do presidente norte-americano McKinsey, em 1901, por exemplo.

Atualmente, a radicalização acontece online, de modo difuso, misturando incels, neonazistas, satanistas, pedófilos, jihadistas, machosfera, fetichistas de true crime, incentivadores de suicídios, tudo com um pano de fundo que pode passar, por exemplo, por uma versão remodelada de aceleracionismo, uma filosofia que veio da esquerda, agora em interpretações neonazistas e extremistas de direita. É este mistifório que forma o que se chama de subculturas online de radicalização e extremismo.

Ocorre uma crueldade cada vez maior, monetização através de desafios online para crimes diversos e mutilações autoaplicadas, além de brincadeiras perigosas e vídeos de Child Porn, que são gravações de pornografia infantil, que são produzidos, compartilhados e vendidos por e para pedófilos na internet. Ainda temos transmissões ao vivo em que se cometem violências contra animais e moradores de rua, por exemplo.

(continua)


Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. 

Mapa da Saúde Mental

O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/terrorismo-digital-parte-i/

quarta-feira, 14 de maio de 2025

SATURNAL CRAVADA

Querendo o vil metal, o plano se escrevia além,

e a conquista da jarda, do metro, do coro,

e toda a verve esmerada, em teu cancioneiro

deambulado, arisco, traçava, no caminho,

o trajeto de ascensão da inteligência.


O poema esteta toda esta chama viva,

torna estrela o enfado, o dia morto,

e brilha na tarde à rodo deste sistema,

em que o cinza das horas, em pé quebrado,

batendo as cloacas das eríneas, dos cíclopes,

dos sem eira e nem beira, não apaga 

toda esta riqueza que já estava lá, 

junto ao vento do crepúsculo,

 na brisa, em melodia, neste tecido

sensorial de maresia e fortuna.


Pondo este canto diante da estrada,

o sol abre e a lua desce, e esta

bacanal grita, nas saturnais,

nos ditirambos da mata densa,

com os orixás batendo a estaca

e o estuque no pau a pique.


14/05/2025 Gustavo Bastos - Monster

COELHO CORRE

No quintal estava uma pereira,

e ventava vendaval de praia,

se ouvia o marulho, e no buraco

do quintal o coelho corria,

sua azáfama recreava

a tarde, os rios de poema.


Caía a pera, se bebia bem,

cada copo de cerveja,

eis que depois vem o coelho,

de novo, correndo pelo campo,

na boca uma cenoura, uma alfafa,

e zás, de um súbito, estava tudo

pronto, a palavra escrita

e uma pera no desjejum.


14/05/2025 Gustavo Bastos - Vibe 

GONGÓRICO CONCRETO (CAOS RABELASIANO)

Demagogo, Góngora quevedista,

em veio rebuscado, nestametista,

diamantada, amadalmazul.


Eis o forje, a veia aberta

dos corpos modos ritmos

e a auroradamanhã,

este poemamor, 

mamado.


Um canto bebum,

bebendo a lufada,

destemundovirado

ardor do dormente

verde vivo vermelho

verme morto ferve.


Verdor amar mar ritmo

facadalma coração do

navio que via o sol

e o poeta nada nadava

amando mar marulho

nau palavra onda

que gira anuvem.


Gustavo Bastos - 14/05/2025 

Vibe