PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CHEIRADORES DOS ESTADOS UNIDOS

"o país que mais consome cocaína em números absolutos no mundo”

Em relação ao ataque ilegal dos Estados Unidos sobre a Venezuela, alguns governos latino-americanos deram apoio à iniciativa, com países como a Argentina, sob o governo de Javier Milei, em ruptura a uma orientação que norteava a política externa deste país, ou seja, o antigo apoio à autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos de outros Estados. É bom lembrar que Milei recebeu apoio financeiro do governo Trump nas eleições legislativas argentinas. Com efeito, Milei afirma que a fonte de renda de Maduro é o narcotráfico do Cartel dos Sóis.

A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), teve alguns países, junto à Argentina de Milei, no papel de bloquear uma declaração conjunta que visava a condenação do ataque norte-americano na Venezuela, esta que seria promovida pela Colômbia, que preside atualmente a organização. Contudo, países como o Paraguai, Bolívia, Equador, El Salvador e Panamá, que possuem governos de direita no poder, deram também o seu apoio à intervenção ilegal dos Estados Unidos.

O governo da Argentina prepara uma cúpula de líderes de direita para o primeiro semestre deste ano em Buenos Aires, com inspiração no Grupo de Lima. Esta iniciativa representa um avanço na formação de um bloco de países de extrema-direita, em combate ao socialismo e a afirmação da liberdade, tal como o Chile, por exemplo, que teve a eleição do ultracatólico José Antonio Kast, que assumirá a presidência do país em 11 de março, deixando para trás o governo de esquerda de Gabriel Boric. No Peru, o presidente José María Jerónimo fechou as fronteiras do país para venezuelanos ligados ao governo Maduro, com ações semelhantes às perpetradas por Milei.

Na relação “desigual”, quer dizer, da hipocrisia norte-americana, uma tradição diplomática inabalável, tivemos o indulto concedido por Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos por tráfico de drogas, ao passo que encarcera Maduro pelo mesmo motivo. Nesta nova Doutrina Monroe, a Donroe, estamos, mais uma vez, diante de disputas ideológicas e que se alimentam, também, de interesses econômicos, como a questão do petróleo na Venezuela.

Os Estados Unidos atuam, historicamente, pelo uso da força, pela intervenção, coerção, ameaças, embargos, chantagem, o que for, para a garantia de controle e submissão de países ideologicamente contrários à sua cartilha política e econômica. No bojo do ataque à Venezuela, por exemplo, Trump voltou a acusar a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, de ter medo de confrontar os cartéis de drogas de seu país.

Mesmo com a insinuação de Trump afirmando que estas organizações é que governam ali. Sheinbaum, no entanto, tem demonstrado firmeza e independência diante dos ataques verbais do presidente norte-americano, rejeitando interferências estrangeiras, e reforçou que o combate ao crime organizado é  responsabilidade do Estado mexicano, sem aceitar imposições de fora. Ela afirmou : “O México não é um protetorado nem o quintal de ninguém.”

A verdade é que Sheinbaum está cooperando com o governo Trump no combate ao narcotráfico, pois existem razões humanitárias envolvidas, e que a violência que ocorre no país tem como causa as armas de grosso calibre dos Estados Unidos que entram ilegalmente no México, somando-se a isso o intenso uso de drogas no país norte-americano. Com elogios vindos, por exemplo, do The New York Times, a diplomacia de Sheinbaum é marcada pelo respeito à soberania das nações e a resolução de conflitos pelo diálogo, sem uso da força. 

Existem as duas questões que envolvem o México, na segurança, com o tráfico de drogas, e na questão humanitária, com a migração aos Estados Unidos, servindo de corredor para pessoas da América Central e do Sul em busca do “sonho americano”. A pressão migratória é a principal moeda de troca nas políticas bilaterais que envolvem esta questão, e o conflito entre Sheinbaum e Trump reside na tríade comércio, tráfico de drogas e imigração.

Tais questões do México provocam táticas norte-americanas que variam do uso de força militar, tarifas, além de sanções unilaterais à imigração. Sheinbaum evita embates retóricos, embora tenha feito concessões na política de segurança e de imigração, cooperando com os Estados Unidos nas extradições, no combate ao narcotráfico e no controle da fronteira do sul mexicano.

Os Estados Unidos são o país que mais consome cocaína em números absolutos no mundo. O consumo de drogas em geral aumentou ligeiramente no país nos últimos anos sob o influxo da epidemia de fentanil, opioide que dominou cidades como Los Angeles e matou mais de 70 mil pessoas por overdose em 2023. As substâncias químicas vêm da China, mas a fabricação é feita em laboratórios mexicanos. A cocaína, por outro lado, é consumida por cerca de 2% da população total norte-americana, droga que vem de países como a Colômbia, Bolívia e Peru. Ou seja, grande parte da cocaína consumida nos Estados Unidos não vem da Venezuela.

O consumo de cocaína nos Estados Unidos vem reduzindo ligeiramente desde 2021, no entanto, as mortes por overdose viraram uma preocupação devido ao fato da crescente contaminação da droga com fentanil lícito. Por exemplo, em 2025, aproximadamente, uma em cada quatro amostras de cocaína testadas em laboratório continha fentanil, aumentando o risco de overdose para usuários que não consomem opioides. 

