PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 29 de março de 2015

O SER-PARA-A-MORTE EM HEIDEGGER

“a morte é a possibilidade mais própria da presença.”

   Martin Heidegger edifica no seu projeto filosófico uma busca pelo sentido do ser em geral. O que faz com que ele tenha que elaborar uma ontologia fundamental, mas, para isso, ele deve esclarecer, antecipadamente, o ser da presença segundo uma analítica existencial da presença, entendendo-se presença como o ente existencial que denominamos homem, mas que, em Heidegger, não se fundamenta como sujeito, o que demanda outra questão que não cabe aqui discutir.
   Uma vez que nós humanos, enquanto os únicos entes que se dão como presença, também somos os únicos entes para os quais se dá a morte, ontologicamente compreendida, somos então tal presença singular como um ser-para-a-morte. Não cabe aqui, pelas dimensões da resenha, levantar todas as hipóteses e categorias tematizadas em Ser e Tempo, mas sim nos concentrarmos no sentido possível que pode ser dado à presença a partir das definições do ser-para-a-morte, dadas por Heidegger no primeiro capítulo da segunda seção de Ser e Tempo.
   Quando Heidegger pergunta pela totalidade do ser da presença, ele está também, e ao mesmo tempo, perguntando pelo fim deste ser ou pela morte como fim deste ser. Ou seja, uma vez que a presença é o único ente que se dá num mundo ou como ser-no-mundo, ela, uma vez que pode antecipar seu ser-para-a-morte no anteceder-se-a-si-mesma que determina o seu ser, está diante da possibilidade extrema de sua existência, e que define a sua existência como finita, para além de sua constituição ôntica ou bio-fisiológica.
   A morte da presença é uma morte existencial, é a impossibilidade de todas as possibilidades, ou a possibilidade extrema da impossibilidade. Toda a existência da presença se determinará neste limite de seu fim no seu ser-para-a-morte.
   “No centro dessas considerações acha-se a caracterização ontológica do ser-para-o-fim em sentido próprio da presença e a conquista de um conceito existencial da morte” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.311). Portanto, Heidegger, ao tematizar a morte, considera que há a necessidade de uma compreensão existencial do fenômeno, uma vez que, para Heidegger, a morte está eivada de concepções difusas que não chegam ao cerne ontológico da questão, limitando-se, quando muito, no seu aspecto ôntico ou, por outro lado, numa metafísica da morte segundo teodiceias ou teologias da morte.
   Heidegger, ao analisar a morte da presença, constata que, para si mesma, a presença não pode fazer uma experiência concreta de sua própria morte. No entanto, a presença pode ter acesso objetivo em relação à morte dos outros, onde o findar de uma outra presença é experimentada por nossa presença, uma vez que toda presença tem uma de suas determinações como ser-com os outros.
   Portanto, a presença que deixou de existir no mundo ainda é mais do que um ser simplesmente dado, já que, no mundo circundante e passível de ocupação, tal presença que deixou a existência ainda está em relação com outras presenças, no culto que lhe é devido como um modo de uma preocupação reverencial dos que a presença morta deixou no mundo. Isto quer dizer que o ser-com os outros ainda está vigente, mesmo com a morte desta presença. Pois é “a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ela.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.312).
   “Esse ser-com o morto não faz a experiência do ter-chegado-ao-fim do finado. A morte se desvela como perda e, mais do que isso, como aquela perda experimentada pelos que ficam. Ao sofrer a perda, não se tem acesso à perda ontológica como tal, sofrida por quem morre. Em sentido genuíno, não fazemos a experiência da morte dos outros.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.313). A questão que se coloca é sobre o sentido ontológico da morte de quem morre. Temos que, então, para tal, nos voltarmos para a nossa própria presença, “ninguém pode retirar do outro a sua morte” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.314). “Cada presença deve, ela mesma e a cada vez, assumir a sua própria morte. Na medida em que é, a morte é, essencialmente e cada vez, minha. E de fato, significa uma possibilidade ontológica singular, pois coloca totalmente em jogo o ser próprio de cada presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.314)
   Então, a presença não pode compreender ontologicamente a morte dos outros entes dotados de presença, tal experiência ontológica está reservada no seu próprio ser-para-o-fim ou ser-para-a-morte que é inalienável de si mesma, a morte é de cada presença e não pode, portanto, ser compartilhada, uma vez que, em Heidegger, a morte é o fenômeno pelo qual a presença se singulariza e toma a morte como a morte dela e não de outros.
