domingo, 28 de novembro de 2010

TOWARDS THE PANTHEON


"Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita."
(William Blake)

I

Da Coluna principal o princípio de tudo:

Fez-se Universo, dores lancinantes do parto

e a esférica lembrança

de gritos e perdões,

de gritos e gerações,

tudo ondulando o giro dos mundos,

tudo conspirando no céu sempre eterno

que olhava a terra na qual nós passamos

como rios sinuosos e ignorantes do Absoluto.



Velava a vida o karma, a luta espiritual

com os ferros do presídio

que um dia foi a loucura do sábio.

E que, com a sua memória,

trazia de si o Universo pondo-se

como o indizível Espírito.

O karma era o inferno

das dores lancinantes

da Criação,

a geração da existência

que não é uma simulação demoníaca,

mas uma manifestação de Deus

em sua pureza ocultada

para não nos cegar

com a sua luz também

indizível e impensável.



Da Coluna principal era Deus

o grande mestre do livro da vida.

Na sua onipotência sentenciou

os erros ao seu perdão,

e não se ofendeu

com os sacrifícios

em seu nome.



A Coluna principal

era a nuvem pacata

de um portal

para todas as dimensões,

criações e tempos infinitos

de um labirinto

em que as sete chaves

dos sete céus

são a sua onisciência

de Deus Todo Poderoso.



A Coluna principal nos leva

à compreensão de que

o mundo é perfeição.

O perfeito motor que

sabe nos guiar

ao que é perfeito,

e que na sua transcendência

nos convida

a viver como amantes

do grande Sol universal

que é a chama da vida eterna

na sua onipresença.



II

Caiu do céu a vida eterna,

caiu o Espírito Imortal.

Chega então a nova era.



Novilho no campo, desfez-se em lobo,

devorou o topázio, o diamante,

a pedra-sabão, e devorou

o pátio tomado pelo fogo da paixão

e pelo ódio à Inveja.



Já era então o seu tempo impreciso:

O tempo é impassível, é uma mola de ironia

e perfeito ataque.

Chega então a nova era.



O plano era este:

Contemplar as estações,

contemplar as mutações,

se vingar da morte prematura

e alimentar o porco

de seu próprio feitiço.

O bruxo era Deus,

a bruxaria da Criação dos mundos,

o delírio da carne

e a redenção do Espírito.

Um só foi quem fez isto no que dançamos,

e a peste pela qual passei

foi a vontade eterna

de Deus, e seu silêncio fez

silenciar os azares da sorte.



Caiu do céu o humano,

o imortal virou barro,

e fez-se então a morte.



III

Desde sempre gira o mundo,

o eterno faz tudo girar.

Se apresenta o perfil do aniquilador,

se faz de um tempo possesso

e misterioso,

representando a sua fúria

no teatro bestial dos entes disformes

e nanicos da plateia.



Desde sempre o fogo nasceu,

e a primavera é certa,

o amor é certo,

a glória é certa,

a fumaça se entrega

e o cadáver vira outro capítulo

de uma estória fatal.



A Coluna principal é o tempo,

o quanta da luz em seu arrepio

de terremoto e premonição,

o eixo das visões

de céu, terra e inferno.

O tempo é a delícia da vida,

o tempo é a sabedoria

do plano divino em sua escrita total.



Desde sempre gira o mundo,

quem sabe é a montanha,

sabe o que a terra em sua insânia

ignora, e que, mesmo assim,

deseja como a sua morada

e o seu destino.



IV

Com um globo de fogo fornicava

ávida a serpente,

com a garganta profunda do abismo

e que guardava a sete chaves

o bebê do mestre dândi e dantesco,

bebia o seu sangue nobre

uma dama das águas de sal do mar eterno.

E qual miserável dama teria tal coragem?



Com um sol enorme nas ventas

a enormidade se metamorfoseava

na praia com uma trombeta

retirada do pântano do passado imemorial.

Batia a hora do deleite,

e os cavalos corriam com suas pétalas de égua.



Com um globo de fogo na enormidade da praia,

a querida onda batia no meu dorso

e me triturava os ossos me jogando na areia

de volta ao vivo ardor da sutil eternidade.