Em 2025 a produção global de cocaína atingiu um recorde histórico, com queda dos preços nos Estados Unidos, sendo o mercado de drogas ilícitas que mais cresce no mundo. As apreensões globais da droga atingiram um recorde recente de 2.275 toneladas, um aumento de 68% em relação ao período 2019-2023, com seu uso crescendo de 17 milhões de usuários em 2013 para 25 milhões em 2023. 

O tráfico de cocaína se espalha por novos mercados na Ásia e na África, com a violência notória que ocorria na América Latina se repetindo para a Europa Ocidental, com o aumento da influência de grupos criminosos organizados dos Bálcãs Ocidentais. O mercado predominante ainda é a América do Sul, com Colômbia, Bolívia e Peru, que produzem quase 100% da cocaína do mundo, apesar de novos campos de cultivo estarem surgindo. Só de cocaína pura foram produzidas cerca de 2.757 toneladas em 2022, aumento de 20% em relação a 2021.

Este novo cenário se deve às inovações no cultivo nos últimos anos, com mais investimentos em fertilizantes e conhecimento genético para a obtenção de novas variedades de coca. Na Colômbia uma mudança adotada pelo governo no combate às culturas ilícitas ampliou o cultivo, que foi o fim da fumigação aérea com glifosato para acabar com as plantações de coca em 2015, alinhada com as recomendações dos Estados Unidos, pelas dúvidas referentes ao herbicida em relação à saúde. 

Com a suspensão da pulverização aérea, o arbusto de coca passou a alcançar seus níveis máximos de produtividade. No caso, a mesma planta de coca produz mais cloridrato de cocaína e podem ser feitas seis colheitas por ano ao invés de três. Este aumento na produção de cocaína e o cultivo de plantas mais potentes explica a expansão do mercado desta droga no mundo, com uma substância de alta pureza e com preços estáveis. Ou seja, a cocaína mundial está mais barata e bem mais pura. 

A expansão da oferta e demanda de cocaína se relaciona com o aumento de violência em países que são corredores deste comércio, ao longo da cadeia de suprimentos, como Equador e países do Caribe, somando-se aos danos à saúde em países da Europa Central e Ocidental, que consome cada vez mais esta substância. Os Estados Unidos, por fim, continuam como os grandes consumidores de cocaína em números absolutos no mundo, como dito, e são, ainda, o maior mercado consumidor de drogas ilícitas do mundo.

Os Estados Unidos têm altas taxas de consumo, também, de maconha, metanfetaminas, incluindo os opioides sintéticos como o fentanil, com cerca de 16% da população norte-americana entre 15 e 64 anos tendo consumido alguma substância ilícita no último ano, com um uso problemático de opioides que produz uma crise de saúde pública no país, e que impacta sobre o sistema de saúde, segurança pública e nas políticas envolvendo a justiça criminal. 

A falta de estratégias eficazes para a redução do consumo de drogas no mundo, e ainda a prevenção e tratamento, privilegiando apenas a repressão da oferta, são de efeito limitado para o panorama geral do problema, pois seria melhor o reconhecimento de todos esses elos da cadeia, fazendo com que se formulem políticas mais articuladas e multilaterais.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/cheiradores-dos-eua/ 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O PETRÓLEO VENEZUELANO

“intervenção norte-americana reflete uma nova era”

  

A escalada trumpista foi um constante teste das reações venezuelanas e da comunidade internacional, que começou com a mudança de legislação doméstica para grupos terroristas, deslocamento de enorme destacamento aeronaval para o Caribe, exercícios militares na região com o auxílio da República Dominicana e Trinidad e Tobago, apoio da Holanda, com presença no Caribe, com Aruba e Curaçao, países autônomos dentro do Reino dos Países Baixos (Holanda), que têm governos próprios e autonomia interna, com o Reino cuidando da defesa e das relações exteriores, tratando-se de uma monarquia constitucional com status de autogoverno.

Trump contou também com a colaboração de Porto Rico, um território dos Estados Unidos, não sendo um país independente, pois se trata de um Estado Livre Associado com cidadãos americanos, sem voto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, tendo constituição própria, governo e moeda (dólar), embora esteja  sob soberania de Washington. Em seguida, Trump bombardeou 36 lanchas no Caribe, com 115 mortos, oferecendo recompensa pela entrega de Maduro e o nomeou líder narcoterrorista, fechou o espaço aéreo do país, praticou pirataria com um petroleiro, bloqueou o comércio de petróleo e bombardeou a fronteira com a Colômbia.

A agressão militar norte-americana também serviu para demonstrar e vender a sua força militar, neste caso, a força Delta, com sistema de inteligência, comunicação, interferência cibernética e eletrônica, além de mais de 150 aeronaves, numa exibição da indústria bélica dos Estados Unidos em seu poderio. Tais forças foram mobilizadas através de uma retórica sofismática sobre democracia, direitos humanos, combate às drogas etc, criando um Estado de Exceção, com execuções de pessoas em alto mar, sem julgamento, sem submeter suas decisões militares ao Congresso norte-americano.