   Heidegger, a partir desta constatação, parte para o seu objetivo precípuo quando tematiza a morte, qual seja, a possibilidade de uma interpretação ontológica da morte. “O que cabe é buscar na própria presença o sentido existencial de seu chegar-ao-fim e mostrar que esse ‘findar’ pode constituir todo o ser desse ente que existe.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.316).
   Através da morte, Heidegger, quer chegar à totalidade do ser da presença, e o que ocorre é que com a analítica da presença como ser-para-a-morte chega-se à singularidade de cada presença, pois a morte é uma experiência única e da qual não se pode escapar. “O chegar-ao-fim encerra em si um modo de ser absolutamente insubstituível para cada presença singular.” (p.316) Esta é a conclusão lógica de Heidegger, como presença que sou, só posso ter a morte como a minha morte.
   “Há na presença uma ‘não-totalidade’ contínua e não eliminável, que encontra seu fim com a morte. Mas será que se deve interpretar como pendente o fato fenomenal de que esse ainda-não ‘pertence’ à presença enquanto ela é?” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.316) Ora, para Heidegger, o ainda-não da morte da presença não é necessariamente uma pendência, uma vez que o ser-para-a-morte define ontologicamente a própria presença no seu ser próprio. Então, somente podemos dar este ainda-não como pendência numa concepção imprópria do ser-para-a-morte da presença, o que se vê na cotidianidade que oculta a morte existencial.
     “A falta enquanto o que está pendente, não proporciona, de forma alguma, a determinação ontológica do ainda-não que, como morte possível, pertence à presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.317). “Esse ente não possui, absolutamente, o modo de ser do que está à mão dentro do mundo. ... A presença sempre existe no modo em que o seu ainda-não lhe pertence.” (Idem).
   A presença, segundo o que diz Heidegger acima, não se determina tal qual um ente à mão no mundo circundante das ocupações, portanto, não pode ser objeto de coisificação, nem ser tomado como ser simplesmente dado, interpretando-se erroneamente a sua morte como um ainda-não pendente e não como uma essência do ser da presença.
   Será que a morte, a que chega a presença, é uma completude? Com a morte a presença completou o seu curso? Mas terá a presença com a morte esgotado suas possibilidades específicas? Não lhe terão sido justamente retiradas estas possibilidades? A presença, na maior parte das vezes, finda na incompletude ou na decrepitude e desgaste. “Findar não diz necessariamente completar-se.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.319). Então, vem a questão: “Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da presença?” (Idem).
   Heidegger afirma que a morte não é uma completude do existir do ser da presença, ou seja, ela não é um arremate de tudo o que se viveu enquanto presença, não há relação de necessidade entre a morte e a completude ou plenitude de uma determinada vida do ser da presença. Não há um fim do caminho percorrido pela presença, já que tal fim do ser-para-a-morte da presença se dá o tempo todo na sua existência. “Na morte, a presença nem se completa, nem simplesmente desaparece, nem acaba e nem pode estar disponível à mão.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.320).
   “Da mesma forma que a presença, enquanto é constantemente, já é o seu ainda-não, ela também já é sempre o seu fim. O findar implicado na morte não significa o estar-no-fim da presença, mas o seu ser-para-o-fim. A morte é um modo de ser que a presença assume no momento em que é.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.320). “Enquanto ser-para-o-fim, o findar reclama um esclarecimento ontológico haurido no modo de ser da presença.” (Idem). “A caracterização do fenômeno em questão (ainda-não ser, findar, totalidade) só terá êxito em se orientando, de forma precisa, no sentido da constituição ontológica da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321). “A interpretação analítico-existencial positiva da morte e de seu caráter de fim deve obedecer ao fio condutor da constituição fundamental da presença” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321).
