“depois de um cancelamento, agora temos a face real do esvaziamento político”
Na véspera do debate realizado na Band, entre Lula e Flávio Bolsonaro, já repercutia a entrevista dada à CNN por Roberta Luchsinger, empresária e lobista investigada pela Polícia Federal (PF) em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuram suspeitas de corrupção, tráfico de influência e proximidade com o Careca do INSS, na investigação sobre as fraudes no instituto, que inclui um esquema de descontos ilegais.
Nesta entrevista ela afirmou que pretende firmar acordo de delação premiada e criticou o presidente Lula após ter sido chamada de pilantra pelo mesmo. Roberta é conhecida desde 2017 ao ter doado bens a Lula, se filiado ao PT em 2018 e ter mediado negócios em Brasília antes dos inquéritos atuais.
Lulinha, o filho do presidente, também é alvo destes inquéritos. Ou seja, havia uma relação de amizade entre ele e Roberta e uma suposta parceria de negócios. Tal vínculo entre os dois se tornou central nas investigações da PF e do STF, em que temos tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro, em que a PF apura se eles atuavam juntos no governo federal beneficiando empresários em troca de vantagens, em que pode ter atuado uma possível sociedade oculta entre os dois em negócios de intermediação.
Por outro lado, a seguir do debate anódino realizado na Band, o STF abriu inquérito sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes para investigar o advogado e empresário Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL) por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e uso de plataformas de apostas digitais para movimentações financeiras atípicas. Ao passo que a PF investiga o fluxo financeiro do advogado e um esquema de vazamento de informações sigilosas dentro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Relatórios da PF apontam uma movimentação de cerca de R$130 milhões num período de três meses em um das contas bancárias de Willer Tomaz, entre março e maio do ano passado, um montante incompatível com as atividades econômicas declaradas pelo advogado. Depois da quebra de sigilo telemático do mesmo, a PF encontrou e-mails em que Flávio Bolsonaro estava cadastrado como “usuário master”, com poderes de gestão numa conta bancária da empresa offshore Alcazar Holdings, pertencente a Willer Tomaz.
A investigação apura se houve de fato participação de Flávio na empresa, o que inclui uma listagem de despesas da família do senador, em que foram custeadas viagens de luxo à Europa por empresas do advogado. E ainda sobre Willer Tomaz, mensagens e fotos foram encontradas em seu celular, o que deflagrou a Operação Linceu nesta segunda-feira, dia 19 de outubro, cumprindo mandados de busca e apreensão contra Humberto Fontoura Pradera, então secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ.
Tais mandados foram devidos ao fato de no celular de Tomaz ter indícios do envio de minutas de decisões judiciais e pareceres do Ministério Público Federal (MPF) feitas pelo ex-secretário ao advogado antes de serem publicados. Em consequência, Pradera foi exonerado do cargo público imediatamente. Ao passo que Willer Tomaz criticou o vazamento das investigações às vésperas de compromissos políticos importantes, como debates eleitorais.,
Através de nota oficial, o advogado classificou as medidas como "uso indevido do aparato policial" e "pescaria probatória" para fabricar escândalos políticos. Ao passo que a assessoria do senador declarou que sua relação com Willer Tomaz é estritamente de amizade, negando alegações de conta conjunta ou acesso do senador como “usuário master” em contas de empresas do advogado.
No caso do senador e presidenciável, a PF apura participação oculta na offshore ou utilização da estrutura internacional da empresa do advogado para cometer evasão de divisas ou ocultar vantagens financeiras indevidas, enquanto a defesa de Willer Tomaz afirma que todas as suas movimentações financeiras são lícitas, auditadas e decorrentes da sua atuação regular na advocacia e em seus negócios privados, em que foram feitas críticas sobre o vazamento de relatórios e classificando a investigação como uma tentativa de perseguição com finalidade política.
No caso do debate do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), transmitido pela Band, este se consumou em trocas de ataques pessoais e ausência de propostas concretas, um fiasco que demonstra, mais uma vez, um cenário em franca decadência moral e intelectual, em que, depois de um cancelamento, agora temos a face real do esvaziamento político. A existência chapada, unidimensional e pálida do recorte, do contexto esmagado pelo barulho.
A política do recorte tem nivelado por baixo a capacidade argumentativa e afetado a maturidade institucional e do decoro de modo constrangedor. O festival de sandices e de infantilidades virou praxe, o que se vê é um cenário geral vendido para os gestos das redes sociais, cuja plateia vive, em seu lado superficial predominante, uma anestesia intelectual e um achatamento crítico contínuo e dedicado. A determinação desta massificação acéfala é comovente, um movimento alegre na direção do abismo, uma feira da pós-verdade e do apelo de quem é mais cretino e mais chocante, dos campeões de votos do “pior fica”, de tiriricas raivosos, redpilizados.
A propósito do debate, Flávio focou em pautas de apelo popular, como a segurança pública e críticas à gestão petista, contudo, fugindo de responder a questionamentos diretos, tergiversando, debochando, além de provocar o adversário com cinismo. E Lula demonstrou descontrole emocional frente às provocações, num início muito ruim, e que depois entrou na fase das perguntas que foram ignoradas adrede pelo senador.