A falácia parte da questão imigratória, guerra às drogas, a exploração de recursos estratégicos, colocando a Venezuela no centro da pauta intervencionista, em uma geopolítica instável, tresloucada, de um líder mimado, narcisista, repetindo a série histórica de figuras carismáticas cujas tendências são, invariavelmente, escalafobéticas, de egos inflados, culto da personalidade, tudo de um gosto duvidoso, com discursos mão dura, atos de agressão e de guerra, com alguns que terminaram mal, suicidando-se ou sendo pendurados como peças de açougue em praça pública, ou ainda sendo linchados até a morte por populares. 

Trump, que já tomou uma triscada de bala na orelha, e cuja saúde é questionável, não aliviará o mundo de seus delírios de grandeza e, não há muita esperança diante de um vice como D. Vance, com um obscurantismo e psicopatia mais nazistas ainda. Quanto aos Estados Unidos, o fator que ainda retoma uma esperança, no entanto, reside na própria população norte-americana, uma parte dela, considerável, que é ou está crítica e insatisfeita com os rumos autocráticos dentro de seu país, e os movimentos do mercado, da economia, outro fator de pressão contra Trump e suas barbeiragens tarifárias.

O regime bolivariano da Venezuela possui um modelo descentralizado, em que os comandos e operações culminam nas comunas, integrado ao povo organizado, de modo que o sequestro de Maduro não deixou o sistema do país acéfalo. E o ataque, além desta captura, incluiu bombardeios simultâneos em áreas civis de quatro estados do país. Sendo que Maduro foi mantido vivo para não virar um mártir do bolivarianismo chavista. Com os Estados Unidos afirmando se tratar de uma questão de segurança pública e não de defesa militar, isso num país com uma oposição nula, enfraquecida, sem ninguém com legitimidade para ocupar o poder no lugar do sistema estabelecido por Chaves e sucedido por Maduro. 

A operação completa durou uma hora e meia, empregou 150 aeronaves, inteligência e recursos cibernéticos. Os ataques a instalações militares se concentraram no Tiuna e na base aérea de La Carlota (onde se concentram as baterias antiaéreas). E, ao fim, Maduro e sua esposa Cília foram levados para Nova York, em que a Venezuela manteve o governo com a vice-presidenta, Delcy Rodríguez, que agora responde pelo mesmo.

E no contexto latino-americano, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) não obteve consenso em sua reunião, faltando uma estrutura como o Conselho de Defesa Sul Americano, como mediação e dissuasão em conflitos regionais, sem falar no esvaziamento da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), entrando em colapso em 2018, depois de divergências ideológicas e saída da maioria dos países membros para a fundação do Prosul.

Trump opera mudanças no deep state, com intervenções que ativam esta nova dinâmica, com o presidente norte-americano sendo a figura que vocaliza este “Estado profundo dos Estados Unidos”, o que se configura em sua nova doutrina, com a primeira intervenção direta de caráter militar dentro da América do Sul, por parte das forças norte-americanas. Ao passo que o Brasil não se posicionou de modo suficiente como liderança regional. 

E, dentro dos Estados Unidos, a justificativa foi a captura de dois acusados de narcoterrorismo, refletindo a visão atual interna, em que a população norte-americana, ao mesmo tempo que não quer mais saber de intervenções militares pelo mundo, defende o combate ao tráfico internacional de drogas, o que coloca o direito internacional em uma situação ambígua, e também usando o argumento de que o Departamento de Guerra foi utilizado como linha auxiliar em tal operação na Venezuela, mais uma vez misturando as coisas para beneficiar os seus interesses, que envolve, ao fim, as empresas de petróleo, tendo como missão a reconstrução da infraestrutura petroleira, através de um financiamento que depois será reembolsado. 

Quanto às declarações de Trump sobre investimentos na Venezuela nesta reconstrução, a Chevron, que é a única companhia de petróleo dos Estados Unidos que ainda opera no país sul-americano, apenas afirmou que a sua atuação cumpre leis e regulamentos pertinentes. A ExxonMobil e a ConocoPhillips não se manifestaram sobre o plano anunciado pelo presidente norte-americano. Esta indústria petrolífera, que há meio século passava por um processo de nacionalização, teve o seu aprofundamento em 2007, com o controle das operações que ainda eram geridas sob acordos privados, o que provocou a saída das duas empresas citadas, enquanto a Chevron aceitou se adaptar às novas condições impostas pelo governo chavista. 

Depois deste controle estatal chavista se impondo, as duas empresas entraram numa batalha judicial contra o governo venezuelano, que teve o seu encerramento favorável às petrolíferas, através do CIADI (Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas Relativas a Investimentos), do Banco Mundial, em que a Venezuela foi obrigada a indenizá-las com milhares de milhões de dólares. O país sul-americano ainda não quitou integralmente as indenizações, com um embargo norte-americano ao petróleo venezuelano ainda em vigor, com Trump acusando a Venezuela de roubar as companhias petrolíferas dos Estados Unidos através do controle estatal chavista.

A Venezuela passa pelo contraste de possuir cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo, com uma produção que chegou a 3,5 milhões de barris diários na década de 1970, com uma queda vertiginosa desta produção provocada pela falta de investimentos e problemas de gestão, o que refletiu numa produção, em 2025, de 1% da produção mundial, cerca de 1 milhão de barris diários. Diante disso, para retomar os níveis de produção anteriores, um investimento de cerca de 110 bilhões de dólares serão necessários. E isso para alcançar, em 2030, dois milhões de barris diários. 