   Como dito acima pelo próprio Heidegger, para se ter uma ideia ou uma compreensão adequadas da morte existencial da presença ou de seu ser-para-a-morte, é necessário que, para tal, tenhamos em conta uma analítica ontológica do modo de ser da presença, que é, por sua vez, fundamento para a compreensão de si mesma no sentido dado pelo findar ou pelo ser-para-a-morte como sua essência e totalidade. Tal afirmação não constitui petição de princípio, uma vez que o próprio Heidegger nos alerta em Ser e Tempo da circularidade dos raciocínios de seu empreendimento, não há, portanto, qualquer contradição em dizer que o ser-para-a-morte se compreende numa analítica existencial da presença e vice-versa, o modo de compreensão é unificado.
   “No sentido mais amplo, a morte é um fenômeno da vida. Deve-se entender a vida como uma espécie de ser ao qual pertence um ser-no-mundo.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321). “No âmbito da ontologia da presença ... a análise existencial da morte subordina-se a uma caracterização da constituição fundamental da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.322). Temos aí, novamente, a relação do fundamento da presença como o seu ser-para-a-morte, a essência da existência em Heidegger se define, portanto, na morte existencial.
   “A interpretação existencial da morte precede toda biologia ou ontologia da vida. É ela que fundamenta qualquer investigação histórico-biográfica e psico-etnológica da morte. (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.322). Temos aí, então, que a ontologia da presença como uma interpretação existencial da morte precede toda cognição acerca de seu conteúdo ôntico. Ou seja, a morte existencial precede na compreensão heideggeriana as suas implicações cotidianas ou da natureza de um conhecimento constituído.
   “Caso se determine a morte como fim da presença, isto é, do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente se, ‘depois da morte’ um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.323). “Interpretando-se o fenômeno meramente como algo que se instala na presença enquanto possibilidade ontológica de cada presença singular, a análise da morte permanecerá inteiramente ‘neste mundo’.” (Idem). “A interpretação ontológica da morte ligada a este mundo precede toda especulação ôntica referida ao outro mundo.” (Ibidem). “A análise existencial precede as questões da biologia, psicologia, teodicéia e teologia da morte.... A morte é uma possibilidade privilegiada da presença.” (Ibidem).
   Nas citações heideggerianas acima fica evidente que o pensamento de Heidegger é anterior no sentido ontológico do termo, sua análise existencial antecipa-se em relação aos significados ônticos ou cognitivos possíveis, sendo então uma analítica ontológica radical da presença e sua relação constante com a sua morte existencial.
   “Por outro lado, a análise não pode ater-se a uma ideia da morte, cogitada ao acaso e arbitrariamente. Somente uma caracterização ontológica prévia do modo de ser em que o ‘fim’ se instala na cotidianidade mediana da presença é que pode guiar este arbítrio.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.323).
   “A morte é uma possibilidade ontológica que a própria presença sempre tem de assumir. ... Nessa possibilidade, o que está em jogo para a presença é pura e simplesmente seu ser-no-mundo. Sua morte é a possibilidade de poder não mais ser presença. Essa possibilidade mais própria e irremissível é, ao mesmo tempo, a mais extrema. Enquanto poder-ser, a presença não é capaz de superar a possibilidade da morte. A morte é, em última instância, a possibilidade da impossibilidade pura e simples da presença. Desse modo, a morte desvela-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável. ... Essa possibilidade existencial funda-se em que a presença está, essencialmente, aberta para si mesma e isso no modo de anteceder-a-si-mesma. Esse momento estrutural da cura possui sua concreção mais originária no ser-para-a-morte.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.326).