A queda vertiginosa da qualidade do quadro político atual também se confirmou no bate-boca entre assessores e aliados nos bastidores, e segundo nota de indignação publicada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o espaço do debate foi sequestrado por bordões, provocações e ataques pessoais. O marqueteiro Pablo Marçal, o coaching de fancaria, além de ex-presidenciável de mentira, foi quem fez a mentoria para o senador usar estratégias trumpistas e malufistas em sua condução no debate. Flávio ficou atrás de Lula enquanto este falava, dentro do enquadramento, fazendo gestos, caras e bocas, com o intuito de desestabilizar o adversário, na tentativa de gerar “cortes” para as redes sociais.
De um lado, o cinismo de Flávio passava ao largo das perguntas de Lula, lembrando a tática malufista, ao passo que fustigava o petista sobre segurança pública e o caso da lobista Roberta Luchsinger, que acabara de ser entrevistada pela CNN e representava tema quente naquele momento. Lula, por seu turno, esteve cansado e irritado, sucumbindo facilmente às provocações do adversário e da claque de assessores infantilizados, com bastidores que tiveram momentos ginasiais, em que os apresentadores da Band tiveram que pedir “silêncio”.
A coordenação da campanha do PL escalou estrategicamente o governador eleito do Paraná, Sergio Moro, e o ex-deputado Deltan Dallagnol para sentarem na linha de frente dos convidados de Flávio, em um posicionamento visual dos antigos rostos da Operação Lava Jato que atuava como uma provocação psicológica direta a Lula no estúdio. Fora dali, o GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais) e o esquadrão antibomba da Polícia Militar foram acionados para vistoriar um veículo da comitiva de Flávio Bolsonaro nos estacionamentos da Band, em que a suspeita de bomba foi descartada após inspeção, mas o procedimento reteve jornalistas e equipes.
No caso de Flávio, a tática foi importada do "manual de debates" norte-americano, em que este aproveitou as regras da Band para que quando Lula estivesse falando diretamente para a câmera principal, ele forçaria a direção de imagem da TV a colocá-los no mesmo enquadramento, o chamado split screen implícito, com o intuito de produzir material de recorte de alto impacto para o TikTok e Instagram.
A movimentação imitou o comportamento de Donald Trump no segundo debate contra Hillary Clinton, em 9 de outubro de 2016, em que esta confessou em sua biografia ter ficado extremamente incomodada com a proximidade indevida de Trump, sentindo sua respiração e presença física, pois ele ficava parado, de braços cruzados ou andando, encarando fixamente as costas de Hillary. Pois no debate da Band, o gatilho funcionou quando Lula demonstrou irritação e perdeu o controle do tempo de fala.
Além desta tática norte-americana trumpista, houve ainda a "estratégia malufista" no desvio sistemático de perguntas diretas, substituindo respostas sobre denúncias por bordões repetitivos, ataques ao adversário e mudança abrupta de assunto. No caso, o ex-político Paulo Maluf ficou conhecido por ignorar os questionamentos de entrevistadores e usar o tempo para falar exclusivamente o que havia treinado. No debate atual a tática malufista gerou momentos de forte repetição, em que Lula insistiu nos mesmos temas sem obter respostas objetivas.
Por exemplo, Lula questionou duas vezes o motivo de Flávio, enquanto senador, de ter interferido juridicamente e atuado na defesa de um policial militar acusado de matar uma criança de 5 anos, o caso Ana Clara, e Flávio desvirtuou o questionamento ao citar que "73% dos presos votaram em Lula". No caso da compra de uma casa de R$ 6 milhões, apontando suspeitas sobre o financiamento de parte do valor pelo Banco de Brasília (BRB), o senador limitou-se a dizer que comprar imóveis com o "suor do trabalho" é legítimo e criticou os desvios dos filhos de Lula.
Quando Lula lançou o desafio para que ambos abrissem seus sigilos bancários e fiscais em cartório, Flávio afirmou que "não tinha nada a esconder", sem aceitar ou recusar formalmente a proposta, e disse que o presidente recebia dinheiro "por fora". Por fim, na questão de ter sido o único parlamentar a votar contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas, Flávio falou sobre escândalos de corrupção do PT em gestões passadas.
Para encerrar estas impressões do absurdo, o debate na Band foi tão ruim, mas tão ruim, que é um caso de debate cancelado na prática, e isso depois do cancelamento na Globo, após a perturbação contínua do meio jurídico brasileiro. Ou seja, diante da desorientação emocional do presidente Lula, o senador Flávio não ficou atrás em sua forma cínica de se desviar das questões, o que não necessariamente teve efeito positivo nos indecisos, muito pelo contrário, pois isso pode ser interpretado negativamente, como evasivas e não uma tática exatamente inteligente, uma vez que o mal do ladino é pensar que o mundo é idiota.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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