Mesmo diante de um mercado petrolífero mundial de excesso de oferta, com preços caindo, exigindo uma maior seletividade das empresas petrolíferas nas suas decisões de investimentos, as grandes petrolíferas norte-americanas irão disputar este espólio venezuelano, numa competição intensa que, mesmo com os investimentos necessários, concentra um potencial de retorno bilionário. 

As características desta intervenção norte-americana reflete uma nova era em que se mesclam ações contemporâneas como as sanções econômicas, retórica antidrogas no combate ao crime organizado, juntando táticas do século XIX, com bloqueios navais e pirataria, de meados do século XX, na intervenção militar direta, em que havia contra-insurgência e golpes de Estado. E o clima trumpista tenta transmitir uma confiança e ofensividade alimentadas pelo Maga (Faça a América Grande Novamente, na sigla em inglês). 

Esta ação feita na Venezuela inclui um desdobramento que é a estratégia de estrangulamento do regime cubano, com o corte do fornecimento de petróleo bruto da Venezuela, que entrava praticamente de graça, em que o sufocamento econômico é visto como suficiente para derrubar o governo cubano, sem a necessidade de uma ação militar, pois também detona uma crise energética no país caribenho. 

Para Trump, estas ações intensificam a crise cubana e o fim do regime socialista no país. O que é mais um golpe na ilha, que já perdera a ajuda do regime socialista da União Soviética, com a dissolução daquele país, na fragmentação da CEI (Comunidade dos Estados Independentes) e a volta da Rússia como país único e a ascensão de Boris Yeltsin e queda de Mikhail Gorbachev, junto com os desastres da Perestroika e da Glasnost. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-petroleo-venezuelano/


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUANDO DEIXAMOS DE ENTENDER O MUNDO, DE BENJAMIN LABATUT

“narrativa documental”


Benjamin Labatut é um escritor chileno que ficou conhecido por obras literárias que misturam ficção e temas reais, num tipo de escrita que mescla elementos de realidade histórica, referências científicas, e a partir disso ergue um texto que levanta temas complexos, muitas vezes, em uma forma de literatura que se pode acessar mesmo sem conhecimento prévio dos temas e informações (ou fabulações) que ficam inseridos em contos e romances que parecem um documento de eventos do mundo real, o que pode ser verdade ou não, ou ainda um híbrido que resulta numa literatura nova e original. 

O escritor nasceu em Roterdã, na Holanda, e mora desde os quatorze anos em Santiago, no Chile. Publicou La Antártica Empieza Aquí, ganhando o Prêmio Caza de Letras, depois lançou Después de la Luz, sendo a sua terceira obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, que teve indicação para o International Booker Prize em 2021. Esta última obra, publicada originalmente em 2020, não se limita a ser uma narrativa histórica, mas flerta com o ensaio, a ficção científica e o romance de ideias.

Nesta obra Labatut tem influência de autores como W.G. Sebald, de onde recebe o caráter documental como um recurso literário inovador, misturando fatos reais, história e ficção. Com Thomas Pynchon ele recebe uma espécie de narrativa científica e filosófica, com questões como a fronteira entre a genialidade e a loucura, que lembram o que Thomas Pynchon realizou em O Arco-íris da Gravidade. Nesta obra temos a abertura que se dá com uma epígrafe de Wernher von Braun. 

Este construiu uma das armas mais letais que seria utilizada pelo regime nazista, ao passo que tentava descobrir a existência da vida após a morte e da imortalidade da alma. Este se muda para os Estados Unidos e trabalha pela Disney e ainda a Nasa. Este personagem terá um caráter multifacetado semelhante aos cientistas retratados nesta obra de Labatut, em que o conhecimento avançado se mescla com a mística e a ambivalência política. 

Outras influências de Labatut também incluem o beatnik William Burroughs, além de Roberto Bolaño, Eliot Weinberger e Pascal Quignard. E esta obra possui quatro narrativas que parecem ser a leitura de verbetes de enciclopédia ligados a cientistas de destaque dos últimos séculos, com vidas complexas e incompreendidas, com uma base narrativa associada também ao autor Éric Vuillard, de A Ordem do Dia, concentrada em fatos, mas com um revestimento literário. 

A principal influência para Labatut, no entanto, foi o poeta chileno Samir Nazal, que coloca as tradições chilenas em narrativas complexas que se ligavam ao insólito, com criaçôes de mundos falsos, além da crise ontológica, existencial, diante de um mundo dominado e movido pela técnica, com uma desconstrução da realidade através da ficção que aparece de modo semelhante nesta obra de Labatut, Quando Deixamos de Entender o Mundo, que interpretado pela crítica literária como romance de não-ficção, um oxímoro, também sendo chamado de literatura pós-autônoma e de hibridismo, em que Labatut coloca a biografia de diversos nomes da ciência em perspectiva ficcional. 

Em seus contos Labatut produz um material inventado, porém, de difícil distinção de fatos reais, pois a narrativa documental, pode reunir figuras como o físico Erwin Schrödinger, além do matemático Alexander Grothendieck, este que foi o mais importante do século XX, um ilustre desconhecido fora de seu meio, com trabalhos incompreensíveis para leigos, e que se isola para descobrir a origem dos sonhos, em ele teorizava que tinham todos a mesma fonte, pois vinham de um deus conhecido como Le Rêveur, “o sonhador”. 