   Heidegger deixa claro que há uma necessidade existencial da presença assumir o seu ser-para-a-morte como o único caminho possível para uma compreensão de sua essência e determinar, deste modo, como a presença deve lidar de forma adequada com esta possibilidade extrema da morte, uma vez que na cotidianidade isto é ocultado na impessoalidade.
   Ser-para-a-morte: em existindo, a presença já está lançada nessa possibilidade, portanto, a morte não é algo suplementar ou ocasional. Ou seja, a existência autêntica e plena reconhece o fato da morte existencial como indispensável tanto para a compreensão do que é a presença como, uma vez compreendendo o ser da presença, nos encaminhemos, com isso, para a compreensão do sentido do ser em geral, já que este é o grande projeto filosófico heideggeriano.
   “É na disposição da angústia que o estar-lançado na morte se desvela para a presença de modo mais originário e penetrante. A angústia com a morte é angústia ‘com’ o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que ela se angustia. O porquê dessa angústia é o puro e simples poder-ser da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.326 e 327). Ou seja, tal angústia é a própria certificação da morte como algo inexorável e, portanto, é como se a angústia fosse a chave para a compreensão do ser-para-a-morte propriamente dito. Isto é, com a angústia toda fuga da morte se desvanece.
   “Que, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, muitos de fato não sabem da morte, isso não pode ser aduzido como prova de que o ser-para-a-morte não pertença de maneira geral à presença. Isso apenas mostra que, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença encobre para si mesma o ser-para-a-morte mais próprio em dele fugindo.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.327) (Obs: na decadência de um empenhar-se no mundo das ocupações anuncia-se a fuga da estranheza, isto é, do ser-para-a-morte mais próprio). “Existência, facticidade e decadência caracterizam o ser-para-o-fim, constituindo, pois, o conceito existencial da morte.” (Idem).
   “Pertencendo originária e essencialmente ao ser da presença, o ser-para-a-morte deve também ser comprovado na cotidianidade – embora numa primeira aproximação, de maneira imprópria.” (Ibidem).
   O próprio da cotidianidade é o impessoal, constituído na interpretação pública expressa na falação. ... O teor público da convivência cotidiana conhece a morte como uma ocorrência que sempre vem ao encontro, ou seja, como ‘casos de morte’. ... ‘A morte’ vem ao encontro como um acontecimento conhecido, que ocorre dentro do mundo. ... A fala pronunciada sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre, mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.328)  Ou seja, uma vez que a compreensão cotidiana do ser-para-a-morte encobre o seu sentido originário e cabal de fim existencial, temos que o impessoal invade tal reflexão e determina a morte como a morte de ninguém, não há um pensar na morte como algo irremissível, a morte é algo banal do qual não se tem o sentido, morre-se o tempo todo no mundo circundante mas isto não atinge a presença enquanto tal.
   “O impessoal não permite a coragem de se assumir a angústia com a morte ... o que cabe é a tranquilidade indiferente frente ao fato de que se morre. A elaboração dessa indiferença superior aliena a presença de seu poder-ser mais próprio e irremissível.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.330). Fica claro aqui o sentido alienante em relação à morte existencial da cotidianidade para Heidegger.
   “Numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença se atém faticamente a um ser-para-a-morte impróprio. Como se haverá de caracterizar ‘objetivamente’ a possibilidade ontológica de um ser-para-a-morte em sentido próprio? (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.336). “Ser-para-a-morte em sentido próprio não pode escapar da possibilidade mais própria e irremissível e, nessa fuga, encobri-la e alterar o seu sentido em favor da compreensão do impessoal.” (Heideggger, Ser e Tempo, 2006, p.337). O que Heidegger quer dizer nestes trechos é que a fuga para o impessoal da cotidianidade é inútil em relação ao sentido próprio do ser-para-a-morte, podemos postergá-lo, mas não evitá-lo, podemos ignorá-lo ao máximo, mas um dia tal situação existencial tomará o que lhe é próprio e devido na sua irremissibilidade.  Lembrando que “a morte enquanto algo possível não é um manual e nem algo simplesmente dado possível, e sim uma possibilidade de ser da presença.” ( Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.338).
