PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ANTOLOGIA POÉTICA CASSIANO RICARDO – PARTE IV

CASSIANO RICARDO E O SÉCULO XX

“podemos ver sua reflexão pessimista sobre a ciência e o futuro”

Cassiano Ricardo tem como ideia central de seus últimos trabalhos em poesia uma denúncia da guerra e do progresso tecnológico destrutivo, numa nova visão pessimista do conhecimento científico que resulta numa crítica sobre o estado de sobrevivência em que se encontra a natureza humana, e que tem como grande impacto a imagem apocalíptica da bomba atômica, vulto e sombra que atingirá também o estro de diversos outros poetas do século XX do pós-guerra ou Guerra Fria e do choque que foi a Segunda Guerra Mundial, curiosamente se ligando mais ao fenômeno atômico do que propriamente ao holocausto, outro crime e tragédia humanos de vulto neste século em que tudo foi testado, desde totalitarismos até bombas devastadoras como as atômicas.
Na parte final da obra poética de Cassiano Ricardo podemos ver sua reflexão pessimista sobre a ciência e o futuro, tais como em seus livros Jeremias Sem-Chorar (1964) e Os Sobreviventes (1971), livros que demonstram a inversão de uma percepção otimista da técnica que vinha de vanguardas artísticas e poéticas como havia no futurismo de Marinetti. Agora tínhamos a bomba atômica e tudo muda em relação a isso, o mundo poderia ser extinto pelo Homem e não por imagens bíblicas, nós tínhamos acabado de criar um poder destrutivo maior do que tudo, a vida passa a ser vivida na Guerra Fria na sensação de catástrofe iminente e com isso a ciência, a tecnologia e a ideia de progresso sofrem uma inversão negativa e pessimista, portadora de uma possível destruição em escala mundial.
No seu livro de poesia Os Sobreviventes, Cassiano Ricardo tem como tema a condição humana transformada radicalmente por esta nova destruição ativa e potencial vistas no século XX, e que aqui está diretamente associada ao avanço científico e tecnológico, e aqui com um livro que não vai falar da bomba atômica, mas do progresso numa visão pessimista do futuro, tudo como um grande documento tirado da leitura de notícias de jornal, e que reúne poemas que estarão, por sinal, interligados, numa obra coesa que é a descrição em forma de poesia da desilusão contemporânea, que agora vê o progresso técnico como catástrofe.
No livro João Torto e a Fábula (1956), por sua vez, conjunto vasto de poemas que vai tratar da ameaça nuclear, João Torto é um pescador que vê a bomba de hidrogênio cair sobre uma ilha deserta. A consciência histórica em Cassiano Ricardo nesta altura de sua obra está ligada ao combate contra a utilização bélica da tecnologia nuclear, sendo então, por fim, uma consciência planetária e não somente histórica. A descoberta de Cassiano Ricardo aqui, por fim, é de uma fraternidade despertada pela possibilidade da extinção total.


POEMAS :

JOÃO TORTO E A FÁBULA (1954)

GÁS LACRIMOGÊNEO : O poema de Cassiano Ricardo aqui começa como uma peça de resistência, o homem (poeta) que represa as lágrimas, mas que aqui é assaltado de sua fortaleza pelo gás lacrimogêneo, no que o poema tem força e sucumbe num golpe duplo que o poeta floreia com seu estro que combate na cidade : “Aplaudi o orador do comício./Mas aplaudi, apenas, sem nenhuma/intenção de chorar.” (...) “Mas a polícia compareceu rutilante./A sua máquina de fazer chorar/funcionou/maravilhosamente, rutilantemente./E a multidão se dispersou chorando,/como se um monstro bíblico/desfizesse a alegria das ruas em pânico/com o seu choro mecânico e coletivo./E os meus olhos choraram lágrimas/inverídicas./No entanto eu não pretendia chorar./Pretendia, ao contrário, apartear o orador/pra lhe contar que há muito tenho os olhos/enxutos./Que sou um habitante da caatinga./Que sou antimarítimo, anticeleste.”. A lágrima inverídica, a máquina de fazer chorar da polícia, tudo o que o poeta, nas suas origens, recusa, sua vida seca da caatinga já cansou de levar chumbo e tem a casca grossa de tudo que poderia exasperar, mas já foi tanto, que a dureza toda já transformou tudo em pedra, no que o poeta canta que de tantas razões para se chorar, nem se chora mais, no que temos : “Porque pertenço a uma família enxuta e magra/a quem a sede fez secar os olhos .../Porque moro num chão onde são muitas as razões pra/chorar/mas onde não se chora.” (...) “Que nome terá o crime, a iniquidade/de quem me fez chorar na rua, no áspero país/onde não se chora:/Onde não se chora senão de saudade?”

