PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 17 de setembro de 2011

CARTA DO POETA INSATISFEITO


   Vivemos num tempo medíocre, todos falam do cotidiano, tudo é cotidiano, essa verve da stand-up comedy me dá náuseas. Poesia que fala da eternidade e que abusa de metáfora e simbolismo é logo tachada de anacrônica, eles não querem mais poetas que escrevem com o próprio sangue, tal como diria Nietzsche dos poetas trágicos da Grécia arcaica, os poetas hoje devem ser humildes, sim, humildes! Eles dizem: “Quem sou eu para dizer que sou poeta! Seria muita pretensão da minha parte!” . Eles querem o modelo cotidiano da hipocrisia da auto-pequenez, os grandiosos morrem de fome, as editoras estão atrás de um futuro inexistente, a influência das coisas comezinhas é o auge do que se faz de poesia hoje em dia, e tem um tanto que só sabem usar das rimas chatas e previsíveis, numa lírica piegas e brega que ousam chamar de poesia, e sonham em publicar seus versos apoucados na pretensão da humildade do “quem sou eu para qualquer coisa!” . Ó sonhadores, com suas naus furadas num mar revolto de paixão, ó sonhadores das máquinas de Gutemberg!
   O que é aplaudido hoje é o chamado reino da mediocridade, o puro discurso se sobrepõe à metáfora, os símbolos são renegados como História e não como plenitude, ó medíocres, sonham tão pouco, sonham errado! Os sonhadores verdadeiros têm mania de grandeza, a grandeza que está bem retratada no Ecce Homo, todas as naus furadas afundarão no mar do esquecimento, todas estas navegações sobre o pouco que resta de original, tem muitos que escrevem igual, são escravos do igual, são apologistas do igual, e o diferente que se anuncia na tormenta vem de milênios de História, sim, pois queremos a História, escrevemos por ela e por causa dela, mesmo que muitos obtusos confundam as coisas e entendam que tudo isto que nos cabe é Metafísica! Ora, onde estão os novos Rimbauds? Ora veja só, um novo Rimbaud hoje passaria despercebido, como o próprio passou despercebido, precisamos de novos bibliófilos? Sim, precisamos!
   Tal poesia do futuro eu antevejo como o contrário de hoje, poesia bem cantada, não poesia comezinha, da falsa virtude do comezinho, da falsa humildade do cotidiano, se queres falar de coisas cotidianas, sejam cronistas, não poetas! A sedução harmônica que muitos dizem anacrônica é o salto necessário para saírmos desta contemporaneidade fajuta do reino da mediocridade! Ó sonhadores, sonhem do jeito certo uma vez na vida! Sejam detentores do prazer, hedonistas musicais, façam de suas saturnais a fonte de que emana a vida, e não apenas façam um pastiche ou coletâneas de esquetes imitando o humor idiota de americanos!
   Podemos ser livres no que fazemos, e que as editoras acordem para a poesia do futuro, a verdadeira poesia do futuro, que não é nada mais que uma reflexão da tradição reaproveitada em novos sentidos, voltemos à poesia sensorial, não esqueçamos de que ela não é Metafísica, no sentido estrito, venhamos dar boas vindas ao sentido lato da vida, que a eternidade não seja trocada por uma simples natureza morta que ousam chamar poesia, sejamos vivos como viva é a inspiração, sejamos espertos e não sejamos mesquinhos, poetas devem viver o que dizem, poesia é vida antes de ser palavra ou verso, poesia é o fundamento de tudo, e façamos música e não rimas sem gosto, sejamos os novos musicistas do que se anuncia como o futuro da arte, nada de sobriedade que fala do armário ou de objetos irrelevantes, voltemos à vida, pois ela é mais do que isto!

17/09/2011 Pensamentos Livres
(Gustavo Bastos)

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