PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O TELEGRAM E A PRISÃO DE DUROV - PARTE 2

 “autoridades legais responsabilizaram pessoalmente Durov pelos problemas do Telegram”


Depois que o governo russo tentou banir o Telegram em 2018, em face da recusa de Durov de fornecer a descriptografia para os serviços de segurança do país, ao passo que este tentou desafiar esta exclusão, ao invés de um conflito sem volta, o banimento do aplicativo acabou suspenso em 2020. E a situação virou ao se ver hoje que o Telegram é uma das poucas plataformas estrangeiras (sua sede fica em Dubai, nos Emirados Árabes) que opera livremente na Rússia e, mais ainda, sem ter feito qualquer concessão ao Kremlin, apesar de Durov afirmar que deixou o país depois da briga de 2010.

Com esta prisão recente de Durov, por sua vez, o Kremlin trabalhou rapidamente em nome do CEO, com a Embaixada da Rússia em Paris indo atrás de soluções. Esta detenção de Durov na França que foi motivada, por conseguinte, pela falta de moderação de conteúdo da plataforma Telegram, com questões que perturbavam outros governos ocidentais, como lavagem de dinheiro, pedofilia e tráfico de drogas e de pessoas. O Telegram, por sua vez, alegou que seria absurdo que a plataforma ou seu proprietário fossem responsabilizados pelos abusos de usuários e disse que obedece às leis da UE (União Europeia) e que Durov não tinha nada a esconder.

O debate sobre a relação do executivo de tecnologia e o comportamento dos usuários da plataforma de mensagens, então, foi inciada no momento em que as autoridades legais responsabilizaram pessoalmente Durov pelos problemas do Telegram, como a cumplicidade de sua gestão com transações ilegais dentro do aplicativo, permitindo a distribuição de material de abuso sexual infantil, tráfico de drogas, fraude e, por fim, a recusa de colaboração do CEO com a aplicação da lei.

Na França a situação se agravou devido ao Telegram se destacar em vários casos de crimes no país, os quais envolviam abuso sexual infantil, crimes de ódio na internet e tráfico de drogas, com a ausência da gestão da plataforma para respostas aos pedidos de cooperação por parte de promotores. Tal problema foi relatado tanto pelos promotores franceses como por autoridades legais da Bélgica e de outros países da Europa. Diante desta ausência de respostas, se abriu uma investigação sobre a responsabilidade criminal dos executivos do Telegram, com a prisão de Durov se tornando foco de um debate sobre a liberdade de expressão na internet.

Durov tem cidadania na França e nos Emirados Árabes, segundo informação do Telegram. A plataforma entrou nas investigações das autoridades a partir do conhecimento de comunicações feitas nesta por traficantes de drogas e de armas, organizações terroristas, grupos de extrema direita com discursos de ódio, implicando em recrutamento de pessoas para várias destas atividades. 

Especificamente, o Telegram passou a funcionar como um tipo de loja com todo tipo de mercadoria ilegal, tais como cartões de crédtio clonado para venda, incluindo vídeos em que criminosos drenam caixas eletrônicos usando cartões falsos e mostram maços de dinheiro, vendas de bolinhos e cookies de maconha, além de vapes ilegais, e no quesito drogas, tudo quanto é substância, com canais no Telegram para venda, e também venda de armas e medicamentos restritos sem prescrição, tendo vouchers e cartões-presente falsos para AirBnB, Marriott Hotels, Amazon, Apple, Walmart etc. Por fim, ainda tem venda de tutoriais para hackers, malwares, passaportes roubados etc.

Foi a partir destes canais de vendas de artigos ilegais que o Telegram virou uma espécie de dark web de bolso, nomenclatura que vem da dark web que dependia de uso de softwares específicos para o seu acesso e um conhecimento técnico para seu uso, no que tivemos dentro desta web oculta plataformas como a Silk Road, em 2011, dando seguimento a uma série de sites com vendas de mercadorias e serviços ilegais. Por sua vez, com a facilidade de manuseio e acesso do Telegram, este se tornou popular pára criminosos atraírem clientes. 