MONTANHA-RUSSA (1960)

MONTANHA-RUSSA : O poema transita em uma inquietude, de um lugar instável, tal montanha-russa, no que temos : “já o ser inquieto não/está em nenhum lugar/porque a inquietação já/é uma forma de não/estar nunca estaR”. O trânsito aqui também da imaginação, numa montanha-russa que sobe cai, no que segue : “quem imagina não/está em si somente/nem somente onde está/está de repente/sem cuspir nem porvir/numa montanha-russa/só pelo prazer/perpendicular/de subir e caiR”. E o poeta então pede : “Espera-me na porta/se estiveres na lua/maria azul luz clara” (...) “só terás tempo de dizer” (...) “que louco é este/que chegou da terra e não/me trouxe sequer/uma floR”. O louco ou poeta está num turbilhão, em que traz o poema, mas esquece a flor.

COMPETIÇÃO : O poema tem uma estrutura simples, e tem um esquema em que se repete o raciocínio com diversidade de imagens, que conclui sempre no melhor ou mais belo, que é o que o poema nos diz, ao fim deste em que se conclui um esquema que é circular, belo é o mar e o barco no mar, pois : “O mar é belo./Muito mais belo é ver um barco/no mar./O pássaro é belo./Muito mais belo é hoje o homem/voar./A lua é bela./Muito mais bela é uma viagem/lunar.” (...) “Belo é o azul./Mais belo o que Cézanne soube/pintar.” (...) “O mar é belo./Muito mais belo é ver um barco/no mar.”

A DIFÍCIL MANHÃ (1960)

A DIFÍCIL MANHÃ : O poema é um canto de esperança, dirigido a todos, até a quem o poeta não conhece, e temos aqui um estro em que se diz de forma universal a forma poética da esperança, no que temos : “Vontade de mandar lembrança/a alguém que não conheço.” (...) “Quando um dístico, pra ser lido,/(por todos) de um e do outro lado,/Como uma grande luz-azul,/me anunciará :/aqui é que começa o país/da esperança?” (...) “O relógio/soluça como um pássaro/em meu bolso.”. O dístico é um prisma que mira para todos os lados, e é também este lugar total e universal que todos chamam de esperança.

A CIDADE FEROZ : O poema é uma grande construção de uma cidade de bichos, estes que não são os rebuscados, mas bichos ferozes de uma lógica fria, que o poeta nos explica, neste poema bruto e duro em ferocidade, no que temos : “Quero construir minha pequena/ferocidade em flor. Num jardim. A capricho./Afinal, sou um homem da cidade/mas tenho um coração de anjo e de bicho./Não quero, para o meu jardim zoológico,/bichos ornamentais, faisões, pavões, aves do paraíso,/de plumagem setecolorida./Quero um jardim mais lógico, como o exige/A cidade feroz.”. Eis a ideia do poeta de sua cidade feroz, no que segue : “Tragam-me bichos que pareçam capricho/da natureza. Os mais grotescos, os mais fulvos.” (...) “Quero bichos que me comeriam vivo/se não fossem as grades, e eu na relva.” (...) “Como o exige/minha ferocidade de homem da cidade.” (...) “Tudo na lógica de um jardim de bichos,/não de flores.” (...) “Fera feérico/feroz/ cidade./Ferocidade/único :/Fica abolida, em meu jardim, que é só de bichos/e não de flores, a palavra saudade.”. O poema é duro, e não ornamental, tal que é a cidade feroz, que junto e invertido resulta na palavra ferocidade.