   “O ser para a possibilidade enquanto ser-para-a-morte, no entanto, deve relacionar-se para com a morte de tal modo que ela se desvele nesse ser e para ele como possibilidade. Apreendemos, terminologicamente, esse ser para a possibilidade como antecipar da possibilidade.”(Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.339). (obs: morte = possibilidade da impossibilidade da existência). “Enquanto antecipação da possibilidade, o ser-para-a-morte é que possibilita essa possibilidade e que a libera como tal.” (Idem).
   “Ser-para-a-morte é antecipar o poder-ser de um ente cujo modo de ser é, em si mesmo, o antecipar. Ao desvelar numa antecipação esse poder-ser, a presença abre-se para si mesma, no tocante à sua possibilidade mais extrema. Projetar-se para seu poder-ser mais próprio significa, contudo: poder compreender-se no ser de um ente assim desvelado: existir. A antecipação comprova-se como possibilidade de compreender seu poder-ser mais próprio e mais extremo, ou seja, enquanto possibilidade de existir em sentido próprio.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.339/340). Enfim, “a morte é a possibilidade mais própria da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.340). Portanto, é através desta antecipação que é possível para a presença se desgarrar do impessoal, é no seu sentido próprio de ser-para-a-morte irremissível que a presença supera a letargia existencial da ignorância do impessoal.
   “A morte não apenas pertence de forma não indiferente à própria presença, como reivindica a presença enquanto singular. A irremissibilidade da morte, compreendida no antecipar, singulariza a presença em si mesma.” (Idem). Entende-se, aqui então, que a presença se singulariza através de sua morte, é a sua essência como ser-para-a-morte que lhe dá uma identidade existencial diferente de todas as outras e imune da homogeneidade medíocre do impessoal.
    “Ao se delimitar no projeto existencial o antecipar, tornou-se visível a possibilidade ontológica de um ser-para-a-morte em sentido próprio. Com isso, surge também a possibilidade de a presença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.344). “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente possível permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica. A possibilidade ontológica de a presença poder-ser toda em sentido próprio nada significa, porém, enquanto não se demonstrar, a partir da própria presença, o poder-ser ôntico que lhe corresponde.” (Idem).

   No trecho acima fica evidente que o projeto filosófico heideggeriano, no que concerne à morte existencial, que é, por sua vez, um findar ontológico, precisa de uma confirmação ôntica, o que demanda uma outra reflexão que não cabe aqui demonstrar, uma vez que a própria reflexão heideggeriana não se esgotou na obra Ser e Tempo que, como muitos sabem, é um projeto inacabado, mas é a sua abertura existencial ou ontológica, sua obstinação por edificar uma ontologia fundamental, que torna tal obra indispensável para a reflexão da filosofia contemporânea.
   Feita uma reflexão acerca do sentido do ser-para-a-morte na analítica existencial da presença em Heidegger, temos que, no modo em que ela se dá, ela é uma contribuição valiosa para que possamos ir além do ôntico e do cognitivo quando se fala de existência ou do que é humano como presença e não como sujeito cognoscente.
   O grande avanço de Heidegger, no tocante aos seus questionamentos, é que ele vai além dos antigos e dos modernos no sentido ontológico, o que não quer dizer que Heidegger seja infalível, uma vez que seu projeto ficou por se completar, o que não é um demérito, mas um motivo para que não fiquemos satisfeitos com Ser e Tempo, já que o sentido do ser em geral, que era o projeto original de Heidegger, terminou no início do longo caminho de uma ontologia fundamental, qual seja, a analítica existencial da presença.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://www.seculodiario.com.br/22048/14/o-ser-para-a-morte-em-heidegger

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