A dark web tem a vantagem de manter o anonimato dos usuários, pois seu tráfego de internet é redirecionado pelo mundo, ocultando a localização destas pessoas e dificultando a identificação de quem está por trás dos nomes de usuários. Por sua vez, o Telegram, por ser mais fácil de usar, se tornou popular para criminosos cibernéticos menos habilidosos e com menor conhecimento de informática.

O Telegram, apesar de afirmar que sua moderação está nos padrões de outras plataformas, não é membro do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC), dos EUA, nem da Internet Watch Foundation (IWF), que trabalham na remoção desses materiais criminosos na internet. O aplicativo é acusado de não combater o material de abuso sexual infantil e esta foi umas das acusações principais dos promotores franceses.

Dentre outros problemas apontados também está no fato do Telegram ter virado o principal foco de atividade online do Estado Islâmico já por uma década. Em relação aos recursos de privacidade o argumento usado é o de que tais aplicativos, e aí incluindo também WhatsApp e Signal, por exemplo, não possuem dados para repassar para as autoridades. O Telegram usa a chamada criptografia de ponta a ponta, contudo, tal função não é configurada como padrão na plataforma, e os canais ilícitos que atuam nesta nem sempre estão configurados como secretos.

A organização de direitos digitais Access Now afirma que está acompanhando os acontecimentos, e mesmo sendo um grupo que defende uma "internet livre" disse que o Telegram "não é um modelo de responsabilidade corporativa". No entanto, a Access Now alerta que "a detenção de funcionários de plataformas que as pessoas usam para exercer seus direitos à liberdade de expressão e de reunião pacífica, sem uma demonstrável conformidade com os princípios dos direitos humanos, pode resultar em censura excessiva e pode reduzir ainda mais os espaços cívicos".

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-telegram-e-a-prisao-de-durov-ii/



domingo, 22 de junho de 2025

O GURU

 A criatura se cria paladina,

o arauto, em sua clarividência

de guru, em seu canto de mestria

sob o dito provérbio santo,

e seu átrio com altares

e púlpitos impressionantes.


Os livros de sabedoria,

e sua mansão armada

até os dentes, e seus 

cachorros ferozes,

e suas putas queimadas

de sol.


22/06/2025 Monster

(Gustavo Bastos)

A MESSALINA DE TESSALÔNICA

Acordou de um sono triste, a vida queria,

se o mar insiste, que a ilha de Calíope se salvasse,

e se Circe não fosse tão displicente.


Vai atrás, a mulher da vida plena,

diante do pau em riste.

Se a casa está bagunçada,

um vinho lhe ataca 

o peito.


Os poemas, coitados,

não anunciam aurora,

e não a cantam na corte

dos hipócritas.


Pois, em Tessalônica,

em toda Lesbos,

desde o Mar Egeu

até o fim da coluna

de Hércules,

se esqueceu a messalina

na noite do gozo,

longe do himeneu.


22/06/2025 Monster

(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 18 de junho de 2025

A EPIFANIA DOS OTÁRIOS

“os malucos do AI-5, pedindo intervenção militar, sendo objeto de mofa do ex-presidente”


Mauro Cid foi o primeiro réu do chamado “núcleo crucial” a ser interrogado pelo STF. O tenente-coronel e ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro fechou uma delação premiada com a Polícia Federal, sendo então o primeiro a depor, como estabelece a lei, para garantir que os outros réus conheçam as acusações antes de falarem. No total são oito acusados de integrarem este “núcleo crucial” da trama golpista do fim  de 2022. 

Estes oito são todos réus e foram interrogados. Em ordem de depoimento, são eles : Mauro Cid (ex-ajudante de ordens da Presidência e delator), Alexandre Ramagem (ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Jair Bolsonaro (ex-presidente da República), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (general da reserva e ex-ministro da Casa Civil).