Diante das revoluções científicas e as mudanças de cosmovisão advindas destas transformações no conhecimento, sobretudo no século XX, Labatut toma isso como eixo de sua obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, em que o título já designa esta mudança de paradigma, sendo que a matemática, por exemplo, nesta obra literária, rompe suas próprias fronteiras, em que os personagens, a princípio históricos, nesta narrativa de Labatut acabam descambando para um caminho delirante de cunho místico e filosófico.

Ruptura que pode ser associada com uma das insígnias apocalípticas do século XX, que foi quando o cientista Robert Oppenheimer, citou Bhagavad Gita, ao descrever a criação da bomba atômica : “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos”. Labatut reforça que o uso da ciência e da tecnologia produz desdobramentos políticos e de poder. Nos deparamos, por exemplo, com uma matemática alienígena, que rege o funcionamento das partículas elementares, em um texto, o quarto do livro, em que figuram os físicos Schrödinger e Heisenberg, num flerte com a loucura, desafiando a compreensão humana, culminando em perspectivas metafísicas e religiosas. 

Labatut também aponta a ruína da busca de um conhecimento totalizante, levando a uma verborragia enciclopédica, delirante, levando cientistas a um ponto de não retorno, em que a descoberta impacta a vida e a relação com o mundo desses personagens, que entram em parafuso, como o matemático japonês Shinichi Mochizuki e Alexander Grothendieck, que abandonou a carreira depois que descobriu o perigo de sua nova descoberta, escolhendo o silêncio, tentando evitar a má utilização daquele conhecimento que ele havia conquistado. 

Grothendieck foi um matemático alemão que alcançou avanços significativos na álgebra e na geometria, em que foi oferecida a ele a Medalha Fields, considerada o Nobel da área, mas Grothendieck recusou-a e foi viver afastado, sem compartilhar as suas pesquisas individuais, construindo uma história de vida que pode ser comparada com a do japonês Shinichi Mochizuki, que em 2012 publicou artigos demonstrando uma das mais importantes conjecturas da teoria dos números, considerada impossível de resolver até então, mas foi incompreendido.

O título de Quando Deixamos de Entender o Mundo também nomeia o conto que fala do embate entre entre Schrödinger e Heisenberg, da física quântica, em que a matemática descreve um mundo contra-intuitivo, distante do senso comum, onde Werner Heisenberg irá fundar o Princípio da Incerteza, em que a própria observação científica passa a modificar a realidade. Heisenberg revolucionou a física com este princípio, ao mesmo tempo que se defrontou com os limites do conhecimento da realidade, em que Labatut questiona como tais descobertas podem, por vezes, afetar a sanidade desses cientistas. 

No conto Azul da Prússia, o astrônomo Karl Schwarzschild, que foi pioneiro na idealização dos buracos negros, ficou com horror da própria descoberta, pois ali a física deixava de fazer sentido, e a natureza volta a mergulhar no mistério e na loucura. Ao passo que o químico judeu Fritz Haber contribuiu na criação da tecnologia que produziu o Zyklon B, gás letal que depois seria usado contra a sua própria família nos campos de extermínio. Ele conseguiu extrair nitrogênio da atmosfera, o que permitiu uma revolução na agricultura e o crescimento populacional, levando também à criação do gás sarin, que foi usado como arma química de guerra.

Esta narrativa conta como a descoberta acidental do pigmento azul da Prússia, enquanto se tentava criar o carmim, usado para pintar mantos da Virgem Maria, acabou levando à criação do cianureto e do gás usado nas câmaras de extermínio nazistas. Aqui se remonta um tema de Thomas Pynchon, em que o conhecimento acaba colaborando com métodos de genocídio, onde conglomerados como a IG Farben podem se apropriar de novas descobertas para a sua utilização no extermínio de pessoas. 

O desvio da busca científica de desvendar enigmas da natureza e do universo para um uso político e militar é a contradição trabalhada por Labatut nesta obra. O progresso científico perde a sua neutralidade em seu uso, pois move interesses de poder, em que o saber como este meio para o exercício de poder é uma virada moderna, em que o domínio técnico, que vinha das artes servis, antes subestimadas, ganham protagonismo no status da ciência como eixo da cognição moderna e contemporânea, repleta de contradições. 

No Epílogo "O Jardineiro Noturno" é feita uma síntese de todos os contos anteriores, podendo citar Alexander Grothendieck, o matemático que se isolou da sociedade ao perceber o potencial destruidor de suas descobertas. Temos ainda o "Gato de Schrödinger", em que é feita a interpretação do experimento do gato. A obra perpassa em seus quatro contos esta fronteira entre uma busca racional e produtiva, científica, e pendores de destruição política e militar, além do isolamento e loucura de cientistas atormentados.

