PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

GUERRA DO STF

 “tentativa de blindagem de Vorcaro”


A defesa de Daniel Vorcaro acenou novamente, nas últimas semanas, para a reabertura de negociações de colaboração premiada, depois de duas propostas rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por falta de fatos inéditos. Neste ínterim, o ex-dono do Banco Master completou dois meses em regime isolado na Papudinha, em uma cela com área externa e rotina restrita.

Para viabilizar uma nova rodada de conversas com o ministro André Mendonça (STF) e investigadores, os advogados de Vorcaro pediram adiamento dos depoimentos, ao passo que este busca informações sobre supostos servidores infiltrados no Banco Central para que seu acordo ganhe impulso. Portanto, o depoimento prestado em 28 de agosto último focou no inquérito que investiga a suposta cooptação e pagamento de vantagens indevidas aos ex-gerentes do BC, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, em favor dos interesses do Banco Master. 

Em depoimento que durou cerca de quatro horas e meia por vídeoconferência diretamente da Papudinha, Vorcaro negou categoricamente qualquer ato de corrupção ou irregularidade envolvendo servidores do Banco Central (BC), e seu relacionamento com a respectiva equipe técnica se manteve dentro de uma normalidade estrita. A defesa do ex-banqueiro emitiu uma nota afirmando que ele respondeu claramente a todas as perguntas, sem deixar questões em aberto, sustentando que as vantagens ou pagamentos alegadas pela PF não foram atos de corrupção. 

Após a oitiva, em nota divulgada, os advogados de Vorcaro registraram que ele disse que está à disposição de prestar esclarecimentos mais amplos e aprofundados, desde que lhe seja assegurada a possibilidade efetiva para a colaboração, o que se traduz como um aceno público claro na tentativa de abrir conversas para uma terceira proposta de delação premiada. 

Para esta nova tentativa, além de fatos inéditos, Vorcaro terá de aumentar o valor financeiro proposto para ressarcir os cofres públicos. Esse depoimento feito foi uma etapa formal essencial, antecedendo a finalização de relatório desta fase da Operação Compliance Zero pela PF e encaminhamento da lista final de indiciados à PGR (Procuradoria-Geral da República).

O caso envolvendo Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", líder operacional da milícia privada de Vorcaro, ainda suscita controvérsia, mesmo que o encerramento oficial do inquérito confirme o seu suicídio, investigações paralelas da PF afirmam que integrantes da organização criminosa continuaram tentando comprar o silêncio de seus familiares, para que dispositivos eletrônicos e arquivos pessoais deixados por ele não fossem entregues às autoridades. 

Sicário teve seu óbito em março sob custódia da PF e investigações apontam que o grupo armado e de inteligência ilegal continuou operando mesmo após as primeiras prisões do ex-banqueiro Vorcaro. Seu pai, Henrique Vorcaro, também foi preso, de forma preventiva, pois atuava como operador financeiro do fluxo de caixa que sustentava “A Turma” e os pagamentos devidos a Sicário. A PF continua a perícia sobre os telefones apreendidos com os integrantes da organização, enquanto tenta mapear novos nomes relacionados ao esquema de coação e monitoramento clandestino.

Quanto à suspeita de queima de arquivo, esta se relaciona ao fato de que Sicário tinha acesso aos segredos mais sensíveis ligados ao monitoramento ilegal de autoridades e às fraudes bilionárias. Tanto que parlamentares da oposição e o senador Carlos Viana (Podemos-MG) cobraram explicações da PF e do Ministério da Justiça, pois se houve queima de arquivo, esta estaria relacionada com a tentativa de proteção dos escalões superiores do esquema. A isso se soma a desconfiança de advogados e familiares, alegando que Sicário estava lúcido e com saúde horas antes do ocorrido.

O ministro do STF André Mendonça exigiu uma apuração rigorosa do caso, e a PF então apresentou provas técnicas robustas à Corte Suprema, em que as câmeras de monitoramento interno da carceragem registraram todo o perímetro sem pontos cegos, o que comprovaria o suicídio de Sicário. E exames periciais ainda deram negativo para uso de psicotrópicos, no caso, se teve alguma tentativa de dopá-lo. A perícia do celular também afastou qualquer possibilidade de coação ou ameaças horas antes de se matar, pois só houve comunicações com familiares e advogados.

Novas ramificações vieram dos dados extraídos dos dispositivos eletrônicos de Sicário, em que a PF abriu novas linhas de investigação criminal em que se apura a infiltração e suborno no Banco Central, com mensagens trocadas com Sicário sobre pagamento de propinas a ex-gerentes da autoridade monetária para obtenção de informações sigilosas sobre a liquidação e fusão do Banco Master. 

O pai de Daniel Vorcaro, Henrique, foi preso por ter continuado a movimentação do caixa clandestino que custeava as operações de inteligência ilegal e que quitava as pendências financeiras deixadas por Sicário, em que sua morte ainda envolve divergências entre os relatórios oficiais da PF e os apelos públicos da família e os registros burocráticos do caso, com questões como a da certidão de óbito inicial ter sido emitida sem a confirmação da causa da morte, o que a defesa julgou incomum para um caso sob custódia do Estado. 