A PGR atribuiu ao grupo cinco crimes, que incluem abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa, dano qualificado, que é destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia, com violência e grave ameaça, contra o patrimônio da União, e com considerável prejuízo para a vítima, e ainda o crime de deterioração de patrimônio tombado, que é destruir, inutilizar ou deteriorar bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial. 

No depoimento de Mauro Cid, este confirmou que Jair Bolsonaro recebeu a minuta do golpe, leu e pediu alterações no documento. Com o ex-presidente fazendo com que se retirasse da tal minuta trechos que incluíam prisões de ministros do STF e de outras autoridades. Mauro Cid também manteve a sua versão de que Jair Bolsonaro tanto sabia como participou de tratativas para convencer os comandantes das Forças Armadas a aderirem ao golpe.

Portanto, de acordo com a delação de Mauro Cid, a acusação da PGR sobre golpe de Estado é verídica, confirmando seus relatos anteriores, integralmente. Na alteração da minuta, no entanto, o ministro Alexandre de Moraes, que na época da trama golpista presidia o TSE, continuou como alvo de prisão,  além de Mauro Cid lembrar da pressão de Jair Bolsonaro sobre o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, em relação a um relatório questionando a lisura das urnas eletrônicas, com o objetivo de contestar e anular as eleições de 2022. 

Logo surgiu um relatório entregue pelos militares que não apontava fraudes no sistema eleitoral. Mas Paulo Sérgio Nogueira desmarcou a reunião de entrega das conclusões para o TSE depois da pressão de Jair Bolsonaro, o que abriu o precedente para contestar a lisura do processo eleitoral e justificar uma possível intervenção militar.

Por sua vez, Mauro Cid afirmou não ter tomado conhecimento do plano chamado “Punhal Verde e Amarelo”, pois ficou sabendo pela imprensa, quando soube da prisão dos militares denominados “kids pretos”, com tal plano que, por sua vez, acabou sendo detalhado a partir de investigações da Polícia Federal, no que se referia à Operação Contragolpe, que prendeu tanto militares como policiais suspeitos.

Lembrando que o plano chamado de “Punhal Verde e Amarelo” era uma operação que previa o assassinato do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, como um desdobramento do golpe de Estado que seria dado no final de 2022. A trama teve envolvimento do candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro, o general da reserva Braga Netto, além do major Rafael de Oliveira, que fazia parte do grupo dos kids pretos, um destacamento de militares das Forças Especiais do Exército. Réu no processo, o general Braga Netto está preso desde 14 de dezembro de 2024, acusado de atrapalhar as apurações sobre a tentativa de golpe de Estado.

Mauro Cid ainda disse que Jair Bolsonaro não agiu para a desmobilização dos acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis-generais do país após as eleições de 2022, o que foi uma omissão que funcionou como uma anuência aos atos que pediam intervenção militar e que refutavam o resultado das eleições. Por fim, foi a permanência de tais acampamentos, já depois da diplomação de Lula, que representou um dos fatores principais que levou aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 nos Três Poderes em Brasília. 

Jair Bolsonaro foi o sexto réu a comparecer à oitiva do STF, sendo apontado pela PGR como peça-chave da organização criminosa que atuou pelo golpe de Estado e, consequentemente, ruptura do regime democrático no país. Entretanto, ao ser questionado por Moraes se a denúncia procedia, Jair Bolsonaro afirmou que não. “Não procede a acusação, Excelência”, disse. Em seguida, o ex-presidente foi questionado sobre a desconfiança das urnas, ao que respondeu: "A desconfiança das urnas não é algo privativo meu."

Jair Bolsonaro negou a existência do plano golpista, embora tenha admitido ter conversado com altos funcionários das Forças Armadas para analisar medidas legais contra o resultado das eleições. Ou seja, ele reconheceu que discutiu alternativas dentro da Constituição Federal com comandantes militares, sem especificar, no entanto, quais alternativas seriam essas. O ex-presidente negou, por conseguinte, que tenha estimulado os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e chamou de “malucos” aqueles que pediam intervenção militar no Brasil.  