Por fim, na obra ainda temos o próprio Labatut descrevendo estes contos : “Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A quantidade de ficção aumenta ao longo do livro; enquanto em “Azul da Prússia” só há um parágrafo ficcional, nos textos seguintes tomei liberdades maiores, tentando permanecer fiel às ideias científicas expostas em cada um deles. O caso de Shinichi Mochizuki, um dos protagonistas de “O coração do coração”, é particular: inspirei-me em alguns aspectos do seu trabalho para adentrar a mente de Alexander Grothendieck, mas a maior parte do que é dito sobre ele, sua biografia e suas pesquisas é ficção. A maioria das referências históricas e biográficas utilizadas nesta obra podem ser encontradas nos seguintes livros e artigos, a cujos autores também gostaria de agradecer”.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/benjamin-labatut-quando-deixamos-de-entender-o-mundo/

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DOUTRINA DONROE

"Estados Unidos volta a tratar a América Latina como seu quintal”


O presidente dos Estados Unidos, depois de investir numa política comercial de tarifaços, com avanços e recuos, rompendo com o multilateralismo de uma economia integrada e globalizada, com cadeias de produção interdependentes, agora coloca o mundo geopolítico, no seu aspecto de esferas de poder, também sob um retrocesso em que a ordem mundial regride a divisões de influências de poder que remetem ao século XIX. Tal retrocesso já tinha começado por parte de Putin, com a invasão russa na Ucrânia, numa guerra territorial que também tem ecos em outros tempos, e que colocou a Europa novamente no mapa da guerra clássica, o que não ocorria desde o combate contra o nazismo alemão e o fascismo italiano na Segunda Guerra Mundial. 

O ano de 2026 começa com uma invasão norte-americana na Venezuela, de caráter tópico, pois não houve continuidade e aprofundamento de um plano de ocupação territorial ou até de mudança de regime político. O que aconteceu como fato principal foi o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa e o transporte dos mesmos, por navio, até Nova York, para um julgamento. Tal medida de Trump rompe com o sistema jurídico internacional, em que o Conselho de Segurança da ONU tem que autorizar o ataque de um país a outro, ou quando se trata de casos de legítima defesa.

Ocorre um retorno à Era dos Impérios, em que parece ter tido um acordo de zonas de influência, abrindo caminho para que os Estados Unidos retomem, ipsis litteris, sem esconder nada, a política que Trump passou a chamar de Doutrina Donroe, remetendo à antiga Doutrina Monroe, mas que está mais próxima do que foi o Big Stick de Theodore Roosevelt no início do século XX, em que os Estados Unidos tornaram o chamado Destino Manifesto em geopolítica de domínio regional. 

Houve, então, uma troca, em que os Estados Unidos volta a tratar a América Latina como seu quintal, como uma zona de influência de caráter colonial, com a Rússia, que passa a ficar mais à vontade em relação à Ucrânia, partindo para o acordo que sempre desejou, com um terço do país vizinho anexado, isto é, além da Crimeia, já ocupada há alguns anos, tendo agora  a possibilidade de anexar de vez o Donbass, consolidando as forças separatistas pró-russas, apoiadas pela Rússia, que tomaram partes das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, declarando as Repúblicas Populares de Donetsk (DNR) e Luhansk (LNR), criando um corredor terrestre até a Crimeia, e com a China já visando Taiwan, que poderá ser invadida a médio prazo ou em algum momento incógnito, com a tensão que já havia no Mar da China ganhando novos contornos. 

A Era dos Impérios é a retomada da lei do mais forte, em que o sistema político global, que na globalização se estruturava através do comércio e da economia, tem agora no poder militar o fator determinante da divisão de influências no desenho geopolítico, isso incluindo a China, de posição mais voltada à diplomacia e a inserção comercial, no nível mundial, mas sendo uma constante ameaça contra Taiwan e com um histórico de anexações sangrentas como a invasão do Tibete, e os massacres contra muçulmanos no sudoeste do país.

A China agora também enfrenta uma renovada tensão com o Japão, que agora tem uma primeira-ministra de extrema direita que parece estar despertando novamente os instintos militares nipônicos, que estavam adormecidos desde a queda do imperialismo expansionista da época do Eixo e da Segunda Guerra Mundial, em que o Japão já ocupava a Manchúria, parte do território chinês, naqueles anos. 

E agora os Estados Unidos saem do discurso e partem para as vias de fato na invasão à Venezuela e com ameaças à Groenlândia e o Irã, entrando numa seara que tinha sido detonada na História contemporânea com a invasão russa, de Putin, na Ucrânia, que já gerava tensões com a Otan, agora se vendo com a questão norte-americana em relação à Groenlândia, que pertence à Dinamarca, que faz parte da organização, e que inclui o próprio Estados Unidos, o seu principal financiador, criando um circuito de tensões que leva de roldão todos os países europeus que fazem parte da Otan. 

No caso da lei do mais forte, fica restabelecida a lógica de que dentro da divisão de zonas de influências, as respectivas potências mundiais estão liberadas para qualquer ataque em suas zonas, ou seja, a Era dos Impérios rediviva é a implosão do aparato geopolítico erguido pelo direito internacional do pós-guerra, em que surgiram a ONU e outros organismos internacionais que visavam a multilateralidade e a manutenção de uma paz diplomática e sempre negociada em todas as questões. 