JEREMIAS SEM-CHORAR (1964)

7 RAZÕES PRA NÃO CHORAR : O poema mais uma vez resiste ao pranto e se vê então num mundo de tal terror, que até sofrer é em vão, no que temos : “O mundo do terror/e do encanto/me obsta o pranto.” (...) “Um coice de cavalo/no comício/e eu – Jeremias seco –/olho de vidro./A cidade mecânica/timpânica/me fez um objeto/concreto./Uns mataram a sede/no suor dos outros./E eu fiquei sem água/nem sal.” (...) “A lágrima é ridícula./Um homem não chora.”. E o poema encerra com o poeta que represa as lágrimas, pois não quer ser idiota.

POÉTICA : O poema, sucinto, revela a poesia e o poeta, em uma forma simples e direta, no que segue : “Que é a Poesia?/uma ilha/cercada/de palavras/por todos/os lados./Que é o Poeta?/um homem/que trabalha o poema/com o suor do seu rosto./Um homem/que tem fome/ como qualquer outro/homem.”. O poema apresenta a poesia, esta que se faz ilha de versos e estrofes, onde tudo é possível, e as palavras orbitam este astro que decifra esta ciranda no estro em atividade, e ao fim temos o poeta, este que tem fome de tudo, e que sua para produzir o melhor de uma senda poética que lhe entretém a alma.

POEMAS :

JOÃO TORTO E A FÁBULA (1954)

GÁS LACRIMOGÊNEO

Aplaudi o orador do comício.
Mas aplaudi, apenas, sem nenhuma
intenção de chorar.
Pois, como diz a Bíblia : ao dia
de hoje já não bastarão os seus males?

Mas a polícia compareceu rutilante.
A sua máquina de fazer chorar
funcionou
maravilhosamente, rutilantemente.
E a multidão se dispersou chorando,
como se um monstro bíblico
desfizesse a alegria das ruas em pânico
com o seu choro mecânico e coletivo.
E os meus olhos choraram lágrimas
inverídicas.

No entanto eu não pretendia chorar.

Pretendia, ao contrário, apartear o orador
pra lhe contar que há muito tenho os olhos
enxutos.

Que sou um habitante da caatinga.
Que sou antimarítimo, anticeleste.
........................................................................

Porque um homem não chora.

Porque sou filho das manhãs sem orvalho.
Porque pertenço a uma família enxuta e magra
a quem a sede fez secar os olhos ...
Porque moro num chão onde são muitas as razões pra
                                                                                         chorar

mas onde não se chora.
Meu filho choraste em presença da morte?
Meu filho não és.

Que nome terá o crime, a iniquidade
de quem me fez chorar na rua, no áspero país
onde não se chora:
Onde não se chora senão de saudade?

MONTANHA-RUSSA (1960)

MONTANHA-RUSSA

já o ser inquieto não
está em nenhum lugar
porque a inquietação já
é uma forma de não
estar nunca estaR

que se dirá então
do ninguém que mora
em mim por não ter não
onde morar
na terra no ar no maR

quem imagina não
está em si somente
nem somente onde está
está de repente
sem cuspir nem porvir
numa montanha-russa
só pelo prazer
perpendicular
de subir e caiR

ó meu distante amor
quando eu passar espera-me
na tua porta não
te poderei beijar não
só terei tempo para
na paisagem em fuga
entre areia e sal
te deixar na mão
uma floR

Espera-me na porta
se estiveres na lua
maria azul luz clara
quando eu passar como
um peixe-voador não
terei tempo para
te ofertar sequer
uma floR

só terás tempo de dizer
como a mulher de Arvers
que louco é este
que chegou da terra e não
me trouxe sequer
uma floR

COMPETIÇÃO

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar.

O pássaro é belo.
Muito mais belo é hoje o homem
voar.

A lua é bela.
Muito mais bela é uma viagem
lunar.

Belo é o abismo.
Muito mais belo o arco da ponte
no ar.

A onda é bela.
Muito mais belo é uma mulher
nadar.

Bela é a montanha.
Mais belo é o túnel para alguém
passar.

Bela é uma nuvem.
Mais belo é vê-la de um último
andar.

Belo é o azul.
Mais belo o que Cézanne soube
pintar.

Porém mais belo
que o de Cézanne, o azul do teu
olhar.

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar.