“Tem os malucos que ficam com essa ideia de AI-5, de intervenção militar das Forças Armadas… que os chefes das Forças Armadas jamais iam embarcar nessa só porque o pessoal estava pedindo ali”, afirmou o ex-presidente, durante interrogatório na Primeira Turma do STF. O ex-presidente declarou que não estimulou que as pessoas fizessem atos ilegais e que, após perder as eleições, ficou recluso no Palácio da Alvorada.

Jair Bolsonaro declarou ainda que arrecadou R$ 18 milhões por meio de uma campanha de doação após deixar o Palácio do Planalto, para custear as despesas. O ex-presidente comentou que obteve mais dinheiro que o Criança Esperança, da Rede Globo. “Se não fosse a campanha do Pix, eu não estaria sobrevivendo hoje em dia. R$ 17 milhões, depois teve um pingado, chegou a R$ 18 milhões. E a gente gasta. Eu não posso trabalhar de graça. Não teria como ajudar meu filho, que está nos Estados Unidos, também. Então, eu agradeço. Eu arrecadei mais dinheiro que o Criança Esperança”, disse.

Ou seja, ao fim, o depoimento de Jair Bolsonaro revelou para seus otários a dica que faltava, é o que eu chamo de “A epifania dos otários”, que incluem os malucos do AI-5, pedindo intervenção militar, sendo objeto de mofa do ex-presidente, e os campeões dos otários, que foram os doadores de Pix, para que o ex-presidente, por exemplo, ajude agora seu filho Bananinha no périplo golpista e ilegal, nos Estados Unidos, um canto do cisne diplomático, numa tentativa canhestra de virada de mesa.

Por fim, estes depoimentos no STF marcam a reta final da instrução penal, em que se reúnem provas para embasar o julgamento final, e depois da etapa de diligências, se abre um prazo de 15 dias para apresentação das alegações finais, quando o presidente da Primeira Turma do STF, ministro Cristiano Zanin, poderá marcar a data do julgamento final por esta mesma Turma do STF. 

Nesta sessão, ou em sessões subsequentes, o relatório final de Moraes será lido, e o ministro relator proferirá seu voto. Em seguida, os demais ministros votarão pela absolvição ou condenação dos oito réus para cada crime imputado. Em caso de maioria de votos pela condenação, os ministros procederão à dosimetria penal, o cálculo da pena da sentença, considerando atenuantes e agravantes conforme previsto na legislação.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-epifania-dos-otarios/

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O TELEGRAM E A PRISÃO DE DUROV - PARTE 1

“a moderação limitada do Telegram favoreceu a disseminação de conteúdos ilícitos”


Pavel Durov foi detido na França em agosto de 2024, depois foi colocado sob investigação na questão das atividades ilegais envolvendo o Telegram, do qual continua a ser o CEO.  Dentre uma série de irregularidades, uma das acusações é a de que Durov não agiu contra a divulgação de conteúdo criminoso na plataforma. Contudo, mesmo investigado, Durov teve permissão para deixar a França em março deste ano e retornou a Dubai, sede do Telegram.

Durov argumentou que o Telegram segue os padrões da indústria e cumpre as leis da UE (União Europeia). O CEO, além dos problemas legais, também enfrenta questões familiares, que envolve tanto acusações de agressão como de não pagamento de pensão alimentícia. Além disso, Durov divulgou um projeto de ter centenas de filhos por fertilização in vitro, com doação de esperma, e chegou a afirmar que é pai de mais de 100 pessoas, de fertilizações feitas nos últimos 15 anos. Por sua vez, o Telegram se tornou lucrativo a partir de 2024, atingindo US$ 1 bilhão em receita.