Um erro crasso envolve o registro do cemitério em que Sicário foi enterrado, pois o sepultamento teria ocorrido um mês antes da própria morte real dele, gerando teorias da conspiração de que Sicário estaria vivo fora do Brasil. A sepultura em que seu corpo foi enterrado não tinha placa ou identificação com seu nome nos primeiros meses. 

Outra controvérsia é sobre o suicídio não ter sido evitado, uma vez que Sicário era monitorado o tempo todo, com uma intevenção dods agentes de plantão. E finalmente os familiares e advogados não tiveram acesso às imagens do circuito interno da cela, pois o STF e a PF não as liberaram para os mesmos. A desconfiança gira em torno de tal morte ser bem conveniente para blindar o topo da pirâmide do escândalo do Banco Master, os principais alvos da Operação Compliance Zero. 

Sicário gerenciava a espionagem ilegal e a quebra de sigilos de opositores do banqueiro Daniel Vorcaro, sabendo quais autoridades, policiais e políticos recebiam propina ou eram chantageados pelo grupo “A Turma”. Enquanto a narrativa oficial se funda na ciência forense e no monitoramento eletrônico, descartando teorias da conspiração.

A fundamentação oficial se baseia numa filmagem sem pontos cegos, em que a carceragem da Superintendência da PF em Belo Horizonte possuía câmeras cobrindo 100% do espaço da cela, em que o vídeo registra Sicário agindo sozinho, sem a entrada de outra pessoa na cela na hora do suicídio. O Ministério da Justiça considera o resultado definitivo, embora o sigilo imposto a trechos do inquérito e a retenção das imagens das câmeras mantenha o ceticismo em torno do caso por parte de alguns.

Quanto ao caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), este abriu e editou o contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. 

Agora circulam informações reveladas em reportagens publicadas no dia 1º de setembro de 2026 pelos jornais Estadão e O Globo com dados técnicos que foram extraídos pela PF do celular de Daniel Vorcaro, em que registros de metadados do arquivo, no sistema Microsoft Office 365, indicam que a modificação ocorreu especificamente às 23h04 do dia 15 de janeiro de 2024, e que o usuário registrado como o último a salvar/editar o documento é explicitamente identificado como "Ministro Alexandre de Moraes". 

Na minuta original previa-se parcelas mensais que somavam R$ 108 milhões, mas cláusulas de encargos e impostos elevaram o valor final para R$ 131,2 milhões, documento que foi enviado por Viviane a Vorcaro via WhatsApp dois dias após a alteração de Moraes, em 17 de janeiro de 2024, e assinado na sequência, e as informações enviadas à CPI do Crime Organizado apontam que o banco chegou a efetuar 22 pagamentos ao escritório, num total de mais de R$ 80 milhões entre 2024 e 2025, até as transferências serem interrompidas pela prisão de Vorcaro.

O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados confirmou que o ministro Alexandre de Moraes acessou e modificou o arquivo, no intuito de ver se havia algum tipo de impedimento legal ou conflito de interesses, em que o escritório enfatizou que, como o ministro, Moraes nunca julgou causas do Banco Master e que o contrato não previa nenhuma atuação perante o STF, e então a assinatura foi autorizada e os serviços jurídicos foram regularmente prestados por uma equipe de 15 advogados em caráter consultivo e administrativo. 

O ministro do STF André Mendonça enviou um ofício à Procuradoria-Geral da República (PGR) cobrando explicações sobre mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro que citam pedidos de "proteção", em que o despacho foi encaminhado na segunda-feira, 31 de agosto de 2026, dando o prazo de cinco dias para que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifeste. Mendonça faz a relatoria das investigações do "Caso Master" no STF em substituição a Dias Toffoli que, sob pressão da opinião pública, também tendo seu nome envolvido no caso Vorcaro, saiu da relatoria.  

A mensagem de Vorcaro mostra ele se dirigindo a um interlocutor, então não identificado,  questionando se não seria possível reverter as medidas ou conseguir a "proteção" de "Andrei" e "Paulo". A PF identificou que os nomes referem-se diretamente a Andrei Rodrigues (diretor-geral da Polícia Federal) e Paulo Gonet (chefe da PGR). Inicialmente, a PF não sabia quem estava recebendo as mensagens de Vorcaro, até que as perícias e cruzamentos técnicos posteriores feitos pela corporação concluíram que o destinatário oculto era o ministro Moraes. 

Com o envio do documento à PGR, André Mendonça busca obter esclarecimentos adicionais e verificar o contexto completo dessa comunicação, determinando se existe interferência ou tentativa de blindagem de Vorcaro por parte do STF em direção à cúpula da PF e da PGR, e a possibilidade de incluir Moraes no inquérito passou a ser considerada, uma vez que as mensagens trocadas indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro para que interviesse junto ao diretor-geral da PF, delegado Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Banco Master. 

Gonet foi quem afirmou que não tinha problema em Dias Toffoli ser relator do caso Vorcaro e que o contrato da mulher de Alexandre de Moraes era normal, em que o Procurador Geral da República discutia o caso do Vorcaro com seus advogados tal como um membro de sua defesa. Contudo, a existência das mensagens não comprova que Moraes, Gonet ou Andrei tenham atuado para proteger Vorcaro ou interferido nas investigações. André Mendonça avalia retirar o sigilo do relatório produzido pela PF. E a inclusão de Moraes entre os investigados dependerá da análise do material e da manifestação da PGR.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/guerra-no-stf/