Este retorno da Era dos Impérios é a derrubada do conceito mais contemporâneo de soberanias nacionais, de inspiração iluminista, com a consequência do esvaziamento do direito internacional e do fim da globalização que atravessou os anos 1990 e ainda regia o comércio mundial até as intervenções tarifárias norte-americanas e agora o fim do multilateralismo, da soberania, e de tudo que foi acordado desde a segunda metade do século XX. 

Gaza foi uma espécie de laboratório de guerra genocida em que ficou provado que Israel poderia exterminar o povo palestino sem consequências na geopolítica internacional, o que proporcionou aos Estados Unidos e outras potências de que as invasões, expropriações etc, já não precisavam mais observar o sistema jurídico internacional, que vive agora mais que um esvaziamento, mas uma verdadeira implosão, numa nova era de retrocesso, ou seja, um museu de grandes novidades, citando Cazuza. 

Esta nova dinâmica de poder, opressão e controle, é nada mais que o antigo modelo imperialista que encontra ecos com o século XIX, num aprofundamento do Estado de Exceção com os plenos poderes concedidos ao ICE, a polícia de imigração, em um processo que já tinha começado, nos Estados Unidos, desde os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, incluindo um ataque, que falhou, visando atingir a Casa Branca, na maior façanha terrorista da História Mundial, feita pela Al-Qaeda de Osama Bin Laden, no 11 de setembro de 2001, em que foram promulgadas leis, como o Patriot Act, que expandiu os poderes de vigilância das agências de segurança sobre a população norte-americana.

O Estado de Exceção norte-americano avançou com os ataques ao Afeganistão e ao Iraque na chamada Guerra ao Terror, na presidência de George W.Bush, em que a ONU começou a ser esvaziada em sua autoridade, além da Base de Guantánamo, em que prisioneiros de guerra se encontravam num limbo jurídico, sem quaisquer garantias constitucionais, remontando zonas de exclusão em que a lei foi suspensa como os campos de concentração nazistas e os de refugiados em Gaza.

Nesta nova Era dos Impérios temos uma escala de países que podem ser divididos em três categorias, em que as novas potências são os impérios militares e econômicos, com armas nucleares, que determinam as regras do estado de exceção nas relações internacionais, que são os Estados Unidos, a China e a Rússia, seguidas das potências médias, que possuem armas nucleares e poder econômico, como o Reino Unido, a França, a Índia e Israel, e na base estão os outros países, que estão vulneráveis em relação às grandes potências, podendo manter a independência, virar países satélites ou protetorados destas potências militares e econômicas.

A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, anunciada pela Casa Branca em dezembro de 2025, colocou a América Latina na prioridade como zona de influência norte-americana, em que este documento atualiza a Doutrina Monroe, que foi feita pelo presidente James Monroe, em 1823, que defendia a “América para os americanos” e que fundamentou e justificou ações diplomáticas, militares e econômicas, de consolidação da influência dos Estados Unidos no continente americano. 

Trump começou exercendo esta nova doutrina no Panamá, fazendo com que o país rompesse a cooperação em infraestrutura com os chineses, apoiando o candidato conservador a presidente de Honduras, Nasry Asfura, do Partido Nacional, com ameaças de suspensão de ajuda financeira ao país caso ele não se elegesse, sendo estes dois movimentos sendo feitos ainda antes do ataque à Venezuela. E a nova doutrina ainda incluiu um socorro financeiro de U$20 bilhões ao governo argentino, do aliado de Trump, o ultraliberal, anarcocapitalista, Javier Milei, dias antes das eleições legislativas na Argentina, o que garantiu a vitória do partido governista e a sobrevivência do governo. 

Domesticamente, Trump está sob crítica intensa pela sua utilização autoritária do ICE contra a imigração, ainda tendo as denúncias de pedofilia do caso Epstein (cujos arquivos que estão sendo vazados e revelados e que vou detalhar em outra coluna), com as eleições de meio de mandato se aproximando, além de uma resistência interna contra novas incursões militares norte-americanas, pois são caras e ineficientes, com um passivo histórico recente de fracassos, cujo exemplo mais emblemático é o do Afeganistão, reocupado pelo Talibã, e todo atoleiro que foi a ocupação do Iraque após a queda de Saddam Hussein, com tentativas frustradas de mudança de regime, algo que ainda orientava a geopolítica da Guerra ao Terror de George W. Bush.

No caso das incursões militares, tal intenção de mudança de regime de outros países parece passar longe das preocupações de Trump que, no caso da Venezuela, já deixou à luz do dia suas intenções corporativas em relação ao petróleo venezuelano. Ainda temos um regime bolivariano em vigor, mas em uma condição ambígua, de uma Delcy Rodríguez, que colabora com o plano norte-americano, ao passo que a oposicionista Maria Corina Machado, que ao entregar o seu Prêmio Nobel a Trump, numa cena patética de rastejamento político e de atuação servil, numa vassalagem de sabuja, mesureira, lacaia, bajouja, chaleira e sevandija, diante de seu vicário, superou até mesmo a própria família Bolsonaro, notórios baba-ovos de Donald Trump de primeira hora, em termos de vassalagem explícita, rebaixada e sem vergonha, ou seja, uma façanha.

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/doutrina-donroe/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

POEMA LISÉRGICO

Nota dos registros desta esfera, orbe, continente,

a barca sonha e viaja, semeia os caminhos,

e estes que estão no aluvião, na ressaca,

com a infernal batida de pedras, a febre

mais cáustica, tomando o veneno dos ares,

não, estes não verão o advento, a aurora.