Durov possui vários passaportes e tem várias residências, com uma fortuna em torno de US$9,15 bilhões, vivendo uma vida ao largo de governos, sem fronteiras, já por uma década. Diante das autoridades francesas, Durov disse que a sensação era a de estar sendo interrogado para responder a uma curiosidade provinciana, pueril, como se o Telegram representasse um tipo de mistério. 

No que ele respondeu : “Nós somos uma grande empresa, auditada por uma das Big Four, trabalhamos com as maiores instituições financeiras, gastamos milhões de dólares a cada trimestre com conformidade legal, para garantir que não violamos leis em lugar nenhum e paramos em quase 200 países”. Ao que acrescentou : “Então foi muito confuso para mim ser detido em Paris e ouvir que o Telegram fez algo errado ou deixou de processar alguns pedidos”.

Durov foi acusado pelas autoridades francesas por ser cúmplice em atividades criminosas, uma vez que a moderação limitada do Telegram favoreceu a disseminação de conteúdos ilícitos, ainda incluindo acusações como associação criminosa, lavagem de dinheiro, além de ofertas de serviços cripto sem declaração adequada. 

Por sua vez, mais de 9 milhões de usuários do Telegram assinaram uma carta pela libertação de Durov. Isso em meio a declarações em que ele dizia que o Telegram iria deixar países que não se alinhassem com o compromisso da plataforma com a liberdade de expressão. Tal orientação fez com que o aplicativo de mensagens se tornasse um dos maiores do mundo, alcançando um bilhão de usuários ativos mensais.

Pavel Durov tem um perfil que muitos podem associar com outros CEOs, e com uma imagem ambígua em relação ao Kremlin, entre defensor da liberdade de expressão e fantoche do governo russo, além de ser um prodígio na programação e um empreendedor bilionário. 

E os problemas legais do Telegram, por sua vez, advindos de uma criptografia de ponta a ponta, para manter a segurança e sigilo das comunicações entre os usuários da plataforma, atinge as preocupações de segurança de diversos governos, da União Europeia, numa campanha contra a falta de moderação de conteúdos nocivos e criminosos no Telegram.

Pavel Durov nasceu na União Soviética, em 1984, se mudando para a Itália aos 4 anos, e depois do fim da União Soviética voltou para a Rússia com a família, sendo que ele e seu irmão mais velho logo despontaram como jovens prodígios da matemática, com o irmão mais velho indo para a TV resolver problemas matemáticos e chegando a ganhar repetidas medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática. Com Durov, por sua vez, já sendo o melhor aluno de sua escola e competindo localmente.

Por sua vez, Durov ganhou um computador IBM PC XT que a família trouxe da Itália, isso logo quando eles retornaram à Rùssia, o que significava que no início dos anos 1990, eles eram uma das poucas famílias na Rússia que começavam a aprender a programar. Durov então acabou fundando um site de mídia social, o Vkontakte (VK), em 2006, com 21 anos de idade, quando tinha acabado de sair da universidade. Tal site virou logo uma espécie de Facebook russo, como uma resposta do país a Mark Zuckerberg.

Contudo, logo se estabeleceu uma relação hostil entre Durov e o Kremlin, quando o VK passou a seu usado para a organização de protestos em Kiev contra Viktor Yanukovich, em 2013, então presidente da Ucrânia na época e que era pró-Rússia. A crise se instaurou quando o VK se recusou a entregar dados privados de usuários ucranianos ao Kremlin. Tal decisão levou a renúncia de Durov do cargo de CEO da empresa e esta passou para as mãos de pessoas alinhadas com o presidente russo Vladimir Putin. Durov então vendeu as suas ações e deixou a Rússia. E o VK, por sua vez, acabou passando para controle estatal.

Durov então escolheu criar o seu próprio aplicativo de mensagens, mesmo diante de um mercado já saturado de opções, no que surgiu o Telegram, com sede em Dubai. A plataforma acabou sendo bem sucedida ao atrair usuários interessados na forte criptografia de ponta a ponta do Telegram, com garantia de privacidade, portanto, e também incluindo usuários que praticavam crimes, como o plano de ataques terroristas de Paris em novembro de 2015.