A Coluna principal sorria em seu Eterno,

o tempo contemplava a dor futura e a felicidade futura.



Despiu-se a nobre dama

no seu deleite para a fornicação

de dois cadáveres destemidos,

e uma louca paixão a tomou

como o incensário

da certeza amorosa

do Eterno que nasce

e diz ser fogo,

e que pelo fogo se consumirá

até a hora de dizer adeus

e voltar ao céu,

sendo então a dama a dona do panteão

e a enviada pela tropa

para morder a isca

do velho poeta e sábio

que vivia num mar de lágrimas.



V

Vós sabeis a cor do drama,

em tudo girava sangue & fel,

potência & céu,

e noite e dia e tudo de uma vez só

na hora do deleite.



Diz ao Eterno:

Brinquemos de sermos irmãos e camaradas,

e a tua vitória será a minha vitória.



Eis a palavra honrosa: uma rosa de saudade

entre os cicerones incapazes de entendê-la.



Vós sabeis a cor do drama,

já eram noite e dia

irmãos do mundo que gira,

Deus sendo o visitante

das minhas horas de angústia,

pronto a anunciar

a hora do deleite,

do puro deleite

que nos chama à vida doce

de ser apenas humano,

mesmo sabendo-se imortal,

mesmo sabendo-se lenda,

mantendo-se humilde

pela vontade de Deus,

mantendo-se obediente

ao livro da vida,

amando até à plenitude

tudo o que tocar,

e evitando as ciladas

que se apresentam.



A Coluna principal é o recado:

Em direção ao panteão

tartamudeava o breve anão do poço,

e a dama risonha

se deliciava com seus

olhos de amêndoa,

tão esbelta como a flor delirante

que o tempo jogava aos animais

de pouca inteligência e de pouco tato.



Vós sabeis a cor do drama.

A Coluna principal bendiz

o meu destino

de brutal caveira.

Vós sabeis a cor do drama:

escarlate até à morte!



VI

Do penhasco caíram as sete chaves,

eis o holocausto do revólver

que era a armadilha do bobo.

A Coluna principal sorria outra vez,

e a sede do panteão já teria

a sua eleita,

sem bem saber que a vidência

era certa como o livro da vida.



No retorno da fria escalada,

o poeta regurgitava

os seus lobos e os seus pombos,

e os urubus passaram por ele

reverenciando-o.



Do penhasco dizia que era mortal

e capaz de se cortar com várias

unhas e tridentes.

Mas, eis que o mortal era outro,

e que fenecia na tumba de fumaça

e enxofre,

puro holocausto!



A Coluna principal sorria mais uma vez.

Era o labor do inferno

e o remédio para os males

da língua.

Eis o retorno:

A dama era de uma beleza estonteante!

Pude refazer o tempo em que

eu estive com ela,

e se fez então a vidência

do presente tempo,

revisitando o futuro.



A Coluna principal sorria mais uma vez.



VII

Da Coluna principal o princípio de tudo:

A escalada era o tempo em seu frutífero espaço.

Desvelando o mistério se fez

chama verídica e pontilhada de sóis.



Desde sempre gira o mundo,

e o futuro será puro deleite.



Na prece a servir o futuro:

E o futuro será puro deleite.



A Coluna principal sorria mais uma vez.



O princípio e o fim e o meio de tudo

se encontram na fornicação das estrelas.



Preparava-se a viagem interestelar,

preparava-se o campo

para o pranto do reencontro

das almas jovens e fugazes.

A Coluna principal sorria mais uma vez.



E o tempo é isto!

Saberá Deus a hora de retirar o inferno

e refazer o céu no livro da vida,

e dizer que a vida é o gerador do tempo

que nos trará a bênção e a glória e a graça

de tudo ser eterno

com o coração salvo

da angústia abissal,

e pleno de felicidade!



A Coluna principal alcança

finalmente o seu desígnio,

fecham-se as cortinas do palco

e a partir de então

reinará a paz de espírito

que a poesia sonhara,

paz tão buscada

e que o livro da vida

servirá na hora

do puro deleite.

Está escrito.



Gustavo Bastos 29/07/2008

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