PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

FUTURO DO PAÍS

 “O final patético deste governo é a sua nêmesis”


Terminaram as eleições mais importantes da História recente do Brasil. Estava em jogo o futuro da Nova República, do compromisso firmado pela Constituição Federal de 1988, dos movimentos democráticos que tanto lutaram pela liberdade civil, pelos direitos amplos de cidadania. Pairou desde as eleições de 2018 uma sombra, esta que se revestiu de lemas do velho fascismo brasileiro integralista, por sua vez, inspirado nos camisas pretas do fascismo italiano de Benito Mussolini.

O fato é que dos escombros de uma má gestão da democracia, o ovo da serpente pode ser gorado e eclodir. O pós-guerra de um  Tratado de Versalhes de 1919 dacroniano deu azo a um surgimento de radicalismos que levou a um dos episódios mais sangrentos do século XX, a Segunda Guerra Mundial, este que foi o século chamado por Eric Hobsbawm de "A Era dos Extremos". 

Por sua vez, no Brasil, este renascimento de tendências soturnas, que se inspiram no obscurantismo para tentar usar a democracia para caminhar até uma autocracia, buscava o pretexto para se expandir. A falta de um discurso popular que desse conta da queda recente do poder petista, que tomasse as rédeas de uma alternativa às ruínas da Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff, deixaram um rasgo, um clarão, e este espaço vazio foi ocupado rapidamente por um deputado midiático do baixo clero, conhecido por declarações absurdas, e a direita liberal ficou para trás, surgindo uma extrema-direita que, aparentemente, poderia atender aos clamores contra a corrupção, de um antipetismo que atingia o seu clímax histórico. 

Desta feita, a Nova República viu ser eleito presidente Jair Bolsonaro. E este foi um governo de baixa densidade intelectual, dominado por um provincianismo que ascendeu ao poder e começou a se instalar em cargos de ministérios, no Congresso Nacional, e nunca se viu tantos discursos anacrônicos sobre costumes, modos de vida, sinais trocados sobre liberdade, inversões comuns em que se chocavam cosmovisões opostas e conflitantes. O atrito ficou insuportável, dois mundos colidiram e somente um poderia vencer, se o outro perdesse. 

A mediocridade, a falta de decoro, o fim da picada, foi esta visão dantesca que tomou conta de uma Nova República que ficou em suspenso, com a respiração presa. Até estas eleições de 2022 estávamos em meio a um circo trágico de 700 mil mortos, de sacos pretos encomendados para Manaus, em uma eugenia de testes off label canalha e sinistra. 

O que havia de cômico para a diplomacia internacional, um país que tinha virado pária e republiqueta bananeira com um presidente exótico, parecendo algum sketche involuntário da América Central, havia de trágico para quem viveu a pandemia em meio ao atraso das vacinas e de uma seita de Jim Jones que pregava uma ficção chamada cloroquina. O padrão delirante deste governo era o do negacionismo anticientificista, pré-iluminista, e que ganhou contornos assassinos com o descaso e as declarações sem empatia de um presidente que não esteve à altura do desafio de enfrentar uma tragédia nacional sem precedentes, com números de corpos (pessoas, biografias) que pareciam o de uma guerra. 

O final patético deste governo é a sua nêmesis. A eleição de Lula (PT), uma ressurreição política de um roteiro feito pelo imponderável, é uma das viradas mais fortes de uma liderança popular que teve a sua concorrência mais difícil, em um momento crucial, andando no fio da navalha, em que o contrato social democrático estava em jogo, e pela primeira vez contra outra liderança popular, de vulto, e não a oposição do PSDB, no nível da civilização, da normalidade.

Era uma luta civilizatória e pela sobrevivência da Nova República, pois um segundo mandato de Jair Bolsonaro seria fatal para o que foi erguido na Constituição Cidadã de 1988. A conquista da maioria plenária no STF (Supremo Tribunal Federal) abriria caminho para uma autocracia e o país sofreria um estresse tão absurdo e bizarro como foi o da tragédia da pandemia. Contudo, a generosidade do destino, com suas leis insondáveis, consumou o resultado matemático, o que determina o futuro do Brasil. 

Foi realizada uma concertação, em que diversos quadros se uniram neste segundo turno, revelando que o liberalismo e o lulismo, nos momentos em que estão em jogo a democracia e suas instituições, dialogam e se entendem, pois o republicanismo é um instinto de sobrevivência e a qualquer sinal de alerta, forças discordantes se aliam no que concordam, sobre o pacto social firmado a partir da retomada da democracia, do fim da ditadura, um contrato social erguido em valores da liberdade civil e da afirmação da civilização contra a barbárie.