Durov, depois destes ataques, teve que fazer uma campanha midiática para convencer o público de que o Telegram não se tratava de uma espécie de WhatsApp dos terroristas. Ele defendia que o Telegram era o aplicativo de mensagens mais seguro do mercado, e fazer concessões para governos implicaria, portanto, romper com o compromisso da plataforma com a privacidade. Tal recusa em mudar padrões de criptografia e moderação de conteúdo, por fim, foram de encontro com interesses de governos em combater crimes cibernéticos.

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-telegram-e-a-prisao-de-durov/



segunda-feira, 9 de junho de 2025

MIRAÇÃO DA VINHA

Age tua faca, teu dardo, e o poema diante

da virada do vento, na mirada do mar.

As mirações destes delírios e sonhos,

as visões cantadas em fonética sinestésica.


Olhos que veem todas as estradas,

e que ri e que chora, e o corpo que dança

e que grita, que na dor expande força,

e no prazer se esvai e estremece.


Longa tarde avulsa, de roteiro estourado,

depois do estorvo dos seres apegados,

do murmúrio em cada canto de ira,

da preguiça indigente dos que apenas

leem poesia sem entender, e toda a febre

que o vate verteu de estro ao campo

da morte, e com a cabeça banhada

nos rios de ferrugem e ouro esparso.


Vem este poeta bebedor,

este que esteve no lago,

o sol olhado em reflexo,

e o peixe estirado e filetado,

a escama marítima de tua

guerra de armada, teu poema

silente na contemplação,

e este verso dorsal,

em dossel e flor.


Gustavo Bastos (Sublime)

09/06/2025 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS

“quadrilha de matadores de aluguel”


Depois de toda a trama golpista, e ainda diante dos desdobramentos que podem culminar em condenações, a Polícia Federal (PF) deflagrou no dia 28 de maio, nos Estados de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais, uma operação contra um grupo que se autodenominava “Comando C4” (Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos), que funcionava como uma agência de extermínio, que vendia serviços para monitoramento e assassinato de autoridades.

O nome deste grupo vem do notório grupo paramilitar CCC (Comando de Caça aos Comunistas) que atuou durante a ditadura militar, mais exatamente entre as décadas de 1960 e 1980, que defendia o regime de exceção, com atuação violenta, praticando assassinatos, sequestros, torturas, atentados, depredações, ameaças, isso tudo contra estudantes, políticos, religiosos, artistas etc, que eram contra a ditadura, incluindo a invasão do Teatro Galpão, em São Paulo, com a agressão do elenco da peça Roda Viva, de Chico Buarque.

Desta vez, o caso envolve tudo o que há de mais atávico e atrasado no país, ou seja, uma quadrilha de matadores de aluguel, especializada em espionagem ilegal e homicídios por encomenda. O grupo cobrava R$250 mil para monitorar ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), com preços de R$ 150 mil para senador e R$100 mil para deputado. Tal grupo foi descoberto em decorrência de uma investigação sobre venda de sentenças por servidores do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do Tribunal de Justiça do Mato Grosso (TJ-MT), que tramita em sigilo.

Este grupo de matadores de aluguel é composto por militares da ativa e da reserva, além de civis, com uso de algumas táticas como uso de drones e de garotas de programa para vigiar e coletar informações sobre autoridades públicas. Esta estrutura foi revelada durante a operação da PF, que investiga o assassinato do advogado Roberto Zampieri em dezembro de 2023, morto comn 10 tiros, em Cuiabá, no Mato Grosso.

Por sua vez, no celular da vítima foi que se desbaratou todo o esquema que levou a este grupo de extermínio, visto que a PF descobriu registros de negociações para a venda de sentenças judiciais, além de referências às espionagens de autoridades. Por fim, o Comando C4 se tratava de um grupo bem organizado, com emprego de táticas militares, métodos de infiltração social, com alta capacidade bélica, tendo 5 fuzis de sniper com silenciador, 15 pistolas com silenciadores,  um lança rojão tipo AT-4 (que é um lança granada que pode destruir carros blindados), explosivos para detonação à distância, além de quantidades não determinadas de minas magnéticas (que são minas submarinas) e de munição.

