PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

CÁLICE

Longos sussurros, lúgubre e terrível praga,

Bem vestida nas mortalhas,

Que nem sumária vida que esmaga,

De véus encobrindo as fornalhas.



O uivo que se esconde temido,

No vão alarido dos rastros,

Faz lenta a procissão dos astros,

E cuida de levantar o gemido.



Tão furiosos os descampados,

Nos mantos alvos dos pecadores,

Que sorriem desta voz de horrores,

Quando o encanto faz mesclados.



Tanta veia desejada aos ossos,

Que permeia suntuosa festa lívida,

Bem vivida esperança cálida,

Nos falecimentos dos fundos poços.



O cálice sagrado se derrama quente,

Nos esteios, nos seios de mães pátrias.

Revela potência e ardil veemente,

Pelos registros de matizes várias.



Os passeios deste fundo ouro,

Que ouve o tilintar da métrica rústica,

Defende um temeroso vindouro,

Vigário esquecido da oração e da música.



As miragens, as fantasias do coração plácido,

Poema tão grave no seu labor.

Tal cálice desgarrado se torna amor,

Tal ventre que pariu o susto mágico.



Sentir a vida essencial da maré cheia,

Sem ver o cantar das vitórias tristes.

Uns vencidos pelas mãos tortas dos chistes,

Surpresas amigáveis da volúpia da veia.



Como a vileza suposta de um debandado,

Que fugia como lesma corriqueira e hostil,

Nos traços das pelejas do vinho gentil,

Rígida corrente puxava o que ficou velado.



Cálice sentido, que me afoga prazeres.

Motim desanda atroz como esquecimento,

E traz das esferas o esperado momento,

Que as fúrias infantis denotam às vezes.



Quem bebe de teu sangue, ó cruel facada?

Que tanto busca incomparável poesia finda,

De um motor que murmura uma morada,

Vertical e pedregosa estrada linda.



É o cálice uma beberagem de ébrios,

Para despertar as vulcânicas meditações,

Nas noites pelos áureos lampejos de corações,

Que calam depois de conquistadores velhos.

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