Tem este poema aqui sua volição,

entrementes, os ases, os tenazes,

sacrificam seus corpos, no giro da roda,

ganhando o seu poder de brio, 

e a força que não faz barganha,

que não alucina e que não

entrega a sua honra.


Foi vivendo deste canto fatal

que eu vi a sabedoria extática

da dança, como o dervixe

ao estar nos paraísos artificiais

de maya, sob a guerra de shambala.


Pois, dos uivos lancinantes da dor,

dos sofrimentos dos fantasmas do frio,

esteve em Lhasa o monge rinpoche,

sorvendo o incenso de mirra e os ventos

em profunda meditação glacial,

como um rio absurdo do vazio,

ali, na quietude liquefeita. 


Eu vi a sua poesia ditada

nos meus delírios, e os vinhos

que corriam como espanto

destas estrelas de firmamento,

nestes adornos do estro,

a reta final para a sua apoteose,

o jardim psicodélico e as virtudes

de sunshine e sua lisérgica trupe.


09/02/2026 Sublime

domingo, 8 de fevereiro de 2026

TERRA INCOGNITA

Os caminhos da noite, qual a virada da vitória,

pela manhã embriagada, ao canto bêbado,

pela praia dos mares das ventanias dos sonhos.

Os colares das conchas na fina flor do sol,

que a estrela matutina brilhava como ilha,

e este arquipélago, dos pássaros albatrozes,

que a nuvem siderada transcendia,

era o poema e sua brisa.


Os cantos antigos, das frutas fluidas,

os magos que do espanto tinham o sumo,

e a doida chama, a nunca apagada paixão,

que os delírios aprontavam na luada

prazenteira, com a vinha de sol solstício,

luneta mágica, dos ouros pratas platinas,

dos ocres cevadas e borrascas,

em que os odores ali voavam,

e a sinestesia era a literária litania.


Brotam os brotos nas jardas dos jardins,

com o olhar perdido em horizontes,

o grande e vasto oceano, 

o fundo verde da floresta,

com o orvalho do bosque 

que do fauno cantava loas,

funda estrela que atordoa,

deste seresteta, relva suave,

dos ares os voos,

da terra a origem.


08/02/2026 Estrela Estrela 

sábado, 24 de janeiro de 2026

ILHA DE SANTA HELENA

Do século do terror, guilhotinas de Brumário,

mortes de Termidor, Robespierre, Danton,

a escumalha violenta de Marat, um Sade

enlouquecido a fazer mofa do Ancien Régime,

com os rococós fedorentos das perucas de Watteau,

de uns brioches mofados de Antonieta,

a fazer de Waterloo a farsa da Restauração

dos Órleans, de uma baguete Bourbon,

na bombonière, na boulangerie,

com os ditos de Jean Valjean,

os pedaços de Justine, numa noite

de vileza em Sodoma e a morte

do louco imperador da Ilha 

de Santa Helena, numa casa

infestada de ratos e aranhas,

espumando pela boca o 

arsênico verde-esmeralda

com o brasão de Flor

da dama suicida, poetisa má,

que escreveu seu epitáfio

fumando um haxixe nas 

montanhas dos Pirineus.


24/01/2026 Monster 

  

AZUL DA PRÚSSIA

A cápsula explode no seu aroma doce e amargo de amêndoa,

escorre o azul nos tijolos e os corpos estão só ossos.

O vinco da goma, o cheiro inerte de pneumonia,

nas catacumbas dos suicidas, nos mártires que

ecoavam seus fantasmas nos pântanos e nos vales.


Os poemas que ali cessaram, o julgamento capital

sobre as cabeças das bestas-feras chapadas

de anfetamínicos e de codeína injetável.

Os ritos romanos dos asseclas da morte,

que na árdua ária trinava o caos.


Eis os escritos das chusmas das cinzas,

o pigmento venenoso que mata a presa,

arde na boca dos assassinos, rompendo

o véu das astúcias e dos ardis,

queimando na noite das facadas.


24/01/2026 Monster 

domingo, 18 de janeiro de 2026

RELVA BRUMA

Vicários da armada solar,

os seixos da floresta densa,

em que os capitulados gemem,

na noite da chuva o terrível

cosmos engole o desespero,

correnteza das nuances, 

os poetas das ilhas brotadas,

dos elfos ritos das fadas loucas,

em relvas brumas montesas. 


Surge, vai vindo o silente estrondo,

nas águas das páginas marítimas,

dos dosséis florifloridos,

latifoliada canção arvoreda, 

plenipotente, o poema brio. 


18/01/2026 Sublime 

O POEMA DE TORPEDO

Alucina a tormenta, o torpedo que tonteia a febre.

Vários executados, corpos mergulhados no mar,

o apito do sino, o farol que brilha na noite.


Eis que de poesia morre o velho, o vate vive.

Pois, dando de si ao torrente da alma,

tonitruante o estro mapeia a alma,

localiza a magia, faz o milagre.


O poeta, com os ases e o comando,

dá os nós do vento, à sorrelfa,

na queda do navio astuto,

na praia dos lírios cantantes,

diante da lufada do sol.


18/01/2026 Monster