Dentre os bens do grupo também havia cinco veículos para a ação de snipers móveis, além de mais cinco carros médios e pequenos. Eles também tinham telefones via satélite para a comunicação entre os membros da quadrilha, dois drones que se somavam a rastreadores veiculares para caça de alvos, e realizavam constantes mudanças de casas e de apartamentos para evitar flagrante, usando disfarces, além do uso de iscas para vítimas como garotos e garotas de programa.

Por sua vez, o ministro do STF, Cristiano Zanin, determinou que a PF cumprisse cinco mandados de prisão preventiva, seis mandados de busca e apreensão, medidas cautelares como recolhimento noturno em casa, proibição de contato entre os investigados e a retenção de passaportes, além de quatro ordens de monitoramento eletrônico. 

Entre os presos na operação estão Aníbal Manoel Laurindo, produtor rural, suposto mandante do homicídio de Zampieri; Coronel Luiz Cacadini, militar da reserva, suposto financiador do crime; Antônio Gomes da Silva, acusado de ser o atirador; Hedilerson Barbosa, suspeito de ser o intermediador e dono da arma usada no assassinato; e Gilberto Louzada da Silva, que tem a participação ainda sob apuração.

A PF continua a investigação sobre venda de sentenças, em que o Comando C4 facilitava o esquema ao conectar operadores jurídicos a interessados em decisões favoráveis mediante pagamento, de acordo com anotações e mensagens encontradas, e tal esquema ia do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, com desdobramentos que também alcançavam o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A Polícia Civil investigava o assassinato do advogado Roberto Zampieri quando se deparou com este esquema de venda de sentenças e o caso passou para o Supremo Tribunal Federal (STF), com autorização do ministro Cristiano Zanin. Por sua vez, tanto o nome do ministro como o de Alexandre de Moraes aparecem em anotações apreendidas pela Polícia Federal (PF), e a investigação ainda apura se houve monitoramento de ambos os magistrados.

O advogado Roberto Zampieri, que foi executado, por sua vez, era apontado como figura central neste esquema de venda de sentenças, e a Polícia Federal (PF) ainda indica que o grupo atuava na lavagem de dinheiro através de empresas de fachada e financeiras. Tal dinheiro vinha de propinas pagas por estas sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A investigação, por fim, envolve como suspeitos empresários, lobistas, magistrados, assessores parlamentares e chefes de gabinete, com crimes que incluem organização criminosa, violação de sigilo funcional, corrupção e exploração de prestígio. 


(Obs : Os ataques contra a ministra Marina Silva, enquanto participava de audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, em que o presidente do colegiado, Marcos Rogério (PL-RO), com uma descompostura e falta de decoro, ao falar para a ministra se colocar “em seu lugar”, então, não apenas distorce, mais uma vez, o regimento do decoro, que, nestas últimas legislaturas do lacre, derreteu, e vimos o parlamento virar um ambiente ginasial, mas vai além.

Neste caso, temos não apenas este ponto mencionado de comportamento parlamentar, mas de comportamento social e moral, com cenas de misoginia e machismo, em que não é possível fazer abstração da figura de ministra ou mulher, pois não foi sequer uma discussão acalorada que, no caso, não importaria gênero, cor ou sexualidade, todos estão na chuva para se molhar, mas sim um uso semântico com vários tons acima, e atávico, produto de uma ordem que vem da colônia e de suas capitanias, do “sabe com quem tá falando” ou do “se ponha no seu lugar”, em novidades aviltantes, como o que a gente ouve agora por aí, de uma concepção podre de elitismo, que agora usa “CLT de m…” como ofensa e xingamento).


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/comando-de-caca-aos-comunistas/