Por pouco, muito pouco, tudo vai por água abaixo, a ruína e a esperança lutaram e os valores democráticos estão salvaguardados de uma tragédia política e cultural, de um retrocesso que foi barrado na hora certa, desta gangue de bandoleiros, de um Roberto Jefferson (PTB) que teve o seu tiro saindo pela culatra, e ao invés de mártir, é novamente presidiário, e de uma Carla Zambelli (PL-SP) que deveria ter sido presa em flagrante e ter seu mandato cassado.  

Precisamos reerguer o Ministério do Meio Ambiente, recriar o Ministério da Cultura, criar o Ministério dos Povos Originários, proporcionar um tratamento fino ao Ministério da Educação, retomar o que ficou suspenso nestes quatro anos de um clima de seita lunática e de um pacto pela ignorância. A nêmesis da derrota, da não reeleição, vem como ferida narcísica, de um presidente que foi incompetente, tanto como governante, como para realizar o seu projeto de segundo mandato, perdeu. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/futuro-do-pais 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

PATAS FASCISTAS

A garra do fascismo se desespera,

plutocrata o lança-granada

tenta espatifar o próprio vício,

com porretes se deu o putsch,

quebraram-se as mesas e as cadeiras,

tiros de carabina na noite,

espancaram e mataram 

velhos comunistas,

a rua estava cheia de sangue,

o escrutínio acontecia

com uivos e ranger de dentes,

não há caudilho no horizonte,

foi morto o rei na guilhotina,

mataram os déspotas 

na roda, ficou o cianureto

matando o cachorro louco

em seu bunker de ópio.


24/10/2022 Gustavo Bastos 


NASCIDO DO LÓTUS

Centrada na sabedoria insondável,

da lótus potente esta flor embriagada

nasce e renasce, na conflagração 

dos tempos e das deidades,

por uma dádiva Avalokiteshvara

irrompe no lago, a ver de seu

espelho d`água a pureza

e as virtudes do caminho

iluminado,


um por um, 

os demônios caem,

a casa está firme,

como uma esfera

contínua, o pensamento

discerne o certo e o errado,

nas escolhas autoconscientes

o espírito é guiado, 

pois na flor de lótus

a visão sempre está plena.


24/10/2022 Gustavo Bastos 


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

NOITE DA OVERDOSE

Uma longa noite,

a fumaça do cigarro

pousa como uma 

cobra, os cinzeiros

estão cheios,

o câncer,

a enfisema,

o cancro,

erisipela,

verrugas,

saturnal

do orgasmo

final,

o olhar baço,

e no fim da noite,

a overdose.


17/10/2022 Gustavo Bastos 


MORTE E VIDA

Rasga a fantasia o ardil,

logo toma a face

o desespero,


nada na Terra

passa incógnito,

a messe e o castigo

sempre são 

proporcionais,


não há o que temer

os justos,

e tudo podem

aguardar

os ímpios,


se agora a dor

e a desgraça

tomam conta

destes cadáveres

insepultos,

a vida brilha 

seu vigor 

na hora

do sol

nascente.


17/10/2022 Gustavo Bastos 


ÊXTASE E MISTÉRIO

De nardo o cheiro rosáceo

entorpece o pensamento,

uma vida contemplativa

se anuncia extática,

o brilho cria nova matéria,

uma miragem está diante

da tela, pende da copa

densa a florida visão.


Os sinos dobram,

há uma vasta 

canção de almíscar,

um brumoso rito

que escapa

e inunda 

em seu sândalo,


pois está a nuvem

com doirado de fogo

e um arrebol laranja

na flor de lótus

que borra toda 

a mirra,


o poeta do êxtase

está sonhando,

contempla

o sol místico

como um

pássaro

em floração,

com o peito calmo,

e o pensamento

feliz.


17/10/2022 Gustavo Bastos 


RESSURGIMENTO

Como é poeta? Se a alegria não

aporta vindoura, se o suor de tua

lavoura a tua pele resseca,

como andar com tuas cotovias?


Nem mesmo o mar perene

dá um jeito em teu canto,

nem a chuva refrigera

o que antes te era 

encanto,


pois, o sumário de sua escrita,

já borrada do tempo que se foi,

foi ao léu, e teus loas

floridos são agora

o riso nervoso

do martírio.


Tua seiva embruteceu

ou eu estou variando

das ideias?

Me dá uma pista,

qual teu plano?

Que ardil te anima

o peito?


Contudo, depois de tudo,

sem mais,

refeito da guerra,

poderás estar

na ribalta novamente,

e tecer a fonte primeva

de tua harmonia,

com a fúria

indômita

da plebe.


17/10/2022 Gustavo Bastos