A DIFÍCIL MANHÃ (1960)

A DIFÍCIL MANHÃ

Vontade de mandar lembrança
a alguém que não conheço.
Que mora atrás do mundo espesso.
Onde a árvore da esperança
ficou sendo minha antípoda.

Quando um dístico, pra ser lido,
(por todos) de um e do outro lado,
Como uma grande luz-azul,
me anunciará :
aqui é que começa o país
da esperança?

De modo que a esperança aí comece
e não termine, por estar,
durante a noite inteira
(como uma grande luzazul)
escrita num e no outro lado
da fronteira.

Quando a manhã, não a manhã
que chega sempre tarde,
mas a que chegará à tarde,
à noite, a qualquer hora,
porque não obedece ao céu
nem ao relógio,
virá?

O relógio
soluça como um pássaro
em meu bolso.

A CIDADE FEROZ
Quero construir minha pequena
ferocidade em flor. Num jardim. A capricho.
Afinal, sou um homem da cidade
mas tenho um coração de anjo e de bicho.

Não quero, para o meu jardim zoológico,
bichos ornamentais, faisões, pavões, aves do paraíso,
de plumagem setecolorida.
Quero um jardim mais lógico, como o exige
A cidade feroz.
Em meu catálogo, saudade será substituída por ciudad.

Não quero uma coleção de borboletas.
Nem de garças. Para o meu coração de anjo e de bicho
as garças são graças que ficaram garças
por anagrama, quando esparsas.

Tragam-me dromedários para a minha vocação de deserto.
Com sedes de viagens sobre areia movediça
e enrediça, entre
plantas secas que estalam flores de papel,
sempre-vivas, com pétalas de alumínio dourado.

(A cidade, uma selva de cimento e relva.
Um gavião debulhando os meus olhos, duas flores
de cardo, mas em rima oculta.)

Tragam-me bichos que pareçam capricho
da natureza. Os mais grotescos, os mais fulvos.
Não os de pelo desbotado
mas a zebra listrada, a girafa da Núbia.
Nada de gansos, de plumagem cinza.
Porque o cinza é burguês, é neutro. Os gansos
já não anunciam, como os do Capitólio.

Gansos
mansos

 Quero bichos que me comeriam vivo
se não fossem as grades, e eu na relva.
(Eu foto hipo pótamo gráfica mente na relva)

Quero bichos t´rombudos, chifrudos, felpudos, rabudos
Com que graça Miss Ruth os apontará – dedos de
rosa –
a seus irmãos pequenos, olhos verdes.
Venha um enorme tigre de Bengala (eu na relva)
para o meu jardim. Uma pantera negra
debaixo da roseira, como a do Cantus Planus.
Não du foyer, como a de Rollinat.

Venha um rinoceronte, oto-rino-bifronte.
Venha uma onça – madrugada elétrica. Venham
os elefantes, ainda indômitos, da África. Orelhudos.
Daqueles que um rajá oferece a outro
em datas genetlíacas egipicíacas. Como o exige
minha ferocidade de homem da cidade.
Cidade substituindo saudade e eu na relva.
(Eu foto hipo pótamo gráfica mente na relva)

Tudo na lógica de um jardim de bichos,
não de flores.
Onde haja fotógrafos especializados em fotografar crianças
junto às jaulas.
Fera feérico
feroz
 cidade.
Ferocidade

único :
Fica abolida, em meu jardim, que é só de bichos
e não de flores, a palavra saudade.

JEREMIAS SEM-CHORAR (1964)
7 RAZÕES PRA NÃO CHORAR
1
O mundo do terror
e do encanto
me obsta o pranto.

2
Subtraído à lei
da gravidade
perdi a noção
do que é grave.

3
Um coice de cavalo
no comício
e eu – Jeremias seco –
olho de vidro.

4
A cidade mecânica
timpânica
me fez um objeto
concreto.

5
Uns mataram a sede
no suor dos outros.
E eu fiquei sem água
nem sal.

6
A seca,
lacrimossedenta,
bebeu meu poço.
E agora?

7
A lágrima é ridícula.
Um homem não chora.

POÉTICA
1
Que é a Poesia?

uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.

2
Que é o Poeta?

um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
 como qualquer outro
homem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.








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